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CAPÍTULO 2 – PRESSUPOSTOS TEÓRICOS: A NOÇÃO DE COMPETÊNCIA

2.3 A competência discursiva

2.3.1 Uma abordagem sistêmica e multidimensional da competência discursiva

2.3.1.1 O funcionamento da competência discursiva

A respeito do funcionamento da competência discursiva, Auchlin (1996a, 1997) o descreve metaforicamente como um sistema termodinâmico, autorregulado e melhorado. Isto é, o sistema termodinâmico tradicional, a curto prazo, passa pelo processo de regulação; e, a longo prazo, evolui de um estado semi-estável para outro, chamado processo de calibragem (variação longitudinal). A razão de ser considerado como um sistema melhorado deve-se ao fato de ser aberto a mudanças de estado que pode ser afetado por outro sistema, o que leva o nome de ressonância.

Ainda segundo o autor, esse sistema trabalha a fim de chegar a um estado de equilíbrio entre o “sujeito falante”, ser histórico, empírico e fora-da-fala (instância extralinguística), e o “locutor”, ser-de-fala (instância intralinguística), cujas características provêm de uma representação dada pelo discurso. O estado de equilíbrio e adaptação entre essas duas instâncias seria o que Auchlin (1996a, 1997) chama de “acordo interior”. Essa relação entre sujeito falante e locutor tem uma dupla orientação, de forma que não se pode dizer que um vem antes do outro. Assim, esse acordo se estabelece em dois sentidos, explicados por Auchlin (1997) como: “je dis ce que je dis parce que je suis ce que je suis (ayant ce que j’ai à dire, etc); mais aussi, je suis ce que je suis parce que je dis ce que je dis (de l’emsemble des choix discursifs possibles, ceux que je fais me déterminent)”28 (p. 130).

27 “A imagem geral da competência discursiva que propõe essa abordagem pode servir para guiar a interpretação dos

problemas textuais em direção a uma descrição sistemática de tal competência discursiva particular, à qual deveria ser reservado o termo diagnóstico”.

28 “Eu digo o que digo porque eu sou o que sou (tendo aquilo que tenho a dizer etc.); mas também eu sou o que sou

Essa concepção de acordo interior pode ser associada à noção vista em Roulet; Filliettaz; Grobet (2001) de duplo acordo na negociação se considerarmos o movimento discursivo. O duplo acordo acontece entre os interactantes e determina que toda a troca necessita de um fechamento, que seria alcançado quando se entra em acordo sobre um ponto, não deixando dúvidas para o interlocutor. Caso não seja possível chegar a um acordo, seria então necessário recorrer a uma “meta-resolução”: os interlocutores concordam com o fato de que é difícil estabelecer um acordo. Esse mesmo movimento ocorre em relação ao acordo interior, embora, nesse caso, o acordo se dá entre o falante consigo mesmo. Nesse caso, para se estabelecer uma meta-resolução do acordo interior, isto é, chegar ao acordo de que não há como haver um acordo, expressões como “não consigo lembrar a palavra” ou “é difícil explicar” são normalmente usadas (AUCHLIN, 1996a, p. 342-343).

A questão do acordo interior também está ligada ao processo de regulação, uma vez que designa a experiência qualitativa deste. De acordo com Auchlin (1997), a regulação atua no interior da competência discursiva e se refere à adequação entre os produtos discursivos e o estado do sistema. Para o autor, essa adequação deve ser compreendida como um “processus dynamique d’ajustement mutuel”29 e não como um estado (p.129). Ainda a esse respeito, Auchlin (1997) coloca que a regulação se dá em diferentes níveis, os quais se equivaleriam aos níveis de análise estrutural. Dessa forma, ele entende que a regulação do sistema da competência discursiva é, portanto, exercida nos três níveis que formam os constituintes textuais: os atos discursivos, as intervenções e as trocas30.

Outro procedimento desse sistema seria a calibragem, a qual representa “les conditions générales d'obtention de l'accord intérieur”31 (AUCHLIN, 1996. p. 345). A partir dessa perspectiva de Auchlin (1996a), a evolução da competência discursiva acontece a longo prazo, uma vez que a calibragem só se dá ao longo do tempo, através do processo de maturação. Essa maturação se configura como um processo lento e organizado de passagem de um estado semi-estável para outro,

29 “Processo dinâmico de ajuste mútuo”.

30 Esses conceitos serão mais bem explicados ao expormos a Dimensão Hierárquica do MAM, no capítulo seguinte.

sem nunca chegar a atingir um estado final. Esse aspecto torna a competência discursiva bastante diferente de uma competência gramatical, como a sintática, por exemplo. No caso de uma competência sintática, a maturação é um processo rápido e logo se atinge um estado final estável. Isto é, a aquisição de uma estrutura sintática é facilmente alcançada, enquanto nunca se poderá dizer que a competência discursiva alcançou uma aquisição final, como se houvesse um parâmetro para dizer que ela chegou ao seu máximo. A ideia é a de que a competência discursiva está constantemente em processo de equilíbrio.

Essa busca por um equilíbrio se dá, segundo Auchlin (1996a), por meio da calibragem. O que se espera é que a aquisição da competência discursiva esteja sempre em processo, de maneira que, a cada mudança de um estado semi-estável para outro, o equilíbrio do sistema se modifique, o que é caracterizado pela maneira como se trata, pondera, conecta ou distingue uma certa organização do discurso.

Além de ser aberto a esses dois momentos próprios dos sistemas termodinâmicos clássicos (regulação e calibragem), o sistema da competência discursiva, como vimos, é também aberto à ressonância, o que o torna um sistema termodinâmico melhorado. Segundo Auchlin (1996a), esse conceito diz respeito aos efeitos de modificação do funcionamento de um sistema por conta da proximidade organizacional de outro sistema. Como exemplo de abertura do sistema a essa ressonância, o autor cita a dimensão interacional: “contagion qui affecte, dans l'interaction en face- à-face, postures, débit, intensité, et autres propriétés para-linguistiques, constitue une illustration prototypique de l'ouverture de la compétence discursive à la résonance” (p. 344)32.

A dimensão interacional também é um subsistema citado por Auchlin (1997) como exemplo da variação longitudinal da competência discursiva (calibragem), já que esta está ligada às mudanças que ocorrem em cada dimensão ou módulo que a constitui. A dimensão interacional, portanto, teria papel importante na maturação da competência discursiva, uma vez que a aquisição de elementos dessa dimensão indicaria um exemplo de mudança de estado semi-estável. Por esse motivo, ao

32 “Contágio que afeta, na interação face-a-face, postura, velocidade, intensidade e outras propriedades para-

analisar nosso corpus, vamos também levar em consideração essa dimensão, em especial, a adequação aos gêneros discursivos no processo de interação.