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Capítulo 4 – Sagrado versus Profano

4.2. Sagrado versus Profano

Antes de conhecermos a pastoral de 1938 do Bispo D. José Moreira Pinto, será importante tentar detetar os elementos de conflitualidade entre o religioso e o profano, na diocese de Viseu, ao período em estudo. Cientes, porém, que é um conflito generalizado a todo um país e, desde sempre, latente, e que tem antecedentes claros no período anterior à República, mas que se agudizou com as tensões de secularização da sociedade e com a intolerância religiosa a partir de 1911385.

A partir de 1915, com a criação do Boletim da Diocese de Viseu, podemos conhecer melhor “o pensar” e “o agir” do Bispo de Viseu que ao instituir este boletim tinha por objetivo divulgar junto do clero os textos normativos e doutrinais do Bispo e Mitra. Acrescenta a nota de abertura do 1.º número que os mesmos boletins devem fazer parte, obrigatoriamente, dos arquivos paroquiais386.

Esta polémica com as festividades, e o choque entre a parte religiosa e profana, já se vinha arrastando há alguns anos, ainda antes deste prelado assumir as suas funções. Ao lermos o Boletim da Diocese de Viseu encontramos outros exemplos, da relação tensa entre os Bispos Portugueses e tudo o que envolve as romarias. A linha ténue que sempre separou a festa profana da festa religiosa provocou, desde sempre, uma conflitualidade latente, algumas vezes mais acentuada, e, na sequência desses comportamentos, algumas capelas e festividades foram interditas, bem como pessoas individualmente, ou mesmo em associação, como é o caso das filarmónicas.O Bispo D. António Alves manifestou a sua preocupação em relação aos comportamentos identificados nas discussões sobre as romarias e que colocariam em causa a moral e a fé dos fiéis. Numa instrução pastoral, datada de 27 de outubro de 1923, critica a forma como se celebram essas festas, sobretudo os gastos excessivos. Motivo de reparo pelo Bispo, porque as igrejas e capelas encontram- se em mau estado de conservação. Outro motivo de crítica é a atitude dos fiéis, ou dos

385 “São sobejamente conhecidos as formulas que sintetizaram esta conflitualidade– antijesuitismo, anticongregacionismo, anticlericalismo, secularismo, laicismo. […]. Ora a faceta do embate que, para facilitar, pode ser designada por anticlericalismo político […] ganhou relevância a partir pelo menos, do período pombalino e manteve-se activa – com altos e baixos, é certo – até aos inícios da década de 1930”. CATROGA, Fernando – A “questão religiosa” na 1.ª República in Igreja e República: Mito(s) e

História(s). Actas do VI Encontro Cultural S. Cristóvão de Lafões. Associação dos Amigos do Mosteiro

de São Cristóvão de Lafões.2011. pp 40-41.

participantes que participam exclusivamente no arraial, sem sequer tomarem parte nas cerimónias religiosas. Motivo também de reparo é o comportamento nos arraiais noturnos, que constantemente são alvos de reparo, desde o tipo de danças, cânticos obscenos e outros atos condenáveis à luz da igreja387.

O Bispo sente a dificuldade em proibir tais práticas, porque já estão enraizadas no povo, mas aconselha os párocos a utilizarem métodos pedagógicos que permitam alertar os pais, e daí chegarem aos filhos, para os malefícios de tal participação nesses festejos noturnos388.

A limitação e controlo das práticas profanas, no âmbito de ritos e liturgias religiosos, conheceu muitas iniciativas do governo eclesiástico, ao longo do tempo. Veja- se, por exemplo, a forma como Martinho de Dume tentou criar algumas regras básicas no que toca às superstições. Nessa luta em controlar e limitar essas práticas a Igreja, numa primeira reação teve “de as admitir e conviver com elas”389, para, mais tarde, criar os seus

próprios “rituais […] de bênção de coisas e pessoas”390. Mas sempre procurou nas

constituições diocesanas impor admoestações e imposições, tanto aos clérigos como aos leigos. Esse controlo foi reforçado pelas determinações emanadas do Concílio de Trento, que reforçam o papel dos bispos em preservar a ortodoxia, e em que assumem um papel importante as visitas pastorais, para confirmar in loco como se realizava a prática cristã391. Para o povo festa é festa, e, sem foguetes a estrelejar no ar, a festa seria diminuída, até em comparação com outras povoações vizinhas. Desde sempre, o barulho de foguetes, ou de tiros, é, para a comunidade, a expressão do amor pelo santo e pela festividade. Essa ânsia de um excessivo número de foguetes, apelidado de “foguetório” é alvo de reparo pelos responsáveis do Boletim da Diocese, principalmente por se estar numa época de carestia (o pós I Guerra Mundial). Critica-se esta grande predisposição para os excessivos

387 Viseu. Bispo, 1923 (D. António Alves) . Pastoral. Boletim da Diocese de Viseu. Outubro e Novembro de 1923. Ano VIII. N.º 10 e 11. pp. 133-148.

388 Viseu. Bispo, 1923 (D. António Alves) Pastoral. Boletim da Diocese de Viseu. Outubro e Novembro de 1923. Ano VIII. p. 142.

389 PAIVA, José Pedro – Superstições. In AZEVEDO, Carlos Moreira (dir). Dicionário de História

Religiosa de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores. 2000. PV- Apêndices. p. 267.

390 PAIVA, José Pedro – Superstições. In AZEVEDO, Carlos Moreira (dir). Dicionário de História

Religiosa de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores. 2000. PV- Apêndices. p. 267.

391 GOUVEIA, António Camões – A Arquitetura dos Poderes. In MATTOSO, José- História de Portugal Lisboa: Círculo de Leitores.1993. IV. p. 292.

gastos nestes acessórios mundanos e, ao mesmo tempo, em contraponto, a resistência para fazer face ao pagamento do “justo estipêndio dos sacerdotes”392. A pergunta que se impõe,

segundo o Boletim da Diocese é se “não andará paganismo no caso?”393. Esta eterna atração pelos arraiais, os comportamentos disruptivos, como são classificados pelas autoridades, ou seja, os muitos que são atraídos à festa, não pelos votos de devoção, mas antes pela diversão e que, raramente, entram num templo religioso, tendo por vezes nos espaços circundantes comportamentos alvo de reparo, obrigam o Prelado a exigir a doutrinação das comunidades sobre “o valor e significado das festas”394. Como vemos,

há todo um conjunto de comportamentos associado aos arraiais. Acorda-se ao som dos morteiros que chamam os fiéis para a festa, a capela ou ermida encontram-se engalanadas, assinala-se o espaço da devoção, mas também da diversão, o som dos Zés-Pereiras e das filarmónicas enchem o ambiente a anunciar que o tempo é diferente, ou seja, tempo de festa de adotarmos outro tipo de comportamento395.

Este reparo de tanto foguetório é genérico, não identifica uma festividade em particular, mas podemos inserir nestas festividades as festas e romarias do vale de Besteiros e da serra do Caramulo, nomeadamente a festa das Cruzes, no Guardão. Assim escreve José Júlio César que “os foguetes cruzam no ar e estralejam a miude”396. O Bispo

apela aos clérigos que façam luz na cabeça dos “festeiros”, mas sempre com alguma prudência, para não criar mal-estar no relacionamento entre ambos. Verificamos que ao apelidar de “festeiros” os mordomos encarregados das festividades, atribui-se-lhes uma carga pejorativa e transmite-se a ideia que os mesmos dão primazia ao profano em detrimento do religioso. Este reparo diocesano comprova um crescente mal-estar da Igreja com os gastos excessivos nas festas, e o pouco cuidado das comunidades com a parte religiosa, principalmente os paramentos e outros utensílios religiosos.

Esta conflitualidade entre o sagrado e o profano continua, ano após ano, a surgir nas páginas do boletim diocesano. Num artigo intitulado “costumes pagãos” da Revista

392 O Foguetório. Boletim da Diocese de Viseu. Setembro de 1921. Ano VI. N.º 11. p. 164. 393 O Foguetório. … p. 164.

394 Viseu. Bispo, 1926 (D. António Alves). Pastoral. Boletim da Diocese de Viseu. Setembro 1926. Ano XI. N.º 9. p. 105

395 Cf. LIMA. José da Silva. Festas. In AZEVEDO, Carlos Moreira (dir). Dicionário de História Religiosa

de Portugal. Lisboa. Círculo de Leitores. 2000. C-I p.262

Católica, republicado no Boletim da Diocese, critica-se abertamente a sociedade por “esquecer a sua origem divina”397. Este artigo salienta que se festeja e venera-se o

mundano em detrimento do religioso “esbanjando-se quantidades significativas de dinheiro”398. Classifica-se como comportamento impróprio que o espaço que foi sagrado

pela passagem de uma procissão, mais tarde sirva como local de divertimento, em que as pessoas cantam e dançam ao som de fanfarras e Zés-Pereiras399. Este comportamento, habitual entre os que acorriam à romaria, cumprida a devoção, merece muitos reparos e denúncias que se fundamentam em diagnósticos400. Importa indagar dos critérios de diagnóstico e da justificação das medidas tomadas.