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CAPÍTULO III – APROXIMAÇÕES E DISTANCIAMENTOS NA EDUCAÇÃO

3.6. O espaço escolar

Tanto no Mato Grosso quanto no Paraguai, as primeiras escolas funcionavam em espaços improvisados: ou na casa dos próprios professores ou em salas anexas à igreja. No interior do Paraguai, segundo Florentín (2009), a qualidade e a limpeza do espaço variavam de acordo com a localidade. Na capital existem relatos de escolas maiores com cerca de seis salas de aula. Em 1895, existiam 179 edificações dedicadas a escolas e cerca de 62% dos prédios eram de propriedade do governo. Além dos prédios escolares, sentia-se falta de equipamentos básicos, inclusive de bancos para os alunos.

A reforma do Ensino Primário paraguaio de 1902 trouxe modificações na categorização para as escolas primárias: rurais (com três graus de ensino) e urbanas (com quatro graus nas elementares e seis nas graduadas), modificando seus espaços.

Segundo Sá (2007), uma das principais características educacionais mato-grossenses no início do século XX é a falta de prédios destinados às escolas, tanto que a modalidade escolar típica, entre o fim do século XIX e o início do XX, é a escola isolada, pobre e sem prédio próprio, sob a regência de um só professor. Como citado no capítulo II, a professora Silvia Morais, do município de Ponta Porã, contava como improvisava as carteiras, utilizando tijolos e tábuas com os vizinhos.

Jara Goiris (1999) cita a criação da primeira escola em Pedro Juan Caballero, em 1912, a "Escuela Graduada Doble". Em toda a bibliografia consultada, essa é a única escola nomeada pelos autores. Consequentemente, quando os outros autores mencionam que brasileiros iam estudar no Paraguai, provavelmente iam estudar na ―Graduada Doble‖, cujo prédio pode ser observado, na foto abaixo, como pano de fundo de uma aula de ginástica, e considerado, pelos padrões da época, como adequado para o funcionamento da escola.

Cardona Benítez (2008) utiliza a citação do Presidente do Estado Costa Marques, quando visitou Ponta Porã, no início da década de 1910, para descrever a situação escolar do lado brasileiro. Costa Marques afirma que as escolas públicas não funcionam e nem casa para escola existia na localidade. A situação do prédio da escola municipal de Ponta Porã, em 1920, é descrita pelo jornal, em duas ocasiões:

Entre nòs propriamente, o ensino primario, attinge ao auge do desmantelo, revelando acentuado impatriotismo.

Governo algum já se lembrou de indagar se Ponta Porã tem predio escolar, e de suas condições materiaes. O predio onde funccionam tres escolas de ambos os sexos, mais adaptado a um reduzido destacamento policial, em zona inculta, foi construido por subscripção do povo - o que vale dizer - por esmolas53. (O PROGRESSO, 01 ago. 1920, p. 1, grifos nossos).

Porque as nossas populações escolares não dispõem de predios hygienicos e professores diplomados? [...] Entretanto e emquanto que cada um desses municipios possue grupos escolares, em predios modernos, etc., nós temos

uma casa que mais se assemelha a xadrez de quarteis do interior do Maranhão, e isso mesmo feita ás expenças do povo mediante subscripção. E‘ triste, mas é verdade. (O PROGRESSO, 05 dez. 1920, p. 1, grifo nosso).

53 Já citada anteriormente.

A péssima qualidade do prédio onde funcionam as aulas das escolas estaduais e municipais é descrita em matéria com título ―Pelo Pudor das Creanças‖, na qual o redator reclama a falta de investimento do município na edificação:

Queremos nos referir ao estado miseravel em que está o predio onde funccionam as aulas estaduaes e municipaes.

A cousa chega ao ponto de estarem as sentinas, construidas ha annos, de taboa ordinaria, em completa ruina, de modo que ninguem pode dellas utilisar, sem ficar exposto ás vistas de todos quantos passam por ambas as ruas de frente e do lado do referido predio.

E attenda-se que as aulas do sexo feminino são frequentadas por crianças já em idade de puberdade, para as quaes o pudor não pode deixar de ficar melindrado com o caso.

Esse predio foi construido por subscripção popular, e talvez por isso, o Governo espere que, pelo mesmo systema venha a se fazer tudo quanto a seu respeito vá se tornando necessario. (O PROGRESSO, 17 abr. 1921, p. 1).

Ainda em 1921, existe uma pequena menção sobre o prédio escolar: ―As escolas estadoaes funccionnam em um predio municipal pequeno‖ (O PROGRESSO, 06 jun. 1921, p. 2). O que se destaca é que existe uma diferenciação entre escolas e prédios escolares, atualmente cada prédio abriga uma só escola, as matérias do jornal demonstram, como citado anteriormente, que, na década de 1920, as escolas estão vinculadas aos professores e num só prédio funcionavam três escolas.

A implantação dos grupos escolares no Estado foi autorizada em 1908 e colocada em prática em 1910, mas em Ponta Porã só começou a funcionar em 1927. A classificação das escolas primárias, segundo Sá (2007), foi estabelecida no Regulamento de 1927: escolas isoladas rurais (situadas a mais de 3 Km da sede do município); escolas isoladas urbanas; cursos noturnos; escolas reunidas (onde existissem mais de 3 escolas isoladas, possuíam até 7 salas de aula); e grupos escolares (com, no mínimo, 8 salas). O espaço escolar, com organização em salas de aula, deu-se em função da aplicação do método simultâneo, no qual os alunos eram distribuídos por nível de conhecimento, de 1ª a 4ª classe.

No ano de 1926, o jornal O Progresso (08 ago. 1926, p. 1) denuncia quetem o Município, ha quasi dois annos, um predio para Grupo Escolar, que o sr. Estevão prometteu inaugurar, tão logo houvesse casa apropriada! ‖, mas apesar da existência de prédio, o mesmo só foi inaugurado em 1927, provavelmente em função dos problemas políticos entre a Empresa Mate Laranjeira e o governo, em relação à renovação do contrato de concessão das terras com o Governo do Estado. O que se pode observar, na foto abaixo, é a suntuosidade do prédio para a cidade.

Em citações anteriores do jornal, noticia-se a baixa qualidade das instalações escolares, antes da construção do Grupo Escolar. Entretanto, uma notícia sobre o reaproveitamento das instalações escolares causa estranheza:

Com o abrir-se a matricula do Grupo Escolar, foi fechada a Escola Municipal [...]

Para o edificio em que funccionava a Escola, mudou se a Intendencia, cujo predio foi posto á disposição do Governo do Estado para alojar um destacamento policial que será enviado para aqui, não o tendo sido até hoje pelo facto de não haver um predio destinado para tal fim. (O PROGRESSO, 22 mai. 1927, p. 1).

Figura 6 – Grupo Escolar Mendes Gonçalves – Construído em 1925 – Arquivo particular de Sacha Cardona Benítez.

No início da década de 1920, as descrições encontradas no jornal comentam que o prédio que abrigava as escolas era péssimo, mas ao que se supõe, o mesmo deve ter sido reformado antes de 1927, pois, se o prédio era tão impróprio para o funcionamento da escola, seria apropriado para o funcionamento da intendência?

Antes de completar um ano de funcionamento, o prédio do Grupo já necessitava de reparos, devido à baixa qualidade de alguns materiais utilizados na obra, de acordo com ―O Progresso‖:

Pela Secretaria de Obras publicas do Estado, foi autorisada a Collectoria local a contractar a substituição do telhado do Grupo Escolar ―Mendes Gonçalves‖, visto estar o mesmo damnificado, e nessa conformidade, o sr. Collector major Henrique de Carvalho, vem de contractar com o sr. Manoel Gregorio, pela importancia de 14:000$000 toda a substituição por telhas francezas, exigindo o instrumento de contracto cuja leitura tivemos occasião de assistir, que seja empregado material de optima qualidade.

E´esse um melhoramento de significação, pois, o predio fora construido com alicerces de comprovada resistencia, sendo de lamentar que o pouco escrupulo do constructor, abusando de attribuições que lhe foram confiadas, tivesse empregado na cobertura material feito sem consistência. (O PROGRESSO, 12 out. 1927, p. 1).

A questão dos edifícios escolares foi um grande problema em Ponta Porã, o jornal denuncia as péssimas condições do prédio existente em 1921. Pedro Juan Caballero possuía a Escola Graduada desde 1912, considerada adequada pelo jornal, uma vez que não existem críticas sobre aquele espaço nas páginas analisadas. Pelas fotos apresentadas, o prédio construído para o Grupo Escolar Mendes Gonçalves pela Mate Laranjeira, destaca-se quando comparado à Escola Graduada.