2.9 Perspectiva dos recursos
2.9.5 O Ensino Superior como um Sistema Complexo
Ghaffarzadegan, Larson e Hawley (2016) afirma que as complexidades da educação se dão ao longo de todo processo, do jardim de infância ao doutorado, listando sete principais fatores para que a educação seja considerada um sistema complexo:
1. A educação é um sistema interconectado representado muitas vezes por um pipeline que começa do jardim de infância e vai até o pós-doutorado. Assim, um baixo desempenho na escola afetará o desempenho de alguém no final do pipeline. Além disso, o desempenho das pessoas na escola não é apenas influenciado por seus próprios esforços, mas também pelos membros da família, colegas, professores, administradores escolares, projeto do curso, tecnologia, recursos financeiros e muitos outros fatores semelhantes.
2. A educação é um sistema dentro de outros sistemas, estando relacionada a outros grandes sistemas como a economia, a cultura, a sociedade e a política.
3. A educação depende da história. O sistema educacional não pode ser mudado da noite para o dia, operando em ciclos de tempo longos, onde muitas ações são irreversíveis. Os atrasos apresentados no sistema chegam a ser da ordem de décadas. As políticas implementadas quando as crianças estão na escola podem mostrar resultados anos depois de se formarem ou mesmo depois da faculdade. Já o impacto econômico dessas políticas pode precisar ainda de mais tempo para aparecer.
4. A educação é cercada por laços de feedback. Por exemplo, boas escolas formam bons alunos, alguns dos quais se tornam futuros professores. Bons professores criam melhores classes e treinam melhores alunos. O mesmo processo se dá de forma semelhante no ensino superior e na forma como os professores contribuem para melhorar as universidades e formar os estudantes de doutoramento. As universidades com melhores candidatos terão melhores alunos e melhores graduados, o que fortalecerá sua marca, atraindo melhores candidatos, professores, mais financiamento e mais oportunidades de pesquisa. Assim, prever o comportamento desses sistemas em resposta a intervenções políticas se torna difícil.
5. A educação funciona como um sistema não-linear. Os efeitos de muitas intervenções no sistema educativo não são proporcionais ao investimento, com
recursos sendo desperdiçados ao apresentarem efeitos muito pequenos. Sistemas não-lineares são difíceis de intuir.
6. A educação apresenta resistência a políticas e consequências não intencionais. Por exemplo, incentivos para atender a exigências mais altas de avaliações podem resultar em estratégias de ensino focada em testes de avaliação, trapaças ou outras condutas não desejadas para professores e alunos. Os estudantes, famílias, professores, administradores e quase todos os elementos humanos do sistema educacional podem reagir a mudanças externas. A educação é um tema tão sensível que, para qualquer ação, vemos uma reação de várias partes interessadas. 7. A educação sofre efeitos de assimetria de informação e racionalidade limitada. As pessoas não estão cientes de todas as informações que podem influenciar a sua escolha de uma escola, não tem a percepção de perspectivas de carreira diferentes existente e muitas vezes não conseguem ter uma visão analítica quando tomam decisões educacionais. Supor que as curvas de oferta e demanda simples governadas por tomadores de decisão racionais estão por trás de toda a dinâmica dos sistemas educacionais é muito simplista. Nossos contextos sociais, culturais e psicológicos desempenham papéis importantes na tomada de decisões relacionadas à educação.
Uma quantidade considerável de pesquisas tem sido realizada explorando a natureza complexa dos sistemas educacionais, representando um consenso nos aspectos promissores desta abordagem para a compreensão dos problemas que afetam a área. No entanto também é consenso que apenas recentemente os pesquisadores começaram a aplicar essas ferramentas para questões de política educacional, e ainda assim de forma muito incipiente (MAROULIS et al., 2010; GROFF, 2013; SNYDER, 2013; FURTADO; SAKOWSKI; TÓVOLLI, 2015).
Um dos principais desafios da pesquisa educacional é integrar insights sobre os processos em um nível micro com evidências sobre os resultados agregados em um nível macro que emergem desses processos. As técnicas de elementos de nível micro para estudar sistemas complexos podem complementar abordagens mais tradicionais à pesquisa em educação apresentando técnicas de visualização que facilitam a caracterização das redes de contexto social (MAROULIS et al., 2010).
Modelos de sistemas complexos são projetados para modelar mudanças e dinâmicas, especialmente mudanças qualitativas. Em um sistema social humano, esses tipos de mudanças são mediados pelos significados e valores atribuídos pelos atores, individual e coletivamente, às condições mais objetivamente definíveis de seus ambientes. Para construir modelos dinâmicos eficazes de instituições educacionais, precisamos saber não apenas o que as pessoas fazem, mas por que elas fazem isso, como elas podem imaginar que as coisas podem ser diferentes e o que elas realmente querem fazer. Mesmo que tais modelos de sistema não tenham uma capacidade preditiva detalhada, eles ainda podem ser úteis na identificação de possíveis alternativas, problemas potenciais e características qualitativas gerais do processo de mudança que podem não ser intuitivamente evidentes para uma lógica linear de causa e efeito (LEMKE; SABELLI, 2008).
Para Groff (2013), a ausência de uma quantidade expressiva de trabalhos abordando reformas educacionais se deve em grande parte à falta de familiaridade das pessoas com relação aos sistemas complexos e a aplicação do pensamento sistêmico. De acordo com ela, o maior potencial da aplicação de ferramentas de Dinâmica de Sistemas reside na capacidade de testar novas políticas e mudanças de sistema, ao invés de usar o sistema educacional atual como um banco de teste para políticas geradas através do pensamento linear humano. A partir de um modelo construído usando ferramentas de Dinâmica de Sistemas, pode-se planejar melhor as políticas e as mudanças no sistema, prevendo sua dinâmica. Apesar do método muitas vezes se demonstrar demorado e desafiador, ele oferece uma forma de se ganhar experiência com um sistema simulado, uma vez que as experimentações diretas no sistema real podem ser inviáveis (GROFF, 2013).
Jay Forrester, pai da metodologia de Dinâmica de Sistemas, afirmou que ao não incluírem nenhuma modelagem dinâmica dos efeitos a longo prazo, os governantes estão na verdade utilizando o país como um laboratório de experiências (FORRESTER, 1998).
Neste sentido, a metodologia e Dinâmica de Sistemas se posiciona como uma forma de auxiliar no planejamento de respostas para o tratamento dos sistemas complexos que constituem nosso ambiente, tratando das estruturas interconectadas através de diversos ciclos de realimentação e possibilitando identificar comportamentos não-lineares e contra intuitivos, onde não só os efeitos raramente são proporcionais às causas, mas muitas vezes estão localizados em pontos distantes no sistema (GROFF, 2013).