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Three days before shooting: o livro invisível

2. Ellison em vermelho

2.2 Three days before shooting: o livro invisível

Publicado em 2011, contendo espantosas 1098 páginas, o livro traz textos introdutórios dos editores John Callahan (responsável legal pelos originais do autor) e do professor universitário e escritor Adam Bradley. Three

days before the shooting não chega a ser uma obra; é, no máximo, um interessante

amontoado de frases, começos, ideias a serem desenvolvidas e um enredo que promete o tempo inteiro uma entrega que não terá condições de cumprir.

O enredo de Three days before shooting é relativamente simples: o senador Adam Sunraider, um líder dos movimentos de direitos civis, sofre um atentado planejado e executado por seu suposto filho biológico. A trama discute paternidade, autoridade, legitimidade das lideranças negras e a estrutura do sistema político estadunidense.

Ironicamente o livro é esteticamente exatamente aquilo que Ellison temia que ele fosse: insuficiente, mal construído, e está muito longe de sua novela de estreia.

Three days before the shooting is not the novel readers were waiting for at the time of

Ralph Ellison´s passing. Is at once much less, and perhaps something more. It is less in that it offers no clear resolution to the story it tells; it doesn't end so much as stop.42

A primeira frase de Three days before shooting é a sintomática: "Understand me, I was there" (ELLISON, 2011:13). Um exercício breve de especulação aponta facilmente a ambiguidade voluntária da frase construída pelo autor. De um lado o personagem refere-se estritamente às condições de seu testemunho do ocorrido (um tiroteio em Washington). O pedido do personagem – Understand me – transforma-se no pedido do próprio autor pela interpretação, não de si mesmo – uma vez que não se trata aqui de realizar uma simulação de clínica psicanalítica travestida de crítica literária – mas de sua obra. E continua o personagem: I was there. E esse there refere-se, talvez, à obra de ficção, em oposição à sua trajetória biográfica.

Espanta no romance a presença de trechos palavrosos, banais, com adjetivos típicos de um escritor iniciante. Como o fragmento destacado:

Next time came the rumor that the Senator, a wealthy bachelor, had kept for a time a beautiful Jewish mistress whom he showered with expensive jewelry, furs, works of art (he was alleged to have given her one of the fines Picassos) (ELLISON, 2011:27).

Wealthy, beautiful, expensive, compõem um quadro de preguiça

descritiva incomum à obra do autor. E são os prenúncios de uma estranha ficcionalização da ideia de uma parcela da cultura, como em fine ficassos, simulando um distanciamento do mundo das artes plásticas que parece ainda 42

"Three days before the shooting não é o romance que os leitores esperavam na época da morte de Ellison. É ao mesmo tempo menos e talvez algo mais. É menos porque não deixa claro que história está contando: é um livro que não termina, ele para." Nota introdutória dos editores. (Three days before the shooting. Nova York: Modern Library: 2011, p.04).

mais estranho a alguém na posição social do autor àquela altura. Isso acontece porque Ellison esforça-se para marcar suficientemente a diferença, a interrupção entre narrador e autor, algo que para muitos não ficava suficientemente claro em Homem Invisível. No capítulo 14, há outro exemplo eloquente: "Outside it was breathless, the stars hanging high and the street- quiete broken only by the ringing clang of a distant piece of metal, struck by a passing car. At the car I hailed a cruising taxi and climbed inside" (ELLISON, 2011:196).

Definir uma paisagem local como "de tirar o fôlego", narrar que as estrelas permaneciam lá "no alto", são recursos limitados, oriundos de uma percepção literária pueril, inacabada, imprópria para divulgação. Ellison a rigor não estava, portanto, ali. Ellison estava lá. E esse lá é, sem dúvida, em seu primeiro romance, no livro construído em cima de uma dicotomia feita das tensões que desapareceram no momento de redação de Three days before the

shooting. O autor estava absolutamente liquidado, porque um autor é sua

materialidade, seu contexto histórico. Quando são alteradas radicalmente as condições de produção de sua atividade intelectual é provável que alguns autores simplesmente percam a força daquilo que tinham a fornecer como relato original e singular.

Na pagina 458, no miolo do que foi descrito como Book II, as intervenções dos editores passam a comprometer de forma irreversível o entendimento da obra e a criar uma espécie de obra produzida a seis mãos. No capítulo “Bliss´s birth” seguiu-se, segundo os editores, as orientações expressas de Ellison, mas sua localização no volume publicado foi uma decisão exclusiva dos editores. Nesse sentido, já não se pode, a partir daquele ponto, tomar a obra como uma construção de Ellison, e isso é particularmente um problema, porque

em um romance a ordem dos fatores altera substancialmente o produto. A publicação de Three days before the shooting é resultado não apenas do trabalho de Adam Bradley e de John Calhan, como também de um momento histórico que compreende os acervos dos escritores como peças valiosas demais para não serem publicadas. No centro do sistema editorial, 1098 páginas inéditas de um autor consagrado não podem ser legadas como mero instrumento de pesquisa. Elas necessitam tornar-se mercadoria e, como mercadoria, alcançar uma possibilidade de circulação travestida de desejo de viabilizar o encontro de leitores com um trabalho literário de qualidade.

Ao abdicar de sua identidade social pública de autor negro, Ellison deixou Homem Invisível sem autor. E ficou, ele mesmo, sem ter obra a ser reivindicada. Assim, foi como se cada linha composta por ele em Three days

before the shooting fosse a linha de um escritor iniciante que talvez se ressentisse

do peso de um estranho romance de estreia tardio. Paradoxalmente, ao mergulhar na mistificação de uma figura solitária, possuidor de um talento ímpar e que em nada teria a ver com sua comunidade étnica de origem, Ellison pareceu perder seu argumento de partida. Se seu ingresso no mundo literário se deu justamente por causa da força de seu ponto de vista, onde misturava magistralmente tradições negras com narrativas já consagradas, sua permanência nesse mundo estava ameaçada pela necessidade de encontrar outro caminho para sua própria literatura. Era preciso, para ele, provar que seria capaz de tratar de outros temas, de outras formas, sem, no entanto, parecer estar recusando ou escusando-se de tratar novamente da questão racial apenas por ser um autor negro. Não podia, portanto, contornar a questão, tampouco abordá-la. Na angústia sufocante dessa potência infinita, ficou paralisado.

É, contudo, fundamental reconhecer que, embora estivesse paralisado, a própria existência dessa paralisia acaba servindo como chave interpretativa para as contradições internas da obra do autor. Three days before

the shooting é escrito na fase pós-Homem Invisível, onde Ellison estava totalmente

alinhado à ideologia capitalista e à direita estadunidense, mas reúne mais aspectos anticapitalistas do que Homem Invisível. Assim, acabou por se tornar um livro incômodo, um livro sem lugar, um livro que Ellison não poderia concluir, mas que não admitia abandonar.

Basicamente, é como se as evidentes falhas daquilo que é apresentado fossem tomadas como motivo de comemoração. O que não está presente em Three days before the shooting: o alto controle narrativo, o poder de concisão, a precisão dos diálogos, o delineamento metafórico de todas as passagens, tudo o que estava em Homem Invisível e fez do livro uma grande obra, está ausente em Three Days before the Shooting43.

43 "Yet it is precisely the incompletion of the manuscripts that makes them such a compelling and fascinating contribution to American literature" (ELISSON, 2011:17).

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