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CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DO CORPUS

4.4 Tarefa 4

4.4.3 Sem Certificação

(1) O site Caronetas é uma plataforma que ajuda a organizar caronas entre funcionários. (2) Nas cidades do Brasil os carros carregam poucos passageiros (3)com os benefícios de evitar o garrafamento (4)e a polui o ar.

(5) A plataforma tem mais de 290 mil usuários (6) e a grande ventagem é a questão da segurança, um dos maiores problemas das pessoas.

(7) A solução é por en contato a pessoas da mesma empresa.

(8) Primero a empresa se cadastra (9) e apos os funcionários fazem o preenchimento. (10) O site junta as pessoas que fazem trajetos parecidos.

(11) Outra ventagem é economizar (12)ao compartir os custos dos viagens. (13) Sem esquezer o atrativo de voltar a respirar limpio.

(14) Então vocês não podem deixar pasar esta oportunidade, (15) faça agora o preenchimento (16) e comenze economizar (17) e cuidar da natureza.

A macroestrutura hierárquico-relacional desse texto, a nosso ver, é mais simples do que as dos textos anteriores da Tarefa 4, porque, não apresenta os elementos paratextuais próprios do gênero e-mail conforme o esperado 77.

Figura 76 – Macroestrutura hierárquico-relacional do Texto 12

Nesse texto, o autor não inicia com uma introdução de forma a informar o leitor qual será o tema, como ocorre nos outros textos, mas já vai direto ao ponto, começando sua produção já a explicar sobre o site Caronetas. Por isso, a nossa interpretação de sua estrutura hierárquica é diferenciada das anteriores. A intervenção que se liga às demais por uma relação interativa de preparação, Is (01-04), no caso, vai aparecer dentro da intervenção maior Is (01-13).

77 A estrutura hierárquico-relacional detalhada do Texto 12 pode ser encontrada na página 235. Is (01-04) Prep Is arg Ip (05-13) I Ip (14-17) Então

Figura 77 – Estrutura hierárquico-relacional de Is(01-04)

“(1) O site Caronetas é uma plataforma que ajuda a organizar caronas entre funcionários. (2) Nas cidades do Brasil os carros carregam poucos passageiros (3)com os benefícios de evitar o garrafamento (4)e a polui o ar.”

Dentro dessa intervenção, é interessante destacarmos a predominância das relações de comentário. Isso ocorre provavelmente porque as informações articuladas nesse trecho contribuem para a elucidação sobre a situação do Brasil que levou à criação da plataforma Caronetas, informação presente no ato (01). A relação de comentário entre Ap(02) e Is(03-04), no entanto, não parece adequada. Isso porque a informação trazida na intervenção Is(03-04) causa um estranhamento em relação à expectativa criada com informações ativadas na memória discursiva do autor com a enunciação do ato (02). Isto é, no ato (02), o autor afirma que nas cidades brasileiras os carros carregam poucos passageiros, de forma a conduzir o leitor possivelmente a um entendimento de que isso causa um efeito negativo, já que significa uma maior circulação de veículos e, portanto, maior engarrafamento e poluição. No entanto, na continuação, o autor aponta que isso causa o efeito positivo de se evitarem tais problemas, o que parece contraditório.

A intervenção seguinte, I (05-10), corresponde a três parágrafos do texto: Ap (01) Is prep Ap (02) Is com A (03) Is com A (04) E

Figura 78 – Estrutura hierárquico-relacional de I(05-10)

“(5) A plataforma tem mais de 290 mil usuários (6) e a grande ventagem é a questão da segurança, um dos maiores problemas das pessoas.

(7) A solução é por en contato a pessoas da mesma empresa.

(8) Primero a empresa se cadastra (9) e apos os funcionários fazem o preenchimento. (10) O site junta as pessoas que fazem trajetos parecidos.”

Interessante percebermos nessa intervenção que é possível interpretarmos uma relação de sucessão entre os atos (08) e (09), que, como vimos, não foi comum em outros textos do nosso corpus. Interpretamos como uma sucessão porque o autor se utiliza, no ato (08), do vocábulo “primeiro” para apresentar uma informação e, depois, do conector temporal “após” para marcar um passo que deveria vir em sequência. Em outros textos, essa sucessão de informações apareceu mais frequentemente com a marcação apenas do conector “e” consecutivo, que acabava por indicar também certa relação argumentativa, como já discutimos.

A relação entre Is (05-06) e Ip (07-10) nos foi difícil de interpretar por conta da forma como foram organizadas as informações no trecho. Pelo fato de o conteúdo trazido em Ip (07-10) nos parecer uma explicação de porque a grande vantagem da plataforma é a segurança (informações contidas em Is (05-06)), a inserção do conector “porque” para explicitar a ligação entre esses constituintes nos parece adequada, de modo a facilitar a interpretação de uma relação argumentativa explicativa.

Um maior esforço cognitivo do leitor é também necessário para se estabelecer a relação entre Is (08-09) e Ap (10), que, a nosso ver, poderia ser marcada pelo conector conclusivo do tipo de

A (05) Ip I A (06) e Ap (07) Ap (08) Is arg (Porque) Is arg Is com As (09) suc e após Ap (10) (Assim)

“assim”, indicando uma relação também argumentativa. Contudo, nesse caso, a falta do conector, apesar de causar certa dificuldade na leitura, não causa tanto problema na interpretação como no caso anterior.

Outra relação entre constituintes do texto que é possível de ser interpretada como argumentativa seria a relação entre os atos (11) e (12), que podemos observar na estrutura hierárquico-relacional de I (11-13) a que chegamos:

Figura 79– Estrutura hierárquico-relacional de I(11-13)

Ap (11) Ip I As (12) arg As (13) com

“(11) Outra ventagem é economizar (12)ao compartir os custos dos viagens. (13) Sem esquezer o atrativo de voltar a respirar limpio.”

O autor, nesse caso, se utiliza de uma estrutura que pouco apareceu nos demais textos aqui analisados para iniciar o ato (12): “ao compartir...”, o que a gramática normativa chamaria de oração subordinada adverbial reduzida de infinitivo. Nesse trecho, essa estrutura pode ser interpretada como indicação de uma relação de argumento, já que, a nosso ver, a informação de As(12) traz uma explicação para o enunciado em Ap(11).

Por fim, a última intervenção do texto, Ip (14-17) iniciada pelo conector “então”, vai trazer um argumento final. Um dos usos para esse conector, segundo Pezatti (2001), sinalizaria uma relação conclusiva de modo similar ao conector “logo”. Assim, podemos dizer que o autor do Texto 12 faz o uso de “então” proficientemente, de forma a finalizar os pontos de uma sequência argumentativa que vinha construindo.

Figura 80 – Estrutura hierárquico-relacional de Ip(14-17) As (14) arg Ip Então A (15) Ip (Portanto) A (16) I E A (17) E

“(14) Então vocês não podem deixar pasar esta oportunidade, (15) faça agora o preenchimento (16) e comenze economizar (17) e cuidar da natureza.”

Além disso, o “portanto”, que poderíamos inferir para fazer a ligação entre os constituintes As (14) e Ip (15-17), também poderia contribuir para percebermos essa tomada de posição final do autor quanto ao uso da plataforma online que ele deveria anunciar para seus funcionários. Interessante notarmos que é nessa intervenção que o autor se dirige pela primeira vez no texto a um interlocutor, sugerindo uma possibilidade de o texto se enquadrar no gênero e-mail, já que parece estabelecer um diálogo. De qualquer forma, apenas essa característica não parece ser o suficiente para entendermos que o texto estaria de acordo com a estrutura esperada desse gênero.

De fato, segundo o Guia, esse texto recebeu a avaliação como Sem Certificação, especialmente, por não estabelecer uma interlocução clara e não cumprir com o propósito da Tarefa 4 de escrever um e-mail aos funcionários da empresa. Como vimos, no único momento em que o locutor se direciona diretamente a um interlocutor no texto, não fica claro quem seria esse interlocutor ou qual seria a posição tomada pelo locutor. Quanto à Forma de Organização Relacional, esse texto apresenta pouca variedade de conectores e várias relações não marcadas. Isso não seria um problema se o autor ainda assim conseguisse manter a linha argumentativa de forma a conduzir a interpretação do leitor, como vimos em outros textos aqui analisados. Entretanto, não é isso que acontece, já que, em diversos momentos, o trecho é confuso, demandando grande esforço do leitor para o estabelecimento das relações no texto. Uma possibilidade para o autor ter apresentado essa característica seria a falta de conhecimentos ou familiaridade com possibilidades de articulação textual em Língua Portuguesa ou com o próprio funcionamento do gênero nessa língua, o que pode levar à organização confusa de alguns trechos e à ocorrência de demais problemas redacionais. Isso

demonstra que esse autor se encontra ainda em um estágio inicial de desenvolvimento da competência discursiva quanto à organização relacional, já que as infelicidades textuais que discutimos em relação a esse aspecto podem causar dificuldades na interpretação da organização do texto.