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Pluralismo religioso e protestantismo latino-americano

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2. TEOLOGIA PROTESTANTE LATINO-AMERICANA E

2.2. Protestantismo latino-americano

2.2.2. Pluralismo religioso e protestantismo latino-americano

O movimento ecumênico resistiu às dificuldades impostas ao longo da sua trajetória. Assim, o movimento ecumênico adquiriu outras formas e acolheu outras preocupações, demonstrando, portanto, uma capacidade de adaptação diante dos desafios, preservando ainda uma reflexão apurada, principalmente quando, de maneira sincrônica, participa da dinâmica social. No Brasil, em particular, KOINONIA – Presença Ecumênica

      

54 “A conversão religiosa de uma minoria cristã crítica constitui um fermento e um fermento necessário de toda mudança política que pretenda, de uma forma ou de outra, caminhar para a utopia do Reino” (SEGUNDO, 1975, p. 51-52).

55 “A tribo ecumênica, teimosamente, ainda bate seus tambores e envia sutis sinais de fumaça, esperando por interlocutores comprometidos com um cristianismo mais plural, menos igrejeiro e mais empenhado nas lutas sociais e na defesa dos direitos das minorias. O FEBRASIL (Fórum Ecumênico Brasil), a KOINONIA e a REJU (Rede Ecumênica de Juventude) representam novas ‘ilhas de dissidência’ que reúnem pessoas esperançosas de que o princípio protestante volte a agir nas instituições protestantes” (CALVANI, 2015, p. 1922).

e Serviço, segue agrupando pessoas que se identificam com o movimento ecumênico, dedicadas à reflexão teológica engajada socialmente. É possível afirmar, que KOINONIA é uma entidade herdeira do projeto de ISAL no Brasil.56 O grupo segue tendo o apoio do

CMI (Conselho Mundial de Igrejas), do CLAI (Conselho Latino-americano de Igrejas) e do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs).57 A primeira jornada que KOINONIA

organizou aconteceu em 1994 em Mendes/RJ. Dessa primeira jornada, KOINONIA organizou um texto, ficando patente as reais preocupações do grupo, reafirmando, assim, as pegadas de entidades ecumênicas em décadas anteriores, principalmente ISAL. Nessa primeira jornada temas como diálogo pluricultural está contemplado, discutindo, a partir disso, a questão da negritude, dos novos movimentos religiosos, a economia, a política, a cidadania e a espiritualidade. Com isso, está lançado os desafios ao movimento ecumênico, ou seja, desafios da contemporaneidade que demandam sensibilidade. Dentre esses desafios, destacamos a questão inter-religiosa, um tema que desperta intensa discussão, mas que ainda não há uma ampla produção sobre a temática entre os protestantes, isso com as devidas exceções que pretendemos destacar adiante.

A temática das religiões, se configura como um eixo central para se pensar em outras questões da dinâmica social e das relações sociais. O problema do racismo, passa, invariavelmente, pelas religiões de matriz africana e sua inserção notória na configuração da sociedade; a discussão em torno das questões indígenas, envolve a cultura religiosa e a leitura de mundo de um povo. A temática das religiões perpassa as grandes questões provocando reflexão que leva, por sua vez, a uma práxis visando a dignidade da vida. Refletir sobre a dignidade da vida, envolve a militância pelos direitos humanos, sabidamente uma das contribuições do cristianismo para o ser humano.58 As religiões

precisam estar envolvidas com os direitos humanos, uma vez que elas, as religiões, detém uma ética voltada para o bem comum, o principal alvo dos direitos humanos. O

      

56 “KOINONIA é uma organização ecumênica, fundada em 1994. A criação da nova entidade teve como marco sua Assembleia de Associados, composta por militantes históricos da luta pela democracia e afirmação dos valores do Movimento Ecumênico no Brasil. O objetivo da nova organização, em continuidade com a tradição ecumênica, foi inicialmente prestar serviços às comunidades religiosas, ao movimento social e às igrejas” (Disponível em: http://koinonia.org.br/quem-somos/historia).

57 Para uma análise mais detalhada do movimento ecumênicoe sua resistência, ver: RIBEIRO; CUNHA, 2013, p. 95-104.

58 “Como cristãos somos chamados a participar da missão de Deus de justiça, paz e respeito por toda a criação, e a procurar a vida abundante que Deus deseja para toda a humanidade. Nas Escrituras, na tradição e nas muitas maneiras pelas quais o Espírito ilumina nossos corações, hoje, discernimos o dom da dignidade oferecido por Deus a todo o ser humano e o direito inerente que lhes assiste de aceitação e de participação na comunidade. É daí que decorre a responsabilidade da Igreja, o corpo de Cristo, de trabalhar pelo respeito universal e pela implementação dos Direitos Humanos” – Documento do CMI sobre “Direitos humanos e as igrejas: novos desafios” (DIAS, 2008, p. 83).

movimento ecumênico não se furta dessa discussão, antes, se propõe não apenas a refletir, mas também buscar meios para a sua concretização. Para isso, é preciso haver novas abordagens teológicas a partir do caminho já aberto pelo que ficou configurado como protestantismo ecumênico-progressista, representado, dentre outras entidades, mas de maneira efetiva, por ISAL.

A abordagem ao tema do pluralismo religioso é recente no movimento ecumênico. Ao que parece, num primeiro momento, o pluralismo religioso não foi tomado como algo positivo pelos articulistas do movimento ecumênico. Quando na primeira jornada ecumênica organizada por KOINONIA, o tema do pluralismo religioso está dentre os temas tratados, mas a perspectiva está centrada no que ficou conhecido como Novos Movimentos Religiosos, principalmente no Brasil. Ainda assim, o pluralismo religioso está pautado, reconhecendo que, tão logo, ele se dará como um fator decisivo na reflexão teológica ecumênica: “O pluralismo que se configura por força da descristianização impõe questionamentos missiológicos radicais; e ainda aponta para a pertinência e a oportunidade dos diálogos inter-religiosos e interconfessional” (BITTENCOURT FILHO, 1995, p. 47). O movimento ecumênico não ignora o tema, mas também não fornece, num primeiro instante, aportes para uma reflexão apropriada da temática, antes reconhece um certo atraso no trato do pluralismo religioso em comparação ao movimento ecumênico de nível internacional: “O movimento ecumênico internacional [...], já ultrapassou a fase na qual a prioridade maior era a unidade visível dos cristãos” (BITTENCOURT FILHO, 1995, p. 47). Ao reconhecer isso, o movimento ecumênico – por um dos seus destacados expoentes, José Bittencourt Filho –, sinaliza que houve (e há) um certo retraimento por parte do movimento ecumênico em abrir um necessário diálogo com as demais expressões religiosas. Com isso, Bittencourt Filho (1995, p. 47), a partir do exemplo ecumênico internacional, vaticina: “Hoje, mediante as transformações estruturais em nível planetário, às portas do terceiro milênio, tornou-se imperativo o diálogo intercultural”. O pluralismo religioso foi um tema recorrente fora da América Latina, principalmente na Europa. No contexto europeu, esse tema começou a ser pensado ainda no século XIX, quando missionários se viram no escândalo do divisionismo protestante e, imbuídos de uma teologia liberal, deram início ao movimento ecumênico internacional, como já observamos. Com isso, foi possível perceber a necessidade de se pensar nas demais expressões religiosas, principalmente em lugares que o cristianismo não era maioria. Assim, mesmo com uma perspectiva teocêntrica quanto à teologia

missionária, houve um interesse em conhecer as religiões de maneira mais objetiva (CUNHA, 2010, p. 19). Por essa razão, o movimento ecumênico latino-americano percebe, com um certo atraso, essa necessidade de abertura para as demais expressões religiosas, mesmo, como já vimos, haver sinalização precoce sobre o tema com autores que são, notavelmente, ecumênico-progressistas. O fato do pluralismo religioso ser uma das principais características latino-americanas, não foi um fator decisivo, em décadas anteriores, para que o movimento ecumênico ampliasse sua reflexão em torno das religiões predominantes no continente, como a afro-americana e indígena, por exemplo. Ao se reconhecer uma realidade religiosa plural, o movimento ecumênico viu o pluralismo religioso com ambiguidade, ou seja, até que ponto a pluralidade religiosa é positiva ou negativa para a realidade latino-americana e suas dificuldades sociais? Ainda assim, há indicativos que “o continente será no futuro, menos católico, mais pentecostal, com espaços significativos para a religiosidade indígena e africana, e com uma incidência real, ainda que modesta, do protestantismo histórico” (ALTMANN, 2000, p. 400). Diante desse quadro, o pluralismo religioso não é recebido com pessimismo, antes é tido como uma oportunidade, uma chave de abertura e diálogo.59 Nesse sentido, Walter Altmann

(2000, p. 410) dá algumas pistas de como poderia haver um profícuo trabalho a partir do movimento ecumênico e as demais expressões religiosas:

É uma experiência comum que adeptos de diferentes expressões religiosas podem encontrar-se e cooperar significativamente diante de necessidades e desafios bem concretos: a luta pela terra de camponeses e indígenas, o cuidado da natureza, o estabelecimento de uma paz com justiça, a defesa da dignidade da vida.

Os desafios que Altmann pontua são notórios e prementes, mas o autor reconhece a falta de ação por parte das igrejas. O autor amplia ainda mais esses desafios ao movimento ecumênico e faz uma constatação: “O desafio ecumênico se estende para além da relação entre igrejas cristãs, abarcando as expressões religiosas num sentido amplo” (ALTMANN, 2000, p. 412). Para que esse desafio ecumênico seja, de alguma maneira, tornado mais efetivo, seria necessário haver uma ampliação da reflexão teológica sobre as religiões (uma teologia das religiões); bem como uma abordagem pluralista que envolva a cultura e a dinâmica social das religiões. Com isso, seria possível deslumbrar um horizonte em que o diálogo possa se dar a partir da “afirmação da vida e de sua

      

dignidade” (ALTMANN, 2000, p. 412), um horizonte utópico para a realidade latino- americana.

O reconhecimento do pluralismo religioso implica em uma tomada de postura teológica. Assumir isso já é, per si, um grande desafio no ambiente protestante latino- americano. Os que assumem esse desafio, são herdeiros e continuadores da vertente ecumênico-progressista do protestantismo latino-americano. Ocorre que o movimento ecumênico tem enfrentado alguns entraves para sua própria manutenção. O movimento ecumênico de caráter associativo (leigos, na sua maioria), milita a partir de plataformas informais, ou seja, fora das organizações institucionais de caráter eclesiástico. As entidades ecumênicas de caráter institucional, como o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), por exemplo, contam com um número reduzido de igrejas-membro. Magali Cunha sinaliza essa dificuldade do ecumenismo institucional, relatando o posicionamento da Igreja Metodista, notória incentivadora do movimento ecumênico, que se retirou do CONIC e demais órgãos ecumênicos em que estivesse participando a Igreja Católica. As igrejas Presbiterianas (Unida e Independente), ainda mantém vínculos ecumênicos, mas a Igreja Presbiteriana do Brasil optou pelo completo isolamento (CUNHA, 2010, p. 32). As Igrejas Batistas, por serem autônomas em sua condução eclesiástica, dependem da orientação pastoral para integrar entidades ecumênicas, mas a sua representatividade denominacional, a Convenção Batista Brasileira (CBB), não tem nenhum envolvimento com órgãos ecumênicos.60 Ainda assim, há um grupo de batistas

que se organizou no que ficou conhecido como Aliança de Batistas do Brasil,61 com o

propósito de promover uma práxis ecumênica não apenas com as demais igrejas, bem como também com outras expressões religiosas. Além dessas possibilidades, o que há, entre os batistas, são participações de pastores quando assim entendem a necessidade de se envolver com o movimento ecumênico e o que ele representa.

A necessidade de ampliar uma reflexão teológica a partir da teologia ecumênica se faz salutar, principalmente quando há a constatação de que “o movimento ecumênico recusou-se a apoiar um cristianismo introvertido e exclusivista, que ignora a pluralidade de religiões” (GENSICHEN, 2005, p. 901). Esse legado abre outras possibilidades, que são inerentes ao modo de ser do protestantismo, qual seja, de haver outras percepções

      

60 Sobre esse assunto, ver: GONÇALVES, 2016, p. 99-110.

61 A Aliança de Batistas do Brasil surgiu em 2005, tendo como foco resgatar os princípios batistas a fim de vivenciar o desafio do movimento ecumênico.

teológicas em que trate as religiões como fontes de diálogo – “À medida que se abrem novos canais de diálogo entre pessoas de diferentes fés, muitos iniciados ecumenicamente, torna-se mais clara a importância de uma compreensão esclarecida de pluralidade religiosa” (GENSICHEN, 2005, p. 901). Mesmo no contexto europeu, não houve um desenvolvimento de uma teologia das religiões em perspectiva protestante. Ainda que Paul Tillich tenha iniciado o debate, nos EUA, não houve tempo suficiente para aprofundar uma teologia que levasse em consideração a história das religiões como ele gostaria, embora a sua contribuição, como já referido, seja imprescindível.62 Por essa

razão, que ainda há, como uma tarefa pendente ao movimento ecumênico, a necessidade de “articular uma teologia cristã da religião capaz de promover e manter um diálogo responsável com pessoas de fés diferentes” (GENSICHEN, 2005, p. 902). É a partir desse dado, que intentamos contribuir com uma teologia das religiões, por perceber que há uma lacuna na reflexão ecumênica em relação às religiões e a consequente ausência de uma teologia das religiões em perspectiva latino-americana, com exceções.63 Com isso, nos

propomos a fazer uma leitura teológica a partir da América Latina tendo como base o movimento ecumênico em sua expressão ecumênico-progressista, por entender que é a partir da trajetória desse movimento que se faz possível caminhar um pouco mais. Para o que queremos apontar, acolhemos a contribuição teológica de alguns autores, de tradição protestante, que sinalizam possibilidades e criam pontes para articular uma teologia das religiões, bem como pensar o diálogo inter-religioso em seus traços híbridos e não, necessariamente, estruturais e institucionais. Daí a nossa prioridade, quando tratando do movimento ecumênico, não esteja, primeiramente, no seu aspecto estrutural presente em algumas denominações protestantes, que contam com agenciamento oficial, participando de instituições reguladoras e órgãos tutelares da atividade ecumênica, ainda que esses órgãos tenham a sua importância.64

      

62 A sua viagem ao Japão (1960) proporcionou um rico debate com representantes do budismo e as conferências com o colega Mircea Eliade na Universidade de Chicago (1965) deu a ele a oportunidade de contribuir, como teólogo sistemático, ao debate em torno da teologia das religiões (TILLICH, 1976). 63 Claudio de Oliveira Ribeiro (2014, p. 42-55), para citar um exemplo, procura desenvolver uma teologia das religiões a partir das fronteiras da teologia latino-americana em diálogo com teólogos protestantes, mais detidamente com Paul Tillich.

64 “As pessoas e grupos que atuam ecumenicamente, em especial no campo popular, na grande maioria vivem sua fé por vezes de maneira inédita e fora dos padrões eclesiásticos ou religiosos convencionais. É fato que muitos pagam elevado ônus pela radicalidade ecumênica e por seus compromissos políticos, nem sempre bem acolhidos pelas ferrugens das dimensões institucionais que organizam o espaço religioso” (RIBEIRO, 2014, p. 11).

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