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1.2 O Estado e suas interfaces

1.2.1 O Estado Intervencionista

O início do Estado intervencionista ou do Bem-estar social se deu principalmente a partir das ideias do economista britânico John Maynard Keynes. Dentre as suas obras, destaca-se A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, escrita entre os anos de 1930 e 1935, tendo como objetivo contrastar a natureza de seus argumentos e conclusões com os da teoria clássica3. A argumentação de Keynes é que os postulados da teoria clássica se aplicam

3 A denominação de economistas clássicos o autor extraiu de Marx e culminou em Ricardo (economista que

apenas a um caso especial e não ao caso geral. A teoria sustenta que as negociações salariais entre trabalhadores e empregadores determinam o salário real. Se contrapondo a esse pensamento, Keynes argumentava que provavelmente não existia um acordo da mão de obra em conjunto para que seus salários fossem reduzidos. E afirmou:

Supor que a política de salários flexíveis seja um atributo normal e correlato de um sistema baseado, em seu conjunto, no princípio de laissez-faire é o oposto à verdade. Apenas em uma sociedade altamente autoritária, capaz de impor mudanças súbitas, substanciais e completas, poderia funcionar com êxito uma política de salários de salários flexíveis (KEYNES, 1983, p.186).

Keynes ressaltou que os economistas clássicos abordavam que a oferta gerava procura. Porém, ele contestou essa relação equilibrada entre oferta e procura, pois se o nível de emprego for baixo, a demanda estará aquém da oferta, o que geraria a crise. Objetivando descobrir o que determina o volume de emprego, ele enfatiza que o volume deste depende da demanda efetiva e do nível de receita que os empregadores esperam receber da produção e se esta se destina a satisfazer o consumidor. Por sua vez, este deve dispor de renda, o que se dá através do trabalho ou através dos investimentos, que também têm origem no trabalho realizado por um indivíduo ou grupo, seja através do lucro, herança ou qualquer forma injusta de obtenção de dinheiro ao longo do processo histórico.

A renda definida por Keynes difere do rendimento líquido, sendo a primeira o resultado da diferença entre o valor da produção final vendida no período e o custo primário, e a segunda refere-se à quantia disponível para o consumo imediato, o que na noção popular é denominada de renda. Já a poupança, Keynes define como “[...] o excedente da renda sobre o consumo [...].” (op. cit., p. 53), que para alguns economistas é igual a investimento. Portanto, Keynes expõe que as decisões de consumir e as de investir determinam, em conjunto, os rendimentos. “Presumindo que as decisões de investir se tornem efetivas, é forçoso que elas restrinjam o consumo ou ampliem a renda.” (op. cit., p. 53). O autor ainda ressaltou sobre o vínculo entre a poupança e o estoque de capital do país:

Um país se enriquece não pelo simples ato negativo de indivíduos não gastarem todos os seus rendimentos em consumo corrente. Enriquece-se pelo ato positivo de usar essas poupanças para aumentar o estoque de capital do país. Não é o avaro que se torna rico, mas o que aplica seu dinheiro em investimento frutífero. O objetivo de concitar o povo a poupar destina-se a criar a capacidade de construir casa, estradas e assim por diante (op. cit., p. 311).

Já investimento, para Keynes, difere da abordagem de alguns economistas que entendem que poupança e investimento são iguais. Ele enfatiza que, para além da linguagem corrente de investimento ligado a compra de um ativo na Bolsa de Valores, pode ser investimento em imóveis, estoques de produtos acabados ou em máquinas. O autor enfatiza que à medida que a renda cresce, as pessoas estão dispostas a aumentar o seu consumo, embora de forma a não liquidar toda essa renda, pois há o desejo de poupar a diferença que surge entre a renda efetiva e as despesas fixas. Porém, ele ressalta que “[...] a satisfação das necessidades primárias imediatas de um indivíduo e de sua família é, normalmente, mais forte que os seus motivos para poupar, que só adquirem predomínio efetivo quando se alcança determinado nível de conforto.” (op. cit., p. 75). Nesse contexto, Keynes expõe os fatores que podem contribuir para que o consumo exceda a renda quando há queda no volume de emprego, o que aparentemente é contraditório. Porém, o autor aborda que com a redução do nível de emprego, as pessoas ou instituições tendem a usar suas reservas financeiras, assim como o Governo poderá cair em déficit orçamentário por prestar auxílio aos desempregados a partir de dinheiro emprestado. Por isso a afirmação de que quando o consumo excede a renda no momento do desemprego, tendo a poupança e o Estado um papel importante para que o declínio do emprego e da renda, uma vez iniciado, não possa ir mais longe, ou seja, como um fenômeno em longo prazo.

Para Keynes, o consumo é o único objetivo da atividade econômica. Nesse enfoque, o empresário, sob o motivo de aumentar seu lucro presente e futuro, visando seu consumo imediato ou não, fixa o volume de emprego, e de outro lado este depende da função das demandas determinadas pela previsão de vendas que deve resultar, respectivamente, do consumo e do investimento. Mesmo sabendo que se atribui ao lucro o papel fundamental para as relações econômicas e sociais no sistema capitalista, o consumo, colocado em destaque por Keynes, também tem igual importância nesse processo, pois se o lucro aumenta o consumo, o desejo deste aumenta as aspirações pelo primeiro, o que leva a uma das maiores insanidades humanas: o consumismo. Nesse contexto, Keynes apresentou a dualidade entre os motivos para poupar e os motivos para consumir. Os primeiros referem-se à precaução, melhoria ou avareza, e os últimos aludem ao prazer, imprevidência, irreflexão, extravagância e ostentação.

Keynes ainda ressaltou que a instabilidade econômica pode ser gerada pela especulação e em face da natureza humana, em que o empreendedor procura convencer a si próprio de que a principal força motriz da sua atividade está nas afirmações de seu propósito, se guiando apenas pelo otimismo sem considerar as expectativas matemáticas. Contudo, ele alertou quanto à necessidade de não pautar as decisões apenas nos cálculos, pois existem

alguns fatores desencadeantes de uma instabilidade econômica que foge ao controle do empreendedor, sejam a partir de um desequilíbrio natural ou a partir de uma crise financeira global.

Ao abordar sobre as flutuações no que concerne à produção e ao emprego, o autor enfocou como se baseou a teoria dos ciclos econômicos, em que “[...] as flutuações podem começar de repente, mas parecem atenuar-se antes de chegar a grandes extremos, e o nosso destino é a situação intermediária, não propriamente desesperada e tampouco satisfatória.” (op. cit., p. 174). Atrelado a esse contexto, Keynes também abordou sobre a outra característica do ciclo econômico: a crise. Ele explicou que “[...] o fato de que a substituição de uma fase ascendente por outra descendente geralmente ocorre de modo repentino e violento, ao passo que, como regra, a transição de uma fase descendente para uma fase ascendente não é tão repentina.” (op. cit., p. 218). Nesse sentido, o autor acreditava que o Estado deveria assumir a organização direta dos investimentos e não apenas apostar na política de influência sobre a taxa de juros. E mais: ele ressaltou que o volume corrente de investimento não deve ser regulado pela propriedade privada dada a amplitude das flutuações.

Por fim, Keynes afirmou que os principais defeitos da sociedade econômica são a sua incapacidade de proporcionar o pleno emprego e a sua arbitrária e desigual distribuição da riqueza e das rendas. E ao apontar caminhos diante da insustentabilidade do controle pelo livre mercado no liberalismo econômico, o autor reforçou a necessidade do Estado “[...] exercer uma influência orientadora sobre a propensão a consumir, em parte através de seu sistema de tributação, em parte por meio de fixação de taxa de juros e, em parte, talvez recorrendo a outras medidas [...]” (op. cit., p. 256). Para ele, a intervenção do Estado era o único meio possível de evitar a destruição total das instituições econômicas, inclusive com a eminente quebra entre os bancos do mundo, sendo necessária uma socialização ampla dos investimentos para assegurar uma situação aproximada de pleno emprego, embora isso não implicasse a necessidade de excluir ajustes e fórmulas de toda a espécie que permitisse ao Estado cooperar com a iniciativa privada. Mas, fora disso, ele não via nenhuma razão evidente que justificasse um “Socialismo de Estado” abrangendo a maior parte da vida econômica da nação.

Diante do exposto, observa-se que as ideias de Keynes dispõem sobre a necessidade de intervenção do Estado, sobretudo, nos momentos de crise, visando reequilibrar o sistema econômico na fase de transição entre descendência e ascendência. As medidas para que haja crescimento econômico perpassa pela geração de emprego, como renda suficiente para adquirir o que os trabalhadores produzem. Qualquer desequilíbrio entre emprego, salário e

demanda gera crise. A produção sempre será contínua se estes fatores estiverem alinhados. Mas o que se observa com a mundialização do capital é que o crédito cada vez mais responsável pelo aumento do consumo, também é o gerador de crise a partir do momento em que as regras não rígidas possibilitem que os indivíduos e as famílias comprometam demasiadamente os seus salários, seja via cartão de crédito, crédito consignado, entre outras formas.

No contexto brasileiro, o Estado, quando nasce com a Independência, em 1822, é estruturado sob o comando das oligarquias rurais regionais, porque a economia do Brasil não existia. Tratava-se de um arquipélago de bases econômicas regionais voltadas para a matriz. Já o objetivo central do Estado Intervencionista ou Desenvolvimentista foi promover o avanço das forças produtivas, patrocinando claramente o projeto industrializante, até rompendo com o que à época os poderosos lá de fora achavam ser o destino de Brasil: um país de vocação agrícola. Contudo, foi um caso de Estado desenvolvimentista conservador, pois nunca mexeu na estrutura fundiária para democratizá-la e nunca democratizou o acesso à educação. Mas o excedente econômico passa a se realizar cada vez mais internamente. Essa é uma mudança importante em relação ao Brasil colônia. Aproveita-se a internacionalização do capital industrial para atrair empresas estrangeiras que vêm produzir aqui, e monta-se um dinamismo econômico olhando para o mercado interno. O dinamismo da economia nacional ocorreu com base na grande empresa: estatal, multinacional e nacional. Em face disso amplia-se muito a integração do espaço físico-territorial com estradas e comunicações, sobretudo. Em meio a essas mudanças, destacam-se como problemas para adotar um projeto menos excludente, o fato de existir grande concentração espacial (no Sudeste), econômica (grandes grupos) e social, bem como a diferença entre os maiores e os menores salários, sendo uma das mais altas do mundo. (ARAÚJO, 2000).

Assim, o Estado desenvolvimentista industrializou e estruturou espacialmente o Brasil, mas o bem estar social não foi universal, apesar de muitos ganhos trabalhistas. A concentração de terra e de renda continuou a reduzir as oportunidades e a capacidade da sociedade brasileira para de fato percorrer o caminho do desenvolvimento. Já na década de 1990 em meio ao neoliberalismo, surge na Europa a ideia da Terceira Via defendendo o Estado Necessário, ou seja, aquele que não nem é mínimo, como no liberalismo que vigorou até a crise de 1929, e nem máximo, como nos países socialistas e no Estado Intervencionista, do Bem Estar Social ou Estado Desenvolvimentista na década de 1980.