• Nenhum resultado encontrado

O habitus em Pierre Bourdieu e o Background em John Searle

4 A QUESTÃO MENTE-CORPO E O JULGAMENTO ESTÉTICO

4.4 O habitus em Pierre Bourdieu e o Background em John Searle

Quando publicou A Construção da Realidade Social, John Searle destacou que a noção de Background (fortemente usada em sua teoria) está relacionada com o pioneirismo de outros pensadores, como David Hume e Friedrich Nietzsche –, ainda que para Searle, aqueles autores estivessem mais preocupados com o debate em torno da cognição humana e de suas contingências. Em um segundo momento, Searle buscou nos escritos de Ludwig Wittgenstein outro recorte voltado para a explicação dos fenômenos sociais, e, finalmente, em um terceiro momento, chamou atenção para o conceito de

habitus, presente na teoria de Pierre Bourdieu, por entender que os tratamentos

bourdieusianos sobre diversos fenômenos da realidade poderiam dialogar com abordagens encontradas na noção de Background (SEARLE, 1997, p. 143).

A aproximação entre Bourdieu e Searle (ou seja, entre o habitus e o

Background) deve ser feita sem perder de vista o fato de que, tanto um quanto outro

possuem conceitos que lançam perspectivas divergentes a respeito da intencionalidade e ontologia do social (MARCOULATOS, 200343). Além do mais, quando os modos de Bourdieu e Searle tratam seus respectivos, pode-se levantar exemplos e elucubrações ainda mais díspares. É claro que um passo não invalida o outro, pois admitir as diferenças entre o habitus e o Background não é o mesmo que abrir mão de discutir a validades de ambos, nem de imaginar suas possibilidades para o reforço de tópicos caros ao julgamento estético e à linguagem, sobretudo, aqueles mais situados em um debate mente-corpo.

43 Vide também as seguintes palavras de Bourdieu: “Não podemos dar conta de todas as condutas duplas,

sem duplicidade, da economia das trocas simbólicas, a não ser abandonando a teoria da ação como produto de uma consciência intencional, de um projeto explícito, de uma intenção explícita e orientada por um objetivo explicitamente colocado” (BOURDIEU, 2013c, p. 164).

Em Bourdieu, o habitus é o princípio gerador de “estratégias” e improvisações, que se não regulado de maneira inconsciente, se torna parcialmente controlado e disponível às práticas dos indivíduos e seus ajustes às estruturas dos campos (econômico, político, artístico, dentre outros). No habitus, aparece o infraconsciente, quando as disposições mais inconscientes estão diretamente ligadas a valores, símbolos e significados, objetivados na sociedade. Em suma, o habitus marca a existência de disposições duráveis e transponíveis que se atualizam mediante diversas situações da prática. Para ilustrar parte significativa dos efeitos sociais gerados pelo próprio habitus, Bourdieu ainda se interessou em pesquisar várias famílias, tomando-as como exemplos mais férteis de análise.

Os filhos das famílias cultivadas que acompanham seus pais em visitas a museus ou exposições, acabam por lhes tomar de empréstimo sua disposição em relação a tal prática, até que possam adquirir eles mesmos a disposição para praticar que terá origem em uma prática arbitrária e, de início, arbitrariamente imposta. Basta substituir o museu pela igreja para depararmo- nos com a lei da transmissão tradicional das disposições, ou melhor, da reprodução do habitus (BOURDIEU, 2007b, p. 272).

Marcado por bases weberianas do poder tradicional, o habitus bourdieusiano se mostra inclinado a frisar o papel de uma família, uma escola e de outras formas mais imediatas e prováveis para a sociabilidade básica na educação estética dos indivíduos. Assim, o julgamento estético não se realiza mecanicamente por influências etárias, mas por fatores geracionais e que se revelam na familiarização de um indivíduo com repertórios artísticos. É possível que o indivíduo não se aproxime de certos campos da arte ou lugares por causa de sua idade biológica, mas em vez disso, que as formas pelas quais ele engendre suas disposições, preferências, gostos e práticas sobre determinadas obras de arte, em detrimento de outras, o direcionem para algum tipo de idade social. Outro conceito como o de geração, presente em Bourdieu, também é indispensável para o entendimento do habitus e de suas relações mente-corpo, que nem sempre operam sob convergências entre os aspectos biológicos da idade de um indivíduo e as convenções socialmente estabelecidas para sua idade. Em tal explicação, Bourdieu deixou de lado suas próprias opiniões estéticas, a respeito de qual arte seria “superior” ou mais “madura” diante de outras para pesquisar como essas classificações de maturidade estética estão orientadas em um espaço social e relacionadas com um

No percurso antecipado por outros pensadores como Karl Marx e Max Weber, Bourdieu encontrou uma comprovação das forças sociais de reprodução, presentes nos objetos e recursos materiais, ao mesmo tempo em que percebeu os valores dos objetos artísticos, simbolicamente orientados e inculcados nas marcas do corpo e da crença dos indivíduos. A perspectiva bourdieusiana encontrou no conceito de habitus, uma prova das forças socialmente ajustadas e objetivadas através da formação do gosto, e mais especificamente, do gosto artístico. Por extensão, a teoria bourdieusiana apresentou diferentes habiti como prova da transcendência de intenções subjetivas e projetos de uma consciência individual e coletiva, pois além de marcados por uma história, os

habiti geram práticas ajustadas às estruturas objetivamente combinadas. É aqui que sob

níveis corpóreos e sociais, a historicidade do habitus acaba por ser determinada como um “porvir provável”, de acordo com suas possibilidades de antecipar as coisas a partir de um presente presumido no mundo, “o único que ele sempre pode conhecer” (BOURDIEU, 2009a, p. 106).

Certa feita, Bourdieu chegou a declarar que a principal contribuição do conceito de habitus talvez estivesse em como ele apontou problemas e fez surgir desafios científicos. Mas além de o quão sua eficácia operacional abrange uma explicação satisfatória para as ciências sociais, o habitus é importante por considerar a relevância de fatores como o tempo e a linguagem, na formação do corpo do indivíduo, entendendo-os para além da simples representação de uma subjetividade. O conceito de

habitus matiza os indivíduos em um mundo dos objetos que não se erguem

subjetivamente para se desdobrarem em uma objetividade, já colocada e disponível no mundo. Pelo contrário, já existe uma dimensão objetiva construída pelos objetos e produtos de operações de objetivação, estruturadas e aplicadas por um habitus, e, por isso, “o habitus é uma metáfora do mundo dos objetos, que é ele mesmo um círculo infinito de metáforas que se afirmam mutuamente” (BOURDIEU, 2009a, p. 128). Com essas chaves, Bourdieu acena para o caráter relacional do mundo e da sua realidade (onde “o real é o relacional”), e repisa os efeitos da linguagem construída na relação com valores arbitrários da cultura (classificando, por exemplo, o que é belo ante o que é feio) embasa as disposições dos indivíduos e seus julgamentos estéticos.

É possível afirmar que mesmo os acidentes e as mudanças das ações, em suas contingências, formam uma espécie de “coerência” do habitus, pois quaisquer descompassos e gafes, produzidos pelos indivíduos, são reflexos das condições objetivas / valores simbólicos e suas distribuições no campo. De modo pertinente, a

visão de Bourdieu de que os valores estéticos são objetivamente reconhecidos e legitimados, no campo artístico e no de produção cultural, aparecem ligados à dialética entre a condição de classe e um senso de classe, por sua vez reconhecido como um tipo específico do senso prático.

Com estas posições, Bourdieu sustentou que o julgamento estético não deve ser entendido e nem apenas lido como um ato capaz de valorar e resumir a obra de arte a uma verdade ideal e absoluta, tampouco de resumir um subjetivismo de um mundo composto pela plena liberdade de criação ou recriação da obra de arte ao seu bel prazer (BOURDIEU, 1998, p. 229). O julgamento estético, mais especificamente quando tido como hexis corporal (com todas as suas bases conscientes e inconscientes), está relacionado a um mecanismo prático dos indivíduos, efetivado em relação com um

habitus. Postos então estes tópicos elementares do habitus bourdieusiano, a teoria de

Searle deve agora ser retomada, para discorrer sobre possibilidades em direção a um debate sobre o julgamento estético.

Searle contribui para aspectos convencionais e arbitrários das linguagens da arte, pois sua teoria se dirige para a internalidade da consciência, intencionalidade e pré- intencionalidade dos indivíduos, sem com isso, abrir mão da articulação entre o ser biológico e o ser social. A partir destas posições (e de maneira semelhante à teoria de Bourdieu) a emergência de linguagens aparece em Searle, marcada por convenções, arbitrários culturais e todo um conjunto de dispositivos para a representação pública e social, envolta por expectativas e pressões. Além do mais, “há um jeito certo e errado de falar em qualquer língua, mas a maneira como uma linguagem fixa a correção e o erro é convencional e, portanto, arbitrária” (SEARLE, 2012, p. 51).

Com a noção de Background, a ação do indivíduo julgar esteticamente a experiência artística, depreende conteúdos e estados especiais da intencionalidade. Um julgamento estético não pode se efetivar sem a presença do Background, a ponto de cada estado da intencionalidade possuir seus conteúdos específicos, como também esses mesmos estados só podem serem efetivados na relação com outros estados intencionais, presentes na sociedade. No entanto, é importante diferenciar que a noção de

Background em Searle, não deve ser confundida e nem tomada como uma forma ou um

tipo de intencionalidade, mas como uma pré-condição, um conjunto de capacidades mentais pré-intencionais e não-representacionais, para que futuras ações, dotadas de intencionalidades, sejam engendradas.

determinados tipos de saber prático (Know-how): preciso saber como as coisas são e preciso saber como fazer as coisas, mas esses tipos de “saber como” (Know-how) em questão, não são, nesses casos, formas de “saber que” (Know-what) (SEARLE, 2002, p. 198).

Para exemplificar pontos apresentados no modelo de Searle, rumo ao julgamento estético, gostaria de tratar um caso curioso vivenciado por mim. No primeiro contato que obtive com o São João Batista, de Leonardo Da Vinci, claramente reconheci aquela imagem como uma pintura. A partir disso, é possível afirmar que a minha at itude inicial em reconhecer aquele objeto como uma imagem / pintura, se fez diante de uma condição pré-intencional e vinculada ao meu Background. Em outros termos, os componentes envolvidos para que eu reconhecesse aquele objeto como pintura, estavam basicamente orientados pela subjetividade, descolada de elementos objetivos e necessários, para que eu lesse o quadro como uma representação artística. Porém, em um segundo momento dos estados da minha consciência, a pintura pôde me remeter a uma ideia de algo profano, carnal e bacante. Curiosamente, em um terceiro momento, quando pesquisei as condições e informações mais objetivas daquela imagem (a assinatura do artista, o movimento histórico e o título do trabalho), me vi traído pelo meu próprio Background (em Bourdieu isso seria visto como uma traição do habitus), ao descobrir que tal imagem em questão se endereçava a uma representação de um santo católico do Cinquecento, ou seja, uma representação posta em forma e no mínimo intrigante. Em termos searleanos, somente quando a pintura de Da Vinci se transferiu da minha capacidade pré-intencional, vindo a se tornar objeto da minha intencionalidade (e ajustada do mundo para a minha mente, bem como, direcionada da minha mente para o mundo), o meu julgamento estético pôde se efetivar com maior clareza (FIG. 14):

FIGURA 14 – São João Batista; por Leonardo da Vinci (1513).

Fonte: Leonardo Da Vinci – Complete Works44

No São João Batista, de Leonardo Da Vinci, há um exemplo de metáfora pouco gasta no mundo social, visto que o santo católico, posto em uma imagem praticamente dionisíaca e bem menos comum e conhecida do que a figura de outro personagem, como, por exemplo, o Demolidor, da Marvel Comics (um super-herói católico romano e curiosamente vestido com uma roupa de demônio). Em sua teoria, Searle demonstrou que, por se tratar literalmente de um “pano de fundo”, os diferentes dados de um

Background não apenas ajudam a entender caminhos para uma intencionalidade mais

específica, como também frisam que um mesmo significado literal pode receber verdades diferentes.

Foi apresentado no capítulo 1 desta tese, como as metáforas são importantes para o julgamento estético. Agora, é possível notar que essas mesmas metáforas podem se combinar aos argumentos de Searle, quando os significados, dos objetos artísticos e da intencionalidade, conseguem andar juntos com fatores pragmáticos e situacionais da vida cotidiana. Nesse ponto, ainda que Searle tenha reconhecido mais o mérito de

44

Disponível em: <http://www.leonardoda-vinci.org/St-John-the-Baptist-1513-16.html>. Acesso em: 19 abr 2016.

Donald Davidson (outro autor diretamente interessado nas metáforas e citado nesta tese), ao mesmo tempo, deve-se traçar distinções teóricas importantes, pois enquanto Davidson pode ser visto como um expoente do “empirismo resoluto”, capaz de argumentar que sem a linguagem, o pensamento é impossível (SEARLE, 2012, p. 28), Searle se ocupa em ampliar sua concepção da linguagem para o plano de capacidades, antes de tudo, biológicas, cujos sentidos são postos na relação com elementos pré- intencionais, para os fundamentos da linguagem e de uma intencionalidade pré- linguística.

Apesar das divergências, os argumentos de Davidson são indispensáveis, ao mesmo tempo em que a teoria de Searle contribui com a noção de Background sobre a importância da elaboração das interpretações, não só sintáticas, como semânticas e ligadas, portanto, aos modos pelos quais a sentença é significada, contextual e situacional.

81 – O julgamento estético envolve mecanismos da sintaxe e toma símbolos e

mensagens linguísticos como objetos intencionais. Esse mesmo julgamento amplia as interpretações dos indivíduos, através de um Backround, isto é, uma rede de estados pré-intencionais, indispensável para operações semânticas e para situar / contextualizar etapas cruciais do julgamento estético.

Esclarecendo ainda mais essas posições, Searle argumenta a respeito do Backround:

Ora, o que venho chamando de Background na verdade é derivado de toda a congérie de relações que todo ser biológico-social guarda com o mundo à sua volta. Sem minha constituição biológica e sem o conjunto de relações sociais em que estou envolvido, não poderia ter o Background que tenho. Mas todas essas relações biológicas, sociais e físicas, todos esses envolvimentos, só são relevantes para a produção do Background em virtude dos efeitos que tem sobre mim, especificamente os efeitos que tem sobre o meu cérebro-mente (SEARLE, 2002, p. 214).

Aqui é interessante perceber como o emprego de uma palavra como “bela”, pode grassar diversos entendimentos na arte, conforme situações diferentes, além de o significado daquela palavra não se encerrar em si mesmo, mas se articular com ambientes e sentenças, necessários para o julgamento exitoso. Essas constatações não deixam de dar razão, em parte, a Bourdieu, na medida em que sua teoria percebeu as palavras movidas no julgamento como bases para valores e mecanismos de

desigualdade social. No entanto, outra parte da questão deve interrogar “até que ponto” os termos do julgamento são marcados por um tipo de distinção e economia das trocas linguísticas. Enquanto o habitus bourdieusiano admitiu a existência de “estratégias inconscientes”, nas práticas dos indivíduos (vista muito mais por meio de um corpo socializado e, portanto, incorporadas), o Background searleano auxilia o entendimento de que as condições pré-intencionais para o julgamento estético, não estão simplesmente “na periferia” da intencionalidade dos indivíduos, mas vinculadas a um corpo mais dependente de fatores mentais na orientação da mente do indivíduo e seus diversos modos de acessos à ação, percepção, memória, bem como experiências com a arte.

Tanto o habitus quanto o background apresentam grandes dificuldades em serem comprovados –, algo senão francamente, ao menos tacitamente reconhecido por Bourdieu e por Searle. Tanto o habitus, quanto o Background tratam os indivíduos a partir de uma história biológica e um corpo socializado, ainda que sob ênfases diferentes a respeito da questão mente-corpo. Mas há também um desafio em demonstrar o habitus e o background que se intensifica quando se considera a sua dificuldade de uma comprovação propriamente material. Dentro disso, tanto o habitus quanto o Background podem sofrer acusações de funcionarem como uma “mão-invisível”, ou por se tratarem de “forças ocultas”. Mas, ao mesmo tempo, o Background de Searle escapa melhor desses ataques, do que o habitus de Bourdieu, uma vez que o primeiro ainda consegue lastrear sua teoria nas implicações neurológicas e neurocientíficas, ao contrário do conceito de Bourdieu, que recorre a uma ideia do infraconsciente e do corpo socializado.

Pode-se constatar que em Bourdieu e Searle, a linguagem social é capaz de tornar a sociedade humana fundamentalmente linguística, ainda que para ambos os autores, esse argumento não baste por si, uma vez que a linguagem ordinária e as próprias linguagens da arte estão imersas no conjunto mais específico de relações sociais, ou seja, com outras pessoas, objetos naturais, artificiais, matizados pelas suas possibilidades de engendramento de ações, posturas, práticas e hábitos.

Diante de várias críticas que lhes foram infligidas, é interessante ver que embora Bourdieu e Searle, apresentem problemas de comprovação material sobre os seus conceitos de habitus e Background, a metáfora de jogo pode ajudar na compreensão de boa parte das explicações em torno da questão mente-corpo. Ao mesmo tempo, é preciso entender a incidência do habitus ou do background mais do que um “jogo”, ou como as “regras” de um jogo. As condições de embasamento construídas na prática (e,

portanto, dentro do próprio jogo) é que devem ser enfatizadas para se compreender os indivíduos e o desempenho de suas ações / práticas. Em Bourdieu, por exemplo, verifica-se a seguinte proposta:

O melhor exemplo de disposição é, sem dúvida, o sentido do jogo: o jogador, tendo interiorizado profundamente as regularidades de um jogo, faz o que faz no momento em que é preciso fazê-lo, sem ter a necessidade de colocar explicitamente como finalidade o que deve fazer. Ele não tem a necessidade de saber conscientemente o que faz para fazê-lo, e menos ainda de se perguntar explicitamente (a não ser em algumas situações críticas) o que os outros podem fazer em resposta, como faz crer a visão do jogo de xadrez ou de bridge que alguns economistas (especialmente quando aderem à teoria dos jogos) atribuem aos agentes (BOURDIEU, 2013c, p. 164).

Ao passo que em Searle, são postos os seguintes argumentos:

[...] assim como as regras de um jogo permitem a execução de certos movimentos, o Background nos capacita a ter formas particulares de Intencionalidade. [...] O Background, repetindo, não é um conjunto de representações, mas, tal como a estrutura do jogo ou das Constituição, proporciona não obstante um conjunto de condições capacitantes [...]. Na concepção que estou apresentando, é, antes, o conjunto de práticas, habilidades, hábitos e atitudes que permitem que os estados Intencionais funcionem nas diversas maneiras que funcionam e é nesse sentido que o Background funciona causalmente, ao fornecer um conjunto de condições capacitantes para a operação dos estados Intencionais (SEARLE, 2002, p. 219-220).

Um debate voltado para o habitus e o Background é útil na explicação do julgamento estético, pois o fato de a estética não se fazer presente apenas pela metafísica, mas por recorrer a dispositivos linguísticos, biológicos e sociais, além de criar parte importante de suas bases para os indivíduos julgarem os objetos artísticos, reforça a necessidade de ajustar os atores sociais e suas condições de mente-corpo, para o entendimento das experiências e objetos artísticos. Dito isso, a posição de Searle deve ser retomada em suas condições de não se satisfazerem apenas pela intencionalidade e pela consciência, mas se combinarem com outros aspectos pré-intencionais, como a noção de Background sinaliza.

Um dos avanços de Searle aparece em sua maneira de oferecer bases para se pensar os efeitos da linguagem na sociedade e para investigar, por exemplo, “o que é a linguagem”, além de analisar como esta se torna parte constitutiva da própria sociedade. Com esse tipo de crítica, Searle divergiu de autores como Bourdieu, Foucault e Habermas, ao considerar que eles teriam dispensado uma etapa fundamental para o entendimento da linguagem e suas relações com a consciência, relações estas que

seriam necessárias para questionarmos como as ferramentas linguístico-biológico- sociais se constroem e dão vazão para a orientação das práticas e avaliações que os indivíduos desempenham sobre os objetos intencionais (SEARLE, 2012, p. 21).

82 – Searle estimula futuras análises que considerem a arte e o julgamento estético sob