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Capítulo 3. – Devoções e rogações do vale e da serra

3.2. A Festa das Cruzes no Guardão

3.2.4. O enfeitar das cruzes

Figura 6: As Cruzes das 4 freguesias durante a Eucaristia.

Fonte: Santos, José Ribeiro dos - “Monstro Fabuloso Adormecido”. Ano: Início dos anos 70 – séc. XX

Como verificamos, era grande a preocupação em embelezar as cruzes. Na descrição de Frei Agostinho de Santa Maria (1716) é somente referida uma cruz, e não encontramos nenhuma referência que a mesma seja enfeitada346. Duzentos anos depois, na descrição de José Júlio César (1914), já se menciona a presença de várias cruzes devidamente engalanadas, e dá para inferir que esse costume é bastante anterior. Das suas palavras referente “às cruzes de prata, algumas de grandes dimensões e bastante valor artístico, entrelaçam-se inúmeros cordões de ouro, dos quais prendem cruzinhas,

corações e outros berloques do mesmo precioso metal, formando uma verdadeira rede, como que a servir de couraça de malha ao Cristo pregado”347.

Era todo um trabalho bastante meticuloso, realizado por algumas senhoras com destreza manual e gosto para os lavores, e que se especializaram no enfeitar das cruzes. Trabalho de responsabilidade, porque as cruzes, na sua maioria, eram cumprimento de promessas, ou seja, votivas e seriam admiradas, ou criticadas, por um grande número de peregrinos. A importância da festa das Cruzes comprovava-se pelo relacionamento que estabeleciam com ela. Alguns dos peregrinos, se tinham assumido o voto de “enquanto puder levarei uma cruz à Ascensão”348, não faltavam a esse compromisso, e, por isso,

todos os anos o número de cruzes a enfeitar atingia mais de duas dezenas.

A partir do momento da decisão de estar presente com uma cruz, a pessoa que fez a promessa, tinha de cumprir um determinado número de passos para concretizar o seu objetivo. Em primeiro lugar, devia pedir emprestada uma cruz, normalmente na própria freguesia que para além da paroquial, tinha outras cruzes, ou a outras freguesias próximas, para que a mesma fosse enfeitada. Essa vontade implicava também o trabalho de pedir emprestado o ouro, normalmente a pessoas amigas, que iriam enfeitar as cruzes. Missão a que votavam um grande cuidado, que implicava muita confiança tanto nas pessoas a quem se emprestava, como nas pessoas que tinham incumbência de “armar” as cruzes, ou seja, de as enfeitar. O emprestar o ouro era um ato de grande aceitação pelas mulheres, porque até se sentiriam “desconsideradas [as que não vissem] os seus adereços a brilhar e refulgir nas cruzes”349.

De seguida, comprar ou alugar os atavios e com os mesmos dirigia-se a um armador, para o contratar, neste caso, normalmente, uma armadora. A partir dessa altura encarrega-se a armadora da missão de enfeitar a cruz, de acordo com o gosto de quem lhe incumbiu essa tarefa. Assim, próximo da festa, a armadora deitava mão ao trabalho, considerando ser sempre uma honra ter sido escolhida para o realizar. Tendo junto a si o que necessitava para enfeitar a cruz envolve-a “com arco apropriado revestido de seda. Pequena semicircunferência, presa nos braços horizontais a fazer diadema, recamado de

347 CESAR, José Júlio. A Cruz, símbolo de dor e de fé...

348 A Nossa Festa – Jornal Caramulo. Guardão. Junho de 1990. p. 1.

joias ou pérolas, à frente do cruxificado. Ramos de flor de laranjeira e outros realçam os cordões que rareiam”350.

Mas não foi sempre assim a modéstia de ouro, porque são inúmeras as descrições a referir alguma exuberância nos enfeites em que “as cruzes de prata que se incorporam nesta procissão foram rica e caprichosamente enfeitadas a ouro”351. Esse gosto por

excesso, e mesmo alguma excentricidade são alvo de críticas, até bastante mordazes. Escrevia assim, no jornal A Beira, Silva Ribeiro que “as cruzes, segundo uma velha usança, enfeitadas com ouro e laçarotes berrantes. As quatro freguesias disputam entre si, os louvores do público, apresentando as suas cruzes tão enfeitadas, quanto possível. E eis o que nos parece condenável. Lá que se enfeitem as cruzes tudo bem. Mas com oiro, com muito oiro – com cordões de oiro, pulseiras de oiro, argolas de oiro, etc – e com laçarotes de seda, vermelhos, azuis, verdes, amarelos, de todas as cores do arco-íris”352. Esta

multiplicidade de cores, alguma vaidade em demonstrar o poderio económico das freguesias com o ouro que se mostra, contrária à vida ascética de um cristão, chocava, em parte com a dificuldade das pessoas, no seu dia-a-dia. Outro articulista, João Mendes bastante mordaz, por sinal, em tom de complacência roga a Deus que lhes perdoe, porque não sabem o que fazem, porque os católicos, segundo ele, afogam-no, ao Cristo Cruxificado, em ouro e laçarotes, numa demonstração de vaidade353.

Talvez não imunes às críticas, as armadoras orgulhavam-se do seu trabalho e estariam no dia da Ascensão sempre muito atentas aos comentários que eram proferidos à passagem das cruzes. Maria Conceição Matos disse-nos que para ela representava uma alegria, uma enorme satisfação em ver “as minhas cruzes, ou quando alguém chegava ao pé de nós e desabafava que estava tão feliz com a cruz que tinha arranjado”, seria aquele o momento pleno de satisfação. Para Maria da Conceição, como para outras mulheres que se incumbiram ao longo do tempo de enfeitar as cruzes, como por exemplo, Ondina Calheiros que, já doente, em cadeira de rodas arregalava os olhos para ver “as suas cruzes” no momento da cerimónia do abraço.

350 A Nossa Festa. Jornal Caramulo. Guardão. Junho de 1990. p. 1. 351 Diversos. Jornal Folha de Tondela. Tondela 13 de maio 1923. p. 2. 352 A Festa da Ascensão. Jornal A Beira. Castelões. 24 maio 1930. p. 8.

Teriam, também, as mulheres de Campo de Besteiros um jeito especial para esta função no facto de após o período da interdição, quando do regresso das cruzes aos caminhos da serra, foi a Campo de Besteiros que recorreram os do Guardão para aprender “a arte”354. Para algumas famílias era uma fonte de rendimento, porque recebiam algum

dinheiro pelo enfeitar. Esta arte efémera marcava a festividade, e era evidente o orgulho em inovar, ao utilizarem frutos naturais, em que podiam dar largas à sua criatividade. Não era tão habitual a cruz enfeitada com “flores naturais, verduras ou frutos temporãos”, em parte, devido a efemeridade dos mesmos que muitas vezes era agravada pelas condições de transporte, em canastras, à cabeça das mulheres. Mesmo assim, surgem referências elogiosas para cruzes enfeitadas com elementos naturais355. Existia, como hoje ainda existe muita preocupação em que tudo ficasse em condições, e era cosido o ouro ao tecido para que o mesmo não se soltasse, e se perdesse. Maria da Conceição foi perentória em afirmar que “ninguém conseguiria roubar ouro de uma cruz, mesmo que puxasse, porque estava bem amarrado em vários sítios e ficava completamente seguro”356.