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MUNCIPAL DE ENSINO: ENTRE O LOCAL E O NACIONAL, O POLÍTICO E O IDEOLÓGICO

5.1 O Enfoque do Local: Representatividade Colegiada

Na discussão das influências locais na definição das ações educacionais observam-se, de modo destacado, as manifestações dos sujeitos formuladores das políticas do Período de Consolidação do SME/Santa Rosa. Em meio às influências locais manifestas pelos sujeitos prevalece a ideia da representação através dos conselhos municipais, como órgãos que permitem a representação de elementos da sociedade. Através das distintas atuações no Conselho Municipal de Educação ou em conselhos a ele articulados, como Conselho de Alimentação Escolar, Conselho do FUNDEB, Conselho da Criança e do Adolescente dentre outros, os sujeitos percebem uma forte influência do local sobre a organização das políticas educacionais.

O Gestor Municipal 01 pondera que até o momento da criação do SME/Santa Rosa a tomada de decisão sobre as ações educacionais estava centrada na figura do gestor político que detinha o poder de gerir os processos a partir de suas próprias convicções ou de interesses que estivessem alinhados a sua representação política o que, com a organização do SME, vem se alterar significativamente. A partir da concretização do sistema de ensino próprio ocorre a abertura de espaços à tomada de decisões e consequentemente se ampliam também as influências de órgãos colegiados, de corporações e de pessoas que se articulam nas diversas instâncias instituidoras da sociedade. Neste sentido em sua reflexão aponta que “o gestor até então tomava a decisão e fazia [executava]. Então, neste sentido, no momento que se passou a decidir, abrir espaço para o CME, assim como acontece com outros conselhos, como Conselho Tutelar, Conselho da Criança e do Adolescente, começou a haver uma pressão de todos os lados”12 (GM 01).

Esta revelação permite a constatação que as práticas centralizadoras em execução no contexto das políticas públicas municipais começam a sofrer um impacto no sentido de ampliação de espaços participativos, quando então a

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Na análise das discussões que ora se desenvolve opta-se, para destacar as falas dos sujeitos formuladores das políticas da Sistema Municipal de Ensino de Santa Rosa/RS, pelo uso de fonte Tempus Sans ITC. Com tal procedimento, adotado deste ponto do texto em diante, busca-se facilitar a compreensão do leitor e oportunizar o desvelamento das diferentes opiniões emanadas a partir das entrevistas/questionários e analisadas a fim de alcançar o objetivo do estudo em curso.

sociedade civil começa a ocupar lugar de destaque na proposição de políticas, no acompanhamento, na fiscalização e na execução das ações educacionais.

A ordem democrática expressa a partir da CF/88 pressupõe a organização da sociedade civil através de órgãos colegiados que assumem, entre outras, a tarefa de acompanhamento, controle social e indicações, ao Poder Governamental, de ações e ajustes nas políticas públicas. A criação de mecanismos e instrumentos nos quais ocorrem as imbricações entre o Estado e a sociedade civil – representada através dos conselhos – pode possibilitar o trato das políticas públicas sob um viés mais dinâmico e democrático.

A perspectiva da representação social através da participação e atuação formal junto aos conselhos é, portanto, fruto de uma articulação recente, exposta na legislação brasileira e em curso nos diversos níveis administrativos, sejam nacionais, estaduais ou municipais – mas, é neste último que os acostamentos se dão de modo mais acirrado, fruto de interesses de sujeitos que convivem num espaço onde as relações entre os distintos sujeitos são mais próximas.

Assim posto, cabe salientar que os conselhos, como órgãos de representação

são considerados condutos formais de participação social institucionalmente reconhecidos, com competências definidas em estatuto legal, com o objetivo de realizar o controle social de políticas públicas setoriais ou de defesa de direitos de segmentos específicos. Sua função é garantir, portanto, os princípios da participação da sociedade no processo de decisão, definição e operacionalização das políticas públicas, emanados da Constituição. Ou seja: são instrumentos criados para atender e cumprir o dispositivo constitucional no que tange ao controle social dos atos e decisões governamentais (GOMES, 2000, p.166).

Em sua percepção sobre a representação junto aos colegiados o Gestor Municipal Educacional – GME 02, em sua atuação no Período de Implantação do SME assim se posiciona: “nós temos vários conselhos instalados no município, no caso específico da educação. Ao tempo em que eu estava na SMEJ eram sete conselhos mesmo os que tinham uma responsabilidade, como por exemplo, o Conselho de Alimentação Escolar” (GME 02).

No que se refere à representação social, no espaço da educação municipal, é preciso que seja considerada a Lei Municipal Lei nº 3.211 de 14 de julho de 1999

que cria o SME e também a Lei nº 4.477, de 05 de janeiro de 2009 que dispõe sobre a estrutura administrativa da prefeitura municipal de Santa Rosa e que em seu bojo insere o SME. Em ambas as legislações apresenta-se a composição do CME/Santa Rosa que traz, no seu rol de membros, representações de 21 setores ou entidades da comunidade local e do poder governamental (conforme apresentado no Quadro 13, p. 146). Esta ampla representação situa o CME/SR como um dos maiores conselhos municipais do Estado do RS, pois, conforme Werle (2006) a maioria dos CME gaúchos (em torno de 60%) têm nove membros, sendo que não somam 20% os municípios cujos colegiados educacionais municipais são compostos por mais de 10 componentes, ainda observa que 8,75% possuem 12 membros e apenas 6,25% dos CME são compostos por mais de15 membros.

Ainda que a representatividade de diferentes organismos, tanto da sociedade civil quando da sociedade política, se fazem presentes na composição do CME a participação dos professores municipais neste processo foi percebida de modo muito tímido. É o que pensa o Presidente do CME 01 quando manifesta que “os grupos representados no CME possuem grande representatividade, envolvendo setores da sociedade em geral (sindicatos, Sistema S) e do campo da educação (professores, estudantes, pais, IES, escola especiais). Os grupos necessários estavam envolvidos, [mas] talvez pudesse ter maior participação dos professores e gestores, ampliando a participação destes, o que fortaleceria o papel da Escola no SME” (PRESID 01). O Presidente do CME 02 também pondera que quanto aos “grupos de interesse participantes no processo de produção da política de educação municipal, a maioria era ligada a pessoas que atuavam no ramo educacional... Era uma representação equilibrada, oriunda de vários setores da comunidade”. Entretanto, ao analisar a participação dos profissionais de educação este sujeito afirma que “apenas foi dado espaço aos representantes das categorias”. Seguindo a mesma linha de raciocínio, o Presidente do CME 01 conclui que “o espaço de participação dos profissionais da educação ocorreu mediante sua representação no CME. O envolvimento dos professores não foi muito significativo. Poucos foram os momentos de envolvimento dos professores” (PRESID 01).

A garantia de ampla composição do CME/SR, definida em lei, não sinaliza que de fato a representação se faça sentir de modo contundente e comprometido,

pois, ainda que os professores tenham assento junto ao órgão colegiado educacional pouco se envolvem com os processos de formulação das políticas e na discussão das mesmas, o que se efetiva particularmente no âmbito deste colegiado.

A tarefa de organização das políticas públicas não pode ficar restrita apenas a participação dos sujeitos nos Conselhos Municipais sendo necessário que se adotem outros meios que possam favorecer a ampla participação de todos os envolvidos no processo de pensar e na execução das políticas locais. Assim, os “conselhos não podem ser considerados como únicos condutos de participação política e nem exemplos modelares de uma sociedade civil organizada” (DEGENNSZAJH, 2000, p.67) uma vez que esta é apenas mais uma das formas que o movimento social conseguiu conquistar, mas que precisa ser acompanhada e avaliada com atenção sendo necessário também que seja combinada com outras modalidades de organização e mediação política (DEGENNSZAJH, 2000).

Em outras situações pontuais de definição das políticas educacionais o grupo dos professores municipais pode participar mais ativamente. Esses espaços de abertura à participação dos docentes decorrem de ações empreendidas pelos gestores políticos do Sistema de Ensino que, ligados a Secretaria Municipal de Educação e Juventude, fazem o chamamento para que os docentes se manifestem frente às situações específicas de estudos em momentos singulares, como o caso do Plano Municipal de Educação, discutido amplamente com a sociedade civil e governo em 2004 – e que viria a ser consagrado através de um Diploma Normativo formatado, na instância administrativa/política e configurado na Lei Municipal nº 4.246, de 3 de janeiro de 2007. A participação dos professores no processo de discussão dos rumos da educação santa-rosense, efetivada neste momento, foi destacada pelo Gestor Municipal Educacional 02 que assim assinala: “a SMEJ conduziu a elaboração do PME. Quem participou forte aqui foram a UNIJUÍ que é uma das Universidades e a FEMA, mas foram basicamente os professores da rede. O Estado teve uma pequena representação também, mas fortemente foram os professores municipais” (GME 02). Este mesmo gestor também assegura que no processo de definição das políticas a comunidade se fez presente quando “para definir quais eram as ações, basicamente nós ouvíamos a comunidade. Se ouviu bastante a comunidade de uma forma geral” (GME 02). Neste Período de Consolidação do SME a gestão municipal

promoveu diversas audiências públicas para tratar de temas ligados ao ensino municipal sendo que, nestas audiências as comunidades escolares se fizeram representar, através dos Círculos de Pais e Mestres (CPM), dos grupos de gestores das unidades escolares e seus professores, de funcionários e alunos. Também o CME e a própria SMEJ se envolviam nestas discussões com vistas ao planejamento das ações educacionais.

Em paralelo à influência dos grupos articulados por meio do CME também a ação da Câmara Municipal de Vereadores é destacada, como grupo de fomento às ações promovidas no âmbito do SME. O Gestor Municipal 02 salienta que “dentre as influências locais de ações, principalmente da câmara a partir de seus vereadores, que é o espaço de atuação dos partidos políticos e esses espaços [...] foram ocupados dentro do conselho de educação para defender bandeiras locais”. As inferências da Câmara Municipal de Vereadores serão ressaltadas adiante, quando da discussão acerca dos partidos políticos e das ideologias dentro do contexto das influências na delimitação das políticas municipais. Contudo, nas reflexões deste gestor é possível antever o raio de ação do parlamento municipal que através de suas pressões, dos interesses particulares de grupos representados politicamente também agem na definição das orientações da política educacional. Em especial isto se observa na fala do GME 02 quando este considera que “a interferência da câmara com as demandas locais, cada vereador trazendo estas considerações e de uma forma ou de outra a gente acaba ouvindo também”.

A conjuntura local com sua organização educacional, através do Sistema Municipal de Educação, torna-se referência para outros contextos municipais, ou seja, ações planejadas e implementadas de modo pioneiro em Santa Rosa constituíram-se em modelo para municípios da Região, pois, como relembra o GME 02 “eu fui presidente do CONSEME que congrega o conjunto de secretários da região e éramos nós e Horizontina que tínhamos SME... o SME é ótimo porque permite olhar mais de perto a realidade que recém tinha se implantado. Os outros municípios também olhavam o que estávamos fazendo e olham até hoje, porque a cidade de Santa Rosa é uma das maiores da região. Havia as questões partidárias de algumas prefeituras da região que tinham interesse em implantar e vinham até nós para saber como isto funcionava”. Assim

o reflexo das ações locais ecoa, num conjunto de ações regionais, quando a pretensão de criação do SME nos municípios vizinhos também se firma como necessidade de atendimento às orientações na legislação nacional.

Ainda que, no local, sejam firmadas ações com vistas à maior autonomia, diálogo e participação, estas situações se espelham também em atenção às demandas expressas nacionalmente. É o que destaca o GME 03, quando, no Período de Consolidação do SME vê uma articulação muito forte entre o local e o nacional: “parte do local esta nossa disposição [para o] diálogo e o fortalecimento do SME, mas nós temos sim o respaldo da política federal também que nos proporciona muitas vezes, inclusive, a formação para órgãos como CME, escolas e SMEJ”.

Neste sentido, o cenário nacional, com suas orientações, contribuições e imposições passa a ser percebido, dentro do contexto de influências, pela possibilidade de articulação com o local, na definição e implementação das políticas públicas.

5.2 Influências Nacionais e seus Desdobramentos no Trato das Políticas

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