4. Considerações a respeito da análise
4.2 O golpe de estado e a Nova Constituição, 1937
Proclamação lida no palácio Guanabara e transmitida pelo rádio na noite de 10 de
novembro de 1937. As razões do golpe de Estado e da Nova Constituição são explicadas por
Vargas. O Presidente destaca, entre as disputas eleitorais e partidárias, as falhas da
Constituição de 1934 e a inoperância do Congresso.
1º recorte
À nação
O homem de Estado, quando as circunstâncias impõem uma decisão excepcional, de amplas repercussões e profundos efeitos na vida do país, acima das deliberações ordinárias da atividade governamental, não pode fugir ao dever de tomá-la, assumindo, perante a sua consciência e a consciência dos seus concidadãos as responsabilidades inerentes à alta função que lhe foi delegada pela confiança nacional.
Nesse recorte, a disposição dos elementos que constituem o sentido como a
inter-relação entre modelo e exemplo deixa implícito que não é necessário apresentar um
antimodelo de maneira tão evidente, mas somente colocá-lo em cena. “O líder não deve fugir
ao dever de tomar as decisões necessárias quando preciso”. Isso ocorre pois o sujeito,
Presidente da Nação, procura explicar que as atitudes por ele tomadas se pautam nas
necessidades da nação.
O homem de Estado, quando as circunstâncias impõem uma decisão excepcional, de amplas repercussões e profundos efeitos na vida do país, acima das deliberações ordinárias da atividade governamental, não pode fugir ao dever de tomá-la (...)
Essa posição de que o homem de Estado se pauta pelo bem maior, assinala que as
circunstâncias exigem uma atitude que resulte em efeitos profundos na realidade do Brasil e
mostra uma imagem de credibilidade, de um modelo de liderança que não está pautado nos
princípios particulares, mas sim no bem maior, o desenvolvimento do país. com esse modelo,
o sujeito mostra para o seu interlocutor uma imagem a ser creditada da confiança da
população para permanecer fazendo o que deve ser feito para o desenvolvimento real da
política para o povo.
Outro aspecto a ser observado para corroborar na afirmativa de que a intenção do
sujeito presidente é a de adquirir a aprovação do auditório refere-se ao título, à nação, isso
evidencia que a temática discursiva está direcionada ao posicionamento do interlocutor.
Após explicitar o modelo a ser seguido, o sujeito presidente busca ratificar essa sua
posição por meio de um exemplo que clarifica o que o leva a se posicionar.
(...) perante a sua consciência e a consciência dos seus concidadãos as responsabilidades inerentes à alta função que lhe foi delegada pela confiança nacional.
O exemplo, enquanto prova, possui a função de fazer com que o auditório comprove o
modelo. Nesse caso em particular, a necessidade de uma decisão excepcional, ou seja,
centralizar a liderança da nação em suas mãos por falhas na constituição de 1934, a
inoperância do Congresso e disputas eleitorais e partidárias que não estavam de acordo com
as necessidades do país.
O sujeito, ao pontuar que as responsabilidades, delegadas pela confiança da nação o
obrigam, pelo conhecimento de seus deveres e conhecimento dos cidadãos de que ele estava
naquela posição para ser representante, ser a voz e principalmente o sujeito responsável pelas
decisões que refletiriam no país. O exemplo pontuado particulariza o sujeito e procura
evidenciar que a atitude de centralizar a liderança em suas mãos foi feita em nome da nação
que delegara a sua voz ao sujeito presidente.
Referente ao aspecto linguístico, mais propriamente à dêixis de pessoa, observa-se que
não há uma marca que denuncie o sujeito como o “eu” da enunciação. O objetivo do sujeito
não é o de evidenciar quem enuncia, mas sim mostrar de quem se fala, da posição ocupada, o
que pode ser observado pela marcação da terceira pessoa. “o homem de Estado”. O sujeito na
terceira pessoa projeta o enunciado para as ações que devem ser tomadas e não para quem
enuncia.
Quanto à dêixis de tempo, observa-se que ele se apresenta como o agora. Isso fica
evidente pela marcação do verbo poder, conjugado na terceira pessoa do presente do
indicativo (pode), assim como o verbo tomar, também conjugado na terceira pessoa do
indicativo (tomá-la). Outra categoria linguística que evidencia o agora como o momento
discursivo é o verbo assumir no gerúndio que indica o momento presente.
Após a evidenciação da pessoa e do tempo discursivo, toma-se como categoria de
análise a dêixis indicativa de lugar que apresenta o local de representação como o sujeito
presidente que é demarcado, primeiramente pela apresentação a quem se dirige a
argumentação, à nação, isso denota que o lugar ocupado pelo sujeito enunciador não se
enquadra nesse espaço, mas de quem está em uma posição de liderança. E em um segundo
momento, a afirmativa de que o homem de Estado não pode fugir ao dever imposto pela sua
função. O sujeito enunciador proclama seu discurso no palácio Guanabara que era a sede do
governo brasileiro.
2º recorte
A verdadeira Função dos partidos políticos, que consiste em dar expressão e reduzir a princípios de governo as aspirações e necessidades coletivas, orientando e disciplinando as correntes de opinião, essa, de há muito não a exercem os nossos agrupamentos partidários tradicionais. O fato é sobremodo sintomático se lembrarmos que da sua atividade depende o bom
funcionamento de todo sistema baseado na livre concorrência de opiniões e interesses.
Para comprovar a pobreza e desorganização da nossa vida política nos moldes em que se vem processando, aí está o problema da sucessão presidencial, transformado em irrisória competição de grupos obrigados a operar pelo suborno e pelas promessas demagógicas, diante do completo desinteresse e total indiferença das forças vivas da nação.
A superfície retórica do recorte apresentado transparece o modelo que deveria ser
seguido pelos partidos políticos reduzir as aspirações e necessidades coletivas da nação.
A verdadeira Função dos partidos políticos, que consiste em dar expressão e reduzir a princípios de governo as aspirações e necessidades coletivas, orientando e disciplinando as correntes de opinião,(...)
Há a apresentação de um caso particular que é observado como valorizado e está
alicerçado no que é visto como verdadeira função dos partidos políticos, ou seja, em sua
essência, que clarifica na mente do interlocutor uma conduta considerada como padrão.
Para evidenciar o modelo a ser seguido, o sujeito que discursa faz uma articulação
entre o modelo e o antimodelo para ratificar o que deveria ser contemplado como correto.
(...) Essa, de há muito não a exercem os nossos agrupamentos partidários tradicionais. (...)
O pronome demonstrativo essa retoma a função que deveria ser observada, mas logo
após acrescenta que há muito tempo não vem sendo exercida; logo, há a apresentação de um
antimodelo, o que não deve ser seguido. O sujeito usa o termo agrupamentos partidários
tradicionais no lugar de partidos políticos para mostrar que o que ocorria era a união de
pseudos políticos preocupados pelas questões de interesse particular e não em função de um
projeto de governo para o povo.
Logo após a apresentação do antimodelo, o sujeito enunciador procura evidenciar o
exemplo para que o antimodelo seja confirmado como uma conduta digna de repulsa.
O fato é sobremodo sintomático se lembrarmos que da sua atividade depende o bom funcionamento de todo sistema baseado na livre concorrência de opiniões e interesses.
Ao apresentar o fato como revelador de uma verdade, o sujeito enunciador procura
mostrar a postura inadequada por parte dos agrupamentos e o que corrobora para essa posição
é a utilização do verbo comprovar como forma de examinar a pobreza e desorganização.
Além desses elementos, ele apresenta outro antimodelo, aí está como forma de apresentar os
problemas que deixam a verdadeira política de lado, a sucessão presidencial ser transformada
em irrisória competição de grupos que utilizam de meios ilícitos para alcançar seus objetivos.
O objetivo do sujeito do enunciado é fazer por meio do modelo, antimodelo e exemplo
que a população observe a realidade e veja que é necessário mudar para o rumo da política
para que ela se paute nas necessidades coletivas do povo e não sirva de subterfúgio para o
individualismo.
Referente aos recursos dêiticos de pessoa, o sujeito enunciador se apresenta no
discurso como um cidadão, o que pode ser evidenciado pelo uso do pronome possessivo
nossos referindo-se aos agrupamentos partidários do país. O sujeito se coloca como um eu,
pois os pronomes possessivos nossos e nossa pressupõem o meu e o seu. Outro elemento
linguístico a ser considerado para a demarcação do “eu” do enunciado refere-se à desinência
número pessoal “_mos” do verbo lembrarmos que também indica a presença do sujeito
naquilo que profere.
Ao focar a atenção aos dêiticos temporais, observa-se que o verbo consistir, no
presente do indicativo, consiste, mostra o agora como o momento do enunciado. Além desse
primeiro verbo, há outro elemento linguístico que corrobora para afirmar que o agora é o
momento do enunciado é o verbo exercer conjugado na 3ª pessoa do plural no presente do
indicativo que indica que o enunciado só pode ocorrer no agora, a desinência “_mos” do
verbo lembrar que também indica o agora como o momento do enunciado e o verbo vir na 3ª
pessoa do singular no presente do indicativo.
Quanto às marcas que denunciam o lugar, observa-se o sujeito enunciador
evidenciando a sua posição de cidadão, o que pode ser visto no momento em que ele faz uso
do pronome possessivo nosso, referindo-se à política atual. Para comprovar a pobreza e
desorganização da nossa vida política nos moldes em que se vem processando.
Ainda referente à posição do enunciador, observa-se que ele também se coloca como
líder do poder executivo, pois ao apresentar as funções dos partidos políticos relacionadas à
realidade da nação, ele mostra uma imagem de quem avalia o que ocorre na política e que,
consequentemente, atinge a nação.
3º recorte
Restauremos a nação na sua autoridade e liberdade de ação: na sua autoridade, dando-lhe os instrumentos de poder real e efetivo com que possa sobrepor-se às influências desagregadoras, internas ou externas; na sua liberdade, abrindo o plenário do julgamento nacional sobre os meios e os fins do governo e deixando-a construir livremente a sua história e seu destino.
O que chama a atenção no recorte determinado é o verbo restaurar que denota que algo
que deveria ser respeitado não estava mais sendo. Ao apresentar o modelo que é
a nação nasua autoridade e liberdade de ação: na sua autoridade, dando-lhe os instrumentos de poder real e efetivo com que possa sobrepor-se às influências desagregadoras, internas ou externas; na sua liberdade