Na década de 70 instituições públicas realizam pesquisa e extensão, mas, com a necessidade de ampliar a produção brasileira no campo mediante incorporação de novas áreas de plantio, o gover no identifica a falta de uso de tecnologia como ponto fraco do sistema de inovação. SOUSA (1987) chama a atenção para a ausência de conhecimentos novos de ciência e tecnologia para o campo até aquele momento. Segundo analisa, mesmo com instituições de pesquisa como IAC, UFV e Esalq, não há conhecimento científico suficiente para a manutenção de fluxos regulares de informação tecnológica para o campo. O Dnpea, responsável por novas práticas agrícolas, apresentava um modelo adminis- trativo-gerencial considerado ineficiente, não possuía política científica e tecnológica e era tido como irrecuperável pelo governo da época.
Para tentar recuperar o atraso, em 1973, no auge da “Revolução Verde” – que enfatiza o uso de insumos e técnicas modernas, via pesquisa e extensão, para o aumento da produção – e de uma lógica governamental de implantar empresas estatais como instrumentos de políticas governamentais, surge a Embrapa. Desde então, seu objetivo tem sido coordenar um sistema nacional de pesquisa agropecuária que modernize o campo e forneça subsídios para maior racionalização e eficiência nos processos produtivos. Por meio do Sistema Cooperativo de Pesquisa Agropecuária, reúne centros de pesquisas e universidades de todo Brasil que atuam no setor agrícola, assim como instituições esta duais similares.
A criação da Embrapa atenderia à demanda, decorrente da evolução da urbanização brasilei ra, da necessidade de alimentos para o mercado interno, da substituição das importações e das novas exigências de qualidade dos produtos, da adaptação de processos de mecanização, uso de insumos, obtenção de produtividade e de informações para uso em novas áreas de plantio. Para AGUIAR
(1986, p. 34), torna-se instrumento específico de política econômica, para inclusão do Brasil no “pro cesso de internacionalização da economia e dos recursos nacionais na dinâmica do capitalismo mundial”.
Constituída como empresa pública, liberando-se de boa parte da burocracia típica dos órgãos governamentais, a Embrapa se organiza em torno da criação de centros nacionais de pesquisa de produtos com abrangência nacional e que estariam articulados com centros internacionais similares. Estes centros, ao mesmo tempo, fornecem conjuntos de orientações (pacotes tecnológicos) para o sistema de extensão reproduzir com devidas adaptações. Sua finalidade é a produção de conhecimen tos científicos e tecnológicos, buscando soluções para os problemas práticos, desenvolvendo artefa tos, variedades de plantas, linhagens de animais. A Embrapa é eficiente em gerar tecnologias nas regiões que possuíam recursos naturais favoráveis, produtores capitalizados e integrados ao mercado nacional e internacional (URCA-NE, 1994a, 1994b). A extensão rural atuaria com a transmissão do conhecimento de seus técnicos e com a promoção humana, organização dos produtores, construção da cidadania (SOUSA, 1988, p. 66).
Após 30 anos, a avaliação sobre os resultados da Embrapa na transferência de informações seja diretamente, seja por meio da ligação com a extensão rural, não é positiva. ALVES analisa (2001, p. 135) que, particularmente no início, a Embrapa investiu em criar massa crítica de técnicos que tivessem capacidade de avaliar a tecnologia antes de colocá-la à disposição. Mesmo com a evolução, “pouco avançamos em relação a 1973. Muitos dirão, nada progredimos. A empresa libera, e esta é a regra geral, tecnologias sem nenhuma avaliação econômica, algumas delas de custo mais elevado que a tradicional”. Afirma ainda que boa parte do que é criado permanece nas gavetas, “agora todas elas eletrônicas!”.
A questão principal nesta autocrítica é a percepção de que a capacidade de utilização de tecnologia no campo está restrita a setores mais organizados, particularmente exportadores, capazes de investir em tecnologia, obtê-la junto a instituições públicas e disseminá-la entre os interessados. Por incapacidade do Estado, grupos de agricultores mais necessitados, mas desorganizados ou que atuam com produtos menos importantes, possuem dificuldade de estabelecer vínculos com a pesquisa para informar sobre demanda, assim como desconhecimento sobre a disponibilidade de tecnologias (CON GRESSO NACIONAL, 1992).
Além do problema de concepção do sistema de difusão que não oferece um conjunto de procedimentos estratégicos para transferência de informações tecnológicas nem possui política conso lidada sobre o assunto, a Embrapa enfrentou, ao longo de sua história, restritas condições de atuação
dos setores responsáveis pela ligação com a extensão rural, agricultores e outros atores responsáveis pela conexão com usuários da tecnologia.
OLIVEIRA (1994, p. 58) realizou levantamento da situação das áreas de difusão da Embrapa, logo depois da empresa passar três anos coordenando o sistema de pesquisa e de extensão rural. O trabalho busca dimensionar o problema, já que sua existência “vêm sendo discutida ao longo dos anos”. Há falta de equipamentos, escassez de recursos humanos, seja de apoio como especializado, precária interação com os serviços públicos de extensão rural e, até mesmo, falta de padrões que caracterizem a atividade de difusão na empresa. A variedade e dispersão dos centros de pesquisa e uma concentração das políticas da instituição na atividade-fim – a pesquisa, relegaram as políticas de transferência de tecnologia a segundo plano. Resultado disso é que, com freqüência, há anúncio da elaboração de diretrizes e políticas para a área, mas elas não chegam a se consolidar. A transferência de tecnologia não foi priorizada e “grande parte das tecnologias disponíveis na Empresa não conseguiu alcançar seu destinatário” (GUIMARÃES, 1992, p. 5).
Se houve problemas estruturais nas áreas de difusão das ações de ligação com componentes do negócio agrícola, a Embrapa nos últimos anos passou a estabelecer ligações do tipo comercial ou cooperativo com o setor privado, elaborando programas de transferência como parte de acordos comerciais. São contratos para produção e venda de material genético firmados, particularmente, com fundações e empresas agroindustriais. A fim de promover o processo de atualização institucional, a Embrapa elaborou uma Política de Comunicação (EMBRAPA, 1996b), em que a antiga “difusão” passa a ser considerada “comunicação para transferência de tecnologia10 ”, voltada para o mercado e
baseada no conceito de clientes, parceiros e usuários das tecnologias, serviços e produtos. Essencial mente, troca-se um termo (difusão) que pressupõe a simples disseminação da informação, para outro (transferência), que implica na real utilização do que se estabelece como novidade.
“Os dias atuais estão exigindo novos procedimentos de transferência de tecnologia. As deman das por tecnologias têm crescido muito rapidamente, pois as políticas econômicas globalizantes exi gem mais eficiência das cadeias produtivas que formam o setor agrícola. A concorrência aumentou e é preciso produzir a custos menores, com maior qualidade e oportunidade. Tudo acontecendo numa velocidade muito grande, com reflexos sobre a vida útil das tecnologias. Resultado: os sistemas que disponibilizam as tecnologias têm que ser, necessariamente, muito mais ágeis” (EMBRAPA, sd.).
10 Outras modalidades adotadas: comunicação administrativa, comunicação mercadológica, comunicação científica,