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O golpe de estado e a Nova Constituição, 1937

No documento São Paulo (páginas 97-104)

4. Considerações a respeito da análise

4.2 O golpe de estado e a Nova Constituição, 1937

Proclamação lida no palácio Guanabara e transmitida pelo rádio na noite de 10 de

novembro de 1937. As razões do golpe de Estado e da Nova Constituição são explicadas por

Vargas. O Presidente destaca, entre as disputas eleitorais e partidárias, as falhas da

Constituição de 1934 e a inoperância do Congresso.

1º recorte

À nação

O homem de Estado, quando as circunstâncias impõem uma decisão excepcional, de amplas repercussões e profundos efeitos na vida do país, acima das deliberações ordinárias da atividade governamental, não pode fugir ao dever de tomá-la, assumindo, perante a sua consciência e a consciência dos seus concidadãos as responsabilidades inerentes à alta função que lhe foi delegada pela confiança nacional.

Nesse recorte, a disposição dos elementos que constituem o sentido como a

inter-relação entre modelo e exemplo deixa implícito que não é necessário apresentar um

antimodelo de maneira tão evidente, mas somente colocá-lo em cena. “O líder não deve fugir

ao dever de tomar as decisões necessárias quando preciso”. Isso ocorre pois o sujeito,

Presidente da Nação, procura explicar que as atitudes por ele tomadas se pautam nas

necessidades da nação.

O homem de Estado, quando as circunstâncias impõem uma decisão excepcional, de amplas repercussões e profundos efeitos na vida do país, acima das deliberações ordinárias da atividade governamental, não pode fugir ao dever de tomá-la (...)

Essa posição de que o homem de Estado se pauta pelo bem maior, assinala que as

circunstâncias exigem uma atitude que resulte em efeitos profundos na realidade do Brasil e

mostra uma imagem de credibilidade, de um modelo de liderança que não está pautado nos

princípios particulares, mas sim no bem maior, o desenvolvimento do país. com esse modelo,

o sujeito mostra para o seu interlocutor uma imagem a ser creditada da confiança da

população para permanecer fazendo o que deve ser feito para o desenvolvimento real da

política para o povo.

Outro aspecto a ser observado para corroborar na afirmativa de que a intenção do

sujeito presidente é a de adquirir a aprovação do auditório refere-se ao título, à nação, isso

evidencia que a temática discursiva está direcionada ao posicionamento do interlocutor.

Após explicitar o modelo a ser seguido, o sujeito presidente busca ratificar essa sua

posição por meio de um exemplo que clarifica o que o leva a se posicionar.

(...) perante a sua consciência e a consciência dos seus concidadãos as responsabilidades inerentes à alta função que lhe foi delegada pela confiança nacional.

O exemplo, enquanto prova, possui a função de fazer com que o auditório comprove o

modelo. Nesse caso em particular, a necessidade de uma decisão excepcional, ou seja,

centralizar a liderança da nação em suas mãos por falhas na constituição de 1934, a

inoperância do Congresso e disputas eleitorais e partidárias que não estavam de acordo com

as necessidades do país.

O sujeito, ao pontuar que as responsabilidades, delegadas pela confiança da nação o

obrigam, pelo conhecimento de seus deveres e conhecimento dos cidadãos de que ele estava

naquela posição para ser representante, ser a voz e principalmente o sujeito responsável pelas

decisões que refletiriam no país. O exemplo pontuado particulariza o sujeito e procura

evidenciar que a atitude de centralizar a liderança em suas mãos foi feita em nome da nação

que delegara a sua voz ao sujeito presidente.

Referente ao aspecto linguístico, mais propriamente à dêixis de pessoa, observa-se que

não há uma marca que denuncie o sujeito como o “eu” da enunciação. O objetivo do sujeito

não é o de evidenciar quem enuncia, mas sim mostrar de quem se fala, da posição ocupada, o

que pode ser observado pela marcação da terceira pessoa. “o homem de Estado”. O sujeito na

terceira pessoa projeta o enunciado para as ações que devem ser tomadas e não para quem

enuncia.

Quanto à dêixis de tempo, observa-se que ele se apresenta como o agora. Isso fica

evidente pela marcação do verbo poder, conjugado na terceira pessoa do presente do

indicativo (pode), assim como o verbo tomar, também conjugado na terceira pessoa do

indicativo (tomá-la). Outra categoria linguística que evidencia o agora como o momento

discursivo é o verbo assumir no gerúndio que indica o momento presente.

Após a evidenciação da pessoa e do tempo discursivo, toma-se como categoria de

análise a dêixis indicativa de lugar que apresenta o local de representação como o sujeito

presidente que é demarcado, primeiramente pela apresentação a quem se dirige a

argumentação, à nação, isso denota que o lugar ocupado pelo sujeito enunciador não se

enquadra nesse espaço, mas de quem está em uma posição de liderança. E em um segundo

momento, a afirmativa de que o homem de Estado não pode fugir ao dever imposto pela sua

função. O sujeito enunciador proclama seu discurso no palácio Guanabara que era a sede do

governo brasileiro.

2º recorte

A verdadeira Função dos partidos políticos, que consiste em dar expressão e reduzir a princípios de governo as aspirações e necessidades coletivas, orientando e disciplinando as correntes de opinião, essa, de há muito não a exercem os nossos agrupamentos partidários tradicionais. O fato é sobremodo sintomático se lembrarmos que da sua atividade depende o bom

funcionamento de todo sistema baseado na livre concorrência de opiniões e interesses.

Para comprovar a pobreza e desorganização da nossa vida política nos moldes em que se vem processando, aí está o problema da sucessão presidencial, transformado em irrisória competição de grupos obrigados a operar pelo suborno e pelas promessas demagógicas, diante do completo desinteresse e total indiferença das forças vivas da nação.

A superfície retórica do recorte apresentado transparece o modelo que deveria ser

seguido pelos partidos políticos reduzir as aspirações e necessidades coletivas da nação.

A verdadeira Função dos partidos políticos, que consiste em dar expressão e reduzir a princípios de governo as aspirações e necessidades coletivas, orientando e disciplinando as correntes de opinião,(...)

Há a apresentação de um caso particular que é observado como valorizado e está

alicerçado no que é visto como verdadeira função dos partidos políticos, ou seja, em sua

essência, que clarifica na mente do interlocutor uma conduta considerada como padrão.

Para evidenciar o modelo a ser seguido, o sujeito que discursa faz uma articulação

entre o modelo e o antimodelo para ratificar o que deveria ser contemplado como correto.

(...) Essa, de há muito não a exercem os nossos agrupamentos partidários tradicionais. (...)

O pronome demonstrativo essa retoma a função que deveria ser observada, mas logo

após acrescenta que há muito tempo não vem sendo exercida; logo, há a apresentação de um

antimodelo, o que não deve ser seguido. O sujeito usa o termo agrupamentos partidários

tradicionais no lugar de partidos políticos para mostrar que o que ocorria era a união de

pseudos políticos preocupados pelas questões de interesse particular e não em função de um

projeto de governo para o povo.

Logo após a apresentação do antimodelo, o sujeito enunciador procura evidenciar o

exemplo para que o antimodelo seja confirmado como uma conduta digna de repulsa.

O fato é sobremodo sintomático se lembrarmos que da sua atividade depende o bom funcionamento de todo sistema baseado na livre concorrência de opiniões e interesses.

Ao apresentar o fato como revelador de uma verdade, o sujeito enunciador procura

mostrar a postura inadequada por parte dos agrupamentos e o que corrobora para essa posição

é a utilização do verbo comprovar como forma de examinar a pobreza e desorganização.

Além desses elementos, ele apresenta outro antimodelo, aí está como forma de apresentar os

problemas que deixam a verdadeira política de lado, a sucessão presidencial ser transformada

em irrisória competição de grupos que utilizam de meios ilícitos para alcançar seus objetivos.

O objetivo do sujeito do enunciado é fazer por meio do modelo, antimodelo e exemplo

que a população observe a realidade e veja que é necessário mudar para o rumo da política

para que ela se paute nas necessidades coletivas do povo e não sirva de subterfúgio para o

individualismo.

Referente aos recursos dêiticos de pessoa, o sujeito enunciador se apresenta no

discurso como um cidadão, o que pode ser evidenciado pelo uso do pronome possessivo

nossos referindo-se aos agrupamentos partidários do país. O sujeito se coloca como um eu,

pois os pronomes possessivos nossos e nossa pressupõem o meu e o seu. Outro elemento

linguístico a ser considerado para a demarcação do “eu” do enunciado refere-se à desinência

número pessoal “_mos” do verbo lembrarmos que também indica a presença do sujeito

naquilo que profere.

Ao focar a atenção aos dêiticos temporais, observa-se que o verbo consistir, no

presente do indicativo, consiste, mostra o agora como o momento do enunciado. Além desse

primeiro verbo, há outro elemento linguístico que corrobora para afirmar que o agora é o

momento do enunciado é o verbo exercer conjugado na 3ª pessoa do plural no presente do

indicativo que indica que o enunciado só pode ocorrer no agora, a desinência “_mos” do

verbo lembrar que também indica o agora como o momento do enunciado e o verbo vir na 3ª

pessoa do singular no presente do indicativo.

Quanto às marcas que denunciam o lugar, observa-se o sujeito enunciador

evidenciando a sua posição de cidadão, o que pode ser visto no momento em que ele faz uso

do pronome possessivo nosso, referindo-se à política atual. Para comprovar a pobreza e

desorganização da nossa vida política nos moldes em que se vem processando.

Ainda referente à posição do enunciador, observa-se que ele também se coloca como

líder do poder executivo, pois ao apresentar as funções dos partidos políticos relacionadas à

realidade da nação, ele mostra uma imagem de quem avalia o que ocorre na política e que,

consequentemente, atinge a nação.

3º recorte

Restauremos a nação na sua autoridade e liberdade de ação: na sua autoridade, dando-lhe os instrumentos de poder real e efetivo com que possa sobrepor-se às influências desagregadoras, internas ou externas; na sua liberdade, abrindo o plenário do julgamento nacional sobre os meios e os fins do governo e deixando-a construir livremente a sua história e seu destino.

O que chama a atenção no recorte determinado é o verbo restaurar que denota que algo

que deveria ser respeitado não estava mais sendo. Ao apresentar o modelo que é

a nação na

sua autoridade e liberdade de ação: na sua autoridade, dando-lhe os instrumentos de poder real e efetivo com que possa sobrepor-se às influências desagregadoras, internas ou externas; na sua liberdade

. Esse modelo apresenta ao interlocutor um referencial do que se deve esperar de uma

política adequada às necessidades da nação, que valorize os objetivos essenciais da política,

agir para o desenvolvimento da nação.

Ao usar o verbo restaurar, o sujeito enunciador tem por objetivo mostrar que todos os

valores estão deturpados. A necessidade de sobrepor-se indica que os problemas estão

sobrepujando o modelo, o antimodelo tem por objetivo mostrar a necessidade da mudança de

atitude dos agrupamentos partidários, ou do reconhecimento da nação que o líder age em

nome da população por saber que ela não compactua com o que é tido como incorreto.

O exemplo do modelo a ser reconstruído é a ação de deixar a própria nação reconstruir

a sua história e seu destino. O exemplo é genérico, ele procura fazer com que a população

tenha evidente a realidade e o modelo que deveria ser seguido e apresenta como o modelo

pode ser retomado.

No tocante às categorias linguísticas indicadoras de pessoas pode-se observar na

desinência número pessoal “_mos” do verbo restaurar a indicação do eu na enunciação

colocando-se como cidadão, mas também como o responsável pelas decisões por ser

representante da nação.

Referente à dêixis temporal, a mesma desinência “_mos” indica que o enunciado

ocorre no agora, assim como o verbo deixar no gerúndio.

Quanto à dêixis de lugar, observa-se que o sujeito enunciador se coloca na posição de

líder da nação, pois ao apresentar as ações necessárias para restaurar a nação é dada a voz a

um sujeito que, por estar situado em uma posição superior na hierarquia do poder executivo,

sabe quais ações podem direcionar para uma reestruturação verdadeira. Isso fica em evidencia

ao se ver as afirmativas que apresentam o modo como essa restauração pode ocorrer.[...]

dando-lhe os instrumentos de poder real e efetivo com que possa sobrepor-se às influências desagregadoras, internas ou externas; na sua liberdade, abrindo o plenário do julgamento nacional sobre os meios e os fins do governo e deixando-a construir livremente a sua história e seu destino.

A intenção do sujeito da enunciação é evidenciar o contexto como o mais importante

clarificando que a sua posição de líder age a favor da nação. Os verbos dar no gerúndio, bem

como o verbo abrir na mesma forma nominal colocam em evidência as atitudes que

privilegiam o desenvolvimento de uma nação forte e que deve ser respeitada.

Para o sujeito enunciador não estava ocorrendo um golpe, mas sim um posicionamento

que primava pelo bem de seus representados, a nação.

No documento São Paulo (páginas 97-104)