CAPÍTULO 3 – COMO SUPERAR O PATRIARCADO?
3.2. A Conscientização como meio para a Libertação das Mulheres
3.2.2. O Processo de Consciência para Mauro Iasi
Embora não possamos afirmar que Mauro Iasi tenha a mesma concepção teórica que Paulo Freire. Pois, podemos entender na obra de Freire que, é possível as relações sociais causarem impacto no modo de produção, através da educação. Ou seja, mesmo ainda no capitalismo, seria possível transformar a consciência através da educação. Há uma esperança no sujeito humano e espaço para a autonomia. Além disso, Freire acredita que todas as relações sociais precisam ser modificadas, não somente as de produção.
Já para Iasi, o modo de produção permanece decisivo, na determinação das relações sociais, e o processo de consciência seria apenas uma ponte, para um fim maior, que seria a tomada do poder político para a transformação efetiva do modo de produção. E a consciência revolucionária só seria possível no processo revolucionário.
Todavia, entendemos que a explicação de como ocorre o processo de consciência, não é contraditória entre os dois autores, sendo que ambos possuem uma base marxista.
Podemos perceber nas palavras de Marx (2009) a concepção da consciência como sendo um processo, na existência de estágios diferentes de consciência humana. Segundo este autor, o começo da consciência humana ocorre com a consciência da necessidade de entrar em ligação com seus semelhantes. Esta seria a consciência tribal, que se modifica com o aumento de produtividade, da multiplicação das necessidades e do aumento da população. E será apenas com o surgimento da divisão do trabalho, material e espiritual, que “a consciência é
capaz de se emancipar do mundo e de passar à formação da teoria ‘pura’, da teologia, da filosofia, da moral etc.” (MARX, 2009, p.45).
Sendo assim, a partir desse momento, da divisão do trabalho espiritual e material, Marx (2009) afirma que
(...) a força de produção, o estado da sociedade e a consciência – podem e têm de cair em contradição entre si, porque com a divisão do trabalho está dada a possibilidade, mais a realidade de a atividade espiritual e a atividade material, a fruição e o trabalho, a produção e o consumo caberem a indivíduos diferentes (MARX, 2009, p. 46).
Dessa forma, a partir dessa contradição, é possível surgir novas formas de consciência.
E é seguindo essa linha, do processo de consciência, da possibilidade da passagem de um estágio para outro, que Iasi (1999) constrói seu texto de forma didática e nos auxilia a entender melhor esse processo.
Para explicar a “primeira forma de consciência”, Iasi (1999), recorre à Freud. Este autor explica, assim como os anteriores citados, que a consciência se forma através da interiorização das relações vividas pelos indivíduos em uma sociedade. Primeiramente, nós teríamos apenas a força de nossos impulsos vitais nos guiando (ID, o princípio do prazer), mas uma vez dentro de relações sociais, surge um novo elemento em nosso psiquismo que será responsável pela parte consciente de nossa mente (EGO, o princípio da realidade). Mas, além disso, existe o SUPEREGO, que seria o componente inibidor, atuando de forma contrária ao princípio de prazer. Seria um elemento “hipermoral”, que seguiria o “princípio do dever”, e age sempre segundo heranças culturais, relacionadas a valores e regras de conduta que são transmitidos não só pela família, mas pela sociedade como um todo. Sendo assim, Iasi explica que:
(...) aquilo que é visto pela pessoa em formação como mundo externo, como objetividade inquestionável, portanto como realidade, é apenas uma forma particular historicamente determinada, de se organizar as relações familiares. No entanto este caráter particular não é captado pelo indivíduo que passa a assumi-lo como natural. Assim o indivíduo interioriza estas relações, as transforma em normas, estando pronto para reproduzi-las em outras relações através da associação (IASI, 1999, p. 19).
Ou seja, na primeira forma de consciência prevalece “a percepção da parte pelo todo,
onde o que é vivido particularmente como uma realidade pontual torna-se ‘a realidade’ (ultrageneralização)” (IASI, 1999, p.21). Esta forma de consciência ainda não se coloca
como problema o “familiar”, o “habitual”, e crê que estes são os mais conhecidos por estarem mais próximos de nós. Sendo assim, assume como naturais e imutáveis determinadas relações que regem e organizam nossa sociedade.
Seria exatamente essa forma de consciência que Paulo Freire traz em seu texto quando nos fala sobre o “medo da liberdade”. A situação concreta das sociedades estrutura o pensamento das pessoas que se forma dentro dessa sociedade70. Embora os seres humanos queiram se humanizar, segundo Freire (1987), na sociedade opressora, por estarem
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“As relações pais-filhos, nos lares, refletem, de modo geral, as condições objetivo-culturais da totalidade de que participam. E, se estas são condições autoritárias, rígidas, dominadoras, penetram os lares, que incrementam o clima da opressão. Quanto mais se desenvolvem estas relações de feição autoritária entre pais e filhos, tanto mais vão os filhos, na sua infância, introjetando a autoridade paterna. (...) Esta influência do lar se alonga na experiência da escola. Nela, os educandos cedo descobrem que, como no lar, para conquistar alguma satisfação, têm de adaptar-se aos preceitos verticalmente estabelecidos. E um destes preceitos é não pensar. Introjetando a autoridade paterna através de um tipo rígido de relações, que a escola enfatiza, sua tendência, quando se fazem profissionais, pelo próprio medo da liberdade que neles se instala é seguir os padrões rígidos em que se deformaram” (FREIRE, 1987, p.88).
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condicionados por estruturas que os oprimem, o ideal dessas pessoas acaba sendo o de se tornarem opressoras também. Ao invés de buscarem a sua libertação, buscam a identificação com o opressor.
Ao buscarem essa identificação com o opressor, os oprimidos também seguem suas pautas e, dessa forma, temem a liberdade71. Pois, ao negarem o opressor e suas pautas, surge um espaço vazio que precisaria ser preenchido com novas pautas. Ou seja, surge o espaço da autonomia, o de pensar por si só e estabelecer suas próprias normas, leis, metas, etc., que exige, por sua vez, a constante responsabilidade daqueles que lutam por sua liberdade. E isso configuraria o “medo da liberdade”, já que na estrutura da sociedade opressora os oprimidos não foram condicionados a criar, mas apenas a seguir a ordem que já está dada e, a possibilidade de negar essa ordem, gera o medo da desordem, da anarquia.
Iasi (1999) explica que essa primeira forma de consciência se expressa como alienação, com isso, é alvo fácil para o domínio da ideologia. O autor afirma que a ideologia é a expressão, através de idéias, da materialidade das relações de produção em uma sociedade. Ou seja, as condições materiais objetivas das relações sociais já estão dadas e a ideologia vem justificar, através das idéias, essa realidade, buscando legitimá-la. Como as relações objetivas já existem, os seres humanos tendem a concordar com essas idéias sem questioná-las 72.
Esse discurso dominante, segundo Iasi (1999), seria a ideologia, que busca manter através da explicação racional, o bom funcionamento das relações opressoras já existentes como se fossem naturais e impossíveis de serem alteradas. Então, quando Freire (1987), fala do “medo da liberdade”, é justamente esse medo de desafiar, não só as idéias dominantes, mas a própria realidade objetiva das relações sociais, que foram historicamente determinadas e ter que se colocar como um novo sujeito neste cenário, agora como criador de sua própria história.
Segundo Iasi (1999), essa primeira forma de consciência pode ser superada, e isso ocorre justamente devido às contradições que começam a surgir entre a realidade objetiva e o
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Segundo Paulo Freire (1987), um dos problemas para o processo de conscientização dos indivíduos é o “medo da liberdade”, do perigo que consciência crítica traria (que seria considerada anárquica e conduziria à desordem). Todavia, essas pessoas que temem a liberdade, segundo o autor, não se expressam dessa forma. Mas, ao contrário, se posicionam como se estivessem defendendo a liberdade. Contudo, o que estão defendendo na verdade é a manutenção do status quo, que é ameaçado com o processo de conscientização.
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“Quando, numa sociedade de classes, uma delas detém os meios de produção tende a deter também os meios para universalizar sua visão de mundo e suas justificativas ideológicas a respeito das relações sociais de produção que garantem sua dominação econômica. As ideias da classe dominante são em cada época as ideias dominantes. Esta universalização da visão de mundo da classe dominante se explica não apenas pela posse dos meios ideológicos e de difusão, mas também e fundamentalmente pela correspondência que encontra nas relações concretas assumidas pelos indivíduos e classes” (IASI, 1999, p. 24).
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discurso ideológico. Novas relações surgem e o indivíduo não consegue mais explicá-las com a antiga ideologia e os antigos valores, o que leva a uma crise.
Eis aqui uma contradição insolúvel da sociedade capitalista: enquanto as forças produtivas devem constantemente desenvolver- se, as relações sociais de produção e sua manifestação e justificativa ideológica devem permanecer estáticas em sua essência. Com o desenvolvimento das forças produtivas, acaba por ocorrer uma dissonância entre as relações interiorizadas como ideologia e a forma concreta como se efetivam na realidade em mudança. É o germe de uma crise ideológica (IASI, 1999, p. 31)
É quando surge o que o autor chama de “a segunda forma de consciência”: é a
consciência em si. Seria o início da superação da alienação e que só ocorreria quando o
indivíduo passa a fazer parte de um grupo. Pois, identificar uma injustiça na sociedade de forma individual, pode levar a um questionamento do indivíduo sobre os valores e normas dessa sociedade, mas não a sua convicção de que seja preciso buscar a transformação mesma desses valores e normas. Assim como, não leva à prática. A consciência em si, seria então a consciência de reivindicação (IASI, 1999).
Essa segunda forma de consciência também passa por contradições e são elas que abrirão caminho para a consciência revolucionária. Pois, por mais que a “consciência em si” identifique opressões na sociedade e, enquanto grupo busque modificá-las, ela ainda se baseia na vivência de relações imediatas. Ou seja, essa consciência seria consciente de apenas parte da contradição do sistema, “a pessoa ainda trabalha, age, pensa sob a influência dos valores
anteriormente assumidos, que apesar de serem parte da mesma contradição, continuam sendo vistos pela pessoa como naturais e verdadeiros” (IASI, 1999, p. 36).
Iasi (1999) explica que quem reivindica, ainda reivindica para alguém, dentro de um mesmo sistema de normas e valores, ainda continua sendo o outro o responsável para resolver nossos problemas. Nesse sentido, a “consciência em si” deveria transformar-se em “consciência para si”: “conceber-se não apenas como um grupo particular com interesses
próprios dentro da ordem capitalista, mas colocar-se diante da tarefa histórica da superação desta ordem” (IASI, 1999, p. 38). A “consciência para si” seria a constatação de que a
sociedade como um todo precisa ser transformada. “A consciência assume uma dimensão que
não tem como se realizar dentro dos limites do pensamento, arvorando-se, necessariamente, pelo campo da prática. Por isso o indivíduo que se torna consciente é antes de tudo, um novo indivíduo em conflito” (IASI, 1999, p. 43).
Embora Iasi (1999) trabalhe com a questão da luta de classes, esse esquema também pode ser compreendido dentro da luta feminista. Por exemplo: a primeira forma de consciência, a alienada, seria quando as mulheres assumem como natural as relações
machistas na sociedade e as reproduzem sem contestação. Essa forma de consciência estaria amparada pelas relações objetivas e pela ideologia que buscaria legitimar essas relações como normais.
Todavia, começam a surgir contradições entre as formas de viver e explicar essas relações. E temos como exemplo, a passagem do feudalismo para o capitalismo quando as mulheres passam a trabalhar fora de casa como muitos homens e, mais adiante, quando sua mão de obra será amplamente empregada no período da Primeira Revolução Industrial. Nesse momento as mulheres percebem que trabalham mais que os homens, ganham menos do que estes e não têm nenhum direito político na sociedade.
Sendo assim, quando essas mulheres começam a se organizar em grupos, surge a “consciência em si”, a consciência enquanto “classe de mulheres” na sociedade e passam a lutar por pautas específicas, como o sufrágio feminino. Contudo, essa luta ainda é uma luta que se conforma com o sistema como um todo, não questiona as bases mesmas da sociedade patriarcal que é a própria lógica da dominação. Quando as mulheres percebem que não basta ter o direito ao voto para que a sua situação de opressão finde, então, surge a “consciência para si”, a consciência de que é preciso transformar a sociedade como um todo, seus valores, suas normas, suas instituições (família, escola, Igreja, etc.).