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4. Ellison incolor

4.1 O estatuto do herói negro

A tradição de todas as gerações passadas é como um pesadelo que comprime o cérebro dos vivos. E justamente

quando parecem empenhados em transformar-se a si e as coisas, em criar algo nunca antes visto, exatamente nessas épocas de crise revolucionária, eles conjuram temerosamente a ajuda dos espíritos do passado, tomam emprestado seus nomes, as suas palavras de ordem, seu figurino, a fim de representar, com essa venerável roupagem tradicional e essa linguagem tomada de empréstimo, as novas cenas da história mundial (MARX, 2014:25).

Enquanto escrevia Homem Invisível, em um apartamento emprestado por um casal de amigos, membros da classe média judaica nova-iorquina, Ellison lia o livro O Herói, uma seleção de textos sobre mitologias diversas. Procurava nele um elo de ligação que o auxiliasse em sua tarefa de reescrever a tradição da cultura negra, colocando-a sob análise minuciosa através do romance. Ele não possuía antecessores. Ele não possuía uma ideia clara do que queria fazer. Sabia, entretanto, aquilo que estava convencido a não fazer: uma obra inserida dentro dos parâmetros estéticos de Richard Wright, principal escritor afro-americano até aquele momento. Em princípio, era necessário escrever uma obra que reunisse o jazz, a violência, a injustiça social, tudo aquilo que era caro à comunidade negra, em uma só obra que fosse capaz também de preservar a noção de ação do individual, de direito de escolha, de autodeterminação. Sua obra tinha que ser não apenas o relato das condições dos negros, mas um inédito relato das manipulações, das maquinações subjetivas e de como os negros criam estratégias de dissimulação para sobreviver às situações impostas por sua condição social inferiorizada. E justamente quando necessitava criar algo inteiramente novo, Ellison, como na passagem do 18 de Brumário, invocou a tradição do jazz, a tradição de um povo cuja principal característica passa a ser a capacidade de adaptação (daí apoiar-

se nos improvisos jazzísticos e pontuar o livro com menções a Louis Armstrong). Homem Invisível poderia ser um poema extenso. Homem Invisível poderia ser um disco de jazz através do qual Ellison discorreria sobre as aleluias e agonias de sua condição de negro. Entretanto, nenhuma dessas formas artísticas seria inédita. Em 1952, a música poesia e a música negra eram recebidas com o mesmo tipo de entusiasmo pela classe média estadunidense. É fato que as leis do período Jim Crow ainda prevaleciam, mas é verdade também que na parte norte dos EUA, especialmente em Nova York, proliferavam os lugares onde a América negra se mostrava para a América branca e as duas celebravam uma coexistência possível. Portanto, uma obra musical vinda de um indivíduo negro, por melhor e mais ambiciosa que fosse, não escaparia de um esquema de produção underground, sendo apenas uma nova versão dos circuitos não emancipados dos quais Ellison desejava escapar. Foi por essa razão que Ellison escolheu compor seu trabalho no formato de romance, essa forma burguesa por excelência. E não por outra razão, o National Book Award foi oferecido a ele no ano seguinte, vilipendiando nomes como Ernest Hemingway (que havia publicado O velho e o mar no ano anterior) e John Steinbeck (que concorria com A oeste do paraíso). A própria escolha do meio se configurava, mcluhaniamente, na mensagem que o livro pretendia transportar. Utilizando-se da forma específica da burguesia, Ellison enviou a mesma mensagem a proletários e burgueses: a mensagem de que não estava alinhado com nenhuma das lideranças e que, embora fosse negro e embora fosse um liberal, não professava fé particular nem na negritude nem no liberalismo94.

Esta sensação partia de um sentimento de inadequação dentro do cenário afro- 94 “O romance foi a forma específica da burguesia. Em seu início encontra-se a experiência do mundo desencantado no Dom Quixote e a capacidade de dominar artisticamente a mera existência continuou sendo o seu elemento” (ADORNO. Theodor. Notas de literatura. São Paulo: Editora 34, 2008, p. 55).

americano e de um evidente desconforto em participar de uma tradição cultural que era a base do discurso que gerou a escravidão negra.

The disappearance of the African-American intellectual tradition – including its philosophy – occurred in the course of its incorporation into the European American Imperial epistemic order that was an integral part of the larger hegemonic cultural system that legitimated colonization and African slavery. This epistemic order was racist in that it rested on principles of White supremacy. Thus, irrespective of the intrinsic merit of texts, the epistemic value and recognition given to them had to be racially determined. Consequently, White discourses and authors – whether religious, literary, sociological or philosophical – necessarily accumulated recognition, truth value, authority, and canonicity at much faster rates than Black discourses and authors.95

O vazio de discursos negros também era o vazio material da falta de lideranças intelectuais. Ellison havia diagnosticado que a comunidade negra estava empanturrada por líderes comunitários, mas faminta de formadores de intelectuais relevantes96. Com o tempo, Ellison passou ele mesmo, à sua própria

95 “O desaparecimento da tradição intelectual afro-americana – incluindo sua filosofia – ocorreu durante a assimilação do modelo epistêmico europeu, que era parte integral de um sistema hegemônico cultural bem mais amplo, que legitimava a colonização e a escravidão africana. Essa ordem epistêmica era racista e nela repousava os princípios da supremacia branca. Assim, independente do mérito dos textos, o valor epistêmico e o reconhecimento dado a eles era racialmente determinado. Consequentemente, discursos brancos e autores – fossem eles religiosos, literários, filosóficos ou sociológicos, necessariamente adquiriam reconhecimento, valor, autoridade e canonicidade muito mais rapidamente que os discursos negros e seus autores (HENRY, Paget. The rise of african-american philosophy in GORDON, & JANE. Companion to african-American studies, p.224).

96 “When I started writing invisible man I was reading Lord Raglan´s The hero, in which he goes into figures of history and myth to account for the features which make for the mythic hero and at the same time I got to thinking about ambiguity of Negro leadership during that period. This was the late forties and I kept trying to account for the fact that when the chips were down, negro Leaders did not represent the Negro community”. (“Quando comecei a escrever Homem Invisível, estava lendo O herói, de Lord Raglan, livro em que ele investiga a história com o objetivo de resgatar as características que contribuíram para a construção do herói mítico. Então, ao mesmo tempo, eu comecei a pensar sobre a ambiguidade da liderança

revelia, a ocupar o espaço de intelectual negro. Antes dele a figura do negro era sinônimo de racismo. O racismo era visto como resultado natural da existência dos negros. De certa forma, pode-se afirmar, o negro era culpado de, com sua cor, proliferar a necessidade do racismo. Ao construir seu personagem que verbaliza “sou invisível porque se recusam a me ver”, ele deixa claro que racismo é um tipo específico de resposta a sua cor. Isto opera como uma desnaturalização das reações anti-negras e, portanto, é, para além da vontade de seu autor, uma obra libertária.

Durante sua vida, Ellison trabalhou para que seu texto fosse visto como um momento isolado da literatura norte-americana, e procurou fazer crer que Homem Invisível era resultado da ação de um homem competente que, por acidente, era também negro. Em parte receoso de que seu texto fosse considerado autobiográfico e, portanto, menor, Ellison procurou aliar-se àquilo que se pode chamar de uma obra universal. Homem Invisível viria a ser a trajetória de um homem qualquer, que se recusa a continuar sendo visto por aquilo que não reconhece como sendo seu verdadeiro eu. Essa semantização de sua principal obra se insere na tentativa de apagar o papel histórico das diferenças fenotípicas, focando somente no mero reconhecimento biológico delas. Assim, as tonalidades diferentes de pele, os tipos de cabelo, a altura do nariz, a grossura dos lábios, o tamanho da arcada, fazem parte do universo de diferenças entre os seres humanos, sem qualquer relevância social. O discurso da diferença atingiu um status de universalidade até sumir como força política. Uma vez que todos são diferentes de todos, não haveria por que beneficiar algumas diferenças específicas. Todos esses expedientes do autor não passam

negra naquele período. Era o final da década de 1940 e eu tentava identificar quando as coisas começaram a degringolar, quando, afinal, os líderes negros passaram a não representar a comunidade negra (ELLISON, Ralph. Shadow and Act. Nova York: Random House, 1995, p.50).

de uma tentativa de transformar-se em herói, em protagonista de uma narrativa inventada por ele para caber em um ideal já existente de modelo de ação. Observando as estruturas sociais das comunidades negras, conclui-se que a solidão simbólica se faz presente na maior parte delas. Ellison tornou-se esse herói de si mesmo, esse Dom Quixote sem Sancho Pança, porque esse é o arquétipo da cultura negra norte-americana, um self-made que se retraduz no testemunho de uma independência feita de solidão, autoafirmação e identidade.

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