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1.2 O Fragmento como Continente da Identidade

“Por muito que deva à memória coletiva, é o indivíduo que recorda. Ele é o memorizador e das camadas do passado a que tem acesso pode reter objetos que são, para ele, e só para ele, significativos dentro do tesouro comum.”

Ecléa Bosi

ste trânsito por inúmeros fragmentos remete necessariamente à questão das muitas identidades. A primeira colocação é saber a qual estou me referindo. O primeiro pensamento vai para a questão da identidade do artista, daquele que se identifica (no sentido corrente do termo) no trabalho, isto é, que se coloca, seja de maneira direta, através da opção deste ou daquele material ou procedimento (que me diz respeito), ou de maneira indireta, ao fazer de alguns deles depósitos de sua história. A segunda possibilidade é a da identidade dos autores ou dos doadores dos fragmentos utilizados. Estamos falando aqui de uma questão de localização espaço/temporal de individualidades.

Poderia dizer, valendo-me deste enunciado que as obras aqui apresentadas são idênticas ao seu autor. Mas estaria efetivamente dizendo a realidade que aparece nestas mesmas obras? A duplicação do sentido torna-se imperiosa para melhor definir esta noção. A identidade entendida por dois viéses: a primeira como dos outros, no sentido de me identificar aos outros; a segunda, como pessoal, o eu mítico.

Conforme Souriau, o termo “eu mítico”21 foi introduzida por Boris de Schloezer para explicitar que a obra musical não é signo de alguma coisa, mas significa ela mesma: “o que ela me diz, ela é”. Para Schloezer o conjunto orgânico da obra escapa ao conhecimento como lhe escapa uma pessoa que nenhuma descrição ou análise não poderiam jamais definir. Isto encaminha para um plano psicológico, no qual a obra

20 AUSTER, s/d.

21 SOURIAU, 1992, p.1020.

é “apreendida como uma ação com múltiplas peripécias, um sistema de tensões e repousos (détentes)”. Schloezer propõe que, sem esquecermos a relação do homem com sua época, seus vínculos temporais, culturais, sociais etc., consideremos sua produção como uma solução de continuidade entre a obra e o homem e vice-versa. Souriau diz que “a obra cria o artista enquanto ele a cria”. Isto quer dizer que desde o instante no qual o artista trata de um material visando produzir um sistema orgânico “e somente à partir deste instante” é que ocorre uma duplicação, que Schloezer nomeia

eu mítico. Mítico não significando aqui algo imaginário ou inexistente, mas este duplo e

também real que o indivíduo pode, em algumas circunstâncias, entrar em conflito consigo mesmo. Esta idéia remete à crença que o homem, quando cria, está possuído por um outro, um espírito ou deus que fala por sua boca ou atua através de suas mãos. Mas, longe de ser instrumento dócil de uma entidade exterior que o despoja de si mesmo, “o eu mítico exige do indivíduo criador lucidez, vontade e saber fazer técnico”22.

Mas o que nasce destas criações não é um duplo do indivíduo, é o indivíduo ele mesmo transmutado, no sentido alquímico do termo. É então no curso da aprendizagem que pode existir uma dualidade entre o indivíduo e o criador, onde, a criação de cada obra constitui uma aventura nova onde o eu mítico é ao mesmo tempo autor e herói, onde ficção e realidade não são contrários e ainda indicando para o fato de que todo eu (ego) é mítico.

Esta longa e necessária apropriação do verbete eu mítico é necessária para encaminhar a segunda definição de identidade que surge nestes trabalhos: a identidade dos outros. Ao recolher os fragmentos me identifico com estes outros, me ponho em pensamento com outros seres, dando a impressão de ser outro, sendo simpático (no sentido etimológico do termo23) e projetando-me no outro.

Esta “simpatia” torna-se mais visível através dos caracteres, entendidos como marcas de possessão, signos pessoais que são gravados e/ou traçados sobre um objeto que asseguram identidade ou posse, ou daquelas marcas que distinguem um indivíduo do outro. Mas a questão dos caracteres reduz-se, aqui, a questão do caráter do autor.24 Reduzamos o caráter dos autores e/ou doadores dos fragmentos a meros

22 SOURIAU, 1992, P. 1020.

23 Do latim sympathia, simpatia, afinidade, analogia, relação fisiológica entre dois órgãos mais

ou menos afastados, tendência ou inclinação recíproca entre duas pessoas ou duas coisas.

fantasmas, pois no ato de apropriação torno-os meus. A identidade aqui remete à questão do duplo, da ilusão e possivelmente da mentira.

O duplo de uma pessoa, segundo Souriau, é qualquer coisa que se parece fortemente com aquela pessoa, que é uma espécie de reflexo, que lhe imita atitudes e opiniões. Mas este duplo é igual àquele que domina o outro, um ente maléfico que toma posse e coloca-se no lugar do primeiro, Não é este o duplo a que me refiro. Refiro-me sim à capacidade do artista de poder criar os duplos através de uma obra. Isto remete a teoria do eu mítico de Schloezer, anteriormente citada, mas mais ainda à teoria do duplo que não é companheiro do autor, do duplo que comparece quando se frui de uma obra. Entraríamos aqui numa estética da recepção. Mas quero, antes de enveredar por caminhos tão densos, reduzir o meu duplo àquele que faz a obra, não somente fruindo desta, mas aquele autor anônimo do fragmento coletado, aquela pessoa (assim mesmo, gênero indefinido) que escreveu, desenhou ou grafou quaisquer signos num pedaço de papel, e ainda àqueles que me doaram fragmentos. Os duplos aos quais me refiro são os que, através de doações, me possibilitaram duplicar-me no fazer a obra.

Projetar-se nos outros. Ao recolher fragmentos de identidades, sejam escritos achados nas ruas, marcas que implicam a presença de um alguém não localizado e não identificado; seja ao trabalhar com documentos onde um nome identifica uma pessoa real, mesmo que não localizável em sua imagem física e na sua história pessoal - sua biografia; nos fragmentos que acentuam a passagem de alguém por um determinado lugar num determinado horário, uma possibilidade de identidade espaço/temporal. Todas as hipóteses podem ser exaustivamente trabalhadas, mas deixo-as para existirem enquanto trabalhos que detonarão seus próprios discursos. Darei lugar aos Outros. Identifico-me ao recolher, mas proponho também que se identifiquem aqueles que porventura se aproximarem destes trabalhos, destes depósitos de memória e de identidade, que poderão ser também de biografias reais e imaginárias. Projeto-me e duplico-me uma vez na coleta e na execução dos trabalhos, duplico-me uma vez mais na recepção destes mesmos trabalhos que por sua vez duplicarão em abismo aqueles que estão olhando-os. Uma espiral de identidades que não se esgota, ao contrário, se multiplica ad infinitum, para felicidade dos fragmentos outrora abandonados, agora vivos, cheios, iluminados, plenos de vida ativa novamente. A ilusão?

Talvez. Mas certamente não a ilusão do trompe l’oeil, “que faz crer a presença de uma coisa, enquanto ela não é senão imagem.”25 É certamente a ilusão propiciada pela presença de um objeto real, que nos faz crer que ele (o autor do objeto) está, efetivamente presente.26 Poderíamos falar aqui de mentira.

A mentira é diferente do erro. A mentira é aquela que conhecendo a verdade afirma o falso para fazer crer aos outros, para enganá-las. A mentira se encontra nos textos imaginários assinados com o nome de uma das personagens27, mas a mentira é um fato do artista e não da obra. Assim, teríamos a mentira instalada no fato de o artista apresentar como verdadeiros estes documentos formantes das obras que, na realidade são verdadeiros enquanto documentos. Aqui entramos no domínio da ficção, pois “a mentira da arte consiste em fazer crer num mundo fictício, e reconhecido como fictício, mas que suscita reações reais: sentimentos muito efetivamente provados, pensados, ações mesmo.”28 Assim, estes documentos com suas identidades são verdadeiros; porém enquanto obras são ficções, mentiras. Mas estamos atuando no universo da arte, “onde se fabrica os mundos sólidos eles mesmos, e reconhecidos como mundos da arte sem que lhes exija ser outra coisa, e não é então mentira mas criação de realidades.”29

25 SOURIAU, 1992, p. 854. (Tradução minha) 26 idem.

27 Na literatura de ficção são inúmeros os exemplos de textos onde o autor se coloca na posição

de uma personalidade real, escrevendo na primeira pessoa, como nas “Memórias de Adriano” de Marguerite Yourcenar e “Em Liberdade” de Silviano Santiago, onde o imperador Adriano e o escritor Graciliano Ramos “narram” períodos de suas vidas, para ficarmos com dois exemplos, um estrangeiro e um nacional.

28 Op. cit. p.998. 29 idem.

1.3 - O Fragmento como Continente da