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CAPÍTULO II – EM BUSCA DA ARTE TOTAL

1. Uma arte total em Pessoa e Maeterlinck

1.3 Pessoa e Maeterlinck – a arte como desafio

Pessoa e Maeterlinck criaram, na diversidade dos seus pensamentos, um mundo obscuro, difícil e atormentado onde trabalharam a palavra como linguagem que se dispersou por mundos inacessíveis. As suas reflexões sobre a arte constituem-se em textos fragmentários, por vezes ambíguos, ambiguidade mais acentuada em Pessoa

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Maurice MAETERLINCK, La Vie Profonde, In: Oeuvres I, op.cit., p. 324.

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com os seus heterónimos, mas que revelam novas e inesperadas perpectivas para uma evolução na estética. E se tanto em Pessoa como em Maeterlinck a curiosidade pelos fenómenos da vida e do espírito foi intensa, a doutrinação nos domínios da arte e da estética pertenceu a Pessoa e não a Maeterlinck. Maeterlinck era um filósofo do subconsciente de quem não se conheciam grandes reflexões que pudessem levar à formulação de uma teoria fosse ela de que ordem fosse. As suas reflexões, na generalidade, não se perdem em extensão como em Pessoa, são frequentemente interrogativas, como acontece no conjunto de ensaios que constituem Le Trésor des Humbles, mas têm em comum com a escrita pessoana a inquietude de alguém insatisfeito com o mundo e preocupado com o enigma da existência. Contudo, ao reflectir sobre o teatro, já se nota em Maeterlinck um objectivo, encontrar uma teoria, como afirma Gaston Compére, “[...] quant à la façon d’exprimer des états d’âme ou une vue métaphysique dumonde des plus simples”, que incidisse não“[...]sur la matière à exprimer mais sur les procédés pour le faire”164. O teatro seria, pois, a ilustração dessa metafísica tendo o enigma da existência como uma permanente interrogação. Será também dentro desse quadro metafísico, onde poderão coexistir várias metafísicas, que grande parte das deambulações de Pessoa sobre a arte se podem enquadrar. Através de Orpheu Pessoa contestou o saudosismo pela desnacionalização da arte que a ele era inerente e passou a assumir uma contemporaneidade onde defendia a autonomia da arte. Crítico do vago nos simbolistas, que impossibilitava a expressão da emoção por ele intelectualizada, Pessoa só podia aceitar uma arte como a de Maeterlinck, que se dirigia não ao entendimento mas à intuição, se esta fosse igualmente intelectual e que ele entendia da seguinte maneira:

“Por natureza, a inteligência, embora não crie, constantemente se transforma. Um longo uso da inteligência pela humanidade criou um instinto nessa inteligência, e como a inteligência por natureza se transforma e o instinto por natureza opera, uma fusão dos dois, ou, por outras palavras, um instinto intelectual será uma qualidade do espírito que transforme operando. [...] A obra de arte, no que invenção de um valor, deriva portanto do que com propriedade se pode chamar um instinto intelectual.”165

164

Gaston COMPÈRE, Maurice Maeterlinck, Paris: Ed. Manufactures, 1990, p.94.

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No entanto, o instinto em Maeterlinck não podia ser intelectualizado, tinha que ser inconsciente. Por isso ele utilizou o símbolo inconsciente, ou seja, utilizou o instinto para tentar exprimir “[...] une communion de vie qui rattache l’homme à son essence.”166 Esta era a arte que Maeterlinck considerava viável para reencontrar um espaço mágico “[...]de non-séparabilité entre l’être humain et l’Univers.”167, onde como afirma Paul Gorceix “[...] toute forme de poésie, même le drame peut devenir conte – et inversement. Les frontières entre les genres s’effacent au sein d’une créativité où l’imagination s’est affranchie de ces entraves.”168 Através desta poética simbólica que ele dramatizou e trabalhou com a originalidade que caracterizava o simbolismo, patente em La Princesse Maleine, Maeterlinck utilizou-a para tornar palpável a existência de uma alma nela própria, como aconteceu na trilogia de L’Intruse, Intérieur e Les Aveugles. A indeterminação que caracteriza a obra de Maeterlinck caracteriza também a de Pessoa, com uma diferença, a questão de utilização da linguagem. A abstração e dedução lógica que caracteriza Pessoa e que ele transmite nos seus trabalhos, como acontece, por exemplo com O Marinheiro obriga-o a racionalizar a inquietação, em vez de a sugerir como acontece em Maeterlinck. Pessoa diz o que Maeterlinck sugere. Pessoa utiliza a sensibilidade e trabalha-a com a ajuda da inteligência para que produza uma impressão. Como se poderá ver no diálogo destes fragmentos de Les Aveugles e de O Marinheiro, a sugestão é evidente em qualquer um deles, mas enquanto que Maeterlinck a utiliza para deixar uma impressão que se prolonga no silêncio, Pessoa acaba por reflectir no que sugere:

Les Aveugles

Le Plus Vieille Aveugle - Il est minuit!

Deuxième Aveugle-Né: - Il est midi! – Quelqu’un le sait-il? – Parlez!

Le Sixième Aveugle - Je ne sais pas; mais je crois que nous sommes à l’ombre. Première Aveugle-Né - Je ne m’y reconnais plus; nous avons dormi trop longtemps!169

O Marinheiro

Terceira – Porque não haverá relógio neste quarto?

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Maurice MAETERLINCK, Le Cahier Bleu, op. cit., p. 21.

167

Maurice MAETERLINCK, Oeuvres II, Théâtre I, Edition établie et presentée par Paul Gorceix, Bruxelles: Ed.Complexe, 1999, p. 11.

168

Idem, p. 11.

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Segunda – Não sei... Mas assim, sem o relógio, tudo é mais afastado e mysterioso. A noite

pertence mais a si-própria... Quem sabe se nós poderíamos falar se soubéssemos a hora que é?170

Maeterlinck não criava o seu próprio objecto, só a sua impressão que já transparece nos seus poemas de Serres Chaudes. Em verso livre ou em verso regular, todos eles tinham o mesmo denominador, a sugestão do ininteligível, conseguida quer através de imagens alegóricas que a repetição das palavras acentuava, quer através de imagens escolhidas de acordo com a sua incongruência e que tanto o poema Ennui como Hôpital ilustram:

Ennui

“Les paons nonchalants, les paons blancs ont fui, Les paons blancs ont fui l’ennui du réveil; Je vois les paons blanc, les paons d’aujourd’hui, Les paons en allés pendant mon sommeil, Les paons nonchalants, les paons d’aujourd’hui, Atteindre indolentes l’étang sans soleil,

J’entends les paons blancs, les paons de l’ennui, Attendre indolentes les temps sans soleil.”171

Hôpital

“Hôpital! Hôpital au bord du canal! Hôpital au mois de Juillet!

On y fait du feu dans la salle!

Tandis que des transatlantiques sifflent sur le canal! (Oh! N’approchez pas les fenêtres!)

Des émigrants traversent un palais! Je vois un yatch sous la tempête!

Je vois des troupeaux sur tous les navires! (Il vaut mieux que les fenêtres restent closes, On est presque à l’abri du dehors.)

On a l’idée d’une serre sur la neige,

170

Fernando PESSOA, O Marinheiro, In: Poemas Dramáticos, reimpressão da 1ª Edição, Lisboa: Ed. Ática, 1997, p. 40.

171

On croit célébrer des relevailles un jour d’orage,

On entrevoit des plantes éparses sur une couverture de laine, Il ya un incendie un jour de soleil,

Et je traverse une forêt pleine de blessés.”172

A indeterminação que sobressai nestes poemas e que preenche o discurso poético fragmenta-o impedindo a sua coerência. Maerterlinck parece construir a sua poesia a partir duma ausência de sentimento e num estilo apoético, quase prosa, que nos remete para Alberto Caeiro e a sua poesia de verso livre que ele próprio intitula de prosa,

“[...] Por mim, escrevo a prosa dos meus versos E fico contente”173

“[...]Não me importo com as rimas. Raras vezes Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra. Penso e escrevo como as flores têm cor

Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me Porque me falta a simplicidade divina

De ser todo só o meu exterior. Olho e comovo-me,

Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado E a minha poesia é natural como o levantar-se vento...174

A autonomia com que Pessoa procurou caracterizar a arte, tem muito a ver com a emancipação que Maeterlinck conferiu à linguagem e o surrealismo de que a revestiu. De acordo com o nosso ponto de vista essa liberdade permitia-lhes colocar a linguagem em correspondência com o absurdo do mundo, onde nada parecia estar no seu lugar, e ser uma chamada de atenção para a incongruência de que se revestia o real e de que são exemplo as atmosferas irreais por eles utilizadas para trabalharem grande parte das suas obras.

172

Idem, pp. 73-74.

173

Alberto CAEIRO, O Guardador de Rebanhos, XXVIII, In: Poesia, op. cit. p. 62.

174

A arte de Maeterlinck era uma forma de ver, de sentir através da afasia, do simples balbuciar, do silêncio, tudo o que não podia ser dito por palavras. Ele não trabalhou a razão, mas o que estava para lá dela, imperceptível, informulável, como experiência espiritual profunda e intensa. Não construiu a sua arte como Pessoa, na companhia dos seus heterónimos, mas montou e desmontou como Pessoa os cenários onde expôs as suas dúvidas e hesitações. Deixaram-nos, afinal, o desafio com que se confrontaram e o desassossego do seu olhar metafísico.