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– PósGraduação em Letras Neolatinas

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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Faculdade de Letras

Comissão de Pós-Graduação e Pesquisa

ESTRATÉGIAS METACOGNITIVAS E

A COMPREENSÃO LEITORA EM LÍNGUA ESTRANGEIRA: UM ESTUDO DE CASO NO ENSINO MÉDIO BRASILEIRO

Wagner Eduardo Rodrigues Belo

Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Doutor em Letras Neolatinas.

Orientadora: Profa. Doutora Maria Aurora Consuelo Alfaro Lagorio

Rio de Janeiro

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ESTRATÉGIAS METACOGNITIVAS E

A COMPREENSÃO LEITORA EM LÍNGUA ESTRANGEIRA: UM ESTUDO DE CASO NO ENSINO MÉDIO BRASILEIRO

Wagner Eduardo Rodrigues Belo

Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Doutor em Letras Neolatinas.

Orientadora: Profa. Doutora Maria Aurora Consuelo Alfaro Lagorio

Rio de Janeiro

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BELO, Wagner Eduardo Rodrigues.

Estratégias metacognitivas e a compreensão leitora em língua estrangeira: um estudo de caso no ensino médio brasileiro / Wagner Eduardo Rodrigues Belo – Rio de Janeiro: UFRJ / Faculdade de Letras, 2014.

163 f.

Orientadora: Maria Aurora Consuelo Alfaro Lagorio.

Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas, 2014.

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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Faculdade de Letras

Comissão de Pós-Graduação e Pesquisa

ESTRATÉGIAS METACOGNITIVAS E

A COMPREENSÃO LEITORA EM LÍNGUA ESTRANGEIRA: UM ESTUDO DE CASO NO ENSINO MÉDIO BRASILEIRO

Wagner Eduardo Rodrigues Belo

Orientadora: Maria Aurora Consuelo Alfaro Lagorio

Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Doutor em Letras Neolatinas.

Aprovado em:

________________________________________________________________ Profa. Dra. Maria Aurora Consuelo Alfaro Lagorio – Orientadora

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

________________________________________________________________ Profa. Dra. Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

________________________________________________________________ Prof. Dr. Antonio Francisco de Andrade Júnior

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

________________________________________________________________ Profa. Dra. Cristina de Souza Vergnano Junger

Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ

________________________________________________________________ Profa. Dra. Talita de Assis Barreto

Universidade Federal Fluminense – UFF/UERJ/PUC-Rio

________________________________________________________________ Profa. Dra. Sônia Cristina Reis - Suplente

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

________________________________________________________________ Profa. Dra. Viviane Conceição Antunes Lima - Suplente

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Agradecimentos

Agradeço, inicialmente, à Professora Consuelo Alfaro por todo tempo que dedicou ao

acompanhamento e orientação deste trabalho. Sem sua habitual generosidade abrindo sua casa

para me receber, inclusive durante finais de semanas e feriados, não conseguiria concluir esta

Tese.

Agradeço também a todos os Professores que tive ao longo deste Programa de Doutorado.

Devo a cada um deles o meu incremento acadêmico e a percepção dos impactos desta

formação na minha vida profissional e pessoal.

À Sonia Cristina Reis, coordenadora do Programa de Pós Graduação em Letras Neolatinas,

pela forma sempre cordial que me atendeu nos momentos em que precisei, e não foram

poucos, e à Mercedes Sebold, por sempre me receber com seu costumeiro sorriso estampado

em seu rosto. O contato com estas duas Professoras me fez sentir confortado e esperançoso

para superar as dificuldades enfrentadas.

À Cristina Vergnano e, novamente, a Mercedes Sebold, pelas preciosas considerações feitas

no exame de qualificação prévio à conclusão deste trabalho. Depois daquele momento, passei

a entender com mais propriedade os impactos deste estudo e a forma de conduzi-lo.

Aos membros da banca deste trabalho, por aceitarem participar desta discussão, ajudando-me

a problematizar o ensino de leitura na realidade de nossas escolas, sobretudo as financiadas

(7)

Aos meus colegas de trabalho no núcleo de língua do câmpus Juiz de Fora, por sempre

acreditarem na minha força de trabalho e por entenderem as minhas constantes limitações de

tempo.

À Livia Soares Xavier, minha secretária na Assessoria de Relações Internacionais do

IFSudesteMG. Sem tua competência, conciliar a produção deste trabalho com minha atividade

profissional seria impossível.

À Yael Sherer, Juan Esteban Saldarriaga Fernández, Elsa Mabillard, Sarah Lia Monteiro,

Holly Eustance, Santiago Abel, Irina Viliaieva e David Sandoval, estagiários internacionais

que tive ao longo deste ano no “Centro de Línguas do IFSudesteMG”, os quais me deram

mais instrumentos para repensar o lugar da leitura no ensino de línguas estrangeiras.

Aos meus queridos alunos do IFSudesteMG – Campus Juiz de Fora, que me propuseram

questionamentos necessários para que eu buscasse condições para entender o que acontecia

dentro de nossos encontros semanais em sala de aula.

À Flávia de Almeida Monteiro, por esta amizade de tantos anos que, apesar da distância, só

aumenta com o tempo; à Júlia Barreto, por sempre me fazer lembrar dos maravilhosos

momentos que vivi em minha graduação; à Flávia Martins, por me reintroduzir à vida carioca

e aos muitos amigos que tenho, que sempre estiveram presentes em minha vida.

Por último, e não menos importante, a todos os cinco integrantes da família Ferreira Romeiro

(Ida, Davi, Julieta, Juliana e Thiago). Estar junto destas pessoas me motiva, me oxigena, me

(8)

Resumo

Trata-se de um estudo sobre a atividade de compreensão leitora em estudantes de espanhol como língua estrangeira de uma escola pública do estado de Minas Gerais. São observados os processos ativados pelos educandos durante a atividade leitora em língua estrangeira, buscando levantar hipóteses sobre as etapas, as relações cognitivas estabelecidas e as maneiras encontradas pelos sujeitos para conseguir atribuir sentido aos textos propostos. Busca-se identificar as crenças dos estudantes sobre a realização da atividade de leitura em língua estrangeira, bem como verificar se tais suposições se concretizam durante a realização da atividade, além de buscar identificar os processos cognitivos adotados pelos sujeitos para a construção de sentido na leitura, identificando o grau de consciência dos educandos na manipulação das estratégias de leitura a fim de otimizar a atividade realizada. O conceito de língua adotado está pautado na observação pragmática do discurso, seguido por uma reflexão sobre a concepção interacionista de leitura, pelas contribuições da metacognição aplicadas ao desenvolvimento da compreensão leitora e por algumas considerações relacionadas ao ensino de leitura. Foi possível identificar que os sujeitos investigados reconheceram a complexidade que envolve a atividade de compreensão leitora e que, ao longo de sua realização, eles precisaram ativar uma série de associações significativas para estabelecer as conexões necessárias para a atribuição de sentido na leitura. Eles demonstraram se envolver reflexivamente com o texto, estabelecendo relações com outras temáticas e conexões com diversas áreas do conhecimento, permitindo identificar o comportamento dos investigados no que concerne o processamento da leitura e a forma como o padrão apresentado se relaciona com as questões sociais relacionadas a nossa sociedade contemporânea.

(9)

Abstract

The thesis is a study on the activity of reading comprehension of students of Spanish as a foreign language in a public school in the state of Minas Gerais. Procedures activated by students during the reading activity in a foreign language will be observed, seeking hypotheses about the steps taken, the cognitive relations established and found ways to get the subjects to ascribe meaning to the texts read. Seeks to identify students ' beliefs about performing the activity of reading in a foreign language, and verify that such assumptions are realized during the implementation of the activity, and seek to identify the cognitive processes used by individuals to the construction of meaning in reading identifying the degree of awareness of the students in the manipulation of reading strategies in order to optimize the activity performed. The concept of language adopted is founded on the pragmatic observation of speech, followed by a reflection on the interactionist conception of reading, by the contributions of metacognition applied to the development of reading comprehension and some considerations related to teaching reading. It is possible to identify that the subjects investigated acknowledged the complexity that involves the activity of reading comprehension and that , throughout its realization , they needed to achieve a number of significant associations to establish the necessary connections for the attribution of meaning in reading. Moreover, they demonstrate engage reflexively with the text, establishing relationships with other themes and connections with various areas of knowledge, and to identify the behavior of the investigated regarding the processing of reading and how the pattern shown relates to social issues related to our contemporary society.

(10)

Resumen

La tesis es un estudio sobre la actividad de comprensión lectora en estudiantes de español como lengua extranjera en una escuela pública en el estado de Minas Gerais. Se observan los procedimientos activados por los estudiantes durante la actividad de lectura en el idioma extranjero, buscando establecer hipótesis sobre las etapas por las que pasan, las relaciones cognitivas establecidas y las maneras encontradas por los sujetos para atribuir significado a los textos propuestos. Se trata de identificar las creencias de los estudiantes sobre la realización de la actividad de lectura en lengua extranjera, de verificar que tales supuestos se realizan durante la ejecución de la actividad, y tratar de identificar los procesos cognitivos utilizados por los individuos para la construcción de sentido. El concepto de lengua adoptado se basa en la observación pragmática del discurso, seguido de una reflexión sobre la concepción interaccionista de lectura, con las aportaciones de la metacognición aplicada al desarrollo de la comprensión lectora y algunas consideraciones relacionadas a la enseñanza de la lectura. Se identifica que los sujetos investigados reconocieron la complejidad que implica la actividad de comprensión lectora y que necesitan establecer una serie de asociaciones significativas en la atribución de significado en la lectura. Los sujetos demostraron involucrarse reflexivamente con el texto, estableciendo relaciones con otras temáticas y conexiones con diversas áreas del conocimiento, permitiéndonos identificar el comportamiento de los investigados en lo que se refiere al procesamiento de la lectura y en la forma como el modelo identificado se relaciona con las cuestiones sociales relacionadas con nuestra sociedad contemporánea.

(11)

SUMÁRIO

1. Introdução ... 16

2. Pragmática e leitura: identificação de um construto teórico ... 19

2. 1. A perspectiva pragmática ... 20

2.1.1. A construção de sentido ... 21

2.1.2. As Máximas de Grice e a Teoria da Relevância ... 24

2.1.3. Atos de Fala ... 29

2.1.4. A cortesia linguística ... 31

2.1.5. A dêixis ... 32

2.1.6. Categorizações pragmáticas ... 33

2.2. A compreensão leitora e a perspectiva interacionista ... 36

2.3. Estratégias metacognitivas ... 46

2.3.1. Os fundamentos da metacognição ... 47

2.3.2. O modelo conceitual da metacognição ... 53

2.4. O ensino de leitura e os documentos oficiais ... 60

3. Do problema à ação: o problema de pesquisa, as hipóteses e a discussão dos dados... 66

3.1. Formalização do estudo desenvolvido ... 66

3.1.1. Problema, hipóteses e objetivos ... 67

3.1.2. Metodologia ... 69

3.1.3. Sujeitos da pesquisa ... 77

3.1.4. Procedimentos metodológicos ... 78

3.2. Análise e discussão dos dados ... 81

3.2.1. Observação das crenças dos sujeitos ... 82

3.2.2. Análise e discussão das atividades realizadas... 92

3.2.2.1. Variáveis cognitivas ... 94

3.2.2.2. Ações de outras naturezas ... 115

4. Relação entre as hipóteses, as crenças e as conclusões preliminares encontradas ... 129

5. Referências Consultadas ... 135

(12)

Lista de Tabelas

Tabela 1: Matriz de questionário da metacognição de F1 ... 73

Tabela 2: Matriz de questionário da metacognição de F2 ...75

Tabela 3: Categorias linguísticas utilizadas nos Testes ...76

Tabela 4: Incidência de respostas no formulário de crenças ...82

Tabela 5: Incidência da variável de Pessoa em F1 ...84

Tabela 6: Incidência da variável de Tarefa em F1 ...84

Tabela 7: Incidência da variável de Estratégia em F1 ...85

Tabela 8: : Frequência de respostas no eixo de Controle ...86

Tabela 9: Incidência da variável de Planejamento em F1 ...87

Tabela 10: Incidência da variável de Supervisão em F1 ...88

Tabela 11: Incidência da variável de Avaliação em F1 ...88

Tabela 12: Crenças sobre uso das atividades cognitivas ...90

(13)

Lista de Figuras

Figura 1. Estratégias metacognitivas e subestratégias ...52

(14)

Convenções de transcrição utilizadas no Protocolo Verbal

Situação Convenção

Qualquer pausa ...

Hipótese do que se ouviu (hipótese) Incompreensão de palavras ou

segmentos

( )

Comentários do transcritor ((ruído)) Truncamento, interrupção

discursiva

/(ex.: a meni/ a menina vai fazer ...; o menino/ a menina vai fazer...

Alongamento de vocal e consoante (como r, s)

: ou :: (se for muito longo)

Interrogação ?

Entonação enfática Maiúsculas (Ex.: ela quer UMA

solução, não qualquer solução)

Silabação - - (Ex.: Eu estou

pro-fun-da-men-te chateada)

Discurso direto “ ”

Superposição, simultaneidade de vozes

(15)
(16)

16

1. Introdução

Paulo Freire (1983, p. 12), em uma de suas célebres frases, afirma que “a leitura

do mundo precede a leitura da palavra”. Este autor, ao fazer tal menção propõe uma discussão

da definição do termo leitura sugerindo que o vocábulo representa percepções que vão além

da simples decodificação sistêmica de um idioma. O autor defende que ler significa

compreender a realidade que nos cerca, não apenas pelas palavras, mas também através de

imagens, objetos, pessoas, gestos.

A identificação do ato de ler como uma “atividade perceptiva” do leitor traz

inúmeras implicações para a natureza desta atividade. Ela faz com que o sujeito estabeleça

uma relação distinta com o texto e se insira em um jogo discursivo em que são colocados em

cena o lugar deste sujeito no mundo e a relação estabelecida com o outro e com o meio. Ler,

nesta ótica, não é decodificar ou alternar um código linguístico por outro, nem mesmo

relacionar leitor e texto. Ler é interpretar. É estabelecer uma relação dialógica com o texto de

forma a atribuir um sentido a uma mensagem.

O ato de leitura e o acesso à escrita na sociedade contemporânea são

extremamente valorizados. Através deles que os sujeitos adquirem competências necessárias

para estabelecer uma relação entre o “eu” e o “outro”, fazendo que a leitura seja vista como

instrumento transformador, permitindo que uma informação veiculada na sociedade

(17)

17

necessário um movimento ativo e deliberado por parte do leitor para permitir que as

informações veiculadas passem a ser dotadas de sentido e, assim, sejam agregadas ao universo

significativo dos sujeitos.

Assim, como a leitura é identificada em um espaço de complexidade conceitual, o

processamento da leitura também desperta argumentos que englobam a inter-relação entre o

processo de atribuição de sentido na compreensão leitora e os mecanismos cognitivos

ativados pelos sujeitos para que se consiga estabelecer um resultado concreto de

ressignificação para o texto.

Um dos grandes desafios enfrentados é entender como ocorre o processo de

atribuição de sentido em uma mensagem e que tipo de mecanismos são significativamente

relevantes durante as ações desenvolvidas por leitores. Neste sentido, as estratégias

metacognitivas desempenham um papel relevante ao longo da compreensão leitora, pois é

através delas que o leitor tem condições de manipular a informação a fim de processar os

dados vinculados no texto de forma consciente, buscando as melhores estratégias para

estabelecer relações com as informações que possam ser traduzidas em um significado para o

texto.

Para dar conta de problematizar e discutir as questões acima mencionadas, o

presente estudo se fundamenta dentro de um conceito de língua pautado na observação

pragmática do discurso. Nesta corrente, a observação dos elementos reguladores no discurso

não se inscreve apenas na estrutura sistêmica da língua. A pragmática considera que os

elementos sociais, culturais, linguísticos e identitários atuam no processo de formulação de

uma mensagem e o leitor, ao se deparar com um texto, precisa ser consciente da

multiplicidade informativa ali contida, para que assim possa explorar suas possibilidades

(18)

18

Considerando as questões colocadas, o presente estudo se propõe analisar os

processos ativados por sujeitos ao longo de atividade de compreensão leitora em língua

estrangeira a fim de buscar compreender as estratégias adotadas no processo de construção de

sentidos. O trabalho toma como referência a observação do ato de leitura, tentando identificar

as escolhas processuais dos sujeitos e as estratégias metacognitivas aplicadas à leitura.

Uma das questões centrais formuladas por este trabalho coloca o foco no papel

que a metacognição desempenha em todo este processo. De um lado, a pesquisa busca saber

se as estratégias metacognitivas fazem parte do conjunto de processos na construção de

sentidos na atividade leitora e, de outro, se é possível estabelecer uma relação qualitativa entre

essas estratégias e a produção de sentidos.

Através da observação e monitoramento da atividade de compreensão leitora de

estudantes de espanhol como língua estrangeira em uma escola pública do estado de Minas

Gerais, este estudo pretende levantar hipóteses sobre as etapas percorridas, sobre as relações

cognitivas estabelecidas e as maneiras encontradas por estes sujeitos para conseguir atribuir

sentido aos textos lidos.

Busca-se identificar as crenças desses sujeitos sobre a atividade de leitura em

língua estrangeira e verificar os mecanismos de processamento adotados pelos sujeitos.

Espera-se também reconhecer os processos cognitivos adotados e verificar se a realização

desses procedimentos ocorre de forma consciente, ou não. Diante dessas informações,

espera-se coletar dados que permitam estabelecer um perfil comportamental dos envolvidos diante da

atividade de compreensão leitora em língua estrangeira, fornecendo elementos para

caracterizar tal prática pelo grupo envolvido.

(19)

19

2.Pragmática e leitura: identificação de um construto teórico

O universo da compreensão leitora é amplo e complexo e pode ser visto desde

distintas óticas. Para que se estabeleça uma definição apropriada de como a leitura é

reconhecida neste estudo, faz-se necessária a definição de pilares teóricos que permitam o

desenvolvimento das considerações feitas.

O objeto deste estudo se estabelece na interface entre a pragmática e a

metacognição aplicadas ao processo de compreensão leitora em textos em espanhol como

língua estrangeira. Assumem-se o modelo interativo de leitura proposto por Solé (2009) e de

metacognição (Portilho, 2009) para derivar conclusões que possam ser interessantes para as

áreas envolvidas.

O capítulo que se segue está organizado da seguinte forma: primeiro, aborda-se a

perspectiva pragmática como fundamentação basilar do conceito de língua adotado neste

estudo, em seguida, estabelece uma interface com o modelo interativo de leitura. A terceira e

a quarta seção são destinadas à apresentação de estratégias metacognitivas como elementos

promotores e facilitadores da atribuição de sentidos na leitura e, por último, é feita uma breve

discussão de como os documentos oficiais abordam as questões de leitura dentro do universo

escolar brasileiro.

O objetivo desta primeira parte é construir uma fundamentação teórica condizente

com a natureza do estudo que segue, buscando problematizar as questões que estão

(20)

20

2.1. A perspectiva pragmática

Segundo Levinson (2007), a pragmática é a área dos estudos linguísticos que

centra sua observação na linguagem em contexto de uso na comunicação. O autor defende que

a interpretação de um enunciado não se constrói apenas baseada na informação linguística

disponível, através da semântica proposicional ou frásica, e sim a partir da ativação de um

conjunto de informações paralinguísticas, não linguísticas e contextuais que interferem e

condicionam a produção e interpretação de cada enunciado em um contexto discursivo e

situacional. O mesmo autor acrescenta que a pragmática “é o estudo da linguagem a partir de

uma perspectiva funcional, que tenta explicar as facetas da estrutura linguística por referência

a pressões e causas não linguísticas” (LEVINSON, 2007, p.8). Configura-se, portanto, como o

estudo da língua em oposição ao estudo do sistema da língua.

O primeiro registro do conceito de pragmática foi identificado na proposta de

Morris (1938), quando buscava esboçar a forma geral de uma ciência dos signos, ou seja, a

semiótica. Nesse estudo, ele identificou três distintos níveis de investigação: a sintaxe, a

semântica e a pragmática (ESCANDELL VIDAL, 2003). Para essa teoria, a sintaxe aborda a

relação formal entre um signo e outro; a semântica se relaciona com os vínculos estabelecidos

entre os signos e os objetos aos quais eles se referem; e a pragmática está diretamente

relacionada aos signos e seus respectivos intérpretes. De acordo com Portolés (2007, p. 21),

esta primeira proposta não gerou implicações no desenvolvimento dos estudos linguísticos

que abordam de forma explícita o uso da língua.

Ainda segundo Portolés (2007, p.22), na década de 1960, Fillmore, Lakoff,

McCawley e Ross buscaram desenvolver a semântica gerativa, a partir da nova gramática

gerativa, e tentaram resolver os problemas decorrentes do significado através de explicações

(21)

21

fundador da escola gerativista, Noam Chomsky, contestou os fundamentos da semântica

gerativista e defendeu que muitas das questões que se buscavam explicar através dos

argumentos apresentados não se sustentavam. A pragmática ainda não estava desenvolvida,

visto que questões despertadas pela semiótica não tinham sido problematizadas e elucidadas.

Na década de 70, os linguistas, cujo foco era o estudo do uso da língua, passaram

a buscar condições de delimitar uma base teórica que sustentasse as investigações. Desde uma

perspectiva contemporânea, a pragmática não é vista como um componente da linguística

teórica (fonologia, morfologia, sintaxe, semântica), nem como integrante das áreas que

relacionam a linguagem com a realidade extralinguística como a psicolinguística, a

sociolinguística ou a neurolinguística, mas constitui uma perspectiva de estudo que pode se

ocupar de qualquer uma dessas disciplinas para estabelecer as relações existentes entre os

símbolos e seus intérpretes (LEVINSON, 2007, p. 2).

A abordagem adquire uma característica interdisciplinar e suas reflexões não se

pautam em fundamentações provenientes de uma única corrente teórica, e sim a partir de um

quadro em que muitas disciplinas, tais como a filosofia, a sociologia, a antropologia e a

psicologia, fornecem instrumentos para se problematizar as questões levantadas. Assim,

dentro dos estudos linguísticos, ela segue sendo vista como uma das perspectivas que

constituem o tripé da semiótica, proposto por Morris em 1938, juntamente com a sintaxe e a

semântica (LEVINSON, 2007, p. 5-6). A pragmática está estabelecida e reconhecida como

uma disciplina de natureza empírica, que inclui em suas análises fatores sociais, psicológicos,

culturais.

2.1.1. A construção de sentido

A perspectiva adotada por este trabalho considera que a construção de sentido se

(22)

22

marcas identitárias, sociais, culturais e linguísticas no momento da emissão de um enunciado,

ou durante o processamento da informação, e que todas as informações produzidas expressam

uma intencionalidade comunicativa (LEVINSON, 2007).

Na leitura de um texto ou na compreensão de um enunciado, a informação

fornecida ao interlocutor não é ativada apenas a partir do significado denotativo das sentenças

e da organização sistêmica de um idioma, mas é empenhado um esforço cognitivo para que as

informações codificadas adquiram um sentido e sejam “otimamente1” processadas pelo

interlocutor (SPERBER; WILSON, 1995).

Nesta esfera de construção do significado, encontramos a posição de um

enunciador2 de uma mensagem que transmite uma informação a um possível interlocutor e,

através do jogo comunicativo estabelecido entre eles, é empenhada uma série de ações, dentre

elas a inferência, de forma consciente ou não, que permitem que o sentido seja estabelecido

entre os envolvidos no ato comunicativo.

O enunciador constrói a informação baseado em sua intencionalidade de inserção

de um dado novo, ou do reforço de uma ideia já compartilhada, inscrita em um contexto e

referente ao seu conhecimento de mundo, de modo que o interlocutor possa estabelecer uma

série de inferências sobre a problemática destacada na situação. As inferências são construídas

pelas suposições não demonstrativas e auxiliam o interlocutor no processo de construção do

sentido do enunciado. Elas supõem a formação, confirmação ou refutação de hipóteses,

fazendo que o dado novo, no ato comunicativo, estabeleça uma série de relações com as

informações preexistentes, permitindo que a informação recebida adquira um sentido

específico, resultado de um complexo processo de negociação de sentido do interlocutor com

a mensagem.

1

Conceito utilizado na Teoria da Relevância, de Sperber e Wilson (1995), que será desenvolvido nas próximas páginas.

(23)

23

Assim, a construção de sentido está relacionada a um empenho cognitivo que

permite construir hipóteses, produzindo efeitos interpretativos que têm como base as

suposições “delineadas por aspectos dependentes do contexto na interpretação das elocuções,

codificadas linguisticamente, com intenções não decodificadas, mas inferidas” (NUNES,

2012, p, 30). A questão principal considerada pela pragmática é a identificação dos fatores

que intervém decisivamente no uso da língua no que tange à construção de sentido no

espectro da comunicação humana e que são necessários no momento de atribuição de sentido

na atividade de compreensão leitora. A análise do processo de atribuição de sentido é bastante

complexo pois pode ser vista por distintas óticas.

A situação de comunicação permite observar: os interlocutores envolvidos, os

objetivos de cada intercâmbio comunicativo, os hábitos sociais relacionados com o uso da

linguagem e o conjunto de conhecimentos e crenças relacionado com o contexto de uso. Essas

observações fazem da pragmática um campo múltiplo, diverso e complexo, que em muitas

situações estrutura suas argumentações com contribuições teóricas advindas de diversas áreas

do conhecimento.

Uma das grandes dificuldades enfrentadas na observação da linguagem em uso é a

construção ou recuperação do sentido de um texto. Pensar uma observação que atente para

aspectos pragmáticos no discurso é, também, problematizar a construção do sentido com

elementos que vão além das informações relacionadas aos significados estáveis da linguagem.

Nesta perspectiva, o significado é construído de forma dinâmica, tanto relacionado com a

intencionalidade informativa empregada pelo interlocutor, dentro das limitações impostas

pelo contexto de propagação daquela informação, quanto pela maneira que o interlocutor

percebe a informação e atribui significado a partir do repertório disponível em seu universo

(24)

24

Em uma observação pragmática, a comunicação se estabelece através de

enunciados que têm significados complexos, codificados pelos emissores e ressignificados

pelos interlocutores durante o ato comunicativo, destacando a linguagem não como a

correlação de elementos que encontram na língua um signo com significado fixo e invariável,

mas sim instrumentos flexíveis de circulação de informações, que são moldados por diversas

variáveis que servirão para dar suporte à atribuição de sentidos (LEVINSON, 2007).

Uma das preocupações de uma perspectiva pragmática do discurso é buscar

explicar e reconhecer os princípios reguladores da comunicação e como o sentido se

estabelece. Desta forma, a problematização do contexto apresenta-se como um elemento

relevante à compreensão das formas adotadas para se estruturar o texto e, também, como

suporte a fim de se explicar a estrutura da linguagem em uso e os recursos utilizados para

atribuição de sentido.

2.1.2. As Máximas de Grice (2000) e a Teoria da Relevância

No processo de construção de sentido de um texto compartilhado pelos

interlocutores, estabelece-se uma série de implicaturas3 sobre a informação compartilhada

que, segundo Grice (2000), estão intimamente relacionadas com a condição de verdade de um

texto.

O sentido não se estabelece em relação de dependência com o significado

dicionarizado e convencional de palavras isoladas, e sim relaciona-se a pressupostos

comunicativos que inserem a situação de comunicação dentro de contextos definidos e

regidos por princípios gerais, socialmente marcados, os quais regulam a comunicação.

3

(25)

25

A Teoria da Relevância (SPERBER; WILSON, 1995), doravante TR, defende que

os fatores extralinguísticos que auxiliam o processamento de informações em situações

comunicativas reais são os principais pressupostos para a construção de sentido na

comunicação humana e são reconhecidos por alguns autores (PONS BORDERÍA, 2004)

como uma forma coerente de explicar o processo comunicativo.

Sperber e Wilson (1995) sustentam que, para se compor sentidos, não só os

conhecimentos compartilhados, relacionados ao conhecimento sistêmico da língua, são

relevantes, mas também os princípios comunicativos compartilhados entre os envolvidos. Isso

se dá porque os interlocutores precisarão ativar uma série de informações e recuperar dados

de distintas naturezas para a construção de sentido em uma mensagem.

A TR se propõe a explicar como ocorre o processamento de informações. Os

autores defendem que a comunicação humana se estabelece em dois distintos eixos: o

primeiro está baseado na codificação e decodificação de enunciados; o segundo em um jogo

dialógico estabelecido pela ostensão, executada pelo interlocutor de uma mensagem, e pela

inferência, realizada pelo receptor (SPERBER; WILSON, 1995).

Neste contexto, a ostensão é entendida como uma atitude motivada pelo

enunciador de uma mensagem que deixa explícita a intenção de comunicar algo e faz com que

um interlocutor de uma mensagem perceba sua intenção e chegue a uma informação relevante

da mesma. Já a inferência é compreendida, como o resultado de um processo dedutivo

executado pelo receptor de uma mensagem, que pode ocorrer de forma consciente ou

inconsciente, que este utiliza para realizar o trabalho interpretativo, gerando suposições e

conclusões que se adequem à situação estabelecida.

A TR é um modelo de comunicação e cognição humana que se propõe a

problematizar a forma pela qual a informação é representada e inferencialmente processada

(26)

26

básicos: o lógico e o cognitivo. O princípio lógico estrutura-se nos moldes da lógica formal

para a construção das hipóteses interpretativas, formulando-as e confirmando-as, quando

possível, ou formulando-as e refutando-as, quando não se adequam ao estabelecido.

O princípio cognitivo fundamenta-se na psicologia cognitiva, que vê o processo

do raciocínio humano não como uma estrutura, mas como algo dinâmico e ligado a fatores

externos como atenção, memória e representação conceitual, que são fundamentais para o

processamento de deduções. De acordo com Sperber e Wilson (1995), a seleção contextual é

guiada pela busca da relevância no processamento da informação. Se os efeitos contextuais

forem alcançados com o mínimo de esforço, então a informação terá sido “otimamente4

processada.

O modelo inferencial adotado na TR não foi uma construção nova, mas um

resultado de reflexões inicialmente propostas por Paul Grice em 1975 (GRICE, 2000), por

meio do Princípio de Cooperação. Este autor fundamenta sua teoria na ideia básica de buscar

explicar como é possível comunicar além do que realmente está expresso em um texto e

sustenta que as lacunas existentes entre o que é dito e o que realmente se comunica em um

texto são estabelecidas a partir da ativação das inferências feitas pelos interlocutores, em um

trabalho cooperativo entre os envolvidos.

Para Grice (2000), a inferência pode ser entendida como um processo pelo qual se

pode chegar a conclusões (generalizações) a partir de premissas inscritas contextualmente e

funciona como instrumento essencial para que, no ato comunicativo, informações sejam

transmitidas sem a necessidade de que sejam sempre apresentadas explicitamente na situação.

Esses processos se consolidam tanto a partir das representações sistêmicas da língua como

também através das informações do tipo não linguísticas, estabelecendo uma teoria que tenta

problematizar o uso da língua e do conceito de implicaturas conversacionais como elementos

(27)

27

de natureza pragmática, e não semântica, a fim de consolidar a natureza cooperativa da

interação verbal.

Este autor também sugere que existe um conjunto de suposições mais amplas que

guiam a interação, os quais surgem de considerações racionais básicas que podem ser

formuladas como diretrizes para o uso eficiente e eficaz da língua para fins cooperativos. Ele

identifica como elementos intrínsecos quatro categorias denominadas de Máximas, “também

entendidas como princípios gerais subjacentes ao uso cooperativo da língua, que, juntos,

expressam um princípio cooperativo geral” (GRICE, 2000, p. 527).

A primeira dessas “Máximas” é a de quantidade, que sugere que a contribuição

seja tão informativa quanto necessária. Logo, a quantidade de informação apresentada não

deve ser maior que a necessária para o ato comunicativo e o exposto deve ser tão relevante

quanto for exigido pela situação. A segunda das “Máximas” é a de qualidade. Pressupõe-se

que a condição de verdade esteja presente na contribuição feita e que as informações

apresentadas possam ser comprovadas.

A terceira é a de relação, que postula que o interlocutor faça contribuições

verdadeiramente relevantes para o ato, incluindo informações que contribuam para o

estabelecimento do vínculo entre os envolvidos. Por fim, a quarta das Máximas de Grice é a

de modo. Nesta, o autor especifica a necessidade de o interlocutor de uma mensagem ser claro

em suas intervenções, evitar a ambiguidade, ser breve e apresentar as informações de forma

organizada.

A problematização da utilização das máximas na construção de um texto torna-se

fundamental para saber que informação enunciada foi disponibilizada na quantidade

considerada ideal, dentro do que é ponderado como verdade pelo enunciador e com

contribuições claras e verdadeiras. Da mesma forma, o interlocutor precisa reconhecer tais

(28)

28

intencionalidade comunicativa, refletindo na atribuição de efeitos de sentido para a leitura do

texto.

Todo este complexo jogo discursivo se inscreve no processo enunciativo ativado

pelos interlocutores no momento da produção de sentido durante a leitura de textos. Sem isto,

grande parte das informações transmitidas através dos recursos pragmáticos disponíveis na

língua não poderiam ser despertados durante a leitura e as informações codificadas no texto

não seriam percebidas como relevantes pelos envolvidos na situação.

Assim, retomando a Teoria da Relevância, Sperber e Wilson (1995) a constroem a

partir de um modelo ostensivo-inferencial, baseados na categoria griceana de relação, com a

máxima “seja relevante”, defendendo que esta característica é uma propriedade psicológica do

homem que faz com que os indivíduos, diante de um ato comunicativo, concentrem suas

atenções apenas nos fenômenos ou nas informações que sejam a eles relevantes.

A Teoria da Relevância, ainda que fortemente inspirada no modelo griceano das

Máximas (também relacionado ao conceito de implicaturas conversacionais), critica a falta de

explicações de como se estabelecem as deduções no modelo proposto e defende a não

obrigatoriedade da execução de todas as máximas, descritas por Grice, na construção de

sentido.

Desta forma, tendo como fundamentação o modelo já descrito, Sperber e Wilson

construíram o Princípio da Relevância nos seguintes termos: “todo ato de comunicação

ostensiva comunica a presunção de sua relevância ótima” (1995, p. 158). A premissa da

relevância ótima enfatiza que, antes da atenção destacada na recepção da mensagem, está a

intenção do interlocutor, que transmite uma informação que considera relevante a ser

processada.

Essa fundamentação se torna importante para o processo de atribuição de sentido

(29)

29

precisam ser percebidas pelo interlocutor como significativamente relevantes, empenhando

um esforço cognitivo para atribuir sentido ao estímulo recebido. Assim, fatores alheios à

organização sistêmica do idioma, tais como os de natureza pragmática, passam a representar

um papel de destaque neste processo, pois através deles é que informações contextuais,

socioculturais e discursivas encontram espaço para se consolidar como elementos integantes

do processo.

2.1.3. Os Atos de Fala

Dentre os muitos aspectos que podem ser discutidos dentro de uma perspectiva

pragmática do discurso, dois deles apresentam contribuições para a natureza da observação

que está sendo conduzida neste trabalho. São os atos de fala e a cortesia linguística. Estes

itens estabelecem uma conexão direta com ensino/aprendizagem de línguas estrangeiras e que

são relevantes na atribuição de sentido ao longo da atividade de compreensão leitora.

Através da identificação destes elementos, o leitor consolida uma relação

dialógica com o texto, percebendo a forma como a mensagem é transmitida, a partir dos

elementos discursivos, e também evidencia o tipo de relação e distância social estabelecida

entre os envolvidos no ato comunicativo.

Sobre esta questão , Escandell Vidal (2005, p. 187-188) afirma que

(30)

30

Os atos de fala (AUSTIN, 2003) e, posteriormente, a interação verbal

(KERBRAT-ORECCHIONI, 2005) são vistos como unidades básicas da comunicação. A

denominação “atos de fala” evidencia uma propriedade essencial da comunicação, ao afirmar

que o ato de se comunicar é a realização de uma atividade e, desta forma, cada enunciado

realiza um tipo específico de ação.

Searle (1979), que seguiu problematizando as questões colocadas por Austin,

elucida que comunicar não é o ato de informar. É também o ato de saudar, de convidar, de

aconselhar, de se desculpar, ou seja, é o ato de desenvolver práticas sociais. Cada uma dessas

situações envolve uma intenção distinta. Este autor classifica os diferentes tipos de ação em

cinco categorias básicas:

a. representativos, que comprometem o falante com a verdade da proposição expressa (casos paradigmáticos: afirmar, concluir, etc);

b. diretivas, que são tentativas do falante de fazer com que o destinatário faça algo (casos paradigmáticos: pedir, perguntar);

c. comissivas, que comprometem o falante com algum curso de ação futura (casos paradigmáticos: prometer, ameaçar, oferecer);

d. expressivas, que expressam um estado psicológico (casos paradigmáticos: agradecer, desculpar-se, dar as boas-vindas, parabenizar);

e. declarações, que resultam em mudanças imediatas no seu estado institucional de coisas e que tendem a se valer de instituições extralinguísticas complexas (casos paradigmáticos: excomungar, declarar guerra, batizar, demitir do emprego). (SEARLE, 1979, p. 455-456)

Embora os atos de fala sejam considerados unidades básicas de comunicação e de

ação, sua estrutura não se constitui obrigatoriamente de um padrão oracional simples. Na

grande maioria dos casos, os atos de fala são constituídos de estruturas linguisticamente

complexas que podem ser dividas em três partes: o núcleo do ato de fala, os recursos

apelativos e os apoios, que seriam, respectivamente, a mensagem que se pretende expressar,

os elementos que servem para chamar a atenção do destinatário e as sequências que

modificam o impacto da ação.

O reconhecimento dessa complexa estrutura, a qual envolve a comunicação,

torna-se relevante para o processo de atribuição de sentido em língua estrangeira, pois fornece

(31)

31

processo de leitura de textos em línguas estrangeiras, precisam ser recuperados de forma que

o leitor tenha consciência da atividade que está sendo empenhada naquela situação.

Assim, os elementos reguladores de uma língua passam a ser vistos dentro de uma

ótica de uso que considera tanto os elementos internos estruturantes do idioma (conhecimento

sistêmico), como também os fatores extralinguísticos que exercem influência na estruturação

da informação.

2.1.4. A cortesia linguística

Ainda acerca das informações codificadas dentro de uma forte relação

semântico-pragmática, com aspectos socialmente marcados, a cortesia linguística se apresenta como uma

categoria relevante no processo de atribuição de sentidos.

A cortesia se preocupa com a transmissão e com a forma de percepção da

informação pelo interlocutor de uma mensagem, buscando meio de não comprometer uma

relação social existente entre os envolvidos no ato comunicativo e o estabelecimento da

manutenção de uma boa relação entre eles. Desta forma, a discussão dos princípios da

comunicação humana assume um papel estratégico para se problematizar os dados culturais

que determinam a forma das interações sociais vigentes dentro de um determinado universo

de construção e transmissão da mensagem.

Uma observação que destaque as contribuições da cortesia para se explicar os

fatores extralinguísticos – os quais apresentam aportes relevantes na construção do sentido de

uma mensagem - precisa considerar tanto os aspectos formais da língua, como também as

informações contextuais extralinguísticas para se identificar os múltiplos fatores que agregam

(32)

32

Nesta área do conhecimento, estudos como os desenvolvidos por Brown e

Levinson (2006), Escandell Vidal (1999), Briz Gomez (2009) e Haverkate (1994) são

fundamentais para entender os múltiplos aspectos envolvidos na noção de distância social, e

para verificar a maneira pela qual fatores como hierarquia social e grau de intimidade

existente entre os envolvidos em um ato comunicativo podem influenciar a estruturação de

uma mensagem.

A compreensão destes fatores como elementos inerentes à estrutura da língua

aporta uma série de explicações que destacam a relação destes com o processo de atribuição

de sentido em uma mensagem e, como a falta da percepção destes fatores pode comprometer

a transmissão ou a percepção de uma informação pelos interlocutores.

Deve-se aos estudos de cortesia linguística a explicação de como a relação

existente entre os interlocutores, ou o grau de hierarquia estabelecido entre eles, agrega

informações relevantes para a construção do sentido em um texto. Além disso, a cortesia

linguística dá conta de explicar fenômenos tais como a ironia, em que se reconhece que a

mensagem transmitida é exatamente oposta àquela que está sendo dita.

2.1.5. A dêixis

A dêixis é outra categoria diretamente associada com uma observação através da

perspectiva pragmática do discurso e também estabelece uma interface com os aspectos

formais de um idioma. Dentro dos estudos pragmáticos, ela (a dêixis) apresenta-se como um

aspecto indiscutivelmente pragmático, já que sua função primordial é “codificar a relação

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33

A dêixis apresenta-se como um recurso discursivo fundamental na estruturação de

uma informação linguística e pode ser de distintas naturezas, sendo relacionada tanto a uma

pessoa, a um lugar ou a um tempo, quanto referente às relações sociais entre os envolvidos.

Segundo Reyes (2000, p. 124), as três primeiras (pessoa, lugar ou tempo) são mais

facilmente percebidas e a atribuição de sentidos pelos interlocutores torna-se menos

complexa, pois podem ser mensuradas por elementos linguísticos concretos. Já a dêixis cuja

referencia são as relações sociais, ela se utiliza de fatores socioculturais para sua construção, e

a recuperação de sentido depende de fatores externos, muitas vezes não mensuráveis pois são

socialmente marcados. A atribuição ou a recuperação do sentido, neste caso, depende de

fatores externos a questões linguísticas e os interlocutores precisam dispor de um

conhecimento socialmente compartilhado para conseguir estabelecer vínculo comunicativo

necessário.

A percepção dos elementos dêiticos assume um papel relevante na construção da

discursividade textual. É através dela que a coesão textual se constrói e as informações

veiculadas conseguem ser transmitidas de maneira compreensível entre os interlocutores.

Identificá-la e reconhecê-la como significativamente relevante e dotada de sentido aporta uma

importância no processo de compreensão leitora pois através dela é que o leitor percebe os

mecanismos de concretização da discursividade inerente à construção do texto.

2.1.6. Categorizações pragmáticas

Escandell Vidal (1999), ao observar os fenômenos linguísticos com base em uma

ótica pragmática, sugere um modelo de análise composto por duas classes de elementos,

considerados como essenciais para a observação do fenômeno da comunicação: os

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34

elementos concretos para a observação de fatores reguladores do discurso, os quais permitem

problematizar as diversas formas de se observar a linguagem considerando, as múltiplas

nuances decorrentes da análise de língua em uso. Os primeiros (material) se referem a

entidades objetivas e descritíveis externamente, enquanto os segundos (imaterial) se referem

aos diferentes tipos de relações que se estabelecem entre os primeiros.

Para a perspectiva adotada por este trabalho, a categorização proposta por

Escandell Vidal (1999) mostra-se relevante, uma vez que são utilizados na organização de um

texto por parte de um enunciador e necessários são no momento de atribuição de significado

por parte do interlocutor.

Nesta abordagem, os componentes de natureza material se constituem de quatro

elementos básicos presentes em qualquer intercâmbio comunicativo, a saber: o enunciador, o

interlocutor, a situação e o enunciado. Estes elementos se estabelecem através de uma

articulação dinâmica entre eles e representam as coordenadas essenciais do ato comunicativo

verbal.

Em um segundo plano, Escandell Vidal (1999) afirma que os elementos

imateriais, os quais também podem ser identificados como relacionais, representam as

relações que se estabelecem entre eles, dentre as quais pode-se citar a informação pragmática,

a intencionalidade comunicativa e a relação social existente entre os interlocutores.

Por informação pragmática compreende-se o conjunto de conhecimentos, crenças,

suposições, opiniões e sentimentos de um indivíduo no momento do estabelecimento da

interação verbal. Dik (1989, p. 410) sugere uma subdivisão da informação pragmática em três

subcomponentes, sendo o primeiro de caráter geral, o qual compreenderia o conhecimento de

mundo, de suas características naturais e culturais; o segundo, de caráter situacional, envolve

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35

contextual, envolve uma construção da significação linguística a partir da construção

dinâmica do discurso.

Ainda sobre os elementos imateriais, a intencionalidade é entendida como o

propósito ou meta que o enunciador busca estabelecer por meio de seu enunciado e pode ser

concebida como uma relação dinâmica entre o enunciador e a situação. Sobre este ponto,

Escandell Vidal (2003, p. 35) defende que “la intención funciona como un principio

regulador de la conducta, en el sentido de que conduce al hablante a utilizar los medios que

considere más idóneos para alcanzar sus fines”. Além disso, a intenção se apresenta decisiva

do ponto de vista do enunciador e da produção do enunciado, e também essencial para a ótica

do interlocutor e para materialização da interpretação, pois a identificação da intencionalidade

interlocutiva mostra-se como um elemento imprescindível para evitar o surgimento de mal

entendidos (Escandell Vidal, 2003).

O último elemento, referente aos imateriais, é a distância social entre os

interlocutores, ou seja, a relação existente entre eles, a qual exerce uma influência substancial

na construção da interação e no estabelecimento da comunicação. Há de se considerar que,

neste item, os padrões socioculturais vigentes em cada cultura funcionam como agentes

reguladores essenciais para se reconhecer os padrões vigentes.

Os elementos mencionados anteriormente se apresentam como instrumentos

básicos de todo ato comunicativo e o desafio da pragmática é reconhecer como eles

interagem entre si. Em muitos casos, a observação das relações estabelecidas entre eles

torna-se bastante complexa, pois os indivíduos, as situações, as relações sociais e as intenções são

de distintas naturezas. Faz-se necessário também considerar como os fatores externos a cada

um desses instrumentos agregam mais elementos, que precisam ser observados no momento

(36)

36

A partir desses pressupostos - relacionados ao significado contextual, ao Princípio

de Cooperação e à Teoria da Relevância, à noção de atos de fala, ao reconhecimento da

cortesia linguística e à dêixis - , a perspectiva pragmática na linguagem vem demonstrando

sua relevância para o ensino de línguas, tanto materna como também estrangeiras, pois

consegue elucidar fatores não discutidos em perspectivas cuja percepção de língua adotada a

considera de forma modular, alijada do contexto.

O presente estudo busca encontrar, na perspectiva pragmática, instrumentos

relevantes para problematizar o processo de construção de sentido através da leitura de textos

em línguas estrangeiras. Acredita-se que os pontos discutidos pela pragmática podem

provocar reflexões adequadas à maneira como se concebe a organização da mensagem, nesta

corrente teórica, e provocar reflexões pertinentes às questões envolvidas no processo de

ensino/aprendizagem de línguas estrangeiras.

Ao se apropriar desta corrente teórica para aportar fundamentações que sustentem

a discussão proposta, este trabalho propõe uma percepção dos fatores discursivos que

envolvem os atos enunciativos, incorporando à construção de sentido na leitura o caráter

discursivo da natureza da atividade, fazendo com que a leitura se insira dentro de um processo

complexo, regulado por elementos contextuais e socioculturalmente marcados, que estão

intimamente relacionados com a noção de intencionalidade comunicativa.

2.2. A compreensão leitora e a perspectiva interacionista

A atividade leitora no contexto educacional e a enorme dificuldade de fazer com que

essa prática assuma o seu papel formador de leitores constitui um tópico bastante debatido na

realidade nacional (BRASIL, 2001). Segundo Kleiman (2008), isto se deve, em parte, à

(37)

37

acordo com os documentos oficiais brasileiros (BRASIL, 2008, 2002 e 1997), o

desenvolvimento da habilidade leitora no ensino básico assume total relevância, pois, a partir

dela, são desenvolvidas as capacidades críticas dos estudantes e a forma como eles se

relacionarão com as informações disponíveis.

De acordo com Soares (2000), o desenvolvimento da habilidade leitora é fundamental

para a inserção do indivíduo na sociedade e funciona como instrumento basilar para muitas

formas sistematizadas de transmissão de conhecimento, incluindo as que ocorrem através do

sistema escolar. Soares afirma que a leitura é uma “forma de lazer e de prazer, de aquisição de

conhecimentos e de enriquecimento cultural, de ampliação das condições de convívio social e

de interação” (2000, p.19).

Estabelecer uma definição para o conceito de leitura não é uma tarefa fácil, mas seria

possível explicá-la através do processo de atribuição de sentido a um texto escrito, dentro de

marcas histórico-linguísticas e discursivas. Este processo de atribuição de sentido tem sido

foco de atenção de pesquisadores de diversas áreas, tais como a Psicolinguística,

Sociolinguística, Psicologia Cognitiva, Educação, e ganhando espaço na Linguística Aplicada.

A leitura é uma atividade complexa devido aos múltiplos processos cognitivos

utilizados pelo leitor ao construir o sentido de um texto, já que ela “não se dá linearmente, de

maneira cumulativa, em que a soma do significado das palavras constituiria o significado do

texto” (KLEIMAN, 2001). Para a autora, a leitura deve ser entendida como um processo ativo

e dinâmico, pois o “texto tem um potencial de evocar significado, mas não tem significado em

si mesmo” (KLEIMAN: 2002, p. 47).

Trabalhos relacionados com a problematização da atividade leitora no contexto escolar

têm sido objeto de investigação de muitos pesquisadores (KLEIMAN,2001; LEFFA, 1996),

os quais constataram que existe, neste ambiente, diversos modelos de ensino de leitura que

(38)

38

Dentre os modelos existentes, o modelo ascendente5 tem foco no texto e concentra as

atividades no reconhecimento dos signos linguísticos que compõem a língua. Segundo Leffa

(1996), este modelo se pauta nas informações contidas no próprio texto e isto contribui muito

pouco para a formação do leitor, já que não relaciona os conhecimentos prévios com o texto

em questão. Logo a atividade leitora se constrói em uma prática monológica em que o leitor

apenas decodifica a informação presente através de processos perceptivos e de compreensão

léxica. Para Kleiman (2008), a leitura nesta perspectiva se torna reducionista visto que se

constrói por uma participação completamente passiva do leitor, em que ele não tem a

possibilidade de agregar a sua subjetividade.

Em oposição ao modelo supracitado, o modelo descendente possibilita ao leitor

relacionar o texto aos conhecimentos adquiridos anteriormente, estabelecendo uma série de

hipóteses sobre a temática abordada, confirmando-as ou refutando-as, à medida que a leitura

se estende. Para Kleiman (2008), se trata de mais um modelo pautado em uma prática

monológica, em que o processamento do texto centra-se nas opiniões emitidas pelo leitor

apagando o caráter polissêmico, ideológico e dialógico dos signos linguísticos que compõem

o texto.

Este trabalho não se inscreve em um modelo ascendente, ou descente para a

leitura. Ele adota uma perspectiva interacionista, identificando o ato de ler como a capacidade

do leitor de processar os significados de um texto por meio de ações interativas, atribuindo

sentido aos enunciados com base em conhecimentos prévios, das experiências de vida e em

objetivos pessoais associados aos conhecimentos linguísticos disponíveis (SOLÉ, 2009).

Nesta linha de pensamento, a leitura é vista sob uma ótica interacionista, a qual

referencia as contribuições que o pensador russo Mikail Bakhtin (2003, 2004) elaborou sobre

a linguagem e seu caráter dialógico. Segundo o autor, no momento da atribuição de sentido à

(39)

39

leitura entra em cena o texto, com as informações construídas pelo autor, e o leitor, dotado das

experiências sócio-históricas e culturais que o constitui.

Moita Lopes (2001, p. 149) defende que a leitura em uma perspectiva interacionista

compreende um complexo fluxo de informações, já que para ele “o ato de ler envolve tanto as

informações impressas na página quanto a informação que o leitor traz para o texto”. Moita

Lopes (2001) acrescenta ainda que, nesta concepção, a leitura não se inscreve somente no

texto ou no leitor, mas que o processo de significação se estabelece pelo intercâmbio mútuo

dos conhecimentos do leitor, do autor e do texto.

Orlandi (2001) amplia o conceito que envolve o modelo interativo ao estabelecer a

leitura desde uma ótica discursiva. Para esta autora, no modelo interativo, o leitor, ao se

deparar com o texto e com o autor, com o objetivo de atingir o processo de significação por

meio da leitura, executa uma atividade dialógica e cooperativa com o texto, inter-relacionando

leitor, autor e texto no processo de construção de sentido.

Neste sentido, as reflexões tecidas por Orlandi (2001) também se sustentam em

Bakhtin (2003), pois este autor concebe a linguagem como parte da construção de uma

realidade dialógica em que as trocas discursivas entre o eu e o outro possibilitam a construção

de enunciados e enunciações os quais se estabelecem a partir da definição do ato interlocutivo

entre os sujeitos que se comunicam. No que tange à leitura interativa, Bakhtin (2004) discute

o processo de interação entre leitor, texto e autor, tal como a leitura interativa a concebe, e

destaca a relação de cooperação que precisa ser estabelecida através destes três elementos.

Orlandi (2001) aprofunda as reflexões inter-relacionadas com o modelo interativo ao

considerar a compreensão leitora como um processo discursivo, o qual não se limita ao

simples ato de decodificar um texto, mas implica um processo de construção de sentidos que

vai além de um posicionamento crítico do sujeito. Para a autora, o leitor, ao interagir com o

(40)

40

atividade dialógica, cooperativa que envolve atitudes responsivas ativas ao inter-relacionar

esses três elementos no processo de atribuição de sentido.

Bakhtin (2003, 2004) observa o fenômeno da leitura por uma perspectiva

interacionista e concentra sua reflexão na indissociabilidade entre a mensagem transmitida e

o contexto de veiculação da informação. Segundo o autor, é através dele que o significado é

gerado, pois a informação se constrói dos dados externos ao próprio texto. Segundo o teórico

russo, os conhecimentos extralinguísticos são capazes de aproximar o leitor do texto, visto

que se pode relacionar ao discurso lido os aspectos históricos e sociais tanto do indivíduo

como das condições de produção do texto.

De acordo com Marcuschi (2010), uma postura de cooperação mútua se torna

fundamental já que somente outra consciência pode compreender e atribuir sentido ao

enunciado de um interlocutor. Assim, para o leitor se tornar protagonista do processo de

compreensão leitora, é importante que ele aceite a contribuição alheia.

Nesta perspectiva, a leitura é entendida como o resultado de um processo interativo,

uma vez que são ativados e relacionados diversos conhecimentos do leitor durante a atividade.

Quando um leitor assume um estágio mais elevado de compreensão leitora, a interatividade

ocorre espontaneamente e, a cada nova leitura, ele consegue processar outros textos do

mesmo assunto, agregando mais informações àquelas já existentes em seu repertório

cognitivo.

Este enquadre serve como ponto de partida para consolidar o conceito de interpretação

textual adotado no presente estudo. O resultado deste processo é a interação de algumas

variáveis negociadas entre o texto e o leitor, juntamente com a expectativa para a leitura,

construindo assim o significado. Neste modelo, torna-se relevante que o leitor competente

saiba processar o texto em seus diferentes elementos, bem como manipular, com certa

(41)

41

Solé (2009, p.22) afirma que as leituras são moldadas dentro de marcas estruturais

definitórias e que os textos apresentam “possibilidades e limitações para transmissão de

informações”. A autora também acrescenta:

Para ler necessitamos, simultaneamente, manejar com destrezas as habilidades de decodificação e aportar ao texto nossos objetivos, ideias e experiências prévias; precisamos nos envolver num processo de previsão e inferência contínua, que se apoia na informação proporcionada pelo texto e na nossa própria bagagem, e em um processo que permita encontrar evidências ou rejeitar as previsões e inferências antes mencionadas. (SOLÉ, 2009, p. 23)

Um dos fatores que influenciam a relação entre leitor e texto é a definição do

objetivo para a leitura. Um indivíduo que lê para obter uma informação precisa estabelecer

um vínculo com o texto de natureza distinta se comparado a outro que possui diferentes

propostas leitoras, tais como seguir instruções, ou por prazer, ou para memorizar, ou para

proceder uma revisão, ou para proferir um discurso.

A partir da definição das metas para a atividade, as estratégias de leitura que

surgem têm a intenção de concretizar a ação inicialmente proposta e o leitor vai buscar, dentro

das possibilidades disponíveis em seu repertório cognitivo e metacognitivo, as formas de

concretizá-las. Uma vez determinado o propósito, estabelece-se uma série de hipóteses para a

leitura, o que se dá tanto a partir dos elementos linguísticos verbais presentes no texto, como

por elementos paratextuais e macrotextuais da tipologia textual.

Nesse primeiro momento de negociação entre leitor e texto, o conhecimento

prévio do leitor sobre o assunto tratado e as marcas tipológicas textuais utilizadas para

organizar a informação apresentada exercem um papel relevante na atividade. Quanto maior o

conhecimento compartilhado de que disponha o leitor sobre o tema, maior a probabilidade de

Imagem

Figura 1. Estratégias metacognitivas e subestratégias 9
Figura 2: Reestruturação do Modelo proposto por Portilho (2009)
Tabela 1: Matriz de questionário da metacognição de F1
Tabela 2: Matriz de questionário da metacognição de F2
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Referências

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