1 O QUE É UMA CRIANÇA?
1.3 O encontro com Freud
sobre a criança, apontam para o saber do outro sobre ela, ou seja, são dados sobre a criança que só o “outro sabe”. Da mesma forma, estes saberes se fundamentam na queixa do outro sobre a criança e não naquilo que faz questão para a criança (FERREIRA, 2000). Trata-se, então, de saberes que portam um discurso, em que a adaptação, a ortopedia, e a moral se fazem presentes em nome de um ideal, uma vez que visam à “cura social”, levando a criança a responder de acordo com as normas regidas pela família, pela escola, pelo médico, enfim, a responder de acordo com um ideal preestabalecido.
De acordo com o psicanalista Patrick Valas (1991), estes discursos se fundamentam na jurisdição da infância, onde a criança, para efeitos civis e penais, não pode responder pelos seus atos, consequentemente, alguém responderá por ela. Segundo o autor, isso ocorre “porque a criança não é considerada um ser comprometido com sua palavra” (p.142) e, desta forma, será o outro que irá dizer por ela, sobre ela e quem é ela.
Assim, se antes, a criança parecia não existir, à medida que era confundida com o adulto, agora uma existência lhe é dada, embora uma existência representada pelo Outro; uma existência circunscrita no discurso médico, pedagógico, psicológico e jurídico. Se antes, ela era identificada com animalidade, agora, atravessando os caminhos traçados pela ciência, escola e família, ela representa a promessa do futuro, a imagem da esperança.
1.3 O encontro com Freud
O que foi infânciasempre é monumento íntimo, fincado na praça do vento.
Lêdo Ivo
Foi neste cenário que surgiu a psicanálise; um cenário em que se pensava a existência da criança a partir do adulto – “adulto em potencial”. Ainda que, atendendo, também, ao ideal estabelecido, a psicanálise nasce subvertendo esta ordem de existência, visto que ela surge pensando o adulto a partir da criança que ele foi.
Embora Freud não tivesse tido uma clínica com a criança, ele estava voltado para ela, tanto na criação do corpo teórico da psicanálise quanto na escuta em
relação aos seus analisandos. Enquanto a psicologia clássica se voltava para a transcrição ou tradução daquilo que se observava na criança, ou seja, suas manifestações, a metapsicologia freudiana se voltava para aquilo que dessas manifestações escapavam à tradução ou à transcrição.
Desde a criação da psicanálise, o pensamento freudiano foi atravessado por aquele resto das manifestações da criança que a observação, restrita à tradução ou à transcrição, não alcançava. Por essa via, as manifestações da criança, “inseriram-se como pontuações vigorosas que apoiaram e articularam importantes veios teóricos” (VORCARO, 1997, p.46). Para nos demonstrar isso, a autora percorre a obra freudiana, porém pinçaremos, apenas, alguns textos a título de exemplificação:
a criança que grita (1895) permite a Freud situar o desamparo humano e a experiência de satisfação que o encontro com o outro proporciona; a criança que sonha (1900) possibilita-lhe consolidar, mais uma vez, que o sonho é realização de desejo; a criança que brinca (1907) porta-se como o adulto que fantasia; a criança que investiga e teoriza sua origem (1908) aponta para ele que o esforço de saber dela surge das pulsões que a governa e não de uma capacidade inata de pensar; a criança que se angustia (1909) apresenta-lhe o lugar que ela ocupa na economia subjetiva do outro; a criança que repete situações desagradáveis (1920) leva-o a formular que, através do jogo, ela repete o que lhe causou grande impressão na vida, transformando a passividade em atividade.
Desta forma, Freud irá construir a representação da criança, não através de observações diretas a ela, mas a partir da análise de seus pacientes adultos, no que eles lhe apresentavam um “tecido tramado pela construção [...] do que teria sido sua infância” (Ibidem), cujo fio condutor seria esse resto, isso que escapa. Neste tecido tramado, Freud pôde encontrar uma criança diversa daquela que os saberes da época promulgavam.
Assim, se nos primórdios da psicanálise, Freud pensou ter encontrado uma criança seduzida e traumatizada, a qual estaria perturbando o espírito daquele que, tempos depois, tornou-se um adulto, é porque acreditava que essas perturbações, tanto histéricas quanto obsessivas, apoiavam-se em experiências de caráter sexual, vivenciadas na tenra infância, pela qual o corpo do sujeito teria sido afetado, isto é, ele acreditava que uma sedução sexual real havia acontecido. Nestes termos, Freud formulava a teoria da sedução, acreditando, então, que as perturbações psíquicas se alicerçariam no real da infância, ou seja, a causação da neurose seria um
acontecimento real, de ordem sexual, na infância, ocasionando um trauma no sujeito, como ele nos afirma:
As experiências sexuais infantis que consistem na estimulação dos órgãos genitais, em atos semelhantes ao coito, e assim por diante, devem, portanto ser consideradas, em última análise, como os traumas que levam a uma reação histérica nos eventos da puberdade e ao desenvolvimento de sintomas histéricos (FREUD, 1896/1994 p. 203).
Entretanto, logo Freud descartou esta idéia. Com a sua célebre fala, dirigida a Fliess, “não acredito mais em minha neurótica” (1897/1987, p.309), ele inicia uma desconstrução em relação à teoria do trauma que, até então, sustentara, já que não acredita mais na realidade material das cenas de sedução infantil. Um dos motivos de sua descrença foi o fato de que, para sustentar essa teoria, teria que reconhecer todos os pais, inclusive o dele, como pervertidos. Seu descrédito possibilitou-lhe realizar uma leitura inédita da sexualidade, onde esta se inscreveria no registro da fantasia – a de que se teria sido seduzido –, isto é, no campo do desejo.
A partir disso, o discurso da psicanálise passa a ter como fundamento não mais o sexual de uma realidade objetiva, mas o sexual de uma realidade psíquica, que teria como vestimenta a fantasia, vivida pelo sujeito como algo da sua realidade externa. É a partir da plena compreensão de Freud, “de que as fantasias podem atuar com toda a força das experiências reais” (Ibidem, p.311), que a teoria traumática pôde ser abandonada. 26 Portanto, não seria mais um acontecimento datado na infância o causador das perturbações psíquicas, mas uma fantasia de ordem sexual, inconsciente e infantil, derivada das primeiras relações de objeto.
O encontro com esse sujeito movido por sua fantasia deu condições a Freud de realizar várias formulações: a criança e a fantasia, a criança e o Outro, a criança e o sonho, a criança e a palavra, a criança e o brincar, a criança e a sexualidade, a criança e o saber, a criança e a angústia, a criança e a identificação, a criança e o jogo, a criança e o desconhecido, enfim, inúmeras questões tematizadas por Freud, que lhe permitiram pensar o infantil por uma outra via, não mais arraigado à dimensão cronológica e evolutiva passíveis de narração, as quais sustentam a realidade material, mas um infantil que fundamenta a realidade psíquica. Segundo Birman (1997):
26 Importante salientar que, mais tarde, Freud irá retomar esta problemática.
Nesta perspectiva, a infância foi remanejada na sua significação, pois se deslocou do registro genético e cronológico para o do funcionamento psíquico. Foi aqui que se constituiu propriamente o conceito de infantil, marcando a sua diferença com a noção evolutiva de infância. Existiria assim um infantil no psiquismo que seria irredutível a qualquer dimensão cronológica e evolutiva. Vale dizer, foi pressuposta a existência de um infantil no psiquismo que não se dissolveria na infância cronológica do sujeito. Seria desta maneira, enfim, que o sujeito seria marcado pelo infantil não por acidente de percurso, pelas vicissitudes do processo maturacional de desenvolvimento, mas por vocação (BIRMAN, 1997, p.19).
Assim, se a infância diz respeito a um tempo da realidade material e, consequentemente, à evolução, à continuidade e à harmonia, referindo-se à idéia de uma natureza passível de ser moldada e adaptada, o infantil diz respeito à atemporalidade – daí a permanência dele no humano adulto – identificando-se com um resto que sempre escapa às nossas expectativas e pretensões de uma harmonia; um resto que ao apontar para a descontinuidade, nos diz da impossibilidade de ser moldado, ou seja, trata-se, então, de um infantil que é indomável à dimensão cronológica e evolutiva. É por este viés, da “existência de uma lógica marcada não por uma característica evolutiva, mas por uma estrutura de descontinuidade, na qual elementos e ações psíquicas persistem, insistem, retornam” (FERREIRA, 2000, p.37), que Freud irá construir uma outra significação do infantil, pelo qual o sujeito é marcado.
Quando Freud escreve os seus Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905/1987), afirmando que a criança, já na sua mais tenra infância, possui uma sexualidade e que esta é referida às satisfações que ela obtém já no ato de sugar, buscando assim repeti-la, ele começa a desconstruir várias idéias, as quais vigoravam na época. Para compreendermos a leitura freudiana, é preciso que destaquemos quais eram as idéias que dominavam a cultura ocidental nesse tempo.
Formulada por Kraft-Ebing, a sexologia originária do ocidente defendia a tese de que a sexualidade possuía um único sentido, isto é, ela era associada, apenas, a genitalidade e, desta forma, sua finalidade seria a reprodução da espécie. Restrita, então, ao campo biológico, qualquer variação daquela, quanto a sua finalidade ou quanto à modalidade de seu exercício, era considerada como uma perversão, degeneração ou monstruosidade (BIRMAN, 1999). Sobre esse aspecto, a sexualidade era delimitada no registro do comportamento e, como tal, envolta em uma série de normas e interditos – estabelecidos pela tradição cristã –, os quais identificavam o prazer e o gozo como sendo da ordem do pecado.
Ao alocar a sexualidade no campo da fantasia, Freud rompe com a tradição científica dominante. Definindo a sexualidade a partir do gozo e do prazer, ele tanto
“problematizou a exigência reprodutiva da sexualidade” (BIRMAN, 1999, p.21), como a retirou do campo do comportamento, demonstrando que, tendo a fantasia como fundamento, aquela pode adotar variadas formas de comportamentos.
Assim, a partir das suas formulações sobre a fantasia como lugar psíquico onde a sexualidade se inscreve, foi possível a Freud postular a existência da sexualidade infantil, indo de encontro ao que se pensava na época sobre a criança:
“as crianças não seriam apenas pequenos seres mergulhados no universo lúdico, mas também seres lúbricos e imersos no mundo das volúpias eróticas” (Ibidem, p.30). Dessa forma, ele desconstrói a idéia de que a presença da sexualidade na criança seria um sinal de degeneração ou aberração sexual.
Muito ao contrário disso, ele sustenta a tese de que a sexualidade humana seria perverso-polimorfa, isto é, por ser concebida no campo do desejo, ela se manifesta de várias formas, apresentando múltiplos objetos, sendo o indivíduo do sexo oposto e a sua genitália, apenas, um entre tantos outros objetos (Ibidem).
Assim, independente da anatomia sexual do sujeito e da sua idade, o que ele busca é a satisfação e o gozo pelo erotismo, que, inclusive, pode ser favorecido pelo próprio corpo – autoerotismo. Na medida em que esse é atravessado pela pulsão sexual, cujo despertar é possibilitado pelo encontro com o outro, ele se torna fonte de prazer e gozo.
Nesse sentido, Freud (1905/1987) atribui ao corpo sexual um caráter de
“diversidade quase infinita de territórios eróticos” (BIRMAN, op.cit, p.32, grifo do autor), os quais ele denomina de zonas erógenas. Segundo Freud (op.cit), essas são órgãos receptores de estímulos, cuja excitação confere à pulsão um caráter sexual.
Embora mais tarde, afirme que todo corpo é uma zona erógena (1914/2004), ele demonstra que determinadas partes do corpo – a boca, o ânus, os olhos, os genitais – são mais propícias para esta função na origem do psiquismo, uma vez que são órgãos que ficam mais expostos aos cuidados maternos e pelos quais se obtém satisfação (1905/1987). De mais a mais, por se situarem na periferia do corpo – delimitando a exterioridade/interioridade deste – contatam-se com um outro corpo, denunciando a descontinuidade e a incompletude daquele, porém, propiciando uma abertura para o erotismo, a qual leva à realização de um intercâmbio com o outro (BIRMAN, op.cit).
A partir disso, percebemos que o estatuto que a psicanálise dá ao corpo é de um corpo constituído de fraturas, de hiâncias, não existindo, então, a possibilidade de uma evolução, a fim de se alcançar uma maturidade ou uma completude. Essa por não favorecer a produção do erótico – e por ser através desse que a vida se faz possível –, nos leva a compreensão, então, que com a completude o corpo estaria fadado à morte. Como nos esclarece Birman (1999), seria por esta incompletude, pelos buracos da carne, que o erotismo se produziria. Assim, a descontinuidade do corpo afirma a incompletude do sujeito e a sua condição de precisar do outro para a experiência de satisfação, para o viver.
Rompendo, então, com o discurso científico de sua época, Freud revela ao mundo científico uma outra compreensão da sexualidade. Apontando para a descontinuidade, o discurso psicanalítico atesta a presença de um corpo que, marcado pelo encontro com o outro, é atravessado pela pulsão sexual, inserindo aquele, em via de advir, no campo do desejo, na vida. É dessa forma que ele sustenta que a criança deseja e que é desejando que ela torna-se alguém. Contudo, isso só é possível porque alguém a desejou antes, porque alguém a seduziu. Por esta antecipação, ela é introduzida no campo pulsional e um corpo – erógeno – é constituído, possibilitando o ingresso numa relação erótica e amorosa com o outro – única via para o “filhote do homem” sair da condição de puro desamparo.
Desta forma, diferentemente de outros saberes que se fundamentam no alcance do ideal, na normatização e nos preceitos morais, sustentando a criança em uma condição de objeto, a psicanálise, ao revelar a impossibilidade do ideal, em função da existência do infantil, possibilita o encontro com o desejo. Portanto, Freud ao encontrar a criança incrustada no adulto lhe deu a palavra, descortinando algo que, até então, todos os discursos ignoravam: de que a criança é um sujeito e, como tal, desejante.