pós tratarmos das duas primeiras afirmativas - a memória e a identidade, é hora da terceira e última ênfase que este discurso apresenta - a biografia. Mas de que biografias trato? Retomo aqui a questão anterior da duplicação do foco de observação: trato da minha biografia - autobiografia, confissões, lembranças e diários e das biografias dos outros - possíveis memórias.
“Uma biografia é a história pessoal de um indivíduo: é biográfico o que é relativo à uma biografia.”30 Souriau desdobra o significado de biografia, mas vamos nos deter em dois destes: a biografia dos artistas como elemento de compreensão ou de apreciação das obras de arte e as biografias de personagens imaginários.
Massaud Moisés delimita precisamente o campo de atuação de cada uma das modalidades de escritura biográfica31. Partindo destas delimitações, tentemos desdobrar o tema proposto tendo como ponto de partida os modos como faço autobiografias.
Souriau, acima citado coloca que “o conhecimento dos eventos da vida de um artista ou de um escritor pode ser útil, talvez mesmo necessário, para melhor penetrar
30 SOURIAU, 1992, p. 253-256.
31 MOISÉS, 1978, p. 50. “Difícil traçar o limite exato entre a autobiografia, as memórias, o diário
íntimo e as confissões, visto conterem, cada qual a seu modo, o mesmo extravasamento do “eu”. Enquanto a biografia permite supor o relato objetivo e completo de uma existência, tendo ela própria como centro, as memórias implicam um à vontade na reestruturação dos acontecimentos e a inclusão de pessoas com as quais o biógrafo teria entrado em contato. Por outro lado, ao passo que o diário constitui o registro dia-a-dia de uma vida, quer dos eventos, quer das suas marcas de sensibilidade, as confissões decorrem do esforço de sublimar , pela auto-retratação, as vivências dignas de transmitir ao leitor.”
na sua obra, na medida que esta obra utiliza ou transcreve fatos pessoais.”32 Efetivamente me valho de fatos biográficos nas obras propostas. Assim, de um total de nove trabalhos apresentados, quatro de carateres eminentemente autobiográficos, sob a rubrica EU, e cinco na rubrica OUTROS, dos quais dois, Arquivo de
Fragmentos e Passeio à Bienal, são, de algum modo, biográficos no sentido que
transcrevem trajetos pessoais. Mas fiquemos nos quatro primeiros, que possibilitam uma abordagem ampla e que contempla várias das modalidades autobiográficas.
Temos uma confissão no primeiro trabalho - Over the Rainbow. Neste ocorre efetivamente o “esforço de sublimar, pela auto-retratação, as vivências dignas de transmitir ao leitor.”33 Nos Diários Desenhados ou O Presente Contínuo, conforme diz o próprio nome, “constitui um registro do dia-a-dia de uma vida, quer dos eventos (complementados com os Diários de Bordo), quer das suas marcas de sensibilidade.”34 Nas Casas ou Fragmentos do Passado ocorre uma tentativa emocional de relatar minha história, o que caracteriza uma memória desenhada, conforme ainda Moisés, “um à vontade na reestruturação dos acontecimentos e a inclusão de pessoas com as quais o (auto)biógrafo teria entrado em contado”.35 E finalmente, no último dos trabalhos deste grupo pessoal - Diário de Ragusa ou A
Mentira Verdadeira ocorre uma outra modalidade de biografia ou memória - a fictícia.
Aquela construída a partir de dados reais (no caso as lembranças de uma viagem à cidade às margens do Mar Adriático) que efetivamente não fiz, mas que reconstruo com elementos fornecidos pelos folhetos de agências de turismo e de documentos fornecidos por pessoas que estiveram lá. Uma ficção baseada em dados concretos, mas construída a partir de pensamentos, emoções, sentimentos e idéias proporcionadas por elementos exteriores ao artista, ou seja, aqueles não pessoais, advindos de outras pessoas.
Nos outros dois trabalhos onde detecto a presença autobiográfica do artista, esta ocorre por um dado exterior aos elementos constituintes dos trabalhos. Nos dois casos são as trajetórias, os percursos que fazem deles dispositivos autobiográficos. Nos Arquivos de Fragmentos ou A Vida Jogada Fora o percurso existe, mas numa área restrita e diluído no passar dos dias. Este trabalho tem uma duração indeterminada, podendo ser detectado, de maneira aproximada o seu início, mas
32 SOURIAU, 1992, p. 254. 33 MOISÉS, 1978, p.50. 34 idem
tendo seu termo indefinido. Um recurso que utilizei para determinar uma interrupção no fazer o trabalho foi delimitar o número de fragmentos recolhidos.
O contrário ocorre com O Passeio à Bienal ou A Vida Jogada Fora II. Neste o período de ocorrência está determinado, tendo seu dia, hora de início e de término e percursos registrados como parte integrante do trabalho. Nos dois ocorre a presença daquele que foi registrado por Charles Baudelaire em “O Pintor da Vida Moderna” e retomado por Walter Benjamin - o flâneur.36
Assim concorrem dados pessoais que são a razão de ser das obras e contribuíram de alguma maneira para inspirá-los e ainda contribuem para a compreensão deles. Mas não são efetivamente necessários para a sua fruição. Não busquei confundir as características da obras com as de minha vida, mas criar analogias a partir das quais pudesse por em evidência algumas das idéias que tive. Corro o perigo de reduzir a arte a alguns dados biográficos, mas atentando para fugir daquela
[...] corruptela do abjeto no abuso de arquivos íntimos [ ... ] [um] frenesi da estética de nichos e caixinhas. [...] a fertilidade do ‘pequeno eu’, cujos adeptos elaboram a partir de sua memória papai-e-mamãe e das doenças correlatas, esquecendo que a produção artística não se confunde com fins terapêuticos
no dizer um tanto preconceituoso e cruel de Lisette Lagnado.37
Chegamos agora na segunda etapa deste discurso - “Fragmento como Continente da Biografia” - as biografias dos outros, ou aquelas definidas por Souriau como as biografias de personagens imaginários. Diz o autor que “os personagens que não existem senão nas obras (principalmente literárias) tem uma biografia, no sentido que suas vidas estão reputadas como tal para se desenvolver de uma certa maneira, contidas em certos eventos, em uma certa ordem.”38 Temos assim uma determinante para estas biografias imaginárias: no caso de ficções tributárias da vontade do autor, elas sofrem a necessidade de determinar o segmento (histórico ou temporal) que será relatado, resultando o restante enquanto mera virtualidade. No caso de ficções
36 A flanêrie ou deambulação será desenvolvida adiante nesta dissertação, por ser uma atitude
que tem importância fundamental na construção deste trabalho.
37 “Entenda Sua Época - Artes Plásticas”, Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 13/04/1997, p. 4. 38 SOURIAU, 1992, p. 255.
determinadas por elementos exteriores ao autor, estas biografias, o segmento é dado de antemão pelos documentos que fundam a ficção.
No primeiro caso - o Enagrama - a biografia é determinada pelos documentos adquiridos - sua seleção e seus relatos internos, ocorrendo somente a realidade impressa nos versos dos recortes de jornais que, independente da vontade de M.A.A. contam a “história” do seu tempo. Essa história subterrânea é também fragmentada, como a história da superfície. Neste caso não pude determinar nenhuma das fases da biografia da personagem, somente apresentá-las em atos na obra, assumir a sua coerência interna (ou falta dela).
No Guarda-roupa e em Presença Infinita retenho tão somente partes mínimas das biografias dos meus heróis. Se é que posso falar de heróis em Guarda-
roupa - uma quase total ausência de marcas pessoais nos retalhos de tecidos. As
fotos de Presença Infinita guardam a verdade de suas imagens, conforme determinado no título mesmo do trabalho, mas teríamos que entrar na possível história destas imagens, destes rostos sem história - uma ficção feita de imagem, ao contrário do Enagrama - uma ficção feita sem imagem.
O Arquivo de Fragmentos ou A Vida Jogada Fora I e o Passeio à Bienal ou
A Vida Jogada Fora II propõem uma forma de “texto sem biografia [...] personagens
sem história, onde não se conhece nem as origens nem o curriculum vitae, e que o autor faz somente viver sob os olhos do leitor durante algum tempo”39 Estes fragmentos contêm informações às vezes precisas e, no mais das vezes, vagas e indeterminadas; constituem pequenos fragmentos de histórias, como uma conversa ouvida de passagem e da qual somente retemos algumas frases, alguns silêncios e talvez uma promessa de réplica. Mas a pessoa está lá nesta conversa, inteira na sua parte, como nestes fragmentos - inteiras nas frases e nomes e números e ainda nos breves relatos em forma de bilhetes, cartas, avisos, diários.
No Passeio à Bienal a biografia está na ausência de quem deixou o fragmento jogado fora e no registro fotográfico deste fragmento e, deslocado no tempo, mas não no espaço, na gravação do som local no momento imediatamente posterior ao
registro. Não se pode falar aqui de biografias, mas talvez de rastros ou resquícios. Nesta segunda A Vida Jogada Fora, conforme o anteriormente comentado, a biografia está talvez mais contida na autobiografia do passeante, não sei... Tudo talvez seja uma ficção.
Sinônimo de imaginação ou invenção, o termo ficção encerra o próprio núcleo do conceito de literatura, conforme M.Moisés.40 Souriau desdobra a expressão para melhor cercar os significados que a palavra toma na estética. Como este vem permeando este discurso de maneira insistente acredito ser necessário acompanhá-lo passo a passo.
Inicialmente temos que a ficção só existe como uma atividade do espírito. Isto quer dizer, resumidamente, que o trabalho de um artista existe enquanto processo de impor seu mundo fictício, ou seja, o artista ao instaurar sua obra/trabalho num processo duplo de imaginação e de instauração - mise en oeuvre. Ainda temos a ficção como um modo de existência imaginário, “a existência num universo outro daquele do nosso mundo material, e virtualmente implicado em um ato real de representação mental que tem lugar no nosso universo.”41 A terceira acepção é a de que a ficção se dá como alteridade de existência, isto é, que o universo ficcional convive espacial e temporalmente com o universo real e isto é a essência mesma da ficção, a possibilidade de estabelecer uma duplicação de existências. E, por fim, que a fiçção tem sua própria realidade interna, isto é, trata-se , de fato, de uma forte intensidade de existência. É uma espécie de realismo do imaginário, onde as regras estabelecidas pela ficção ordenam sua própria realidade.
Estaremos tratando de ficções? Se a resposta é positiva, será necessário deter esta digressão e enveredar pelo assunto ele mesmo - complexo, entremeado de conhecimentos de outras áreas, fascinante como o seu próprio nome diz - fictio (do latim), ação de modelar, fabricar, inventar, representar em imaginação, uma atividade do espírito, um modo de existência imaginário, um alteridade de existência ou ainda uma própria realidade interna. Mas creio que não é este o momento, ele virá quando tratarmos de biografia. Detenhamo-nos nas identidades. A discussão a propósito da ficção ocorrerá mais detidamente quando analisarmos cada um dos trabalhos onde esta entidade se estabelece de maneira mais efetiva. Por enquanto é suficiente deixar dito que a ficção não ocorre em nome da verdade, mas da sinceridade. Não que a
ficção seja uma mentira, “não, se ela não enganar, se ela não mais tentar se fazer prender pela realidade.”42
Estamos então penetrando no universo filosófico da sinceridade. Aqui estamos num mundo onde não é necessário que os fatos apresentados sejam verdadeiros ou reais. Neste termo existe a possibilidade de tornar verdadeiros os fatos apresentados, já que falamos de acreditar no que é mostrado e/ou proposto. A sinceridade é a qualidade de crer no que é dito ou expresso, sem que isto seja necessariamente verdadeiro, “no sentido que é possível se enganar a si mesmo e crer sinceramente em qualquer erro, mas sem enganar os outros, sem mentir.”43 Souriau prolonga o significado ao dizer que a verdadeira sinceridade do artista é aquela que concerne a sua arte, mas não antes sem passar pelo conceito de verdade na ficção, que retomaremos adiante.
41 SOURIAU, 1992, p. 741. 42 Idem, p. 741.
1. Planilha com imagens do conjunto dos trabalhos deste projeto