1. DESENVOLVIMENTO REGIONAL, TERRITÓRIO E ARRANJOS
1.3 O Global e o Local
As inovações tecnológicas que ocorreram no século XX, principalmente com relação a ferramentas de controle e comunicação, permitiram que informações fossem disseminadas em poucos segundos por todo o Planeta Terra. Além disso, tornaram possível às empresas o acesso e o controle de seus fluxos financeiros ou produtivos, independente se seus gerentes estivessem na matriz ou em outro lugar qualquer, entre outros. Sendo assim, todos os setores produtivos foram em maior ou menor grau afetados por essa mudança tecnológica. Também foram afetadas as relações sociais, econômicas e políticas de uma forma global. Então, o desenvolvimento de novas formas de comunicação, a melhoria nos transportes, o aumento do fluxo de informações e o comércio de bens e serviços trouxeram à tona um novo fenômeno que foi chamado de “globalização”.
Diante da emergência desse fenômeno, alguns pesquisadores do capitalismo global perceberam que haveria a possibilidade de que os estados-nação se extinguissem (OHMAE, 1996). Por conseguinte, a globalização proporcionaria uma grande mobilidade de capital e destruiria as barreiras econômicas, políticas, sociais e culturais entre os países e regiões. Com isso, o mundo se tornaria desterritorializado com tendência à homogeneidade. As grandes corporações transnacionais teriam a lucrar com esse processo, pois ganhariam mobilidade e poderiam atuar em todas as partes do Planeta Terra (KORTON, 1975).
No entanto, diferentemente das abordagens de Ohmae (1996) e Korton (1975), José Reis (2002) sugere que a globalização é em grande parte uma “metáfora”. A utilização da figura de linguagem se justifica na medida em que a “globalização” representa apenas parte de um todo, não representa um universo completo. Por isso, a referida parte foi denominada por Reis (2002, p. 105) de “universo da globalização”. Neste universo, permitiu-se a intensificação das trocas e a multinacionalização da economia. Portanto, houve aumento das exportações de bens e serviços, das despesas de turismo, dos fluxos de capitais financeiro, físico, humano e tecnológico. Tudo isso, juntamente com a migração, representa a tendência à internacionalização da economia. Outro fato que facilmente se identifica com esse contexto descrito é a multinacionalização da economia, que representa a transferência de recursos de capital entre países. Com isso, surgem empresas multinacionais com capacidade de produção em países diferentes daqueles em que tiveram origem. Para que isto seja possível, são criadas subsidiárias diretas, e, ainda, fazer aquisições ou estabelecer relações de cooperação de várias formas. Então, são criados lugares de produção que se tornam “supranacionais”.
Reis (2002) sugere que a análise do fenômeno globalização não se atenha apenas ao mundo das finanças, à forma rápida com que as pessoas se comunicam ou ainda aos parcos exemplos “globalizados” de cultura e consumo, pois possuem escasso material empírico e o fenômeno não deve ser tratado de forma universal. Com relação ao fim do Estado-Nação que chegou a ser vislumbrado por Ohmae (1996), este não ocorreu. O que se vê é que os Estados-Nação aumentaram, tanto por meio das descolonizações quanto da fragmentação de entidades federais ou estaduais. Por outro lado, também houve aumento dos blocos regionais que possuem regulações supranacionais. Nesse aspecto, é possível afirmar que os caminhos da globalização se cruzam com os caminhos da contra globalização.
Além do “universo da globalização”, ainda foram listados outros dois. Eles foram chamados de “o universo da não-globalização” e o “universo das trajetórias inesperadas”.
O universo da não-globalização representa duas situações. A primeira delas se refere àqueles processos ou fatores que, por quaisquer motivos, foram excluídos do processo de globalização. A segunda mostra as formas de resistência à globalização,
que pretendem se manter alheias ao mundo globalizado e apregoam interações institucionais que sejam (e se mantenham) autônomas.
Com relação ao universo das trajetórias inesperadas, Reis (2002) pretendeu reunir aqueles processos, fatores ou pessoas que não se sentem excluídos do processo de globalização. Portanto, esse tipo é tão universal quanto a própria globalização. O que o diferencia é que ele parte de um contexto próprio que também pode ser chamado de “local”. Sendo assim, possui capacidade para gerar sua própria trajetória. Isto não quer dizer que todas essas trajetórias alcançarão êxito, mas, sem dúvida nenhuma, preservam algumas normas e hábitos em suas rotinas. Nesse caso, espera-se que haja valorização dos sujeitos que constroem os processos coletivos e suas ações em prol do desenvolvimento.
Nesse contexto, Reis (2002) propõe que a análise do mundo possui maior complexidade e que este não deve ser descrito apenas por aspectos técnicos, uma vez que a economia pode comportar vários mecanismos de coordenação (alternativos ou complementares) que não se sujeitam a regras únicas de mercado, como mecanismo exclusivo e total. Nesse sentido, ganham destaque as instituições que resultam da interação humana, com seus hábitos, ações, regras, cultura e normas. Elas são responsáveis pela redução das incertezas que podem existir nas trocas e minimização tanto dos custos de transação quanto das falhas de mercado. Sendo assim, é possível obter interações cooperativas e eficiência adaptativa, pois cada “economia tem que ser vista como um sistema social de produção e não apenas como um mercado” (REIS, 2002, p. 119).
Portanto, o que Reis (2002) sugere é que se tenha um olhar mais cuidadoso para o fenômeno da globalização, porque, se de um lado ele produz lógicas aceleradas e de curto prazo, também produz mecanismos mais lentos e localizados. Como exemplo desses mecanismos lentos e localizados é possível citar a formação das competências humanas, com seus processos de conhecimento e aprendizagem. Então, a mobilidade de capital, também chamada de “deslocalização”, possui a sua faceta localizada.
É possível afirmar que a economia do conhecimento e aprendizagem é um dos primeiros fatores de localização em que as empresas recorrem aos territórios, principalmente àqueles produtivos, pois o conhecimento reside mais na sua “apropriação” e “armazenagem” do que na “circulação em redes”. É através destas
circunstâncias que se formam as economias externas ou de aglomerações, capacidade relacional, conhecimento, investigação, desenvolvimento, inovação, experiência profissional. Desta feita, as empresas transnacionais procuram nos territórios sólidos recursos construídos em matérias de competência, conhecimento, infraestruturas materiais e sociais (REIS, 2002).
Ao longo dos anos, vários autores utilizaram nomenclaturas diferenciadas para definir e descrever a aglomeração setorial de empresas. Alguns destes termos, que têm como objetivo estudar, entender e explicar as especializações industriais e sua contribuição para o desenvolvimento de uma localidade, serão descritos nas seções seguintes. Entre eles, destacam-se: os distritos industriais (MARSHALL, 1996); os modelos de cluster (PORTER, 1998; SCHMITZ, 1997); os sistemas produtivos locais (SUZIGAN, 2013); arranjos produtivos e inovativos locais (CASSIOLATO; LASTRES, 2003), entre outros. Para iniciar os estudos destas aglomerações, buscou-se uma sequência histórica, por isso, o primeiro conceito a ser abordado é o de distritos industriais.