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4 A PROFISSÃO, O CURSO DE CIÊNCIAS CONTÁBEIS E A AUDITORIA

6.2 REPRESENTAÇÕES SOBRE AS HABILIDADES E COMPETÊNCIAS PARA O

6.2.1 Sobre o Programa de Educação Continuada de Sergipe

O objetivo aqui foi investigar o que os sujeitos da pesquisa entendem por educação continuada na profissão contábil, sua implementação no Estado de Sergipe, sua importância e quais as estratégias para atingir a pontuação exigida pelo CFC.

Trazendo sua contribuição sobre o tema, Christov expõe que

[...] a expressão “Educação Continuada” traz uma crítica a termos anteriormente utilizados tais como: treinamento, capacitação, reciclagem que

não privilegiavam a construção da autonomia intelectual do professor, uma vez que se baseavam em propostas previamente elaboradas a ser apresentadas aos professores para que as implementassem em sala de aula (CHRISTOV 1998, p. 9).

O destaque está no termo “autonomia intelectual” que serve para qualquer área do conhecimento, de modo que o profissional consegue elencar várias possibilidades de solução dos problemas do seu cotidiano no mundo do trabalho. Já para Marioti:

a educação organizacional continuada faz parte de uma visão de negócios sistêmica, complexa e sustentada. Seus efeitos são duradouros, porque ela não se interrompe depois de iniciada. Conclui-se daí que os melhores resultados aparecerão sempre à longo prazo. Mais ainda, não podem ser avaliados por critérios apenas numéricos (MARIOTI, 1999, p. 50).

Sendo assim, tem-se a ideia de que se trata de um aprendizado sistematizado, que permite realizar as conexões necessárias à compreensão do todo, não apenas de uma parte do processo em que se está inserido; isso garantiria ações mais consistentes, com uma possibilidade maior de acerto para a vida profissional do indivíduo.

O CFC tenta monitorar a formação do/a profissional de auditoria para aliar o conhecimento adquirido no exercício de sua profissão com um conhecimento teórico assimilado ao longo dessa prática. Após o conhecimento teórico, formalmente apreendido nos bancos escolares, a ação do profissional irá fornecer subsídio para a sedimentação da teoria e reformulação dos seus conceitos. “O uso do termo educação continuada tem a significação fundamental do conceito de que a educação consiste em auxiliar profissionais a participar ativamente do mundo que os cerca, incorporando tal vivência no conjunto dos saberes de sua profissão.” (MARIN apud CHRISTOV, 1998, p.10).

Todos/as entrevistados/as entendem que é essencial a Educação Continuada para o/a profissional, mas 100% dos auditores independentes não concordam de como as regras são impostas, conforme relatos abaixo explicitados. Os principais códigos sobre a questão (Como você compreende o programa do CFC de Educação Continuada?) foram: viajar para fazer os cursos; cursos bons não são pontuados; custo muito alto; melhorar a oferta dos cursos em Sergipe.

Não tenho dificuldade em conseguir a pontuação mínima de 40 pontos anual. Eu amo minha profissão e tenho muito interesse em pesquisar e sempre participar dos cursos. Às vezes, infelizmente, tenho que fazer cursos em outros estados para conseguir a pontuação, pois não me identifico, sempre, com os

cursos daqui. Acho que aqui em Sergipe precisaria melhorar a oferta de cursos mais para as áreas técnicas da auditoria. (Carlos, solteiro, 40 anos, sem filhos) O conselho faz eventos para pontuação, mas não faz eventos para a área da auditoria. São cursos limitados. Os cursos estão bem distantes sobre auditoria, mas pontuam. Acho isso errado. Por exemplo, um curso do TCU que oferta um curso de auditoria não pontua para a Educação Continuada. Acho que o conselho deveria checar esses cursos, verificar a grade do curso, carga horária para reconhecer e pontuar, independente da instituição estar cadastrada. Eu consigo fazer a pontuação de 40 pontos porque busco cursos da internet em sites do IBRACON e da USP. Agora reconheço que desde 2014 o conselho daqui promove eventos que pontuam. Noto que muita gente só participa dos eventos para pontuar e não com o objetivo de “educação”. Assim termina que fugindo um pouco do propósito da Educação Continuada. (Augusto, casado, 42 anos, dois filhos)

Eu faço eventos, ministro eventos, participo de muitos eventos e não são pontuados. Para cumprir essa pontuação, eu tenho que sair do estado ou fazer os cursos à distância. Eu tenho recebido uns e-mails da IOB oferecendo cursos para dar a pontuação de R$ 2.000. É impossível! O Programa é importante! Agora, não da forma que é. Se eu fizer um bom curso promovido pela Universidade? Ou pelo meu órgão, o Tribunal de Contas? Ou pela CGU? Eles não vão ser pontuados! São instituições sérias e qualificadas. Só não concordo com o modelo desse processo. Acho que deveria ser avaliado o conteúdo do curso para a pontuação. Tantos eventos bons pelo TCU e CGU com conteúdos específicos de auditoria só que não são pontuados. Acho que esse modelo deveria mudar. O lugar mais próximo é em Salvador, mas fica caro! (Gustavo, casado, 48 anos, três filhos)

Acho fantástico o Projeto, principalmente, para aqui em Sergipe. Porque não temos empresas que desenvolvam cursos e treinamentos voltados para a Educação Continuada, a não ser os legalmente constituídos. Só acho que os cursos ofertados, pelo Conselho, por exemplo, não agregam muito valor, pois são rápidos. Tem uma carga horária baixa. Acho que os cursos para Auditoria deveriam sem mais específicos e mais aprofundados. O conselho não tem ofertado cursos sobre auditoria. (Sandra, divorciada, 51 anos, dois filhos) De forma geral, os/as entrevistados/as demonstraram que o programa de Educação Continuada (PEC) é importante, mas evidenciaram que a forma como tem sido implementado deveria ser alterada. Existem cursos que são próprios para o/a profissional de auditoria e não são considerados para fins de pontuação pelo Conselho Federal. Para os/as participantes da pesquisa, de uma maneira geral, o CRC/SE tem contribuindo com um maior leque de cursos ofertados nesses últimos anos, mas também explicitaram que o movimento nesse sentido ainda é muito tímido.

Entende-se que seria importante que os eventos voltados para o público comum da Contabilidade deveriam abordar, ao menos em alguma de suas palestras, o tema ligado a auditoria, de forma a despertar um maior interesse sobre esta área. Isto seria relevante porque um evento específico para auditoria certamente não atrairia todo tipo de profissional contador.

Ainda sobre a atuação do CRC/SE em relação à oferta de cursos, extrai-se os trechos abaixo:

Anteriormente tínhamos muita dificuldade de cumprir essa pontuação. O Conselho Federal de Contabilidade editou a norma, mas, os Conselhos Regionais não ofereciam cursos com pontuação suficiente para atender à legislação. Nesta gestão que começou há dois anos, o CRC Sergipe vem oferecendo cursos com pontuação para a educação continuada. (Marcelo, casado, 60 anos, seis filhos)

Acho que o conselho está de parabéns de tanto curso para pontuação que tem ofertado. Antigamente, tinha que fazer cursos para conseguir a pontuação exigida em outros estados. Acho os cursos oferecidos pelo conselho muito bons e também acho muito importante o programa. O programa é necessário para qualificar os profissionais. (Edson, divorciado, 70 anos, quatro filhos) A Educação Continuada é uma ferramenta essencial e que solidifica conhecimento ao profissional. A exigência de 40 pontos até que não é tão alta. Antigamente, o conselho só ofertava um máximo de 12 pontos. [...] agora tem ofertado no mínimo, para o modelo da Educação Continuada, de 78 pontos. [...] Sergipe foi o estado que mais cumpriu com a Educação Continuada no cenário nacional. Acho que o programa de Educação Continuada foi uma medida muito bem acertada! (Patrícia, casada, 55 anos, dois filhos) Já o outro auditor (Edson) tem 48 anos de atuação e sempre superou a pontuação do programa do CFC, mesmo afirmando que nos últimos três anos sua renda caiu bastante, tendo até o cuidado de não “fechar as portas”. A institucionalização da Educação Continuada trouxe para a atividade auditorial novas exigências para o desempenho profissional, criando também competição/rivalidade entre os/as colegas, segundo Edson:

Aqui no escritório, temos reduzindo bem os gastos para nos manter. Não tem sido fácil. Sofremos licitação para entrar no mercado e as empresas colocam o valor mais baixo. Além que as empresas solicitam auditoria de outros estados. É lamentável! Fico arrasado quando nos cursos (para a pontuação do CFC) alguns colegas me dizem para eu sair porque estou velho. (Edson, divorciado, 70 anos, quatro filhos)

Observa-se que Conselho Federal e Conselhos Regionais de Contabilidade estão alinhados à abordagem de poder desenvolvida por Freidson, para o qual a autonomia técnica é o poder profissional mais decisivo. (FREIDSON, 1998, p. 25).

Essa cultura pode trazer alguns traços estruturadores, segundo entendimento de Cruz (2012), como o individualismo, a competição, a negação de si em prol dos objetivos institucionais, a centralização do Conselho Federal de Contabilidade. A obrigatoriedade do programa é uma forma de controle e de poder. Esse controle se dá, essencialmente pela determinação de quem pode ter acesso às informações privilegiadas e a partir delas atuar, pois,

como define Foucault (1979), o poder é uma relação de forças e como tal se constitui de ações sobre ações, como desviar, tornar fácil ou difícil, ampliar ou limitar. Dessa forma, esses profissionais vivenciam a vigilância direta e o controle burocrático do órgão representativo da classe contábil, com a finalidade de assegurar a efetiva relação de poder.

6.3 O QUE PENSAM OS/AS ENTREVISTADOS/AS SOBRE AS DESIGUALDADES DE