2. TEOLOGIA PROTESTANTE LATINO-AMERICANA E
2.1. O encontro do protestantismo com as religiões
O interesse pelas religiões, no protestantismo, surgiu principalmente com a reflexão sobre a missão da Igreja
(Magali Cunha)
Enquanto que na Igreja Católica a questão do pluralismo religioso e o diálogo inter-religioso começou a ser pensado, de maneira sistemática, a partir do Concílio Vaticano II (1962-1965), no âmbito protestante isso se dá de maneira diferente, por não ter, enquanto sistema catalizador, o mesmo epicentro de discussões como na Igreja Católica com seus documentos basilares e Magistério. Portanto, não é possível apontar um marco definidor ou um nome majoritário, no protestantismo, para afirmar quando o processo de pensar as religiões começou no contexto protestante. Ainda assim, pesquisadores são unânimes ao colocarem o encontro do protestantismo com as demais religiões no contexto missionário: “O contato de alguns missionários com outras religiões
os fez descobrir nelas homens e mulheres portadores de uma conduta ética e espiritual muitas vezes superior à deles próprios” (PEDREIRA, 1999, p. 10). Não é exagero afirmar que, diferente do contexto católico que começa a sistematizar uma teologia das religiões a partir do Vaticano II, no caso protestante esse processo começa com missionários dando-se conta da minoridade do cristianismo em países de maioria islâmica, budista, hinduísta. Nesse sentido, é correto afirmar que o contato de missionários com a pluralidade religiosa, de fato, é o elemento embrionário para se pensar uma teologia protestante das religiões. De acordo com Magali Cunha (2007, p. 26), foi o movimento missionário que impulsionou a “inserção do pluralismo na agenda protestante”. Quando o movimento missionário de linha liberal no século XIX entrou em contato com outras expressões religiosas, “despertou um primeiro interesse protestante pelo conhecimento mais objetivo e profundo das religiões” (CUNHA, 2007, p. 26). O que causa escândalo é o divisionismo protestante. Foi a partir disso que se organizou movimentos de unidade, promovendo o ecumenismo entre as diversas denominações. Dessa forma, surgia o movimento ecumênico protestante em nível mundial: “A consciência do escândalo da divisão e a necessidade de cooperação e unidade no trabalho evangelístico representou a gênese do que hoje conhecemos como movimento ecumênico” (CUNHA, 2007, p. 26). Ocorre que lá, o movimento ecumênico não focou (ou ficou) apenas na unidade entre as igrejas, passou a pensar e discutir a realidade das religiões e isso se deu a partir das “conferências missionárias”. Destacamos uma em especial, a Conferência de Edimburgo.
2.1.1. Conferência Missionária de Edimburgo
O fator “evangelização” sempre foi a força motriz do protestantismo missionário. O lema “ganhar almas para Cristo” no resto do mundo sempre foi a maior motivação para estar em lugares longínquos e, para isso, era necessário levantar a maior quantidade possível de recursos financeiros para custear a empreitada. Para que esse “mandato do Senhor” fosse cumprido, foi preciso se alinhar com ideologias de governos marcadas pelo colonialismo, bem como aproveitar o poderio bélico e econômico de potencias ocidentais como os Estados Unidos, por exemplo, nos séculos XIX e XX,33 para avançar na
conquista missionária. A mentalidade no universo cristão-protestante, “dividia o mundo
33 “Nos Estados Unidos do século 19, o cristianismo era, em grande parte, uma religião do establishment [...]. Sentia-se pouco a tensão entre progresso e evangelho. Pelo contrário, considerava-se o avanço científico, de uma maneira bastante simplista, arauto do advento do reino de Deus” (BOSCH, 2009, p. 344).
em dois: o mundo cristão e o mundo não-cristão (Ocidente x Oriente). Pregar o evangelho, nesse sentido, significava livrar as pessoas do Oriente pagão e trazê-las à civilização” (CUNHA, 2011, p. 7). É dentro desse contexto que surge a primeira Conferência Missionária em Edimburgo, no início do século XX, 1910, com um apelo ecumênico.
A Conferência de Edimburgo (1910) não estava dentro de uma perspectiva aberta para as religiões. O ideal conquistador e civilizador na tarefa missionária estava em voga e Edimburgo surge como uma necessidade de aparar as arestas de possíveis contratempos nessa tarefa que envolvia as denominações protestantes em lugares de missão comum. Não por acaso que o planejamento da Conferência se deu por missionários estadunidenses e o alvo do encontro foi, num primeiro momento, “a possibilidade de evangelizar o mundo nesta geração” (BOSCH, 2009, p. 406). John Mott foi um dos participantes mais proeminentes na Conferência e sua percepção missionária marcou o tom do encontro e definiu a agenda missionária das igrejas para os anos que veriam (BOSCH, 2009, p. 408). Além da comissão liderada por Mott e que teve maior influência na Conferência, houve uma comissão, de número 4, com um título ousado: “A mensagem missionária em relação ao mundo não-cristão”. O teólogo S. Wesley Ariarajah (2011, p. 15), de tradição metodista, pesquisador no tema “missão”, relata que os líderes dessa comissão, antes da Conferência, enviou “um questionário para centenas de missionários que estavam trabalhando no campo, em diferentes contextos religiosos”. A pergunta se deu sobre a relação do evangelho pregado pelos missionários e os valores nas outras religiões que tornavam possível relacionar o evangelho com essas religiões (ARIARAJAH, 2011, p. 15). Aqui reside uma primeira impressão da relação dos missionários com outras tradições religiosas. A comissão ficou surpresa com as respostas: “Muitas das respostas falaram muito bem da vida religiosa de pessoas de outras tradições; alguns viam pontos de contato bastante claros; outros sentiam que as missões deveriam parar de considerar as outras religiões como erradas” (ARIARAJAH, 2011, p. 16). O relatório da comissão 4 foi surpreendente, principalmente quando o tom da Conferência era “evangelizar o mundo nesta geração”. Não por acaso, segundo Ariarajah (2011, p. 16), que “o relatório da comissão 4 estava entre os melhores da Conferência, ‘pulsando com vida a cada parágrafo’, como um dos líderes se expressou”. Isso demonstra que o protestantismo de ímpeto missionário, estava começando a enxergar as demais expressões religiosas como plenamente relacionadas à Deus (ARIARAJAH, 2011, p. 16). Mas como o ímpeto missionário que reinava no século XX ainda era o conquistador-colonizador-civilizatório,
ainda que ecumênico para diminuir o escândalo das divisões entres as denominações protestantes que estavam com seus missionários em diferentes países, a comissão 4 não teve o mesmo tratamento que a comissão 1, liderada por Mott. Assim, “o Relatório Geral da Conferência deu pouca atenção a esta voz [comissão 4], e baseou sua mensagem final no trabalho da comissão 1, ‘Levando o evangelho a todo o mundo não-cristão’, que era presidida pelo próprio Mott” (ARIARAJAH, 2011, p. 16). Mas o trabalho da comissão 4 não ficou nulo e afônico. Serviu para abrir “caminho para a realização de outras [conferências] que construíram uma teologia da missão e caminhos de unidade no trabalho missionário. E com isso construiu-se também uma reflexão sobre culturas e religiões” (CUNHA, 2007, p. 28). Ainda que sem relevância na Conferência, “a comissão 4 abalara a confiança resoluta com a qual a Conferência Missionária Mundial fora convocada a evangelizar o mundo todo” (ARIARAJAH, 2011, p. 16). Começa assim, portanto, uma nova abordagem mais “apropriada às outras religiões” (ARIARAJAH, 2011, p. 16). As conferências missionárias que se seguiram à de Edimburgo, tinham como pauta, dentre outros temas, “a mensagem missionária em relação as religiões não-cristãs” (CUNHA, 2007, p. 29). Uma das consequências das reflexões da comissão 4 em Edimburgo foi visível na Conferência de Jerusalém (1928). Se em Edimburgo a comissão 1 era “Levar o evangelho a todo o mundo não-cristão”; em Jerusalém a comissão 1 foi “A mensagem cristã em relação aos sistemas de pensamento e vida não-cristãos” (BENT; WERNER, 2005, p. 232-233). Em Jerusalém, começou-se a falar “positivamente acerca dos ‘valores’ encontrados nas outras religiões” (ARIARAJAH, 2011, p. 17). Diferente do ambiente católico que tem no Vaticano II o lócus do diálogo inter-religioso, como também em teólogos de destaque como Karl Rahner um sistematizador; no caso do protestantismo não se dá o mesmo processo. Isso decorre porque há uma ausência de concílios e documentos comuns aos diversos ramos do protestantismo, marcado por uma pluralidade que lhe é peculiar. Quando o protestantismo favoreceu a livre interpretação da Bíblia e a diversidade de perspectivas, o aspecto assimétrico fora dado (PEDREIRA, 1999, p. 75). Ainda assim, o tema das religiões surge no protestantismo quando este, por meio dos seus missionários, estão em contato com outras expressões religiosas. Quando encontram outras culturas, são forçados a fazer uma reflexão pastoral e teológica da experiência que tiveram com outras religiões e isso contribui para o processo de alteridade e estabelece algumas bases para o diálogo inter-religioso (CUNHA, 2007, p. 26).
2.1.2. Conselho Mundial de Igrejas
O Conselho Mundial de Igrejas (doravante CMI) foi organizado em 1948, sendo uma confluência de outros conselhos como o Missionário Internacional. O objetivo do CMI foi agregar as diferentes denominações protestantes de maneira ecumênica, respeitando a identidade de cada uma delas, um imenso desafio, principalmente quando as igrejas ortodoxas passaram a ingressar o CMI (STRANSKY, 2005, p. 264). O tema das religiões e o diálogo como consequência, chegou apenas na década de 1970,34 com
uma intensa discussão quanto ao seu alcance. Ainda que de maneira paliativa, o CMI passou a desenvolver um importante papel no processo de abrir possibilidades para o diálogo inter-religioso, privilegiando o encontro, o debate e a reflexão teológica. Como bem observa Christine Lienemann-Perrin (2005, p. 86), com o CMI há um esforço em buscar dialogar com outras expressões religiosas e, para isso, o Conselho trabalha com, pelo menos, quatro facetas: (i) a disposição de se expor ao estranho; (ii) dar nova expressão à fé (cristã) a partir do encontro; (iii) formar uma comunhão de vida e de serviço com pessoas de outras religiões, abrindo-se para o testemunho recíproco; (iv) atentar para a sempre necessária diferenciação. O primeiro encontro em torno do tema das religiões que o CMI realizou no Líbano (1970), contou com alguns impasses, ainda que o encontro tenha tido um resultado positivo. Lienemann-Perrin (2005, p. 80) relata que não havia, no seio do CMI, unanimidade sobre o passo que o Conselho estava para dar, o diálogo inter- religioso. Houve quem acusava o CMI de estar dando “uma guinada funesta”. Com isso, segundo Lienemann-Perrin (2005, p. 80), houve uma declaração sobre esse tema poucos dias antes do encontro no Líbano: “O ecumenismo inicial das igrejas corre hoje o risco de ser transformado em ecumenismo das religiões. Nós alertamos para o perigo de uma religião universal unitária sincretista”. Ainda que os encontros que se deram em torno do tema “diálogo inter-religioso” foram marcados por uma certa tensão, o CMI prosseguiu com a temática e aprofundou a reflexão teológica. Mesmo tendo essa iniciativa em procurar dialogar, o CMI, por conta da sua pluralidade e dinâmica em relação às igrejas- membros, não alcançou, até o momento, um consenso em relação às religiões em sua formulação teológica e traços concretos de diálogo inter-religioso: “Embora não alcancemos um consenso sobre se e de que maneira Cristo está presente nas outras
34 “A reunião de cristãos com hindus, budistas e mulçumanos aconteceu em 1970, no Líbano, com objetivo não só de consultar sobre a prática do diálogo inter-religioso, mas de empenhar-se nele. O resultado deste esforço foi a criação de uma subunidade do CMI sobre diálogo com pessoas de outras religiões” (CUNHA, 2010, p. 23).
religiões, cremos que em nenhuma geração e em nenhuma sociedade Deus deixou de se testemunhar” (LIENEMANN-PERRIN, 2005, p. 86).
Assim, é possível verificar, no âmbito protestante, que o pluralismo religioso (a partir da teologia liberal do século XIX), já estava sendo contemplado; o possível diálogo inter-religioso (a partir da tarefa missionária), já se confirmava na pauta das conferências missionárias; uma teologia das religiões (a partir das reflexões do CMI), já se mostrava embrionária. Como observa Magali Cunha (2007, p. 45), “o movimento missionário, decerto, contribuiu significativamente na introdução do tema [religiões] na agenda das igrejas, principalmente ao chamar a atenção para a relação evangelho-culturas”.