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O florescimento do cooperativismo italiano

4. A história das cooperativas na Europa e na Itália

4.2. O florescimento do cooperativismo italiano

A primeira cooperativa italiana, segundo Barberini (2009), surgiu na cidade de Osoppo,

norte do país, em 1806. Foi a primeira cooperativa no mundo a produzir produtos derivados do

leite. Após essa experiência o movimento cooperativo italiano começou a despontar e em 1854

a Associação Geral dos Operários de Turim criou a primeira cooperativa de consumo sob a

forma de um comitê de previdência. Em 1856, na pequena comunidade de Altare, em Savona,

foi fundada a primeira cooperativa de produção dos trabalhadores locais de arte em vidro.

Assim como na Inglaterra, as primeiras associações populares estavam ligadas às sociedades

de ajuda mútua. Em poucos anos, os trabalhadores urbanos especializados se reuniram em

24 Informações retiradas do site da cidade de Nova Petrópolis (http://www.novapetropolis.com.br) e do site da

cooperativa Sicredi Pioneira RS (http://www.sicredipioneira.com.br). Última visualização em 23/02/2015. Ivano Barberini, ex presidente da Aliança Cooperativa Internacional, faz menção à experiência da Sicredi em sua publicação de 2009.

corporações de artes e ofícios e dentro de algumas décadas criaram dezenas de sociedades de

ajuda mútua em diversas regiões do reino.

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A ausência de uma legislação social, o enfraquecimento do tradicional corpo

eclesiástico, o início de uma transformação econômica focada nas tendências da

industrialização e as consequentes dificuldades pelas quais as relações de trabalho e emprego

foram expostas, contribuíram para o desenvolvimento das sociedades operárias de ajuda mútua

no período anterior à unificação do país. Essas entidades, que eram articuladas em torno da

solidariedade e da identidade social e profissional, se organizavam com base nos ofícios de

artesãos e, por isso, se assemelhavam mais às antigas corporações de arte do que à nova

organização do trabalho que estava se formando ao redor das atividades industriais. Os

principais objetivos das sociedades de ajuda mútua pautavam-se na educação dos sócios e no

auxílio em casos de enfermidade e de previdência, mas muitas delas também ofereciam apoio

ao crédito, matéria-prima privilegiada e venda de produtos de primeira necessidade a preço de

custo para os seus associados. Para tanto, requeriam aos sócios o pagamento regular de uma

parte do salário, ainda que nem todos conseguissem cumprir essa regra, tendo em vista a difícil

situação econômica da época. Essas características das sociedades de ajuda mútua – que em

1860 registravam cerca de 206 unidades e em 1862 já contabilizavam 443 – indicavam o

florescimento do embrião do cooperativismo (FORNASARI e ZAMAGNI, 1997).

Assim como nos outros países europeus, a Itália também tem seus personagens

responsáveis pela difusão do movimento cooperativo no país. Os pais do cooperativismo

italiano dedicaram seus esforços para a organização de uma ordem econômica e social que fosse

alternativa à empresa privada. Entre esses nomes, podemos citar Giuseppe Mazzini (1805-

1872), Francesco Viganò (1807-1891), Luigi Luzzatti (1841-1927) e Ugo Rabbeno (1863-

1897). As ideias de Mazzini foram fundamentais e tiveram grande importância na propagação

dos ideais e valores cooperativos na Itália. Seus princípios se baseavam na livre associação de

produtores e na aliança entre capital e trabalho. As ideias mazzinianas logo foram absorvidas

por sapateiros, carpinteiros, joalheiros, artesões, tipógrafos e barqueiros de Genova e

Sampierdarena (ambas na Liguria) e de Firenze (na Toscana).

25As associações de ajuda mútua e as cooperativas surgiram no reino da Itália antes mesmo do processo de

unificação dos Estados italianos ser concluído, tendo em vista que, a princípio, a região se configurava como um aglomerado de pequenos Estados submetidos a potências estrangeiras. Não existe um consenso entre os historiadores quanto a real data de unificação do país, mas a maioria deles considera que esse processo se iniciou em 1815 com o congresso de Viena e terminou em 1871 com a anexação do Estado de Roma. Contudo, 1861 foi considerado o ano da proclamação do Reino da Itália e, portanto, o ano oficial da união do país.

Francesco Viganò, um jornalista liberal e simpatizante das ideias mazzinianas, ofereceu

sua principal contribuição publicando diversos estudos sobre a cooperação. Sua obra de grande

destaque foi publicada em 1873 com o título “La fratellanza umana, ossia le società di mutuo

aiuto, cooperazione e partecipazione ed i municipi cooperativi”,

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onde explanava sobre os

princípios cooperativos e sobre as experiências que a Europa já havia experimentado, com

enfoque sobre o caso inglês e como o movimento do país havia inspirado a Itália para a criação

de seus armazéns de consumo. Viganò, que tinha seus princípios baseados na conciliação, na

paz social e na fraternidade universal, acreditava que a cooperação seria o futuro da classe

operária.

Luigi Luzzatti, conservador posicionado à direita da política italiana, contribuiu para o

desenvolvimento do cooperativismo no país a partir de sua ideologia que consistia no

determinante papel do Estado em intervir de modo a assegurar o desenvolvimento industrial e

ao mesmo tempo prover a proteção das classes mais baixas. Ele se destacava dos tradicionais

filantropos iluministas por defender que não se poderia deter a crítica questão social com o

controle da classe trabalhadora por meio de práticas paternalistas e benevolentes. A seu ver, a

alternativa ao paternalismo seria as cooperativas que, apoiadas pelas autoridades e por órgãos

estatais, poderiam integrar a classe trabalhadora na estrutura econômica que vinha se renovando

e assim promover o seu próprio bem-estar material. Como forma de fomentar o cooperativismo,

fundou em 1867 a revista Cooperazione e industria, e publicou inúmeros artigos sobre o tema.

O maior envolvimento de Luzzatti com o cooperativismo foi no âmbito do crédito e dos bancos

populares (idem, ibidem).

Ugo Rabbeno foi um intelectual que ofereceu uma importante contribuição para o

desenvolvimento de pesquisas sobre o cooperativismo no país. Em 1884, finalizou os estudos

da graduação defendendo o seu trabalho sobre a cooperação na Inglaterra e, já no ano seguinte,

publicou dois importantes estudos sobre a cooperação na Itália e sobre as sociedades

cooperativas de produção, que foram consideradas algumas das primeiras tentativas de reflexão

científica que poderiam estar imunes de condicionamentos ideológicos. Para Rabbeno, a

cooperação consiste na união de pessoas que buscam coletivamente suprir as necessidades

comuns entre todos, por meio de um espírito liberal envolto na simpatia e na fraternidade.

Apesar dos grandes expoentes que contribuíram para o desenvolvimento e a promoção

do cooperativismo no país, a experiência italiana, que foi amplamente baseada nos exemplos

que estavam acontecendo no exterior, se apresentava ainda fragmentada e marginalizada, sem

26 A fraternidade humana, isto é, a sociedade de ajuda mútua, a cooperação, a participação e os municípios

representar uma parcela minimamente significativa da economia do país. Naquele período da

segunda metade do século XIX, o movimento cooperativo enfrentava uma séria crise de

desenvolvimento. Muitas cooperativas de produção tiveram que encerrar suas atividades porque

adotaram comportamentos econômicos especulativos e não respeitaram os princípios

cooperativos. As cooperativas de consumo, por sua vez, não puderam oferecer muito apoio,

considerando que estavam focadas em negociar com empresas privadas para aumentar seu

próprio capital, que certamente não seria investido em iniciativas voltadas para a promoção do

associacionismo cooperativo. Diante desta situação, Rabbeno propôs que as cooperativas não

poderiam ser consideradas como um modelo de organização econômica, mas sim como uma

forma de organização de empresa em que os associados não aspiravam a valores especulativos.

A princípio, o movimento cooperativo experimentou momentos muito próximos de

ascensão e de declínio. Em 1865, Francesco Viganò contabilizou oito cooperativas de produção,

sendo uma em Bologna, duas em Genova, quatro em Milano e uma em Napoli. Em 1872 foi

publicada a primeira relação oficial de cooperativas no país, por meio dos Anais do Ministério

da Agricultura, Indústria e Comércio e, nesta contagem, apenas uma cooperativa entre aquelas

que Viganò apontou continuava em atividade, a dos alfaiates de Bologna. Contudo, na

contramão do movimento de declínio que se formava com a dissolução das cooperativas, foram

criadas entre os anos de 1873 e 1875, novas cooperativas de produção. Em 1874, por exemplo,

foi criada em Imola pelo mazziniano Giuseppe Bucci uma Cooperativa de produção de

cerâmica. Bucci confiou a gestão a seus empregados e em seguida cedeu-lhes a propriedade da

empresa. Este é um caso notório em que a filantropia se associa a uma classe operária

profissionalmente qualificada. As cooperativas que começaram a surgir tinham em comum a

forte especialização profissional de seus sócios (FORNASARI e ZAMAGNI, 1997; FABBRI,

2011).

Com a ascensão do movimento, o Parlamento italiano conseguiu atribuir relevância

jurídica ao cooperativismo, assim como já ocorria nos principais países europeus. O novo

Código do Comércio, aprovado em 31 de outubro de 1882, dedicou uma sessão especial à

legislação cooperativa, decretando que as sociedades cooperativas se configurariam como

anônimas e teriam um tratamento particular com relação à efetiva igualdade entre os sócios.

Dessa maneira, as sociedades resguardariam o direito a um único voto por sócio e impediriam

a venda de ações sem a aprovação em assembleia, assim como estariam isentas do pagamento

das taxas oficiais de registro. Apesar de não oferecer grandes avanços no tocante à autonomia

das cooperativas, o novo código comercial beneficiou o crescimento e o desenvolvimento do

fenômeno do associacionismo em todo o país. Contudo, de acordo com Fabbri (ibidem), o novo

Código do Comércio aumentou o interesse especulativo das classes sociais intermediárias que,

vislumbrando vantagens econômicas com o sistema cooperativo, acabaram por sufocar a via

solidária original dos princípios do cooperativismo.

O surgimento de diversas iniciativas cooperativas, nos mais variados setores, instigou o

interesse de algumas entidades culturais e também da academia. O crescimento da atenção

voltada para o tema incentivou a criação da Federação Nacional das Cooperativas em 1886.

Com sede em Milano, tinha como principal escopo ser porta-voz das necessidades das

cooperativas a fim de obter do poder legislativo condições favoráveis para o seu

desenvolvimento. No primeiro momento, aderiram 148 cooperativas que agrupavam em torno

de 74 mil sócios. No ano seguinte esse número saltou para 195 adesões. O promotor da

iniciativa de fundação da instituição foi Francesco Viganò, que também foi eleito o primeiro

presidente da instituição. Sete anos mais tarde, em 1893, a Federação adotou o nome de Lega

Nazionale delle Società Cooperative Italiane.

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Em 1890, o Ministério da agricultura, indústria e comércio lançou um quadro

aproximado sobre o número de cooperativas existentes no país. Entre aquelas contabilizadas,

as cooperativas totalizavam cerca de 1.190 unidades, sendo 681 de consumo, 69 de construção

e 440 de produção e trabalho, divididas em cooperativas de laticínios (208), trabalhadores do

campo (49), pedreiros (43), abastecimento (9) e cooperativas industriais (109), além de 22

cooperativas diversificadas, que não foram especificadas no relatório estatístico (FABBRI,

2011). Ainda que esses dados sejam imprecisos e apontem para uma maior concentração de

unidades no setor de consumo (57% dos casos), é evidente que houve um crescimento

significativo no número de sociedades cooperativas em todos os setores. Entretanto, a

estabilidade do movimento cooperativo ainda dependia de muitos fatores, inclusive da

economia do país. Nos anos sucessivos, inúmeras cooperativas tornaram a se dissolver,

principalmente porque a situação econômica gerou uma grave crise no sistema bancário

italiano, ocasião na qual o Banco Cooperativo Operário de Milano se viu sem condições de se

manter funcionando e declarou falência em 1892. Esse acontecimento colocou à prova a

credibilidade sobre o movimento cooperativo, assim como houve um grande risco de

inviabilizar os depósitos das classes trabalhadoras e de suas instituições. No interior de todo

27 Liga Nacional das Sociedades Cooperativas Italianas (tradução própria). Fundada em 1886, é a organização

cooperativa mais antiga da Itália, e tem como seus principais objetivos representar as cooperativas e desenvolver projetos e serviços de promoção à cultura cooperativa. Popularmente conhecida como Legacoop, a instituição representou, no ano de 2014, mais de 15 mil cooperativas em todo o território italiano.

esse cenário de instabilidade provocado por ascensões e declínios das associações, o universo

cooperativo italiano se encontrava fragmentado.