CAPÍTULO IV – DO ETHOS
4.3 O gênero ethos de credibilidade
A primeira grande espécie de ethos que será analisada trata do gênero denominado ethos de credibilidade. Em um primeiro momento é preciso saber
qual o significado da palavra credibilidade e qual sua real aplicação no mundo político.
Entendemos que enquanto a palavra legitimidade encontra-se mais vinculada à legalidade, isto é, ao exato e fiel cumprimento dos ditames legais, o vocábulo credibilidade está mais ligado à autoridade, isto é, à posição de supremacia de uns em face de outros.
A autoridade gera a credibilidade porque se encontra ligada ao respeito que certas pessoas, órgãos e entidades se revestem gerando, por consequência, sua aceitação pela sociedade. A credibilidade tem origem na
identidade discursiva do sujeito enunciador que, ao realizá-la de modo estratégico, permite que os enunciatários sejam levados a crer que ele é ‘digno de crédito’.
O enunciador, ora político, tem o condão de tecer prodigiosas construções para se fazer aceito perante seus destinatários. Ele, então, constrói uma imagem de si mesmo que corresponda à imagem necessária à sua aceitação.
A autoridade, que leva à credibilidade, encontra-se intimamente vinculada a dois requisitos básicos: a sinceridade e a clareza. O político digno de crédito tem compromisso com seus eleitores e com a sociedade em geral. A sinceridade do sujeito enunciador no discurso político, bem como a transparência de sua linguagem devem ser analisadas por seus destinatários quando existir o perfeito encaixe entre o que é dito e o que realmente é pensado. Melhor ainda, isso ocorre quando os destinatários puderem realizar a correspondência entre o que promete o sujeito enunciador e os meios de colocar em prática aquilo que anunciou.
Caso seja constatado pelos enunciatários o caso oposto, o político será desacreditado e considerado incapaz de cumprir com suas propostas iniciais. Sem dúvida, o descrédito da opinião popular funciona como uma guilhotina para os políticos. Eles são ceifados do poder político, além de serem
esteriotipados pela sociedade. Pelo menos durante certo lapso temporal. Infelizmente a população pátria não é bastante cuidadosa com relação à memória política, o que acaba por trazer, novamente, ao poder político, pessoas que outrora não cuidaram muito bem das coisas públicas.
A situação comunicativa é que fornece o lastro, em cada caso concreto, acerca da importância entre o que o político fala e o que ele realmente faz.
No discurso político o ethos de credibilidade é fundamental. Somente a título de informação, devemos observar a distinção que deve ser feita com relação aos vocábulos essencial e fundamental. Essencial é tudo aquilo sem o qual o ser humano sucumbiria, principalmente, no que concerne a seu relacionamento com os outros, isto é, todos os sentimentos que devem ser desenvolvidos pelos seres humanos e que os tornam suficientemente capazes de alcançar a satisfação de seus desejos como, por exemplo, o amor, a honestidade, a amizade, a tolerância, entre outros sentimentos ditos nobres.
Por outro lado, pode ser considerado fundamental tudo aquilo que vai se tornando importante para o ser humano ao longo de sua existência como, por exemplo, a questão do enriquecimento financeiro.
‘No discurso político, a credibilidade é fundamental, uma vez que o desafio consiste em tentar persuadir determinado público de que se tem certo poder’ (CHARAUDEAU, 2008, p. 120).
Ser entendido como digno de crédito não constitui tarefa fácil. Para conseguir obter a aprovação de seu público alvo, o político deve satisfazer algumas condições já elencadas, isto é, ele deve ser sincero no sentido de pensar e dizer aquilo que corresponda à verdade porque pode ser realizado; dizendo a verdade, o político promete aquilo que poderá realmente cumprir.
Estamos diante, então, da denominada ‘condição de performance’ segundo Charaudeau. Isso significa que o político que diz a verdade e somente promete aquilo que poderá cumprir terá suas idéias validadas pela sociedade
se demonstrar, por derradeiro, que dispõe dos mecanismos necessários e suficientes para tornar suas atitudes eficazes.
Então, com o fim de tornar concreto o ethos de credibilidade, que é o gênero, o político acaba por construir espécies de ethos derivados para conseguir compor a imagem de portador de confiança da sociedade.
O político busca construir para si o ethos de sério, o ethos de virtude, o
ethos de competência e o de não alteração comportamental.
Caso ele consiga construir essas imagens, certamente a aprovação de seus destinatários será incontestável.
4.4 Os denominados ethos de ‘sério’, de ‘virtude’, de ‘competência’ e
da ‘não alteração comportamental’
Tomando sempre como base os conceitos de Charaudeau, vimos anteriormente que o ethos se divide em dois grandes grupos, quais sejam o
ethos de credibilidade e o ethos de identificação. Eles constituem os dois grandes gêneros de ethos. Vimos que o político deve cumprir algumas condições para que seu ethos de credibilidade seja validado pela sociedade. Então, o político precisa construir algumas derivações desse ethos de credibilidade, que estão inseridas no contexto do gênero maior, para ter êxito em sua mensagem. A primeira dessas derivações trata do denominado ethos de sério.
Em um primeiro momento podemos entender o vocábulo seriedade como uma qualidade do indivíduo que é sincero, verdadeiro e que atribui um caráter importante às coisas e às pessoas.
O indivíduo sério tem mérito, pois, em regra, é austero e honrado. Resta claro que a situação social deve ser analisada pelo político na construção do
identificação daquilo que deverá ser considerado ou não como sério. A primeira percepção que os destinatários têm do sujeito enunciador para determinar seu
ethos de sério encontra-se intimamente vinculada a certas posturas corporais, comportamentais e, principalmente, verbais.
Quando nos referimos a certas posturas corporais devemos ter em mente que o político deve ser firme em sua apresentação demonstrando altivez, mas não soberba. A expressão facial do político sério é adaptada ao momento que se apresenta, mas de modo geral deve ser de pouco sorriso. Ao mencionarmos certas posturas comportamentais nos referimos a capacidade de equilíbrio emocional que o político sério apresenta face às críticas de seus adversários, bem como face às adversidades.
O político sério não se deixa levar pela cólera nem tampouco demonstra a raiva contida com objetivo de vingança posterior. O político sério mostra disposição interna para o trabalho e ‘arregaça as mangas’ quando o objetivo for o bem comum da coletividade. O político sério tem atividades úteis e não pratica aquelas que não o sejam. Quanto às colocações verbais podemos dizer que o político sabe conversar com todos os indivíduos da sociedade que dirige, pois conhece os anseios do povo.
O domínio da linguagem, por meio da exposição clara de um assunto, é importantíssimo, pois muito melhor é ser conhecedor de um pouco de cada assunto, mas que seja útil, do que conhecer muito de um assunto inútil. No
ethos de sério as denominadas ‘frases de efeito’ não são bem-vindas, na medida em que podem provocar admiração, mas não conferem credibilidade.
‘Frases de efeito’ são expressões utilizadas, em regra, com o objetivo de ‘expressar um pensamento conciso (de maneira poética, se possível) e dizer muito em poucas palavras’ (SEGURA, 2009, p. 22). Em política é preciso deixar todas as idéias bem claras e explicadas. Como visto anteriormente, o discurso político, enquanto ato de comunicação, se liga àquele que o profere que, por sua vez, tem a intenção de torná-lo perfeitamente assimilável com o fim de seduzir e, por fim, persuadir a platéia para o qual é destinado. Por essa
razão as frases de efeito são capazes de convencer, mas não de provocar a adesão do auditório como, em regra, deseja aquele que profere um discurso político.
Vale lembrar que o ethos de sério abrange, também, as questões relacionadas à vida privada do político. O político é um homem da polis, um homem público, mas tem, também, uma dinâmica de ordem pessoal. Qualquer questão que possa ‘arranhar’ a imagem do que aquela determinada sociedade considera importante, pode arruinar a imagem de sério que ele constrói enquanto gestor dessa coletividade.
Frisamos que, quanto mais inerente ao sujeito enunciador for o ethos de sério, melhor ele será construído e, posteriormente, aceito pela sociedade. Caso isso não ocorra, isto é, a construção de um ethos de sério forçada poderá ser percebida de maneira negativa e o político cairá no descrédito, além de perder a simpatia de seus eleitores.
[...] as promessas firmadas que exprimem a justa medida, a consciência dos limites, a recusa da demagogia, a necessidade de ajustar os projetos aos meios existentes [...] serão capazes de garantir o espírito de seriedade que convém ao político e de construir a imagem daquele que, reivindicando para si certo pragmatismo, preocupa-se com o bem público de maneira realista, em comparação com as duas outras atitudes que seriam a do imobilismo ou a do sonho irrealizável (CHARAUDEAU, 2008, p. 122).
Uma outra derivação de ethos, inserida no gênero ethos de credibilidade, trata do denominado ethos de virtude. A virtude é uma qualidade própria para produzir determinados efeitos, tais como a força moral e a disposição constante para a prática do bem. Aquele que tem força moral e pratica o bem é fiel a bons princípios. Em regra, aquele que possui bons princípios é sincero com seus pares. Assim como o contrário é plenamente verdadeiro. Saliente-se que a construção de uma imagem de virtude é longa e constante, enquanto que a destruição dessa mesma imagem pode ser rápida e imediata. Por essa razão é que os políticos se preocupam tanto com as notícias oriundas da mídia.
O homem virtuoso se apresenta com o passar do tempo. O indivíduo moralmente honesto se constrói todo dia, um pouco por meio de suas atitudes em nível público e privado.
O político virtuoso deve ser fiel às idéias e aos ideais de seu partido mantendo sempre sua linha de pensamento. Por essa razão ele se filia ao partido X e não ao partido Y. Isso não quer dizer que ele não possa mudar de opinião. Ao contrário! Caso ocorra algum evento que o faça mudar seu entendimento sobre alguma coisa, ele deverá vir a público e colocar a razão que o fez alterar sua idéia original. O político virtuoso é cristalino em suas atitudes, principalmente quando elas disserem respeito à sua condição de homem público.
O ethos de virtude é fruto da construção do próprio político sendo certo que ele demonstra sua honestidade e sua lealdade. Ele não se deixa guiar por assessores inescrupulosos que estão interessados somente em índices de pesquisa e na sua própria ascensão. Caso ele permita ser influenciado de forma inábil, a opinião pública o processará, julgará e ao final, o condenará, não mais o elegendo. No mundo hodierno em que as informações são divulgadas em tempo real, as pessoas têm maior acesso aos meios de comunicação e o mundo tornou-se menor em razão das novas tecnologias.
Não se pode subestimar o que pensa a sociedade, pois ela pode ser facilmente influenciada pela opinião dos adversários que, por sua vez, aproveitam a situação que se instala ao redor do político. O homem virtuoso é aquele que prima pelo respeito para com seus semelhantes. Respeitar é possuir um sentimento de consideração para com o outro. Considerar o outro como importante não é apenas uma questão de dizer, mas sim de tornar as palavras concretas por meio de ações claras que demonstrem esse sentimento.
Outra derivação importante para formação do gênero ethos de credibilidade é o denominado ethos de competência.
O vocábulo competência pode se entendido como a capacidade que possui um determinado indivíduo, no caso em tela o político, de ter a habilidade e a aptidão necessárias para exercer regularmente a atividade para a qual foi eleito. Não basta somente que o titular do Poder Executivo Municipal seja sério e virtuoso, tenha habilidade ao falar com a sociedade, seja sincero, tenha uma boa postura e bom comportamento.
Necessário, também, que demonstre profundo conhecimento acerca do funcionamento da máquina administrativa. O político competente é aquele que constrói sua imagem com base no conhecimento adquirido acerca das atribuições que o cargo exige. Ele conhece a geografia de sua cidade de modo minucioso e o perfil do povo que nela habita. Sabe bem as características materiais e pessoais de seu em torno e suas dificuldades. Por vezes, a competência política pode ser confundida com experiência política. Em nosso entendimento, isso não corresponde à realidade.
Capacidade ou competência política tem o indivíduo que se interessa pelo bom andamento da sociedade da qual faz parte. A competência está diretamente vinculada à vontade de agir e solucionar os problemas sociais porque somente através das iniciativas dos detentores do poder político é que veremos o progresso da qualidade de vida em um determinado local. Ela constitui um grande requisito para construção de uma trajetória experiente e bem sucedida. No que concerne à experiência política podemos entendê-la como o período de tempo em que um determinado indivíduo encontra-se ligado ao poder político. O sujeito experiente politicamente certamente passou muitos anos de sua vida envolvido com os assuntos da polis ou por ter ocupado funções na Administração Pública, ou por ter exercido mandato. O que resta claro é que experiência não é competência. Na prática essas expressões são bem distintas.
Vimos até agora que para composição do ethos de credibilidade
concorrem três derivações importantes, quais sejam o ethos de sério, o ethos de virtude e o ethos de competência. Por derradeiro, em nossa opinião, uma
outra derivação que certamente contribuirá para a construção do primeiro grande gênero de construção de uma imagem de si trata do denominado ethos
da não alteração comportamental.
Quando conhecemos uma pessoa certamente tecemos sobre ela uma opinião. Com o passar do tempo, essa opinião tende a se consolidar. Ocorre que, se essa pessoa começa por alterar seu comportamento, assim entendido, suas opiniões, modo de se expressar, seu vocabulário ou tom de voz, certamente nossa opinião também será alterada. Em outras palavras, o político que decide candidatar-se a cargo eletivo tem o dever de manter seu próprio padrão comportamental. Aquele sujeito que inicialmente se apresenta como um administrador mais introvertido deve manter esse comportamento por todo período de seu mandato.
A plateia para qual seu discurso é destinado o identificará, sempre, como sendo a mesma pessoa de antes da eleição. Grandes alterações comportamentais são rechaçadas pela população. Não raro, o político que se apresenta como sério e de pouco sorriso, mas quando chega o período próximo de novas eleições passa a ser simpático e altamente carismático, desperta a indignação da população que se sente lesada com tamanha falta de comprometimento com o sentimento social. Importante observar que cada sociedade fornece os elementos característicos mais importantes relacionados a seus valores.
Cabe ao político identificar o que é importante e mostrar-se centrado para atingir a satisfação desses valores. Para isso, é necessário que tenha ações comportamentais lineares, pois é essa linearidade que despertará a confiança da coletividade.