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O fragmento como espelho do «eu» em Maeterlinck

CAPÍTULO III – A ESTÉTICA DO FRAGMENTO

2. O fragmento como desconstrução ou espelho do eu

2.2 O fragmento como espelho do «eu» em Maeterlinck

Maeterlinck não foi, ao contrário de Pessoa, um homem que necessitasse de máscaras para através delas se revelar. A multiplicidade de géneros que praticou, poesia, teatro e ensaio, e onde constantemente se renovou, constituem etapas de todas as suas aventuras interiores de ordem espiritual e registo de uma personalidade que se desafiava a si própria, não sem perder a sua identidade, como acontecia com Pessoa. A multiplicidade que caracterizava o seu pensamento tinha como base a sua própria unidade, enquanto pessoa que sabia controlar as suas dúvidas e hesitações e enquanto mestre em dar forma ao invisível e fazer dele o espectáculo da sua obra. Para este evolucionista no absoluto, parafraseando Proust, a ciência, a moral e a filosofia encontravam-se no mesmo plano, facto que contribui para nos aproximar do percurso deste autor e de toda a sua sensibilidade, orientada para o espiritual e o invisível, sem contudo perder o sentido da lógica que o chama à razão sempre que necessário. No entanto, apesar da unidade que lhe dava o equilíbrio mental que faltava a Pessoa, o inconhecível, que foi o objecto de toda a sua investigação, e a inacessibilidade que o caracterizava alimentaram a tragicidade de que revestiu as suas obras. Maeterinck não viveu, como Pessoa, a dor da sua existência mas sim a inquietude por não conseguir, à luz das doutrinas tradicionais, dar resposta aos seus pensamentos:

“[...] Pourquoi le christianisme, par exemple, ne fournirait-il pas les éléments essentiels d’une réligion acceptable? Il suffirait de le débarasser de l’abominable dogme d’un enfer éternel qui répugnera toujours à la raison et au coeur de tout homme. [...] Qu’importe que la religion rajeunie nous promets une survie scientifiquemente improbable. Dès que cette survie ne sera plus menacée d’injustes et épouvantables représailles, elle sera parfaitement admissible, car quoi qu’il arrive et quoi que nous en pensions, il est irrévocablement certain que nous existerons encore après la

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mort, puisque rien ne peut disparaître ou être anéanti sur la terre ou dans les cieux...”439

Ao criticar o cristianismo, Maeterlinck fê-lo com conhecimento de causa. Os anos de internato num colégio de jesuítas e a severidade na educação que caracterizava esta ordem contribuiu para que ele sentisse o cristianismo como uma religião exclusivista dos dogmas por ela preconizados. Era inaceitável para Maeterlinck, absurdo mesmo, que uma religião utilizasse comparativamente a beleza de Deus e do inferno como forma de julgamento para se conseguir alcançar a vida para além da morte. Para alguém como Maeterlinck que durante toda a sua vida procurou aproximar-nos do inconhecível através do desconhecido não tinha qualquer cabimento uma explicação com base em promessas e ameaças sem fundamento. Por isso se afastou destes dogmas e se aproximou das doutrinas teosóficas440que, pelo seu carácter místico e iniciático se apresentavam como a hipótese mais viável na abordagem da invisibilidade que comanda o visível na nossa vida e se revela para lá do limite que o nosso conhecimento é capaz de atingir – a imortalidade espiritual no seio de uma inteligência universal.

Entrar neste domínio do invisível e trabalhá-lo de forma rígida, como acontecia com as tradicionais abordagens filosóficas, não pareceu também a Maeterlinck ser a forma adequada à transposição dos seus pensamentos para a escrita. O fragmento foi, de acordo com o nosso ponto de vista, o melhor suporte para todas as suas reflexões condenadas, em princípio, a ficarem inacabadas e acabou por se revelar como um reflexo do seu «eu», impaciente e muito rigoroso. Como pensador da vida interior não era de admirar que os seus fragmentos reflectissem as suas próprias tensões e até contradições sobre a vida, o destino e a morte. Firme nos seus pensamentos não os lançava ao acaso na sua obra percorrendo, para a sua fixação, um caminho de reflexão

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Maurice MAETERLINCK, L’Autre Monde ou le Cadrain Stellaire, In: Oeuvres I, op. cit., p. 246.

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De entre estas várias doutrinas destacam-se as de Paracelso (1493-1541), Jakob Böhme (1575-1624) e Emanuel Swedenborg (1688-1772). A teosofia foi sistematizada, no século XIX, pela mão da escritora, filósofa e teóloga russa Helena Blavatsky (1831-1891) e no momento em que a religião era preterida em favor do avanço da ciência e da tecnologia. Blavatsky reafirmou o divino, mas dialogou com a ciência, incentivando a pesquisa científica. Trouxe a lume várias interpretações de fontes filosóficas, científicas e religiosas de todo o mundo e tornou a teosofia num dos sistemas de pensamento eclético mais bem sucedidos. Pelo seu carácter interdisciplinar a teosofia proporciona uma ponte entre as diversas culturas e tradições religiosas. A título de curiosidade Fernando Pessoa, estudioso destas doutrinas, viria a traduzir para português o livro de inspiração divina e o mais conhecido desta escritora

maturo, longo e quase mediúnico em que o ponto de partida era a alma. Era à volta dela que reunia todas as suas influências neo-platónicas e místicas e era através dela que ele procurava revelar-se como fio condutor dos pensamentos eternos. Contudo, a revelação desse mundo das ideias implicava uma dependência do eterno, ao serviço do qual ele e todo o poeta se deveria colocar para validar essa ligação, ou seja “[...] se mettre dans la position où l’ Éternité appuie ses paroles, et chaque mouvement de sa pensée doit être approuvé et multiplié para la force de gravitation de la pensée unique et éternelle”441. Poderemos depreender desta observação que Maeterlinck considerava que a realidade tinha mais que ver com a percepção directa do infinito do que com a evocação da floresta de símbolos das “correspondências baudelerianas” portanto, para poder transmitir uma ideia era-lhe necessário valorizar o eu profundo, esse olhar interior, como busca do símbolo que reside em todo o ser vivo evocando-o de forma sugestiva. Através deste processo de evocação e á medida que se tornava uma ideia, o símbolo purificava-se e tornava-se mais elevado e impenetrável do que o símbolo pré- -concebido, por ele intitulado de «a priori» (v. Capítulo I, § 6.1.3), próximo da alegoria e impeditivo de uma expressão artística espiritual. Enquanto que os simbolistas em geral, como Baudelaire, partiam do símbolo para o infinito, Maeterlinck partia do infinito para o símbolo, assumindo uma atitude transcendentalista ao enveredar por uma introspecção metódica para poder chegar para lá do «eu superficial» ao «eu profundo». Embora o objectivo, a existência de uma esfera mais elevada, fosse comum, a abordagem era diferente, conforme se pode verificar nesta análise de McGuiness:

“[...] Art can be itself only if it reaches the abyss of mystery, this zone of truth which can only be approached intuitively. Maeterlinck insists on the active power of this profound and secret heart of reality, and on the mysterious ways in which it connects us with our neighbours and surroundings. Symbolism means an attunement to the unconscious depth of our human nature, this “central spontaneity” (Emerson) which connects us to the whole. Symbolism is not a deliberate effort to shape symbols which would be the mediate forms of expression of an ideal subjectivity; it is rather a passive and quasi-mediumnic receptiveness to the archetypal

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images which impose themselves in the work “in spite of the writer himself”442

O ensaio Le Trésor des Humbles é um registo neste sentido porque, ao exemplificar a expressão do inefável dentro da realidade concreta, Maeterlinck assume um papel passivo ao manter-se fiel ao sentimento e à intuição, não deixando qualquer espaço para o pensamento racional. É esta atitude que envolve a criação das personagens dos seus dramas, como ele afirma na entrevista a Huret,

“[...] Si je parviens à créer des êtres humains, et si je les laisse agir en mon âme aussi libremente et aussi naturellement qu’ils agiraient dans l’univers, il se peut que leurs actions contredisent absolument la vérité primitive qui était en moi et dont je les croyait fils; et cependant je suis sûr qu’ils ont raison contre cette vérité provisoire et contre moi, et que leur contradiction est la fille mystérieuse d’une vérité plus profonde et plus essentielle. Et c’est pourquoi mon devoir est alors de me taire, d’écouter ces messagers d’une vie que je ne comprends pas encore, et de m’incliner humblement devant eux.”443

e que faz com que Maeterlinck as veja como mensageiras do universo que intuitivamente explorou e, de acordo com a nossa opinião como mensageiras também de todo o seu pensamento.

Maeterlinck sempre colocou em primeiro lugar o mundo subjectivo dos sentimentos em detrimento do mundo objectivo dos sentidos, o que nos pode levar a considerar ser o mundo subjectivo, porque vago e intuitivo, o único que lhe permitia revelar-se sugestivamente e causar uma impressão poética e espiritual. Desta maneira e sem se expor em demasia, Maeterlinck conseguia desviar a atenção do leitor para as intermitências da vida e confrontá-lo não directamente com a morte, a vida ou o destino, mas com tudo aquilo que pode ou não acontecer perante estas situações. Os seus ensaios foram as suas experiências, não conclusivas, mas evocativas da latência a elas subjacente e sustentáculo de toda a sua dramaturgia. As perguntas e afirmações

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Patrick McGUINESS, Symbolism, Decadence and the Fin de Siècle: French and European

Perspectives, Exeter: University Press, 2000, pp. 205-206.

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que os constituem são o reflexo da sua personalidade, do seu pensamento, do seu «eu» dolorosamente intuitivo e incapaz de fechar o círculo que ele próprio desenhou.