4 A PROFISSÃO, O CURSO DE CIÊNCIAS CONTÁBEIS E A AUDITORIA
4.3 O ENSINO SUPERIOR DA CONTABILIDADE EM SERGIPE
O ensino superior no Estado de Sergipe foi iniciado em 1920, vindo a funcionar em 1950 com a criação das Escolas de Ciências Econômicas e de Química; a Faculdade de Direito; e, a Faculdade Católica de Filosofia, em 1951. Diante da quantidade de escolas superiores foi possível instituir uma universidade no Estado. Foi no dia 11 de julho de 1963, através da Lei n. 1.194 que se criou a Fundação Universidade Federal de Sergipe.
Em 28 de fevereiro de 1967 foi instituída a Fundação Universidade Federal de Sergipe, através do Decreto-Lei n. 269, e instalada em 15 de maio de 1968, com a incorporação de seis escolas superiores ou faculdades que ministravam dez cursos administrados por cinco faculdades e cinco institutos. Em decorrência da Reforma Universitária Brasileira, foram criados quatro centros acadêmicos que coordenam atualmente 26 departamentos 103 cursos. Seu corpo discente evoluiu de 638, no ano de sua criação, para 10.375 até 2010. (CRUZ, 2012, p. 39).
O curso de Ciências Contábeis, foi autorizado pela Lei estadual nº 73, de 12 de novembro de 1948 e autorizado a funcionar pelo Decreto Federal nº 27.019, de 8 de agosto de 1949, sob a diretriz da antiga “Faculdade de Ciências Econômicas de Sergipe”, uma instituição mantida pelo governo do Estado de Sergipe. Os/As alunos/as que concluíssem o curso obtinham o diploma de nível superior em Ciências Contábeis.
Com a criação, pela Universidade Federal de Sergipe16, do curso de Administração, a Faculdade de Ciências Econômicas passou a ser Faculdade de Ciências Econômicas e
16A Universidade Federal de Sergipe (UFS) foi a principal instituição de ensino superior de Sergipe com unidades administrativas e acadêmicas funcionando, inicialmente, na Cidade Universitária “Prof. José Aloísio de Campos”
Administrativas com a divisão em dois departamentos: Departamento de Economia e Departamento de Administração e Ciências Contábeis. Logo após, houve a extinção da Faculdade com o surgimento do Centro de Ciências Sociais Aplicadas – CCSA, para o qual foram integrados os Departamentos de Administração e Ciências Contábeis, surgindo também os Centros Acadêmicos.
Em 1968, houve a incorporação da Faculdade de Ciências Econômicas com a instituição da Universidade Federal de Sergipe, agregando o quadro funcional e de professores, através da Portaria nº 117, de 16 de dezembro de 1968, assinada pelo Magnífico Reitor, Dr. João Cardoso Nascimento Júnior. Fato que revigorou o funcionamento do Curso de Ciências Contábeis, cujo primeiro vestibular veio a ocorrer no ano de 1971. O Departamento de Ciências Contábeis passou a ter personalidade própria, a partir de 9 de janeiro de 1990, através a Resolução nº 1º/1990/Consu, pela qual o Conselho Universitário autorizou a formação de Departamentos para o funcionamento dos Cursos de Administração e Ciências Contábeis. O curso de Ciências Contábeis da UFS foi estruturado com o objetivo de oferecer aprendizado na área da Contabilidade, visando a formar bacharéis em Ciências Contábeis para atuar nas áreas de auditoria, perícia contábil, assessoria contábil, consultoria empresarial e pública. Ele tem a finalidade de capacitar profissionais competentes, habilitados para atuarem em empresas públicas e privadas, organizações com e sem fins lucrativos e como profissional liberal.
A Resolução que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso superior de Ciências Contábeis foi a Resolução 03/1992, a qual depois foi revogada pela Resolução 10/2004. Ela é um direcionamento para os Projetos Pedagógicos dos Cursos, definindo as competências e habilidades ao egresso como
- utilizar adequadamente a terminologia e a linguagem das Ciências Contábeis e Atuariais;
- demonstrar visão sistemática e interdisciplinar da atividade contábil; - elaborar pareceres e relatórios que contribuam para o desempenho eficiente e eficaz de seus usuários, quaisquer que sejam os modelos organizacionais; - aplicar adequadamente a legislação inerente às funções contábeis [...] (FRANCISCO, 2005, p. 66).
Atualmente, Sergipe conta com 8 instituições de ensino que ofertam o curso de Ciências Contábeis, sendo 1 pública e 7 privadas, conforme quadro 6.
em São Cristóvão. Integram a Cidade Universitária: a reitoria, a prefeitura do Campus, o setor esportivo, os centros acadêmicos (CCBS, CCET, CCSA e CECH), a biblioteca central, o restaurante universitário, o centro de processamento de dados (CPD), o arquivo central, o centro editorial e audiovisual e o Colégio de Aplicação.
Quadro 6 – Relação de Instituições de Ensino Superior modalidade presencial em Sergipe
Nº IES MUNICÍPIO NATUREZA
1 Universidade Federal de Sergipe (UFS) São Cristóvão Pública 2 Universidade Federal de Sergipe (UFS) Itabaiana Pública 3 Universidade Tiradentes (UNIT) Aracaju Privada 4 Faculdade de Administração e Negócios
de Sergipe (Fanese)
Aracaju Privada 5 Faculdade Sergipana (Faser) Aracaju Privada 6 Faculdade Amadeus (FAMA) Aracaju Privada 7 Faculdade José Augusto Vieira (FJAV) Lagarto Privada 8 Faculdades Integradas de Sergipe (FISE) Tobias Barreto Privada Fonte: elaboração própria.
Atualmente, já se discute na contabilidade um modelo de Currículo Mundial (CM) com a finalidade de homogeneizar o ensino contábil internacional. É um currículo proposto pela ONU.
A Organização das Nações Unidas (ONU), através da criação de órgãos como o United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD) e o Intergovernamental Working Group of Experts on International Standards of Accounting and Reporting (ISAR), procura estabelecer a convergência do ensino da Contabilidade no planeta, discutindo e propondo um currículo global, também chamado de Currículo Mundial (CM). Em 2003, durante uma reunião do conselho na Suíça, foi apresentado um modelo revisado de currículo, o TD 21 (CAMPOS; LEMES, 2011, p. 8).
A proposta aborda quatro blocos de conhecimentos e componentes curriculares, considerados básicos e importantes para a formação do contabilista, tendo como enfoque o exercício global de sua profissão, procurando uniformizar e estabelecer disciplinas necessárias ao contador para que este atenda às exigências e demandas dos seus usuários. O CM “[...] tem a finalidade de servir de modelo, guia, referência para que as IES possam se basear para determinar se suas qualificações nacionais são de um nível comparável aos de outros países” (ERFURTH; DOMINGUES, 2011, p. 13). A divisão dos blocos encontra-se da seguinte forma: (1) Conhecimento da organização e da atividade comercial; (2) Tecnologia da Informação; (3) Conhecimentos básicos de contabilidade, auditoria, contabilidade tributária e setores relacionados com a contabilidade; e (4) Bloco optativo avançado de contabilidade, finanças e conhecimentos afins.
Pelo que foi visto, observa-se que o ensino da Contabilidade, mesmo com a tecnologia e as convergências internacionais, não ultrapassou a preparação para as ocupações definidas
pelo mercado, quanto à educação geral baseada nas áreas de conhecimento que se explicam em si mesmas, através de suas próprias estruturas lógicas (KUENZE, 1992). O curso tem como princípio educativo o trabalho e tendo em vista o panorama atual, posiciona-se Saviani:
Em suma, pode-se afirmar que o trabalho foi, é e continuará sendo o princípio educativo do sistema de ensino em conjunto. Determinou o seu surgimento sobre a base da escola primária, o seu desenvolvimento e diversificação e tende a determinar, no contexto das tecnologias avançadas, a sua unificação. (apud ARANHA, 1999, p, 199).
A ideia da formação centrada na prática para o trabalho, muitas vezes, não ultrapassa o modelo da racionalidade técnica, o qual consiste na ideia de um acúmulo de conhecimentos teóricos para posterior aplicação da técnica na prática. Nessa ideia de prática como instrumentalização técnica, o profissional fica reduzido ao “prático”, na medida em que “[…] não necessita dominar os conhecimentos científicos, mas tão somente as rotinas de intervenção técnicas deles derivadas” (PIMENTA; LIMA, 2005-2006, p. 9).
Esse modelo técnico de formação, no qual existe uma inevitável separação entre a investigação e a prática, não dá mais conta de formar os/as futuros/as profissionais da contabilidade, pois não leva em consideração os aspectos do contexto educacional mais amplo – político-sociais, ideológicos, ético-culturais, entre outros – em que as práticas educativas estão inseridas. Apesar do exercício da profissão docente demandar o domínio de habilidades específicas para a sua atuação, a atuação dos professores não pode se limitar ao treino de habilidades, pois elas não são suficientes para a resolução dos problemas cotidianos com os quais os docentes se defrontam nesse contexto educativo amplo e complexo (PIMENTA; LIMA, 2005-2006; MIZUKAMI et al., 2006).
Dessa forma, é necessária, atualmente, uma formação que se realize por meio de situações práticas efetivamente problemáticas, o que exige, portanto, uma prática reflexiva eficiente, na qual o/a profissional constrói as novas formas de pensar e agir (PÉREZ GÓMEZ, 1995; MIZUKAMI et al., 2006). Nesse processo de formação, as teorias assumem um papel fundamental de “[…] iluminar e oferecer instrumentos e esquemas para análise e investigação, que permitam questionar as práticas institucionalizadas e as ações dos sujeitos” (PIMENTA; LIMA, 2005-2006, p. 12).
É nesse sentido que Schön (1995) sugere uma formação profissional pautada numa epistemologia da prática, a qual é valorizada como um espaço de construção do conhecimento, o que vai envolver a observação, a análise e a reflexão das situações reais decorrentes da prática. Diante dessa perspectiva, o autor propõe que a formação profissional deve comportar situações
nas quais o/a discente possa praticar situações (oficinal, real ou simulada) que lhe ajudem a compreender a realidade.
A universidade é considerada, atualmente, como um lugar da formação continuada, devendo promover momentos de troca de experiências adquiridas pelas relações sociais. A formação humanística e técnica, disponibilizada pelos cursos superiores, favorece a inserção das mulheres no mercado de trabalho. No entanto, é um espaço por onde se reproduz as identidades femininas e masculinas. Vale ressaltar que a educação e o trabalho possuem o caráter de mediação, na medida em que a apropriação do saber determina a possibilidade de novas relações sociais. Para Cury (1995, p. 67) “[...] é através delas que a educação se articula com o todo, e é através delas que a educação coopera mais ativamente para (re)produzir relações sociais, elaborando e difundindo a luta entre as concepções de mundo.”
Com a finalidade de definir as demandas relacionadas às qualificações necessárias para a inserção dos/as contadores no mercado de trabalho, foi aprovada em 2012, a International Education Standard (IES) 3, norma estabelecida pela International Federation of Accountants (IFAC), expondo o conjunto de habilidades que os/as profissionais necessitam para atuarem na profissão contábil. Seu objetivo é atestar que os/as contabilistas atendam o mercado de maneira satisfatória. O conjunto dessas habilidades permite aos sujeitos tomarem decisões em um contexto mais amplo, e se tornarem aptos para utilizar o julgamento, o bom senso e a competência profissional, interagindo com diversos grupos de pessoas, em um contexto global, e assim iniciar o processo de crescimento profissional. Além disso, na visão das novas normas de contabilidade, o profissional que possuir este portfólio de habilidades ganha relevância e leva vantagem em relação a seus pares no mercado de trabalho. As habilidades sugeridas são divididas em cinco grupos: intelectual; técnico e funcional; pessoal; interpessoal e de comunicação; e organizacional (IFAC, 2009).
Diante dos fatos, verifica-se que, desde o surgimento da Contabilidade, houve a preocupação do conhecimento técnico e expertise nesse campo, mas não foram somente eles que contribuíram para uma regulamentação da profissão. As relações políticas com o Estado ampliaram e reforçaram a jurisdição da Contabilidade, devido à expansão do comércio e a necessidade de se cobrar tributos. Desse modo, todas as transformações que ocorrem na sociedade têm demandado uma maior reflexão sobre a organização social do trabalho, as exigências de novas competências e seus reflexos nas relações sociais e na formação identitária do sujeito. Com isso, a identidade do indivíduo é uma consequência de mudanças sociais e culturais.
Houve um crescimento significativo do número de vagas e de cursos de Ciências Contábeis pelo Brasil desde 1950, no entanto a qualidade ficou muito a desejar, uma vez que o ensino estava voltado para as atribuições técnicas dos procedimentos contábeis, os aspectos de escrituração. No entanto, devido a entrada de empresas estrangeiras no país, houve a necessidade de profissional da contabilidade para avaliação da credibilidade das informações da empresa a fim de que as multinacionais pudessem ter a confiabilidade dos seus investimentos. Com isso, surge a figura do Auditor Independente, um profissional de qualificação diferenciada.
4.4 O CAMPO DA AUDITORIA INDEPENDENTE: ÁREA DE PRESTÍGIO E PODER