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DO PROGRAMA BANTU-IÊ

3. O FORUM PRÓ-LEI 10.639/

Dentro programa Bantu-Iê, o Fórum pró-Lei 10.639/03 foi pensado como uma ação “extra-muro” da Universidade, visando a interação com profissionais que estão atuando na Educação Básica, em cerca de 10 municípios. Uma das finalidades é oportunizar e viabilizar a

socialização dos estudos realizados pelas/os estudantes da especialização que também são docentes nessas localidades.

O Fórum compreende conferências, debates, exibição de filmes e oficinas para os profissionais da Educação Básica, tendo como eixo o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira, buscando a problematização da situação educacional posta pela Lei 10.639/03. Como resultado final desta ação espera-se que as/os estudantes da especialização contribuam para uma política de formação continuada em relações étnico-raciais com educadores e educadoras desses municípios.

A coordenação local do Fórum no município é formada pelas/os estudantes da especialização, que organizam os contatos com os sistemas de ensino municipal e estadual, movimentos sociais e, ocasionalmente, com escolas particulares. As atividades constantes na programação são elaboradas e realizadas também por esses estudantes e por integrantes do movimento negro (e, esporadicamente, por docentes da pós-graduação).

No primeiro semestre de 2007, os Fóruns tiveram a participação de cerca de mil docentes dos municípios de Ubaitaba, Itabuna, Una, Ilhéus, Itajuípe e Ipiaú, tendo a primeira turma como responsável pela sua realização. À segunda turma caberá a segunda etapa do Fórum, no segundo semestre de 2007, contemplando outros cinco municípios que vierem a aderir à atividade, e realizando um retorno do Fórum àqueles municípios. Ou seja, cada Fórum está pensado para ocorrer duas vezes em cada município, com um intervalo de dois a três meses, no qual serão desenvolvidas as ações referentes à Afrodescendência Afirmada.

As oficinas são ministradas em duplas seguindo a organização proposta pela espiral investigativa de LEWIN (apud KEMMIS; MCTAGGART, 1988, p.13): planejamento, execução, observação, reflexão e replanejamento - vivenciada de maneira coletiva e colaborativa. Longe de ser um simples método, a espiral permite que a pesquisa-ação, enquanto forma de investigação da própria prática criticamente informada, realizada de maneira cíclica, a partir de uma preocupação temática, instrumentalize o grupo quanto ao conhecimento de suas dificuldades e seus problemas educativos, o contexto em que estão inseridos e as potencialidades de transformação.

Ao investigarem suas práticas, os professores podem explicitar o que se encontra “escondido” – no que se refere à ideologia, aos valores, às concepções de educação, sociedade, ciência; desta forma, podem, intencionalmente, por meio de mudanças nos currículos, modificar tais concepções e, por extensão, contribuir para transformar a realidade. (GRABAUSKA, 1988, p.11)

Após a realização do Fórum, cada dupla escreve um diário de bordo contendo sua auto-avaliação para ser entregue ao professor da disciplina de Seminários Temáticos. A análise deste diário de bordo se dá consultando-se em conjunto um segundo instrumento de avaliação do fórum, preenchido pelas/os próprias/os participantes, de forma a estabelecer uma triangulação: proposta de trabalho (planejamento), diário de bordo, avaliação das/os participantes. Para isso, os dados referentes à avaliação dos participantes são inicialmente tabulados pelos estagiários do

programa Bantu-Iê – estudantes universitários oriundos de cursos populares e escolas públicas – que também participam de toda organização da atividade. A racionalidade emancipatória desta ação inscreve-se nos autoentendimentos coletivos vivenciados pelo conjunto inteiro de estudantes quando partilham a experiência realizada com base na avaliação.

São temáticas das oficinas: A literatura infantil e o ensino das africanidades; O ensino de história e cultura africana e afro-brasileira; Brincadeiras, piadas e falas depreciativas: implicações na construção da identidade racial de crianças negras e não-negras; Por uma educação anti-racista: análise de discursos sobre as relações étnico-raciais no espaço escolar; A discriminação do negro no livro didático; Religiosidade e mitologia africanas no cotidiano escolar; Usos de imagens na prática educativa: contribuições para o ensino de história e cultura afro- brasileira e africana; Possibilidades de aprender Áfricas daqui e Áfricas de lá;

3.1 AVALIANDO O PROCESSO

Tendo concluído a primeira etapa dos Fóruns, pode-se apontar os seguintes aspectos avaliados por docentes e participantes: 1) Pouco ou nada se sabe na rede escolar básica a respeito da Lei 10.639/03, em que pese os quatro anos de sua existência; 2) Os discursos dos professores e professoras participantes dos Fóruns apóiam-se na ideologia do branqueamento e no mito da democracia racial; 3) Não tem sido realizada, por parte dos sistemas de ensino e outras agências formadoras a elas articuladas atividades continuadas ou pontuais sobre as relações étnico-raciais; 4) Existe uma grande resistência dos educadores em conhecer e veicular conhecimentos sobre as religiões de matriz africana; 5) A maioria esmagadora dos participantes reconhece a necessidade de enfrentamento da temática e a urgência de estudos e acesso a material pedagógico que possibilite essas discussões.

A este respeito, Silva (1997), elucida:

... é fundamental o entendimento sobre como a invisibilidade do outro, o estereótipo, a exclusão operam para esvaziar os descendentes de africanos dos seus significados e dos valores de sua cultura, ao mesmo tempo em que os preenchem com a tradição, o passado significativo de um só grupo, aquele que tem prevalência histórica na sociedade. (p. 31)

Torna-se imprescindível oferecer formação especifica e continuada às educadoras e educadores de todos os níveis de ensino, articulando esses momentos às ações afirmativas de abrangência nacional - como é o caso da distribuição de livros de literatura voltados para o pertencimento étnico-racial de crianças e jovens do Ensino Fundamental. Via de regra, estes livros ficam guardados em armários escolares sem que a professora ou o professor e seus estudantes tenham acesso e, pior, sem que possam atentar para a importância política e cultural desse material.

Dentre os desafios encontrados para a realização do Fórum pró-Lei destaca-se: a Universidade e as redes de ensino não dispõem de uma estrutura logística mínima para a realização

de um trabalho como esse; a Universidade está distante das práticas educativas da escola básica. À medida a que cada Fórum acontece vai se construindo a estrutura mínima necessária e, principalmente, modificando-se definições colocadas sobre as necessidades de formação do outro, tendo em vista o breve deslocamento do lugar de onde a Universidade enuncia seu discurso. O que indica, como nos diz Arroyo (2000) - ao se contrapor à lógica das precedências na formação de professores - e Nóvoa (1989) - ao teorizar sobre o processo contínuo da formação humana - que é na própria ação/reflexão dos sujeitos da relação educativa, formal e não-formal, que os seres humanos se apropriam da cultura e educam-se uns aos outros.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A realização do programa Bantu-Iê: África-Brasil e Educação das Relações Étnico- raciais constitui-se numa iniciativa pioneira na UESC, que alia o direito constitucional da educação superior gratuita (em que pese o financiamento do programa UNIAFRO) à responsabilidade pela mobilização em torno da discussão da temática étnico-racial e da democratização do acesso à educação. O Curso de Especialização em Educação e Relações Étnico-Raciais e o Fórum Pró- Lei 10.639/03 buscam fortalecer o discurso e a prática dos professores e seus pares, problematizando-os (FREIRE, 1987). Para as/os estudantes tem sido uma oportunidade de vivenciarem concretamente a pesquisa-ação de matriz emancipatória, articulando a ação-reflexão- ação de maneira coletiva e colaborativa.

As novas idéias não bastam por si só para gerar uma educação melhor. As práticas educativas e as regras de organização da escola e da classe devem mudar também quando se quer obter alguma melhora. De igual modo, as mudanças na prática são insuficientes; devem ser acompanhadas pelo desenvolvimento de formas melhores de discurso que descrevam, exemplifiquem e justifiquem mais adequadamente as novas práticas, e por novas formas de organização educativa que possam garantir mudanças nas novas regras de relações sociais en- tre professores, estudantes, pais e administradores da escola (por nomear tão somente a uns poucos grupos importantes); novas formas de organização nos sistemas educativos, escolas e aulas que possam proteger e encorajar as novas regras educativas que um grupo inovador tem lutado por criar e justificar (KEMMIS; MCTAGGART, 1988, p. 44- 45)

A articulação de saberes e práticas, a interlocução dos atores sociais e sujeitos educativos é outra prerrogativa das Diretrizes Curriculares para a Educação das Relações Étnico- Raciais, incentivando a constituição de programas de ações afirmativas, “coerentes com um projeto de escola, de educação, de formação de cidadãos que explicitamente se esbocem nas relações pedagógicas cotidianas” (CNE, 2004).

É preciso que as escolas assumam abertamente uma posição de combate ao racismo e a todo tipo de discriminação, cumprindo a sua função social, promovendo a todos/as a oportunidade de acessar bens culturais e simbólicos tradicionalmente restritos à classe social

que detém o poder político e econômico deste país. É na ação das professoras e professores de Educação Infantil, Ensino Fundamental, Médio e Superior que propostas como essas podem se concretizar.

Para tanto, é necessário que os profissionais da educação possam aprender ao longo do seu ofício e da sua formação a lidar com as tensas relações produzidas pelo racismo e discriminações, e que se possibilite a reflexão e a compreensão da importância de se vivenciar, na prática, a reeducação das relações entre diferentes grupos étnico-raciais que compõe a diversidade do povo brasileiro.

Segundo OLIVEIRA (2006) a educação voltada para a dignidade humana não pode prescindir de priorizar o respeito e a igualdade como valores universais. Sendo a igualdade uma abstração, é necessário contrapô-la às desigualdades sociais e raciais que a humanidade concretamente conhece e produz.

Espera-se também que a especialização cumpra com a função de subsidiar os estudantes na aquisição de um referencial teórico que lhes possibilite acesso a cursos de pós- graduação Stricto Sensu. Tal cenário favorece também a constituição de uma comunidade re- gional de pesquisadores em relações étnico-raciais, cuja atuação política e acadêmica poderá trazer resultados que beneficiem a comunidade afrodescendente e a sociedade em geral.

Ao desenvolver o UNIAFRO, o MEC atua como catalisador de ações políticas necessárias para a reparação da dívida social com o povo negro brasileiro, e fundamentais para o enfrentamento das questões raciais no âmbito da educação formal, especialmente em regiões como a nossa, com forte cultura coronelista e racista.

Sem dúvida, os passos dados pelo programa Bantu-Iê são muito tímidos, tendo em vista a complexidade do problema e a urgência das intervenções. Porém, dada a estrutura de recursos humanos e materiais disponíveis, tem-se feito muito, principalmente porque, hoje, este programa se constitui na única ação que a Universidade Estadual de Santa Cruz desenvolve para o empoderamento dos afrodescendentes dentro e fora das suas fronteiras.