2. Pragmática e leitura: identificação de um construto teórico
2.4. O ensino de leitura e os documentos oficiais
Uma abordagem pragmática da língua permite problematizar o papel que as
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realização das funções comunicativas. São essas normas que regem as seleções feitas por um
interlocutor no momento em que participa de um intercâmbio comunicativo (BRIZ GOMEZ,
1998).
Ao observar a linguagem sob esta ótica, a identificação dos contextos relevantes
como elementos fundamentais neste processo faz parte da atividade de reconhecimento para a
identificação das relações estabelecidas entre os interlocutores de uma mensagem. A
conscientização pragmática se estabelece com o próprio reconhecimento da existência de um
nível além do léxico-gramatical, ligado à percepção das diferenças sócio-culturais,
desenvolvendo, assim, a percepção da forma-função e dos traços contextuais relevantes
(PONS BORDERÍA, 2005).
A análise de documentos oficiais que fornecem orientações a professores e
gestores acadêmicos no que tange à organização do conteúdo a ser ministrado no ensino
médio de escolas brasileiras faz parte deste trabalho. Foram considerados os Parâmetros
Curriculares Nacionais – PCN (Brasil, 1997), os Parâmetros Curriculares Nacionais + Ensino Médio - PCN+ (Brasil, 2002), as Orientações Curriculares para o Ensino Médio – OCEM (Brasil, 2008) e também a Lei de Diretrizes e Bases da Educação - LDB (Brasil, 1996).
Buscou-se observar o enfoque dado ao ensino de línguas estrangeiras no contexto escolar e
identificar o papel da compreensão leitora dentro de tais orientações oficiais.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Brasil, 1996), no capítulo que
regulamenta a oferta do ensino de língua estrangeira no currículo do ensino médio, estebelece
que
será incluída uma língua estrangeira moderna, como disciplina obrigatória, escolhida pela comunidade escolar, e uma segunda, em caráter optativo, dentro das disponibilidades da instituição. (BRASIL, 1996: Capítulo II, Seção IV, Art. 36)
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Como a publicação desta Lei apenas regulamenta a obrigatoriedade da oferta da
disciplina, os Parâmetros Curriculares Nacionais, doravante PCNs, documento produzido pelo
Ministério da Educação, assumiram o papel discursivo de mormatizar o ensino e dar
orientações para a implementação da disciplina dentro do currículo acadêmico.
Em favor do enunciador ser o Estado Brasileiro, o caráter político do documento
fica destacado. Os PCNs conferem uma especial atenção ao processo de formação do
indivíduo, que deve encontrar, no aprendizado de uma língua estrangeira, condições para
aprimoramento pessoal, além de propiciar sua integração em um mundo globalizado.
Conforme as informações contidas no documento, o foco do ensino deve estar mais no
significado e na relevância da atividade do que no estudo do sistema da língua envolvida,
embora este não deva ser descartado.
O distanciamento proporcionado pelo envolvimento do aluno no uso de uma língua diferente o ajuda a aumentar sua autopercepção como ser humano e cidadão. Ao entender o outro e sua alteridade pela aprendizagem de uma língua estrangeira, ele aprende mais sobre si mesmo e sobre um mundo plural, marcado por valores culturais diferentes e maneiras diversas de organização política e social. A aprendizagem de uma lÌngua estrangeira deve garantir ao aluno seu engajamento discursivo, ou seja, a capacidade de se envolver e envolver outros no discurso. Isso pode ser viabilizado em sala de aula por meio de atividades pedagógicas centradas na constituição do aluno como ser discursivo, ou seja, sua construção como sujeito do discurso via língua estrangeira. (BRASIL, 1997, p. 19)
Nos PCNs, as diretrizes gerais e orientadoras da proposta curricular estão
fundamentadas nas quatro premissas abordadas pela UNESCO: aprender a conhecer, aprender
a fazer, aprender a viver e aprender a ser, destacando que a formação geral assume uma
prioridade em detrimento de uma formação pautada na organização sistêmica do idioma.
Conceitos como contextualização e interdisciplinaridade passam a ser centrais neste
documento, orientando que os conteúdos ministrados apresentem uma relação direta com
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Ainda que a proposta tenha como objetivo principal provocar reflexões sobre a
importância do ensino de língua estrangeira na educação básica, os PCNs não determinam o
conteúdo a ser apresentado aos estudantes ao longo de sua formação. O documento estabelece
princípios metodológicos gerais referentes ao ensino de línguas estrangeiras e desenvolve um
discurso crítico em relação às aulas pautadas na descrição sistêmica da língua, que trabalha
sobretudo sob uma perspectiva metodológica comportamentalista (behaviorista).
Complementando este documento, o Governo Federal, através do Ministério de
Educação, produziu um material específico para orientar as práticas pedagógicas do Ensino
Médio no Brasil: os PCN + Ensino Médio (BRASIL, 2002). A orientação enfatiza o ensino da
disciplina de língua estrangeira no ensino médio propondo “que o foco do aprendizado deve centrar-se na função comunicativa, por excelência, visando prioritariamente a leitura e a
compreensão de textos orais e escritos” (BRASIL, 2002, p. 94) e governo federal justifica o
seu posicionamento a partir da apresentação de diversos fatores, tais como o número reduzido
de aulas destinadas ao ensino de língua estrangeira e a heterogeneidade dos estudantes
integrantes de cada grupo.
No que concerne à da leitura, o documento postula que o professor utilize em sala
de aula um material diversificado, tais como “textos publicitários, jornalísticos, narrativos, dissertativos, poéticos, literários, científicos” (BRASIL, 2002, p. 106), proporcionando ao educando o acesso aos diversos gêneros textuais. O PCN se coloca como promotor de uma
educação linguística, alterando a visão de língua enquanto código, para um conceito de língua
enquanto prática social, como fenômeno de interação social e como atividade demandante de
produção de sentidos entre interlocutores sócio-histórico e diacronicamente situados.
Desta forma, este documento propõe uma mudança no papel do aluno-leitor,
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tornar um leitor de textos em geral. O texto propõe que este sujeito-leitor passe da condição
de decodificador para a de agente produtor de sentido de textos reais.
A aprendizagem de uma língua estrangeira deve garantir ao aluno seu engajamento discursivo, ou seja, a capacidade de se envolver e envolver outros no discurso. Isso pode ser viabilizado em sala de aula por meio de atividades pedagógicas centradas na constituição do aluno como ser discursivo, ou seja, sua construção como sujeito do discurso via Língua Estrangeira. Essa construção passa pelo envolvimento do aluno com os processos sociais de criar significados por intermédio da utilização de uma língua estrangeira. (...) É importante garantir ao aluno uma experiência singular de construção de significado pelo domínio de uma base discursiva, que poderá ser ampliada quando se fizer necessário em sua vida futura ou quando as condições existentes nas escolas o permitirem. Entende-se por base discursiva o domínio da capacidade que possibilita as pessoas se comunicarem umas com as outras por meio do texto escrito ou oral (BRASIL, 2002, p. 19-20 ).
Por último, as Orientações Curriculares para o Ensino Médio (BRASIL, 2006),
doravante OCEM, outro documento com orientações metodológicas, foram elaboradas a partir
de uma discussão entre equipes técnicas dos Sistemas Estaduais de Educação, professores e
alunos da rede pública, além de representantes da comunidade acadêmica, configurando um
documento oficial que fornece reflexões sobre o ensino de língua estrangeira na realidade
brasileira, conferindo especial atenção ao ensino de leitura.
Nesse documento, dois capítulos são dedicados às línguas estrangeiras: o primeiro
deles direcionado à língua estrangeira em geral, e o segundo voltado especificamente para o
ensino de espanhol como língua estrangeira no Ensino Médio. A referência ocorre “em virtude da sanção da Lei 11.161, de 05/08/2005, que torna obrigatória a oferta de língua
espanhola, em horário regular, nas escolas públicas e privadas brasileiras que atuam nesse
nível de ensino” (OCEM, 2006, p. 128), legitimando assim o lugar do espanhol no universo
da educação básica brasileira. Seguindo a tendência dos documentos anteriores, as OCEM
sinalizam os rumos que esse ensino deve seguir, instaurando um discurso regulador com
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A posição política do documento defende, sobretudo, o desenvolvimento da leitura
crítica nos alunos do ensino médio brasileiro e, em relação ao ensino da língua estrangeira, as
OCEM (Brasil, 2006) argumentam que:
ao entendermos que a função maior da língua estrangeira no contexto escolar é contribuir para a formação do cidadão, é preciso determinar, também, o papel que os professores efetivamente nele exercem. (...) Os professores são agentes - juntos com os estudantes – da construção dos saberes que levam um indivíduo a „estar no
mundo‟ de forma ativa, reflexiva e crítica (BRASIL, 2006, p. 146).
Os documentos oficiais propõem práticas pedagógicas que levam o educando a
estabelecer uma relação dialógica com o conhecimento, se colocando como promotor do
processo de atribuição de sentido e de construção do conhecimento. Esses documentos
dialogam com as Ciências da Linguagem na perspectiva pragmática do discurso, identificando
não só a concepção de língua que subjaz a cada uma das propostas, mas também a forma
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