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2 A CRIANÇA E O INFANTIL

2.1 O filhote do homem e o desamparo primordial

É preciso amor, pra poder pulsar...

Renato Teixeira (Tocando em frente)

Comecemos com uma frase evidente, porém inspiradora: “Pendurado pelo cordão umbilical eclode o filhote do homem” (CATÃO, 1998, p.103). Pendurado ao corpo do outro, o filhote do homem responde com o grito ao corte que é realizado e que inaugura uma vida própria, mas que não tem como se sustentar, em função de sua prematuridade fisiológica. Munido de quase nada, a morte se faz presente como uma ameaça real; se o outro não comparece, ela se impõe.

Se enquanto habitante do ventre materno, o filhote humano se encontrara mergulhado em um estado de absoluta quietude, emerso no mundo real, encontra-se em um estado de desamparo, decorrente da sua insuficiência constitutiva. A bem dizer, o filhote do homem “emerge no que lhe é estrangeiridade radical, abaladora dos fundamentos do organismo” (VORCARO, 1997, p.71), visto que se defronta com os inúmeros estímulos advindos tanto do mundo externo quanto do interior de seu organismo, o que o leva a experimentar as mais variadas sensações corpóreas, até então desconhecidas – fome, sede, frio, calor, dor e tantas outras. Sensações brutas e cruas, sem nome, sem contorno e sem lapidação. Sem saber do que se trata grita, em uma tentativa de descarregar a tensão que se estabelece no organismo, devido à quantidade de energia acumulada, oriunda dos incontáveis estímulos que ele recebe ao ser inserido no mundo real (FREUD, 1895/1987).

Em seu Projeto para uma psicologia científica (1895/1987), Freud apoiado na fisiologia do sistema nervoso demonstra que, através do movimento de descarga, o

organismo tende a se livrar tanto dos estímulos advindos do seu exterior quanto daqueles que advém do seu interior, em virtude desses abalarem a sua homeostase.

Assim, a qualquer estimulação externa ou interna, a tendência do organismo será a de descarregá-las, pois estas são sentidas como um excesso, ocasionando tensão e desprazer. Desta forma, pela ação reflexa e muscular, o organismo busca, através da descarga total dos estímulos, restaurar o estado primitivo, o estado anterior de coisas, ou seja, “tornar-se mais uma vez inorgânico”, em função de este estado ser marcado pela ausência de tensão e, sendo assim, ser marcado por uma “quietude absoluta”, como é esclarecido por Freud em Além do princípio de prazer (1920/1987, p. 56). Porém, a descarga dos estímulos pela via motora não é possível quando eles provêm do interior do organismo, afirma Freud (1895/1987).

Ainda no seu Projeto, Freud demonstra que, diante desses estímulos que se apresentam, primitivamente, através das necessidades básicas, o filhote do homem grita em uma tentativa de descarregar o acúmulo de tensão que lhe gera uma vivência de desprazer. Contudo, seu grito, como via de descarga motora, não elimina o acúmulo de tensão, pois como o estímulo endógeno é contínuo, a tensão se restabelece. Muito diferente dos estímulos provenientes do exterior do organismo, os quais são descarregados através de uma ação reflexa e muscular, constituindo-se como um mecanismo de fuga do estímulo, aos estímulos internos a fuga é impossível; isto quer dizer que eles não são dominados pela ação motora.

Portanto, ante a impossibilidade do organismo em esquivar-se das grandes necessidades criadas pelos estímulos endógenos – precursores das pulsões – uma outra ação terá que ser realizada, na medida em que esses “cessam apenas mediante certas condições, que devem ser realizadas no mundo externo” (Ibidem, p.349). Logo, somente por meio de uma intervenção, de uma ação, qualificada de específica, cujo caráter é da ordem de uma satisfação, que será possível suspender, temporariamente, a descarga do estímulo no interior do organismo.

Devido a sua impotência motora inicial, em função do organismo humano não possuir uma maturação biológica, o filhote do homem é impedido de realizar uma ação específica que possa atender a sua necessidade e, consequentemente, eliminar o acúmulo de tensão que se restabelece constantemente (Ibidem). Isso quer dizer que, entregue a si mesmo, ele não tem a mínima condição de sobreviver – “a autonomia é mortal: a impotência vital de sua insuficiência adaptativa, o inacabamento anatômico do sistema piramidal e a carência de coordenação motora e sensorial

constituem seu drama” (VORCARO, 1997, p.71). Aqui se revela um imperativo: para sobreviver é imprescindível o outro. Esta é uma condição própria e específica do humano, o que faz com que o outro tenha uma importância ímpar para o infante.

Se a alteração da situação em que o humano se encontra ao nascer depende do outro – agente materno – em realizar uma ação específica, é importante destacar que essa não se traduz, apenas, em suprir as necessidades vitais. Mais do que isso, a ação específica implica o outro, na medida em que ele se sente afetado pelas manifestações do infante. O efeito de ser afetado é o que permite a ele cumprir com a função de Outro primordial, isto é, dar uma nomeação, uma significação, ou seja, uma representação, um sentido às manifestações vitais do organismo. Assim, ao banhar o real do corpo com palavras, mesmo que não formuladas, ele contorna as sensações corpóreas brutas e cruas; ele lapida as experiências vividas pelo infante.

Logo, é por se sentir afetado, que o outro “permite que as manifestações vitais do rompimento da homeostase orgânica sejam marcas a serem lidas como mensagem, apagadas pela resposta oferecida e balizadas por precauções que as evitem”

(Ibidem, p.72). Assim, o Outro primordial toma o grito do infante – via de descarga motora – como um apelo, como uma mensagem a ser interpretada, por ele supor a existência de um sujeito onde há apenas um organismo.

Não é de outra forma que o ato realizado pelo Outro primordial possibilita que o grito adquira “a importantíssima função secundária da comunicação” (FREUD, 1895/1987, p.370). Posto isto, não é, também, de qualquer forma que ele realiza essa interpretação. Com o motheress 27 – em português, traduzido como manhês – estabelecido, a mãe diante do choro do seu bebê, por exemplo, lhe diz: “você está com fome?”, ao que ela interpreta como se fosse uma resposta dele: “eu quero mamar”. Ao lhe dar o peito diz: “meu neném está com fome?”, e ele ao sugar, ela, novamente, interpreta: “sim mamãe, estou com fome”. Um outro exemplo muito interessante é quando a mãe toma a “mímica facial” do recém-nascido – contração muscular involuntária facial – como sendo um sorriso dado a ela: “você gosta quando a mamãe faz assim, você está sorrindo para mim”. Pois bem, o Outro primordial toma as manifestações vitais do infante como atos dirigidos a ele, como sendo demandas daquele. Se esse encontro com o Outro possibilita a criação de uma experiência de

27 Segundo Laznik (2006, p.98) o manhês “é o dialeto de todas as mães do mundo quando elas falam com seus bebês: a voz é postada um tom mais alto e a entonação é exagerada.” Falando na primeira pessoa, a mãe fala no lugar do bebê e lhe responde como se fosse ele que tivesse falado. Segundo a autora, a prosódia da voz materna manifesta o seu prazer que a situação suscita nela.

prazer no infante, ele possibilita as primeiras inscrições psíquicas, as quais impedem a livre circulação das excitações e, por conseguinte, a descarga total. 28

Desde modo, ao mesmo tempo em que o Outro retira o infante do estado de desamparo, possibilita a construção do psiquismo, uma vez que a ação específica realizada por ele juntamente com a eliminação de tensão, “constitui então a experiência de satisfação, que tem as consequências mais radicais no desenvolvimento das funções do indivíduo” (FREUD, 1895/1987 p.370), pois a partir dela se estabelecem as primeiras trilhas no aparelho psíquico, isto é, o funcionamento do aparelho psíquico é inaugurado com a primeira experiência de satisfação, através da qual surgem as primeiras inscrições psíquicas, levando o infante a se inserir no mundo do desejo e da demanda, no campo do simbólico.

Em suma, a realização da ação específica envolve, então, o investimento do Outro sobre o infante – função materna. Esta intervém contra a descarga mortífera total do organismo, isto é, contra a tendência originária do organismo para a “quietude absoluta” (Idem, 1920/1987, p.56) na medida em que, através da oferta de objetos (o seio, a voz, por exemplo), os quais proporcionam uma experiência de satisfação ao infante, promove uma vinculação da força pulsional ao campo dos objetos.

Assim sendo, a função materna realiza “uma transformação brusca da expulsão inicial, rearticulando-a para o organismo do infans e delineando uma mudança no rumo da força pulsional” (BIRMAN, 1999, p.156). Portanto, o investimento do Outro primordial, determinante para o exercício da função materna, proporciona uma organização pulsional ao converter a energia livre – destinada à expulsão e consequentemente à morte – em uma energia vinculada – destinada à satisfação, à vida. Por este investimento, a força pulsional se transforma em um circuito pulsional, impedindo a perda de energia pelo organismo, visto que aquela se ordena em experiência de satisfação (Ibidem).

Em uma tentativa de ilustrar o que expomos acima, apresentamos um fragmento de uma experiência de trabalho realizado na Enfermaria da Neonatologia de um Hospital da cidade de Juiz de Fora, MG. Esta enfermaria destina-se aos recém-nascidos que precisam dos cuidados de uma Unidade de Tratamento

28 Conforme nos esclarece os textos Projeto para uma psicologia científica (1895/1987), Carta 52 (1896/1987) e A interpretação de sonhos (1900/1987), isso possibilitou Freud a afirmar que o aparelho psíquico, diferentemente de um aparelho reflexo em que a excitação sofre uma descarga total, se constitui pela memória que, como traços, impedem a livre circulação das excitações e, consequentemente, a sua descarga total, a qual leva o organismo à morte devido à falta de energia.

Intensivo (UTI) neonatal. Dessa forma, antes de irem para casa permanecem, alguns dias, semanas ou, na pior das situações, meses, na enfermaria. Uma equipe multidisciplinar composta de médicos, fonoaudiólogas, fisioterapeutas, psicólogas, assistentes sociais e enfermeiras acompanham cada caso. Traremos como ilustração o RN de Maria, ou seja, o recém-nascido de Maria. Na falta de um nome próprio, a instituição o nomeia, sendo este um procedimento natural.

Tratava-se de um bebê, do sexo feminino, que nasceu prematuro ou, na linguagem médica, era um recém-nato pré-termo. Nasceu fora do tempo previsto, fora do tempo normal. No discurso da equipe, normalmente, o significante que circulava era a falta: falta temperatura, falta peso, falta desenvolvimento muscular, falta resistência, etc. Para a sua sobrevivência era preciso completar este tempo dentro de um “ventre artificial” (incubadora), com todo um aparato artificial também, da mesma forma que existia toda uma conduta da equipe que se traduzia não só em cuidados, mas, igualmente, em estímulos, visto que os exames realizados em seu corpo eram constantes: coleta de sangue, introdução de sondas e cateteres, exercícios fisioterápicos, etc. Vale ressaltar que o ambiente de uma UTI neonatal e de uma enfermaria neonatal oferecem inúmeros estímulos sonoros.

A fragilidade corpórea deste bebê fazia com que a equipe ficasse presa a ela.

O toque era em função das manipulações dos exames, da higiene, e muitas vezes acompanhado de uma urgência, o que fazia com que a palavra faltasse. Falava-se do bebê, sobre o bebê e, no entanto, ninguém falava com o bebê. Parecia que existia, apenas, a temperatura, a pressão arterial, o batimento cardíaco, a respiração, enfim, parecia que existia apenas o organismo. O bebê era este corpo precário que muitas vezes estava próximo da morte. Mal ou muito mal, ele havia nascido.

Sem dúvida, não discutimos a importância e o quanto são imprescindíveis todo o aparato usado, seja dos exames, das aparelhagens, ou mesmo dos profissionais em uma unidade de cuidados intensivos neonatais. Porém, pensamos que neste tempo intermediário – entre o nascimento e a saída da enfermaria – existe um sujeito em via de advir recebendo inúmeros estímulos, sem nomeações, sem sentidos e sem significações.

Como mencionamos anteriormente, qualquer estímulo, interno ou externo, é vivenciado como tensão, em função do acúmulo de energia. Necessário se faz, então, dar representações, significações; converter em representações as experiências corpóreas, isto é, retirar o corpo do registro do real e inseri-lo no campo

do simbólico, no campo da linguagem. Entendemos que essa operação é o que possibilita um outro destino para a energia, diferente da expulsão e da descarga total; é o que possibilita uma experiência integrada – uma experiência de integração que possa ser constituída “em oposição às falhas, excessos e faltas traumáticas”

(FIGUEIREDO, 2009, p.123).

A mãe, Maria, se encontrava muito deprimida. O encontro com o seu bebê, tão distante daquele que ela havia idealizado durante a gestação, se constituiu em um encontro traumático; um encontro que “o real em todo o seu horror conduz o jogo” (MATHELIN, 1999, p.65). Diante disso, ela não conseguia investi-lo. Por viver a dor do luto de seu bebê imaginário, o investimento libidinal que seria destinado a ele retornou para ela, de tal forma que seu desejo materno parecia “suspenso”. RN de Maria com seu corpo excitado e tenso, apresentando perda de peso e de nutrientes – mesmo sendo alimentado por sonda nasogástrica 29 – era quem revelava a obstrução do investimento do Outro para o exercício da função materna.

O quadro era este, quando fomos inseridas na equipe multidisciplinar. Maria, por ser a mãe, era a acompanhante do bebê. Como residia em outra cidade, ela e seu bebê costumavam receber visitas somente aos finais de semana.

Durante uma reunião da equipe, em meio às inúmeras falas, já que se tratava de uma equipe grande, nossa atenção foi despertada para o relato de uma enfermeira que havia dado plantão no final de semana. Ela relatava sobre a visita da avó materna de RN de Maria. No relato dela, pudemos escutar que ali uma função materna poderia operar de forma mais consistente. Diante disso, sustentamos a importância da presença da avó. Assim, junto à mãe, a avó passou a ser a acompanhante da neta. Nos dias que se seguiram, era comum vermos a avó conversando com a neta, não sem antes escrever JOANA 30 num pedaço de papel e colar sobre a placa onde se encontrava escrito RN DE MARIA. Era curioso observar que, enquanto era embalada no colo da avó, que costumava lhe contar histórias e cantar cantigas de ninar, Joana a acompanhava com o olhar.

Este recém-nascido que vivia entre o limite da vida e da morte e que era visto não mais que um corpo, cujo funcionamento era bastante deficiente, sob o olhar da avó passou a ser visto como um bebê, na medida em que aquela pôde “ouvir o que ainda não foi dito, ver aquele que ainda não é” (LAZNIK-PENOT, 1998, p.55). Desta

29 É um tubo flexível que é introduzido no nariz do bebê, descendo pelo esôfago até o estômago.

30 Tanto o nome da mãe como da criança são fictícios.

forma, o investimento do Outro contornava aquele organismo em que a prematuridade saía do campo da condição humana e ganhava o campo da doença;

um contorno que não se realiza sem sedução.

A sedução transcende os cuidados básicos e necessários que se tem com o bebê, embora seja passada no momento em que estes ocorrem. A sedução é este voto amoroso que se transmite pela voz, pelo olhar, pelo tocar que sinaliza a presença simbólica de um Outro desejante. (VESCOSI, 1999, p. 344).

Embora alguns da equipe tivessem se surpreendido quanto ao aumento de peso de Joana, para nós, psicanalistas, não foi surpresa. Percebíamos que quando a função materna operava sem maiores problemas, ou seja, quando o outro dispunha de libido para investir o bebê, ele rapidamente ganhava peso, suportava melhor a manipulação dos exames e respondia a medicação. Era visível o que Jerusalinsky (1999) sustenta a respeito do desenvolvimento do bebê humano, de que ele “não opera por simples automatismo biológico” (p.18).

Joana deixava isso às claras. Mesmo recebendo os nutrientes diretamente no seu estômago, ela não se encontrava alimentada. Era preciso muito mais que isso;

era preciso ser alimentada pelo prazer do Outro, pelo desejo do Outro. Foi isso que ela pôde experimentar a partir do encontro com a avó. Um encontro em que, seu corpo envolvido e embalado pelo prazer do Outro, possibilitou a passagem do organismo vivo para um corpo transpassado pelas pulsões; um encontro que ao contornar o real do corpo possibilitou um outro destino para a energia, diferente da expulsão e da descarga total.

Portanto, é bastante evidente que a presença do Outro primordial é fundamental, não se reduzindo ao suprimento das necessidades vitais. Ela é uma presença constituída de palavras, olhares e toques, que são impregnados por um desejo singular – desejo materno – que ao erogenizar o corpo do infante, desperta a pulsão sexual, desperta a vida (FREUD, 1905/1987). Uma presença que “cria corpo e cria o corpo: o corpo da palavra, o corpo do sujeito” (WANDERLEY, 1977, p. 23). É uma presença que transpira o prazer do Outro materno. Assim, entre palavras e sedução, o Outro primordial parece escrever no corpo do infante, “permitindo construir o que depois será sua ‘imagem corporal’” (BERNARDINO, 2006, p.33). Ele verte em palavras o grito daquele; ele dá um sentido às sensações precoces, ele nomeia cada parte do corpo, e, gradativamente, o organismo vai ganhando

inscrições psíquicas, vai sendo simbolizado. Porém, não é sem o envolvimento dele.

O outro – habitualmente a mãe – se envolve com esse pequeno corpo; seu cheiro, sua tez, seus barulhos, seu silêncio, seus movimentos a seduz. Ela brinca com as dobrinhas do corpo de seu bebê, beija a sua barriga, faz cosquinha, beija as pontinhas de seus dedos e pergunta: cadê o toicinho que estava aqui? O gato comeu! Cheira seus pezinhos, ri, acaricia seu bebê. Conversa com ele. É a cara do papai, cadê o narizinho do neném? De quem é essa boquinha? Ela aperta-o, abraça-o em seu colo. Ele a olha atentamente. Ele gosta disso, e ela também. Esse envolvimento – fruto do desejo materno – erogeniza o pequeno corpo, fundando as pulsões parciais: “pontos do corpo que se destacam e passam a ter um registro psíquico, a partir da significação colocada pelo Outro” (BERNARDINO, 2006, p.33).

Conforme mencionamos no final do capítulo anterior, esses pontos – zonas erógenas –, que no início da vida psíquica se destacam como sendo a boca, o ânus e os genitais por receberem maior estimulação em função dos cuidados maternos, são, portanto, segundo Freud (1905/1987), órgãos receptores de estímulos, cuja excitação confere à pulsão um caráter sexual, uma vez que através deles o infante obtém satisfação. Esta propriedade torna as zonas erógenas fontes das diversas pulsões parciais. Logo, por estarem em contato com um outro corpo, favorecendo uma abertura para o erotismo, elas propiciam a realização de um intercâmbio com o outro (BIRMAN, 1999). Ao depositar um investimento nessas fontes, o Outro dá condições para que retornem ao infante erogenizados, instaurando, assim, um circuito pulsional.

Desta forma, a função materna “introduz o bebê no campo pulsional, instilando Eros em sua constituição” (ARAGÃO, 2007, p.30), inscrevendo as marcas do desejo no corpo do infante. Ela injeta vida nesse corpo, que por si só não tem condições de sobreviver. Assim, sendo atravessado pelas pulsões sexuais, o corpo do infante vai ganhando representações, recebendo inscrições psíquicas, na medida em que essa troca com o Outro se constitui como experiência de prazer e de satisfação para o infante:

Essas experiências plenas de sentido se repetem e deixam marcas: vão aos poucos formando um mapa de partes do corpo e da realidade exterior, que passam a existir porque foram descobertas nessas trocas com o outro, deram prazer, surpreenderam o outro (BERNARDINO, op.cit, p.34).

É nesse sentido que o Outro primordial parece escrever no corpo do infante.

Esta escritura impede a livre circulação das excitações e, consequentemente, a sua

descarga total, favorecendo a transformação do organismo em um corpo simbólico/imaginário, como já foi mencionado. Depreendemos disso, então, que a função materna, ao criar Eros no corpo do filhote do homem, transformando-o em humano, dota-o do poder de estabelecer ligações (ARAGÃO, 2007).

O que está em pauta aqui é a transformação da carne em um corpo simbólico/imaginário, em que o prazer, a satisfação do Outro primordial será o ingrediente fundamental para que essa metamorfose possa acontecer. Fruto do narcisismo do outro e da equação simbólica falo-bebê – quando é a figura feminina que exerce essa função – o investimento libidinal do outro retira o infante de uma

O que está em pauta aqui é a transformação da carne em um corpo simbólico/imaginário, em que o prazer, a satisfação do Outro primordial será o ingrediente fundamental para que essa metamorfose possa acontecer. Fruto do narcisismo do outro e da equação simbólica falo-bebê – quando é a figura feminina que exerce essa função – o investimento libidinal do outro retira o infante de uma