• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 3 – COMO SUPERAR O PATRIARCADO?

3.3. O Empoderamento

O termo empoderamento76 passa a ser utilizado pelo feminismo quando a ideia de “poder” adquire importância, seja para os movimentos sociais, como para as acadêmicas (LEÓN, 1997).

Em primeiro lugar, o poder não é, o poder se exerce. E se exerce em atos, em verbo. Não é uma essência. Ninguém pode tomar o poder e guardá-lo em uma caixa forte. Conservar o poder não é tê-lo coberto, nem preservá-lo de elementos estranhos, é exercê-lo continuamente; é transformá-lo em atos repetidos ou simultâneos de fazer, e de fazer que outros façam ou pensem. Tomar o poder é tomar a ação – a ideia e o ato (...) (KIRKWOOD, 1986, p. 202) [tradução nossa].

Para León (1997), empoderamento significa que o sujeito se torne ativo, através de suas próprias ações. Ele conduz à autonomia individual, estimula a resistência e também a organização social coletiva. Para as mulheres, os processos de empoderamento são uma busca do fim da ideologia patriarcal, da transformação das estruturas que reforçam a discriminação de gênero e a desigualdade social. Além disso, é um esforço para que as mulheres compreendam a existência de uma ideologia que legitima a dominação masculina. E com isso, criem outra imagem de si, outras crenças sobre suas potencialidades e direitos e superem qualquer sentimento de inferioridade.

Um dos erros, na discussão sobre o empoderamento, é entender este apenas como um processo individual. Pensar apenas em sujeitos autônomos, seguros de si, independentes, ocultando os aspectos da influência social dos direitos legais e de poder político, desconhecendo as relações entre as estruturas de poder e a vida cotidiana, desconectando as pessoas do contexto político e social. Dessa forma, o empoderamento desconectado do seu contexto histórico e das ações coletivas em processos políticos, pode se tornar mera ilusão (LEÓN, 1997).

O sentido do empoderamento é a constituição das mulheres em sujeitos. E isto passa por terem autonomia, eliminar todas as formas de servidão e condições opressivas. É um processo que ocorre pela própria vontade das mulheres saírem da inferiorização, sujeição, da tutela, da submissão.

76

O termo empoderamento surge nos Estados Unidos, em 1960, através dos movimentos por direitos dos afrodescendentes: a busca do “poder negro” era uma estratégia de reivindicações. Em 1970, as feministas acolhem esse conceito e o desenvolvem em suas teorias e práticas. A segunda onda do feminismo passa a discutir não só a importância e historicidade das relações de poder, mas como este está presente em todos os níveis da sociedade, logo, como as mudanças devem ocorrer em todos os tipos de relações sociais se buscamos transformar as relações de gênero, tendo em vista que estas estão baseadas no exercício do poder (LEÓN, 1997).

110

Mas, por outro lado, o empoderamento também é um processo social, implica a transformação da sociedade, o Estado e a cultura. Lagarde (2012) pontua que a chave do empoderamento seria a construção que consolida condições, recursos e bens para o desenvolvimento das mulheres e seu sustento por parte da sociedade, o Estado e a cultura.

A dimensão prática do empoderamento é lograr que as mulheres não fraquejem, não sejam vítimas de chantagem e de hostilidade emocional e ideológica, não se exponham à violência, aprendam a proteger-se e a evitá-la, e que ao enfrentar os desafios não só se mantenham, senão que se aprofundem e avancem em suas convicções e seus novos objetivos (LAGARDE, 2012, p. 137) [tradução nossa]. Entendemos que a dimensão prática do empoderamento está ligada à coragem que é desenvolvida nas mulheres que passam a ter consciência das opressões que vivem e a convicção na necessidade de transformar essa realidade. Pois, uma vez que se questionam os costumes, os valores tradicionais, patriarcais, a sociedade se torna hostil, pois se sente ameaçada (LAGARDE, 2012).

Lagarde (2012) afirma que empoderar-se é incorporar a sua experiência e avanços como parte de si mesmo e transformar sua própria subjetividade, ampliar sua visão de mundo, aumentar suas capacidades e habilidades, adquirir segurança e força. E isso é um processo pessoal: ninguém empodera ninguém. “A conexão entre os processos pessoais e coletivos

pode ser direta ou indireta, mas é interativa e vai se sedimentando em sua vida e em seu âmbito social e cultural” (LAGARDE, 2012, p. 138). Portanto, empoderar-se não é um

processo apenas individual, nem apenas coletivo, mas o diálogo entre ambos.

Tornar-se sujeito de si não é um processo só social, coletivo, ou só individual. A sociedade pode até conceder autonomia aos indivíduos, mas a forma como cada pessoa criará normas para si própria dependerá de sua consciência. Se a mulher não tiver consciência das opressões de gênero, mesmo que ela tenha autonomia para agir como quiser, ela estará condicionada à moral dominante, patriarcal, e passará a reproduzir essa forma de pensar e agir.

A autonomia, como dimensão do empoderamento requer a capacidade crítica e inventiva de gerar e aprender uma visão do mundo alternativa que sustente uma nova normatividade; requer concretizar-se na própria existência e no mundo imediato para conviver com novas normas que não coincidem com as hegemônicas. A autonomia é a capacidade de dotar-se de normas próprias em atenção a uma visão própria do mundo. Para o feminismo, passa pela construção de uma eticidade própria, de atuar, viver e nos relacionarmos de acordo com outro sistema valorativo criado para desmantelar a moral patriarcal (LAGARDE, 2012, p. 143).

Outro ponto que a autora aborda diz respeito à legitimidade: as mulheres, nem os grupos de mulheres, movimentos, esperam uma legitimidade externa para que possam agir, atuar, pensar. Elas mesmas se legitimam e com suas ações, aos poucos, vão adquirindo

legitimidade, ou não, da sociedade. Mas, o mais importante, é a autoridade que elas mesmas se atribuem para reger suas vidas e ações, independente das opiniões externas.

É ao enfrentar os desafios que essas mulheres, verdadeiramente, se empoderam. Nos grupos, movimentos, organizações, elas criam experiências, conhecimentos, vínculos sociais, autovalorizações, autoestimas, visibilizações, interlocuções, poderes transformadores que se acumulam. Isto impacta a subjetividade dessas mulheres, gerando novas invenções, criações de novas experiências. Lagarde (2012) fala que aprender, imaginar, criar, são poderes vitais específicos que se engendram a partir do enfrentamento aos desafios vitais. E tudo isso são características subjetivas produzidas pelo empoderamento e que, ao mesmo tempo, geram mais empoderamento, seja pessoal ou social, atingindo também outras mulheres.

Até aqui, tudo o que foi dito sobre empoderamento não se diferencia do processo de consciência descrito nos itens anteriores. Ou seja, o processo de consciência, a partir do qual o indivíduo passa a questionar as contradições da realidade na qual vive e, partir disso, busca transformá-la (que seria a passagem da consciência alienada para a consciência reivindicativa, segundo Iasi), gera empoderamento. E isso, justamente, porque de “quase objetos”, os indivíduos passam a intervir na construção de sua própria história.

Todavia, além desses elementos já explicitados do empoderamento, que dizem respeito ao processo de conscientização, algumas feministas analisam melhor algumas facetas desse processo de conscientização como um todo, mas que não estão explicitados. Ou seja, quando falamos da passagem da consciência alienada para a consciência reivindicativa/de classe, não está explícita aqui, a extrema importância do desenvolvimento da autoestima nesse processo. Da mesma forma, não está explícito como o aumento do poder econômico pode retroalimentar esse processo de conscientização, quando os indivíduos adquirem essa autonomia financeira e se vêem libertos de algumas amarras que limitavam suas práticas e reflexões (sua práxis).

Um desses exemplos é Mosedale (2005), que diferencia o poder em: poder sobre, poder de dentro, poder para e poder com.

O poder sobre é o poder que um indivíduo exerce sobre o outro, oprimindo-o, dominando-o, subordinando-o. É um poder que gera conflitos, pois quem tem o poder obriga o outro a fazer algo que não deseja ou desejaria.

A outra face desse poder é justamente a manipulação feita para que a pessoa oprimida não reconheça que está sendo oprimida e isso não gere conflitos. A autora fala da “capacidade de impedir que certas pessoas ou questões entrem para a arena de tomada de

decisões. Esta dimensão do poder está em causa com as regras e métodos de legitimação de 112

algumas vozes e de desacrédito de outras” (MOSEDALE, 2005, p. 250). Mosedale define

esse tipo de poder como de soma zero, pois um só ganha quando o outro perde. Os outros tipos de poder seriam de soma positiva, pois o ganho de poder não significaria a perda de poder de outros77.

O poder de dentro, se refere ao processo de formação da autoestima e autoconfiança. Mosedale (2005) pontua que todo poder se iniciaria aqui. A autora coloca que sentimentos de inutilidade são comuns no universo feminino e isso é uma barreira para o empoderamento das mulheres.

O poder para, aumentaria as capacidades, habilidades, de uma pessoa para que ela possa ter autonomia, sem que isso tire o poder de outrem. Mosedale (2005) exemplifica esse poder com a aprendizagem: aprender a ler, escrever, etc.

O poder com, diz respeito à ação coletiva. A autora coloca que é preciso reconhecer que se alcança muito mais com uma ação coletiva do que com uma individual (MOSEDALE, 2005).

Para Stromquist (1995), empoderamento possui um significado emancipatório quando traz a questão da agência pessoal superando a dependência de intermediários para ações em busca de satisfação de necessidades, e também nas ações que levam a mudanças coletivas significativas. Além disso, ultrapassa a preocupação individual para uma análise coletiva dos direitos humanos e justiça social.

Stromquist (1995) pontua que se a subordinação tem várias faces, então, o empoderamento também. Nesse sentido, esta autora afirma que a definição de empoderamento deve incluir componentes: cognitivos, psicológicos, políticos e econômicos.

O componente cognitivo está relacionado com a tomada de consciência das condições e causas da subordinação nos níveis macros e micros da sociedade. Isto envolve destruir velhas crenças e tomar conhecimento de direitos legais já adquiridos.

O componente psicológico diz respeito ao desenvolvimento de sentimentos de autoestima e autoconfiança, de que as mulheres podem atuar em todos os espaços que os homens atuam (STROMQUIST, 1995). Para a chilena Julieta Kirkwood (1986), a cultura patriarcal não só desempoderou as mulheres, como aniquilou qualquer desejo de poder nestas.

77

É preciso aqui termos um olhar mais amplo de sociedade como um todo, de relações humanas como um todo. Se formos olhar individualmente, de forma cindida, não seríamos capazes de entender o que a autora fala com soma zero, já que o opressor estaria “ganhando” mais poder quando desempodera o outro. Mas se olharmos a partir de uma perspectiva de coletivo, podemos observar que a soma é zero porque mesmo que um tenha ganho, o outro perdeu. E quando a autora fala de ganho de poder que não retira o poder de outro, então, realmente, só há ganhos pro coletivo como um todo. É outra concepção de sociedade, não individualista e competitiva, mas coletiva e solidária.

113

A mulher não desejaria para si, se auto excluiria, sequer discutiria sobre isso. Nesse sentido, a autora fala da necessidade de um des-submetimento da própria vontade, de deslegitimar o que priva as mulheres de poder, que ela entende como sendo os privilégios dos homens criados pelo patriarcado. Para tanto, Kirkwood (1986), fala de quebras de tabus e práticas comunitárias que rompam com a “individualidade normativa” (grupos de mulheres, etc.).

Já o componente econômico requer o engajamento das mulheres nas atividades produtivas, a autora fala da importância de programas que auxiliem no processo de geração de renda para as mulheres, mas afirma que o que foi feito até então deixou muito a desejar. Por fim, o componente político envolve a capacidade de: analisar o ambiente em termos político e sociais; se organizar e mobilizar para mudanças sociais; consciência individual e coletiva para atingir transformações sociais (STROMQUIST, 1995).

Sendo assim, podemos dar sequência ao nosso trabalho, abordando, no próximo capítulo, não só a história do Movimento de Mulheres Camponesas no Paraná, mas como ele propiciou diversos processos de conscientização e empoderamento nas mulheres que fizeram parte dele.

CAPÍTULO 4 – O MOVIMENTO DE MULHERES CAMPONESAS NO PARANÁ