• Nenhum resultado encontrado

O Estado como produto da divisão do trabalho

I. A BASE REAL DA POLÍTICA EM GERAL

2. Crítica da política

2.2. O Estado como produto da divisão do trabalho

“o Estado, em razão da divisão do trabalho, constitui um organismo próprio, separado da sociedade” (Crítica de Gotha, 240).

Segundo Marx, o Estado e a política são tão historicamente circunstanciais quanto a

propriedade privada e a divisão do trabalho.

“A vida material dos indivíduos, que não depende de modo nenhum apenas da sua ‘vontade’, o seu modo de produção e as suas modalidades de troca, que se condicionam reciprocamente, são a base real do Estado e continuarão a sê-lo em todos os estádios em que sejam ainda necessárias a divisão do trabalho e a propriedade privada” (Ideologia Alemã, v. II, p. 135-136).

Ao invés de aparecer como a esfera mais elevada da atividade humana, a política

aparece em Marx como uma limitação, que aliás é fruto indissociável de uma fraqueza

social, identificada por Marx concretamente no baixo nível de desenvolvimento das forças

produtivas, que torna necessárias a divisão do trabalho e a propriedade privada. Segundo

Marx, portanto, a política é um atributo necessário não à vida social em geral, mas apenas à

vida social baseada na divisão do trabalho e na propriedade privada.

Como vimos, com a divisão do trabalho, o poder social aparece aos indivíduos não

como seu próprio poder unificado, mas como uma força estranha, situada fora deles e eles

oposta. O Estado, para Marx, é justamente uma das formas assumidas por essa força social

alienada. Em outras palavras, o Estado é

“a esfera particular, à qual foi atribuída a administração dos interesses públicos em resultado da divisão do trabalho” (Ideologia Alemã, v. I, p. 242)

A divisão do trabalho leva à contradição entre interesse particular e interesse

coletivo. Segundo Marx, esta contradição faz com que o interesse coletivo assuma uma

forma autônoma na qualidade de Estado. Autônoma no sentido de que está separado dos

reais interesses particulares e gerais, mas nunca no sentido de existir com bases próprias.

Pois, como vimos e como será sempre reiterado por Marx, o Estado só existe sobre a base

das relações sociais reais.

“com a divisão do trabalho é dada ao mesmo tempo a contradição entre o interesse do indivíduo ou da família singulares e o interesse coletivo de todos os indivíduos que se relacionam entre si; e, com efeito, este interesse coletivo não existe apenas na representação, como ‘interesse geral’, mas se apresenta, antes de mais nada, na realidade, como a dependência recíproca de indivíduos entre os quais o trabalho está dividido. […] É justamente desta contradição entre o interesse particular e o interesse coletivo que (1) o interesse coletivo toma, na qualidade de Estado, uma forma autônoma, separada dos reais interesses particulares e gerais e, ao mesmo tempo, na qualidade de uma coletividade ilusória, (2) mas sempre sobre a base real dos laços existentes em cada conglomerado familiar e tribal – tais como, laços de sangue, linguagem, divisão do trabalho em maior escala e outros interesses – e sobretudo, como desenvolveremos mais adiante, baseada nas classes, já condicionadas pela divisão do trabalho, que se isolam em cada um destes conglomerados humanos e entre as quais há uma que domina todas as outras” (Ideologia Alemã, p. 47).

O Estado é o interesse coletivo tornado autônomo, separado dos reais interesses

gerais e particulares. Logo, o Estado surge como uma coletividade ilusória, uma comunidade

aparente, separada dos próprios indivíduos, portanto uma comunidade abstrata. Essa ideia,

que já aparecia na Questão Judaica principalmente em relação ao Estado moderno, aparece

agora na Ideologia Alemã não apenas com um grau de concreção consideravelmente maior,

como também estendida explicitamente a todas as formas de Estado, desde as primeiras,

baseadas na propriedade tribal, até o próprio Estado moderno, baseado nas classes.

Vimos que, segundo Marx, o Estado é a expressão idealista prática dos limites

econômicos existentes, assim como as religiões e as filosofias (idealistas) são sua expressão

teórica. Em diversas passagens da Ideologia Alemã, Marx afirma que o Estado é o reflexo

prático-idealista da sociedade civil. Isso na medida em que ele constitui a forma prática

assumida pelo poder social separado dos próprios indivíduos. O Estado é, para Marx, uma

alienação da força social, que se concentra num órgão à parte, separado da sociedade.

No entanto, uma vez que o Estado é fruto da cisão no interior da sociedade civil e da

consequente autonomização do interesse coletivo, o poder político em geral se revela

necessariamente como poder de uma parcela da sociedade sobre as demais. Isso significa

que enquanto houver Estado e política haverá necessariamente dominação e servidão. O

ilusório interesse geral se revela assim como o interesse de manutenção da ordem de coisas

existente e, portanto, como o interesse de manutenção de determinadas relações de

Na Ideologia Alemã, Marx é taxativo:

“As condições sob as quais determinadas forças produtivas podem ser utilizadas são as condições de dominação de determinada classe18 da sociedade, cujo poder social, decorrente de sua riqueza, encontra sua expressão prático-idealista na forma do Estado imperante em cada caso” (Ideologia Alemã,p. 108).

Esse poder pode se impor como um interesse geral estranho aos indivíduos, ou

permitir que apareça o conflito entre esse interesse ilusoriamente coletivo e os interesses

particulares, como ocorre na democracia. Porém, independentemente da forma que

assuma, a oposição real, prática entre os interesses torna sempre necessária a intervenção

igualmente prática do Estado nos momentos em que o interesse (ilusoriamente) coletivo é

ameaçado:

“Justamente porque os indivíduos procuram apenas seu interesse particular, que para eles não coincide com seu interesse coletivo (o geral é de fato a forma ilusória da coletividade), este interesse comum faz-se valer como um interesse ‘estranho’ aos indivíduos, ‘independente’ deles, como um interesse ‘geral’ especial e peculiar; ou têm necessariamente de enfrentar-se com este conflito, tal como na democracia. Por outro lado, a luta prática destes interesses particulares, que constantemente e de modo real chocam-se com os interesses coletivos e ilusoriamente tidos como coletivos, torna necessário o controle e a intervenção prática através do ilusório interesse-‘geral’ como Estado” (Ideologia Alemã, p. 49).

Assim, em todas as épocas, o Estado surge necessariamente como o poder de

manutenção da ordem, ou seja, de determinada forma social existente; ou, mais

precisamente, de determinada forma de dominação da classe apropriadora sobre a classe

produtora. Nas palavras de Marx, independentemente de sua forma,

“Ele fora sempre o poder para a manutenção da ordem, isto é, da ordem existente da sociedade e, portanto, da subordinação e exploração da classe produtora pela classe apropriadora” (A Guerra Civil na França, Segundo Rascunho, p. 170).19

18 Aqui, o termo classe é usado no sentido amplo, valendo para qualquer forma social, não apenas para a sociedade burguesa.

19

Embora nesse contexto Marx esteja se referindo especificamente à história do Estado moderno, é evidente que essa afirmação vale para qualquer forma de Estado.

Como dizia Marx no Prefácio de 1859, com o qual iniciamos este capítulo, o segredo

do Estado e das relações políticas e jurídicas em geral deve ser buscado na sociedade civil,

que constitui sua base real; e o segredo da sociedade civil, por sua vez, deve ser buscado na

economia política. Assim, é a análise da forma de produção da vida material de cada época

que explica tanto a sua forma social quanto a sua consequente forma política.

A forma assumida pela relação direta entre os proprietários dos meios de produção e

os produtores imediatos, sempre condicionada por um determinado nível de

desenvolvimento das forças produtivas, é para Marx o verdadeiro segredo, o fundamento

escondido de todo o edifício social e de sua correspondente forma política. A forma

específica que reveste o Estado em cada caso surge agora, precisamente, como a forma

política assumida pela relação de soberania e dependência, que tem como fundamento a

forma econômica da relação entre os produtores e os apropriadores.

“A forma econômica específica na qual o trabalho extra não remunerado é retirado dos produtores diretos determina a relação de dominação e servidão, uma vez que ela cresce diretamente da própria produção e reage por sua vez de modo determinante sobre ela. Nisso se baseia toda a configuração da comunidade econômica que surge das relações de produção presentes, e consequentemente também sua forma política específica. É em cada caso na relação direta entre os proprietários dos meios de produção e os produtores imediatos – relação cuja forma particular sempre corresponde naturalmente a um certo grau de desenvolvimento do tipo de trabalho, e portanto a um certo grau de força produtiva social – que se encontra o segredo mais profundo, o fundamento escondido de todo o edifício social, e por consequência da forma política que assume a relação de soberania e dependência, em suma, a base de toda a forma específica que reveste o Estado em cada caso. Isso não impede que a mesma base econômica – a mesma quanto às condições principais – possa, devido a inúmeras circunstâncias empíricas distintas, condições naturais, relações raciais, influências históricas externas etc., exibir infinitas variações e graduações em sua manifestação, que só podem ser entendidas mediante análise dessas circunstâncias empiricamente dadas.” (O Capital, v. 3, p. 251-252).20

20 “The specific economic form, in which unpaid surplus-labour is pumped out of direct producers, determines the relationship of rulers and ruled, as it grows directly out of production itself and, in turn, reacts upon it as a determining element. Upon this, however, is founded the entire formation of the economic community which grows up out of the production relations themselves, thereby simultaneously its specific political form. It is always the direct relationship of the owners of the conditions of production to the direct producers — a relation always naturally corresponding to a definite stage in the development of the methods of labour and thereby its social productivity — which reveals the innermost secret, the hidden basis of the entire social

Vimos que o Estado não é um ser autônomo, mas se enraíza nas relações sociais

reais, mais especificamente, nas relações materiais de vida. O Estado surge então como

produto da sociedade civil ou, mais precisamente, como produto necessário da divisão do

trabalho. Agora, o Estado aparece como o poder para a manutenção da ordem ou, mais

precisamente, como a forma política assumida pela dominação dos produtores pelos

apropriadores. Isso significa que, para Marx, em todas as épocas e em todas as formas, o

Estado implica necessariamente a relação de dominação e servidão, ou seja, a ausência de

liberdade. Essa relação de dominação e servidão constitui a sua base real, o fundamento

sobre o qual repousa e do qual é impossível destacá-lo, a não ser através da abstração, pois

eles estão organicamentefundidos entre si.

Já nas Glosas de 1844 Marx comparava o Estado antigo com o Estado moderno

demonstrando que ambos repousam sobre formas diferentes de escravidão e que, portanto,

o Estado, não apenas o Estado moderno ou o Estado antigo, mas o Estado em geral é

indissociável da escravidão – nesse sentido de ausência de liberdade. Diz Marx:

“Com efeito, essa dilaceração, essa infâmia, esta escravidão da sociedade civil, constitui o fundamento natural em que se baseia o Estado moderno, assim como a sociedade civil da escravidão constituía o fundamento sobre o qual descansava o Estado antigo. A existência do Estado e a existência da escravidão são inseparáveis. O Estado antigo e a escravidão antiga – francos e sinceros antagonismos clássicos – não se encontravam fundidos entre si mais estreitamente do que o Estado moderno e o moderno mundo das trocas, hipócritas antagonismos cristãos” (Glosas de 1844,p. 513).

corresponding specific form of the state. This does not prevent the same economic basis — the same from the standpoint of its main conditions — due to innumerable different empirical circumstances, natural environment, racial relations, external historical influences, etc. from showing infinite variations and gradations in appearance, which can be ascertained only by analysis of the empirically given circumstances.” (Capital, v. 3, versão online).

Documentos relacionados