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O estabelecimento de objetivos para a leitura

No documento MARCIA VOLANI CORDOVA DE OLIVEIRA (páginas 63-66)

CAPÍTULO I – REVISÃO DE LITERATURA

1.2 O PROCESSO DA LEITURA: DA CAPTAÇÃO VISUAL À COMPREENSÃO

1.2.3 A compreensão leitora e a aprendizagem

1.2.3.2 O estabelecimento de objetivos para a leitura

Outro fator importante no processo de compreensão de um texto é o estabelecimento de objetivos para a leitura (KATO, 1987; SOLÉ 1998; CAFIERO, 2005; KOCH; ELIAS, 2006; KLEIMAN, 2016; BENDER, 2016). Para Souza (2012), o primeiro passo para o empreendimento de atividades que visem ao aprendizado é a definição de objetivos, pois são eles que irão possibilitar um planejamento de ação.

Segundo Kleiman (2016), quando é fornecido algum objetivo ao leitor, ou ele próprio estabelece seus objetivos, sua capacidade de processamento melhora significativamente, porque esses propósitos estabelecidos colaboram na formulação de hipóteses, que serão confrontadas durante a leitura. Essa prática de checagem feita pelo leitor para garantir que seus objetivos estejam sendo alcançados é denominada de monitoramento da compreensão, uma tarefa cognitiva altamente complexa.

Para Kato (1987), o estabelecimento de metas para a leitura é um modo de chegar a uma melhor compreensão do texto, além de ser também um caminho para uma leitura mais aprofundada, típica de um leitor maduro e proficiente.

Solé (1998) entende que os objetivos estabelecidos pelos leitores são bem diversos e podem variar de acordo com o texto e com o leitor. Para Alliende e Condemarín (2005) o ato de ler pode se enquadrar em dois objetivos gerais: a leitura cujo objetivo é aprender algo ou a leitura por prazer e entretenimento. Cabe ressaltar que ambos os objetivos são importantes e devem ser trabalhados de forma conjunta. Os autores asseveram ainda que, após os primeiros anos da vida escolar, a maioria das atividades possui relação com a leitura para aprender algo, ou seja, o objetivo da leitura é aprender os conteúdos das disciplinas que fazem parte do currículo escolar. Na maioria das vezes, esse objetivo é delineado pelos professores e não pelos estudantes-leitores, o que, de acordo com Kleiman (2016), não é algo negativo, visto que

A pré-determinação de objetivos por outrem não é, contudo, necessariamente um mal. [...] o adulto pode, provisoriamente, superimpor objetivos artificialmente criados para realizar uma tarefa interessante e significativa para o desenvolvimento do aluno [...] através do modelo que o adulto lhe fornece, esse leitor estabelecerá eventualmente seus próprios objetivos, isto é, desenvolverá estratégias metacognitivas necessárias e adequadas para a atividade de ler (KLEIMAN, 2016, p. 38).

O estudo de Narvaez, van den Broek e Ruiz (1999) investigou a influência dos objetivos da leitura (entretenimento ou estudo), na geração de inferências. Nessa pesquisa, vinte graduandos em psicologia deveriam ler dois tipos de texto, um expositivo e um narrativo. Como resultado, os autores verificaram que o objetivo da leitura não influenciou na compreensão dos textos, mas sim, no comportamento do leitor durante a leitura. Os participantes cujo objetivo da leitura era o estudo, liam os textos mais de uma vez, reconheciam a falta de conhecimento prévio e avaliavam o conteúdo do texto, principalmente do texto expositivo, apresentando assim um comportamento diferente daqueles participantes que tinham o entretenimento como objetivo da leitura. Desse modo, os autores concluíram que o objetivo da leitura e, provavelmente o tipo de texto,

possui influência nos tipos de inferências geradas pelos leitores, demonstrando que a geração de inferências não é automática, visto que é controlada, mesmo que parcialmente, de forma estratégica pelo leitor.

Vivas (2004) também conduziu um estudo a fim de verificar se existiam diferenças entre as inferências geradas durante a leitura de textos expositivos, com objetivos diferentes (crítica e estudo). Participaram dessa pesquisa oito estudantes de doutorado das áreas de psicologia e educação. A síntese dos resultados apontou que a leitura com objetivo crítico foi mais rápida, enquanto que na leitura com objetivo de estudo, houve mais inferências e repetições. O estudo demonstrou ainda que o nível de instrução dos leitores desempenha um papel importante no tipo de inferências geradas. Esses resultados corroboram com os encontrados por Narvaez, van den Broek e Ruiz (1999), no sentido de que existe um controle consciente do tipo de inferências que são geradas dependendo do propósito da leitura.

Na mesma perspectiva, Bender (2016) investigou em seu estudo o desempenho de leitores em textos do gênero anúncio de utilidade pública (Public Service Announcement – PSA). Participaram do estudo 20 alunos do oitavo ano do ensino fundamental de uma escola pública, com idade entre 12 e 15 anos. O desempenho dos participantes foi verificado por meio de análise das estratégias de leitura por eles utilizadas, enquanto liam dois textos, em língua inglesa, sendo que o primeiro deveria ser lido com o objetivo de ler por entretenimento, e o segundo, com objetivo de ler para estudar para um teste. Os resultados indicaram que as estratégias utilizadas para cada um dos textos não demonstrou diferença significativa, evidenciando que os participantes não realizaram leitura diferente para cada um dos objetivos propostos, sugerindo que não se ativeram ao que foi solicitado para a execução da tarefa. Desse modo, embora os participantes tenham utilizado diversas estratégias que podem levar à compreensão leitora, muitas vezes não souberam como, quando ou por quê utilizá-las, sendo que a maioria percebeu que tinha problemas de compreensão, mas não soube utilizar as estratégias mais adequadas para saná-las.

Esses estudos sugerem que o estabelecimento de objetivos para a leitura pode influenciar tanto no comportamento, quanto nas ações do leitor no momento da leitura. Por isso, é necessário delinear um objetivo a fim de despertar a atenção do leitor, permitindo focar determinados aspectos relevantes do texto, facilitando assim, o processo de memorização de detalhes e a compreensão do texto (KLEIMAN, 2016). Para os leitores iniciantes, como os participantes do estudo de Bender (2016) e alunos com TDAH, torna-se ainda mais relevante e necessário explicar de forma breve e clara qual é o objetivo da leitura dos textos trabalhados em sala de aula (ROHDE; BENCZIK, 1999),

pois de acordo com Kleiman (2016), um mesmo texto pode ter sua compreensão parcial ou totalmente modificada, dependendo do objetivo do leitor. De acordo com Angelo e Menegassi (2006), com a prática constante, os próprios alunos aprenderão a traçar objetivos para leitura, bem como empregar estratégias que os ajudem a melhorar sua compreensão leitora. A seguir, discutiremos o terceiro dos vários elementos que podem influenciar a compreensão: a geração de inferências.

No documento MARCIA VOLANI CORDOVA DE OLIVEIRA (páginas 63-66)