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2. A CONJUNÇÃO DIALÓGICA ENTRE TEXTO, IMAGEM, AUTOR E RECETOR

3.6 Práticas de afirmação do valor da ilustração

3.7.3 O ensino da leitura da imagem (os elementos da linguagem visual)

Uma das práticas da aprendizagem da leitura, enquanto função primária do ensino, é o uso de livros ilustrados. Geralmente a criança usa a ilustração para encontrar o texto. Dessa forma, está a ler imagens antes de saber ler um texto, particularmente em livros com um forte caráter pedagógico, como livros didáticos de objetos: a uma representação de uma maçã corresponde o desenho das letras da palavra maçã.

Ao sugestionar a formação de uma história a partir da observação das ilustrações num álbum narrativo, a leitura da imagem torna-se, então, parte da estratégia com a finalidade principal de saber ler. O álbum narrativo é muito rico e as crianças, primeiras leitoras, necessitam de ajuda para lerem, particularmente porque os estimula de variadas e , por vezes, surpreendentes maneiras. Observam com extrema atenção

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todos os detalhes, surpreendendo-nos com as suas observações. A ironia é de que ensinamos as crianças a ler, a partir de álbuns narrativos e depois elas são encorajadas a concentrarem-se no texto, afastando-se das imagens (ibid., p.118). Crianças que são excelentes leitoras de imagens podem ser, de alguma forma, limitadas pela concentração no texto, especialmente se, a partir do momento que tomam consciência do seu significado, observam a imagem demasiado condicionadas pelo texto. Mas a observação é também um ato de memória. Burmark apresenta estudos que evidenciam que é mais fácil memorizar imagens do que frases. Ficam retidas na nossa memória de longo prazo (Burmark, 2008). Deste modo, é expectável que a relação da criança com as ilustrações se altere ao longo dos anos em que pode revisitá-las na memória ou na releitura dos livros em função do conhecimento que tenha dos códigos que vai adquirindo e lhe permitem reenquadrar a informação contida na imagem. Assim, torna-se necessário dotar as crianças com capacidades de leitura elementos da própria imagem, que constituem a sua gramática específica.

Para ajudar a proporcionar uma resposta estética dos alunos às ilustrações dos álbuns narrativos Kiefer (1993) propõe partir-se de um princípio de existência de quatro semelhanças entre arte verbal e visual.

Primeiro, ambas as linguagens verbais e visuais são constituídas por uma diversidade de elementos que escritores e ilustradores podem usar para comunicar conteúdo aos seus leitores. Em segundo lugar, artes verbais e visuais têm propriedades sintáticas e semânticas. Em terceiro, quer os escritores, quer os ilustradores artistas podem compor a sua linguagem particular baseada em certos princípios. Quarto, as escolhas

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intencionais e arbitrárias, relativamente a esses elementos e princípios, determinam o que se designa de estilo particular do autor.

O álbum narrativo surge assim como instrumento de trabalho essencial para se ser visualmente literato, para se compreender o sentido das imagens.

Mas como orientar o ensino de literacia visual a partir do álbum narrativo para crianças?

Na linguagem textual, o leitor utiliza o texto para analisar a mensagem, descodificando o significado de letras, palavras ou regras gramaticais. A descodificação do entendimento das imagens decorre da análise das pistas visuais que a constituem. Assim, os diversos elementos visuais contribuem para o significado do todo. A aquisição correta de literacia visual implica compreender o significado e constituintes da imagem, conhecer os seus elementos visuais básicos (Matulka, 2008, p.142), isto é, os elementos do desenho e da pintura, a sua gramática visual. A importância da necessidade de compreender as partes para bem interpretar o todo será, porventura, o princípio pedagógico base das diferentes formas de conhecimento e a importância da sua aplicação ao estudo da imagem gráfica que está bem sintetizada nas palavras de Dondis (1991):

Rudolf Arnheim é o autor de uma obra brilhante na qual aplicou grande parte da teoria da Gestal, desenvolvida por Wertheimer, Köhler e Koffka à interpretação das artes visuais. Arnheim explora não apenas o funcionamento da perceção, mas também a qualidade das unidades visuais individuais e as estratégias de sua unificação em um todo final e completo. Em todos os estímulos visuais e em todos os níveis da inteligência visual, o significado pode encontrar-se não apenas nos dados representacionais, na informação ambiental e nos símbolos, inclusive a linguagem, mas também

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nas forças compositivas que existem ou coexistem com a expressão factual e visual. Qualquer acontecimento visual é uma forma com conteúdo, mas o conteúdo é extremamente influenciado pela importância das partes constitutivas, como a cor, o tom, a textura, a dimensão, a proporção e suas relações compositivas com o significado. (Dondis,1991 p.21)

Os álbuns narrativos são fonte de reconhecimento dos elementos do desenho como a linha, a cor, a mancha, a composição. Para essa avaliação dos elementos visuais no livro, a criança deve aprender a distinguir entre realidade e ficção (irreal), a importância do detalhe na construção do todo, as características plásticas e expressivas de cada técnica de representação, compreender o conceito geral, a mensagem, que são sugeridos pela imagem (Lacy, 1986, p.2). Este processo inicia-se a partir das unidades de significação da imagem, tal como nos sugere Dondis (1991):

Para começar a responder a essas perguntas é preciso examinar os componentes individuais do processo visual em sua forma mais simples. A caixa de ferramentas de todas as comunicações visuais são os elementos básicos, a fonte compositiva de todo tipo de materiais e me nsagens visuais, além de objetos com experiências: O Ponto, a unidade visual mínima, o indicador e marcador de espaço; a linha, o articulador fluido e incansável da forma, seja na soltura vacilante do esboço seja na rigidez de um projeto técnico; alarma, as formas básicas, o círculo, o quadrado, o triângulo e todas as suas infinitas variações, combinações, permutações de pianos e dimensões; a direção, o impulso de movimento que incorpora e reflete o caráter das formas básicas, circulares, diagonais, perpendiculares; o tom, a presença ou a ausência de luz, através da qual enxergamos; a cor, a contraparte do tom com o acréscimo do componente cromático, o elemento visual mais expressivo e emocional; a textura, ótica ou tátil, o caráter de

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superfície dos materiais visuais; a escala ou proporção, a medida e o tamanho relativo; a dimensão e o movimento, ambos implícitos e expressos com a mesma frequência. São esses os elementos visuais; a partir deles obtemos matéria-prima para todos os níveis de inteligência visual, e é a partir deles que se planejam e expressam todas as variedades de manifestações visuais, objetos, ambientes e experiências.

Os elementos visuais são manipulados com ênfase cambiável pelas técnicas de comunicação visual, numa resposta direta ao caráter do que está sendo concebido e ao objetivo da mensagem. (Dondis, 1991)

É a compreensão da existência e características destes elementos visuais que pode servir de base para o ensino da literacia visual e correspondentes práticas de interpretação da imagem. Assim, o álbum narrativo assume-se como instrumento importantíssimo para se encontrar práticas de ensino que sejam acessíveis aos seus leitores. A criança encontra nos álbuns narrativos forma de colocar em prática o reconhecimento dos elementos do desenho como a linha, a cor, a mancha, composição. Para essa avaliação dos elementos visuais no livro, a criança deve aprender a distinguir entre realidade e ficção (irreal), a importância do detalhe na construção do todo, as características plásticas e expressivas de cada técnica de representação (Lacy, 1986, p.2). Deste modo, poderá compreender o conceito geral, a mensagem, do que é sugerido pela imagem.