1 A MISSÃO CENTRAL DO BRASIL E O MOVIMENTO PRESBITERIANO
1.3 A cidade de Rio Verde como espaço para a ação médica missionária
1.3.1 O estabelecimento da Igreja Presbiteriana em Rio Verde
Ao analisar a implantação do presbiterianismo na região Sudoeste de Goiás, previamente é preciso considerar suas peculiaridades na formação da sua comunidade religiosa inserida no contexto regional. Dentro desse constructo, convém se atentar para o tipo de protestantismo que estava sendo estabelecido nessa região e assim caracterizá-lo junto ao estabelecimento da Igreja Presbiteriana de Rio Verde47.
Apoiados nos pressupostos de Mendonça (2005) pode-se compreender que o protestantismo, difundido em terras rio-verdenses, foi o de Missão, o qual teve implicação com a finalidade primária do protestantismo deconversão e conquista de novos fiéis.
Assim, a formação da primeira Igreja Presbiteriana em Rio Verde - GO está inserida no contexto de ocupação e desenvolvimento praticado pelas famílias protestantes que chegaram à região. Por conseguinte, os presbiterianos foram os primeiros a criarem um núcleo comobjetivo de dar assistência às famílias que migraram para a região, bem como propagar sua a féentre os que não comungavam com as doutrinas católicas romanas.
O protestantismo em Rio Verde pode ter se tornado um campo fértil, abrindo espaços para a articulação protestante, em virtude da pouca assistência dos representantes católicos, em virtude da concentração dos núcleos populacionais distantes uns dos outros, devido aos meios de transporte precários e insuficientes, posto que, com isso, a autonomia no campo religioso favoreceu o trabalho missionário evangelístico de conversão ao protestantismo.
No que tange ao percurso histórico de constituição e consolidação da Igreja Presbiteriana de Rio Verde, seu processo de inserção e organização pode ser considerado
como desdobramento do Protestantismo Brasileiro e do Presbiterianismo na região Sudoeste de Goiás, especificamente,na cidade de Rio Verde.
As fontes analisadas, nesta seção, para ajudar no desvelamento de todo trabalho missionário desenvolvido em Rio Verde, no estabelecimento da Igreja Presbiteriana, tratam de cartas do médico Dr. Gordon, palestras do Dr. Gordon (traduzidas pela pesquisadora) e de documentos da igreja, guardados pela neta do então médico missionário Dr. Gordon. Registra- se que as fontes da Igreja Presbiteriana e as Atas da Missão Central do Brasil que estão sob a tutela do Conselho Deliberativo da Igreja Presbiteriana de Rio Verde48 não foram autorizadas para análise desta pesquisa.
A organização da Igreja, entretanto, sem uma data específica, começou com o pregador leigo Sr. Arquimedes de Melo, vindo da cidade de Morrinhos – GO para lecionar em uma fazenda no município de Rio Verde. O primeiro culto dirigido por ele foi na residência de Dona Leonídia Guerra. Nesse momento, “encontrava-se o terreno propício para as boas sementes serem lançadas” (CARTA DE DR. GORDON, s/d).
Ademais, a convite do Sr. Arquimedes, o missionário Archibald Macintyre49, é convidado para vir à cidade de Rio Verde para presidir um culto evangélico. Foi assim, que em 1927, Macintyre realizou o primeiro culto como ministro, no salão do cinema da cidade. No primeiro dia dessa reunião religiosa, o salão ficou lotado, recebendo muitos adeptos. Em contrapartida, na noite seguinte, poucas pessoas apareceram, e o salão foi apedrejado por um rapaz, o que demonstrou perseguição religiosa.
Diante disso, as “sementes brotaram” e, no ano de 1928, Macintyre volta à cidade de Rio Verde e realiza vários cultos, no mesmo local anterior. As primeiras famílias a se converterem ao protestantismo foram as senhoras Dona Leonídia, Dona Ana Pereira e vários membros da família Emrich, como Dona Loide Emrich.
48
Não se obteve acesso às Atas da Igreja Presbiteriana de Rio Verde, em virtude de o Conselho Deliberativo não autorizar sua análise para pesquisa documental.
49 Médico missionário escocês veio para o Brasil em 1907 como agente da South American Evangelical Mission- SAEM, agência de missão que constituiria, em 1911, a EUSA (ou UESA). Ainda na Escócia, recebeu “o seu preparo teológico e chamado para o campo missionário” [...]. Em 1908, “estabeleceu sua base na cidade de Goiás, [...] e de lá partia para diversas expedições evangelísticas e de colportagem bíblica”, assumindo funções administrativas como presidente da Comissão Executiva da EUSA e superintendente do campo missionário em Goiás, em 1928. Fez várias “viagens de colportagem” pelo território brasileiro e atingiu uma vasta região que ia desde a fronteira com a Bolívia, em Corumbá (MS), até regiões mais próximas dos estados de Minas Gerais e Goiás, abrangendo a região do entorno da capital goiana no período – cidade de Goiás. Atuou por volta de meio século neste estado, quando teria voltado para a Escócia (ARAÚJO, 2019, p. 140).
Dona Loide organizou o movimento da Escola Dominical, que inicialmente funcionava e uma casa particular e, mais tarde, em um salão alugado pelos próprios fiéis, com o objetivo de realizarem seus cultos evangélicos. Criar espaço para a fé protestante foi uma tarefa trabalhosa e estrategicamenteplanejada.
O trabalho presbiteriano em Rio Verde oficialmente se concretizou com a visita do reverendo Ashman Clark Salley, no ano de 1931, missionário norte-americano da South
Brazil Mission of the Presbyterian Church of the United States of America, recebendo depois
o nome de Missão Brasil Central.
O Reverendo Salley morava em Alto Araguaia (MT) e visitava a região do sudoeste goiano, incluindo em seu itinerário as cidades de Jataí e Rio Verde. Em 1930, foi nomeado missionário evangelista do sudoeste de Goiás. Deu novo impulso ao trabalho em Rio Verde e, em 1931, mudou-se com sua esposa, Sara Salley, em definitivo, para a cidade de Jataí, sede do campo missionário. Segundo Assis (1991, p. 134), “o casal Salley morou e trabalhou em Jataí por mais de sete anos, conquistando a amizade e simpatia de todo povo jataiense, deixando firmes alicerces para o futuro da Igreja”.
O casal Salley permaneceu em Jataí de 1931 a 1939 e realizou diligências missionárias por todo o sudoeste goiano, mas as adversidades de saúde as quais acometeram o Reverendo Salley, em 1939, fizeram com que o casal voltasse para os Estados Unidos (DIAS, 2016).
Com essa situação, a obra missionária foi substituída pelo missionário Reverendo Donald Schroeder50 e sua esposa Helen Schroeder. Eles residiram também em Jataí e, sempre que era necessário, realizavam visitas a Rio Verde, entretanto, uma doença acometeu Dona Helen e tiveram que voltar também para os Estados Unidos.
Já no ano de 1936, com a chegada do médico missionário Dr. Gordon à cidade de Rio Verde e com a implantação da Central Brazil Mission nessa cidade, novos olhares são projetados acerca da construção do templo da Igreja Presbiteriana. Com o apoio dos missionários Robert Lodwick51 e de sua esposa, missionários substitutos do casal Schroeder na cidade de Jataí, no ano de 1941, trabalharam para que a construção do templo da Igreja Presbiteriana em Rio Verde fosse iniciada.
50
Em 1940, o Rev. Donald F. Schroeder e sua esposa Helen assumiram o trabalho de Jataí e do campo do sudoeste de Goiás. Entre outras atividades, esse casal organizou uma biblioteca e uma escola primária. Todavia, tiveram de regressar aos Estados Unidos, devido a problemas de saúde de D. Helen (DIAS, 2016).
51 O Rev. Lodwick inaugurou o templo presbiteriano na cidade de Jataí, em 11 de outubro de 1942, e quatro anos depois, no dia 1º de dezembro de 1946, foi organizada a Igreja Presbiteriana de Jataí, sendo eleitos os dois primeiros presbíteros. O reverendo Robert Lodwick foi diretor ainda da escola Evangélica de Jataí, hoje Instituto Presbiteriano Samuel Graham (DIAS, 2016).
Por muitos anos, a Igreja Presbiteriana de Rio Verde congregava em um prédio alugado. Como a Igreja crescia e precisava de mais espaço, comprou um terreno, no qual se encontra até hoje.
[...] o terreno adquirido para a construção da Igreja Presbiteriana era coberto com mato e capim alto. Bem no meio do terreno, havia uma enorme árvore. Para dar início à construção, era necessário remover aquela árvore e limpar o terreno. Num determinado sábado, vários homens e jovens da igreja se reuniram lá, trazendo foices, machados, serras, enxadas, enxadões e, durante várias horas suadas, conseguiram limpar o lote e derrubar a gigantesca árvore. Que tombo! Depois era preciso cavar e remover as enormes raízes, trabalho árduo. As senhoras e moças trouxeram lanches e, no fim daquele dia, comemos e bebemos muito suco, com fartura! (CARTA DO DR. GORDON, s/d).
A igreja foi iniciada, mas mesmo em seu estado inacabado servia para uma escola dominical.
[...] Fizemos os alicerces, depois paramos por mais de ano. Depois levantamos as paredes e pusemos o telhado. E logo que tivemos um telhado nós pensamos que podíamos começar a ter os cultos e a Escola Dominical no prédio. Não tínhamos nada nas janelas, mas pusemos panos nos buracos das janelas. Não tínhamos dinheiro para comprar as janelas. Depois fizemos uma campanha para o forro, mais tarde para o assoalho. Por muito tempo, nós só usamos tijolos comuns, depois pusemos mosaicos (ladrilhos). O povo trabalhava com ânimo, porque via-se que havia necessidade e interesse. Ao meu ver, foi muito bom, houve uma vez durante toda a concentração, quando eu estava de férias, que eles resolveram fazer um empréstimo do banco, para os vidros das janelas. Esta foi a única vez que fizemos qualquer empréstimo para a construção da igreja, e foi mais difícil pagar o empréstimo do que fez a construção. Porque quando tem uma coisa é mais difícil dever a necessidade. Quando não tem já vê a necessidade, parece que Deus abençoa, e há certo interesse nos corações dos membros para doar (PALESTRA DE DR. GORDON, 1973).
Em dezembro de 1943, a congregação se transferiu para seu prédio próprio; no ano de 1944, foi organizada, mediante a concretização da eleição e posse de três presbíteros, Antônio Alves Duarte52, Duplanil Faria de Souza e de Jesuíno de Souza Gomes.
Assim, o primado do presbiterianismo foi se estabelecendo em Rio Verde, fazendo com que a história de sua expansão por todo o território nacional se entrecruzasse com a disseminação do protestantismo na região Sudoeste de Goiás, lugar que recebia correntes migratórias advindas de várias regiões do país.
Todavia, é por meio do projeto missionário difundido pelos presbiterianos, no interior do Brasil, vinculados à Missão Central do Brasil, que a cidade de Rio Verde se tornou o
52 Médico do Hospital Evangélico foi convidado pelo Dr. Gordon para os trabalhos missionários na cidade de Rio Verde – Goiás.
escopo para a instalação de algumas obras missionárias, a fim de evangelizar e educar a população rio-verdense, preconizando o cuidado do corpo e da alma.
Ao demonstrar preocupação com a construção de um projeto missionário, era preciso inicialmente crer no poder da saúde, da educação e na salvação das almas, fazendo funcionar como requisito necessário à construção de um novo campo religioso presbiteriano.
FIGURA 6 – Igreja Evangélica de Rio Verde, s/d
Fonte: Acervo pessoal de Sylvia Woodall Gordon.
Observa-se que a Figura 6 representa a fotografia do primeiro Templo da Igreja Presbiteriana de Rio Verde. Em sua fachada, no vértice superior, há inscrição IGREJA
possibilidade da existência de uma porta lateral. A construção da Igreja foi junto a uma das praças principais da cidade, Praça 5 de Agosto, localizada à rua Professor Joaquim Pedro, no Centro da cidade. Era uma construção pequena, mas muito aconchegante.
Goiás era uma região muito importante para o futuro desenvolvimento da evangelização protestante no Brasil, por isso, era descrito pelos missionários como a “terra do progresso”. A cidade de Rio Verde apresentava solo fértil para o processo de evangelização.
No caso do hinterland goiano, é possível reconhecer três dispositivos utilizados pelos missionários no sentido de construir seu campo religioso de ação: o Hospital, lugar do restabelecimento da saúde; a Escola de Enfermagem, local de formação dos enfermeiros e de instituição de formação educacional e a Igreja Presbiteriana, local da regeneração da alma.
Desafiador, esta seção diligenciou pela análise das estratégias utilizadas pelos missionários presbiterianos, para a inserção do protestantismo no Estado, no bojo das mudanças econômicas, políticas e sociais e com o propósito de estabelecer uma possível decisão na escolha pelo estado de Goiás, pela Missão Central do Brasil, subsequentemente a cidade de Rio Verde, para implementar um projeto missionário para a fundação de um hospital, uma igreja e uma escola de enfermagem.
Portanto, a educação foi fundamental para a empresa missionária, entretanto ainda é pouco estudada, assim como a saúde foi utilizada pelos missionários como aporte de um projeto que objetivava consolidar uma vocação, um chamado divino a um saber médico multiplicado na região do estado de Goiás. Na próxima seção, será feita uma análise do cenário da constituição do Hospital Evangélico Dr. Gordon, tecendo uma narrativa acerca dos elementos políticos, sociais, econômicos e religiosos que integraram as áreas da saúde na cidade de Rio Verde e que promoveram a implantação da Escola de Enfermagem Cruzeiro do Sul.
2 A IMPLANTAÇÃO DA ASSISTÊNCIA MÉDICA HOSPITALAR EM RIO VERDE: