4.1 A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO
4.1.1 O HORIZONTE DE EXPECTATIVAS E A FUSÃO DE HORIZONTES
A estética da recepção, como foi possível observar no tópico anterior, é uma das linhas teóricas51 que se ocupam com o estudo da literatura a partir de seus receptores, isto é, a partir do leitor. Para essa vertente dos estudos literários, “o leitor é tão vital quanto o autor” (EAGLETON, 2003, p. 103), uma vez que sem o leitor não há a concretização efetiva da obra literária.
Entendendo, portanto, o leitor como peça fundamental na construção do sentido final do texto literário, a Estética da Recepção retira o enfoque tanto do autor quanto do texto e o coloca na figura de seu receptor. Até porque, na perspectiva de Hans Robert Jauss, o leitor pode assumir uma postura de coautoria da obra literária no ato da leitura. Embora seja a poiesis que se refira mais especificamente ao prazer do leitor de se sentir coautor da obra lida, ao referir-se à aisthesis, que juntamente com a poiesis e a katharsis formam as três categorias básicas da experiência estética, Jauss faz a seguinte observação:
A própria atividade da aisthesis, contudo, também pode se converter em poiesis. O observador pode considerar o objeto estético como incompleto, sair de sua atitude contemplativa e converter-se em co-criador da obra, à medida que conclui a concretização de sua forma e de seu significado (JAUSS, 2011, p. 102- 103).
O leitor, por este ponto de vista, deixa de lado uma postura meramente passiva e passa a recriar o texto literário, preenchendo espaços vazios e perfazendo correlações a partir de leituras
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Embora a presente tese tenha se preocupado em pontuar apenas a vertente teórica da Estética da Recepção, omitindo-se em relação a outras teorias que também se ocupam em estudar a literatura pela ótica da recepção (embora possuam enfoques diferentes daqueles aqui apresentados), não significa que não existam outras possibilidades para se pensar o aspecto recepcional dos textos literários. Zappone observa: “Muitos são os autores que discorreram sobre a literatura a partir do enfoque recepcional: Roman Ingarden, com seu A obra de arte literária, de 1931, Roland Barthes em O prazer do texto, de 1937, Hans Robert Jauss com A história da literatura como desafio à teoria literária, de 1967, Umberto Eco com Leitura do texto literário, de 1979, Wolfgang Iser com O ato da leitura: uma teoria do efeito estético de 1976, Stanley Fish com Is there a text in this class? (1980), Robert Escarpit com o seu Sociologia da literatura, de 1958 e, mais atualmente, trabalhos como A ordem dos livros, de 1992, Práticas de leitura, de 1985, e outros estudos produzidos por Roger Chartier” (ZAPPONE, 2005, p. 155).
pregressas e de sua bagagem existencial. Destarte, o que se pode apreender é que as leituras de uma mesma obra literária serão diferentes porque os leitores são diferentes. Sobre isso, Rosemary Conceição dos Santos, em tese doutoral defendida no departamento de Letras Clássicas da USP, afirma:
[...] a estética da recepção nos ensina que os leitores de uma mesma obra não têm o mesmo saber, nem a mesma idade, tampouco os mesmos interesses. Logo, cada leitor reage ao texto de acordo com seus parâmetros psicológicos e socioculturais diversificados e individuais, motivos pelos quais as leituras suscitam diferentes interpretações de uma mesma obra (SANTOS, 2006, p. 57).
Apreende-se, desse modo, que as leituras de uma mesma obra são diferentes porque as expectativas ante o texto literário também são diferentes, variando de leitor para leitor. A isso, Jauss denominará “horizonte de expectativas”52. Tal horizonte considera que cada leitor reage individualmente ao texto literário de acordo com a soma de suas experiências sociais acumuladas, como também pelos “critérios que os leitores utilizam para julgar os textos literários num período determinado” (SANTOS, 2006, p. 10). O horizonte de expectativas do leitor é, portanto, o modo como os leitores recebem o texto literário a partir de sua própria subjetividade. Contudo, para Jauss, existem coincidências nessas recepções individuais, que transformam o ato da leitura em um fato social. Se, por um lado, Jauss dá margem à individualidade e à subjetividade do sujeito leitor no ato da leitura, por outro, ele limita o horizonte de expectativas aos códigos artísticos vigentes em determinada sociedade em uma dada época.
Diante do até então exposto, cabe um questionamento: se o leitor é tão vital no ato da leitura para a construção do sentido, qual o papel do texto literário? Segundo Zilberman, para Jauss, a obra predetermina a recepção oferecendo orientações ao leitor, tais como o horizonte de expectativa e as regras do jogo (ZILBERMAN, 1989, p. 34). No entendimento de Eagleton, para os teóricos da Estética da Recepção, “o texto em si, realmente não passa de uma série de „dicas‟ para o leitor, convites para que ele dê sentido a um trecho de linguagem” (EAGLETON, 2003, p. 105).
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Horizonte de expectativas é uma “expressão de origem alemã (traduzida em inglês por horizon of expectation e en francês por horizon d’attente), que provém da fenomenologia de Husserl e da hermenêutica de Gadamer [...] Hans Robert Jauss, discípulo da hermenêutica de Gadamer, membro da Escola de Constance, e um dos mais inflexíveis dos críticos da estética da recepção, é o grande responsável pela divulgação da expressão nas décadas de 1970 e 1980. No seu ensaio nuclear, ‘A Literatura como Provocação’ (1970), procurou ultrapassar os dogmas marxistas e formalistas que não privilegiam o leitor no acto interpretativo do texto literário e reforçou o conceito de horizonte de expectativas como impulsor da interpretação *...+” (CEIA, EDTL, verbete “Horizonte de expectativas”).
Contudo, por mais que as obras literárias carreguem seu próprio horizonte histórico e ofereçam pistas para que o leitor efetive sua prática de leitura, ainda assim o texto ficcional continua sendo um universo extremamente vago e indefinido, aberto a uma infinidade de interpretações. Sobre isso, Luiz Costa Lima, um dos pioneiros na difusão das teorias de Jauss no Brasil, faz a seguinte observação:
Afirmar que o texto ficcional se localiza por depositar seu centro de gravidade nos vazios, significa que nele a indeterminação se apresenta em máximo grau, muitas vezes próximo da desorganização entrópica. O que vale também dizer, por sua familiaridade com a indeterminação, o texto ficcional possibilita uma multiplicidade de comunicações (LIMA, 2011, p. 52).
A despeito dessa indeterminação do texto literário, compreendemos que o texto continua fornecendo um determinado horizonte ao leitor, apontando caminhos, levantando hipóteses, suscitando ideias e guiando esse mesmo leitor a uma viagem libertária rumo a um novo horizonte, que se condiciona apenas às experiências literárias e existenciais do leitor, às suas expectativas estéticas e às regras propostas pelo próprio texto literário. Logo, se existe o horizonte de expectativa do leitor, existe também o horizonte de expectativa evocada por parte da obra literária.
Luiz Costa Lima afirma que “diante do texto ficcional, o leitor é forçosamente convidado a se comportar como um estrangeiro, que a todo instante se pergunta se a formação de sentido que está fazendo é adequada à leitura que está cumprindo” (LIMA, 2011, p. 51). O motivo de tal estranhamento por parte do leitor perante o texto literário ocorre devido ao fato de o texto possuir um mundo próprio. Ao invadir o universo da obra literária, o leitor talvez se sinta fora de seu mundo, como se estivesse de fato em território estrangeiro. Este sentimento por parte do leitor ocorre, em nosso entendimento, por causa daquilo que Jauss designa como fusão de horizontes53 (o horizonte do texto se fundindo ao horizonte do leitor) e que para Paul Ricoeur tem relação com o confronto encerrado entre o mundo do texto e o mundo do leitor54.
53 Jauss toma a expressão “fusão de horizontes” emprestada de seu mestre Gadamer. Segundo o E-Dicionário de Termos Literários, “Fusão de horizontes” é uma “expressão cunhada por H.-G.Gadamer para caracterizar, contra a concepção romântica e historicista da hermenêutica moderna o nexo de compreensão e experiência que caracteriza o procedimento intelectivo próprio da hermenêutica” (SILVA, EDTL, verbete “Fusão de horizontes”). 54
Paul Ricoeur, ao que parece, discorda da Estética da Recepção no que tange à questão da fusão de horizontes. Sobre essa fusão, o filósofo francês faz a seguinte observação: “É esse paradoxo que transforma o confronto entre o mundo do texto e o mundo do leitor num combate a que a fusão de horizontes de expectativas do texto com os do leitor só traz uma paz precária” (RICOEUR, 1997, tomo 3, p. 301). Em outro momento, ele afirma: “O ideal-tipo da leitura, figurado pela fusão sem confusão dos horizontes de expectativa do texto e dos do leitor une esses dois momentos da refiguração na unidade frágil da estase e da missão” (RICOEUR, 1997, tomo 3, p. 304). Se na primeira
A fusão de horizontes deve ser entendida como um processo de intercâmbio entre o leitor e a obra literária, em que não apenas cada leitor contribui com seu horizonte, como também recebe da obra os horizontes dela. Essa fusão ocorre toda vez que o leitor trava contato com o texto literário – amalgamando seus horizontes aos daquele – no ato da leitura:
De um lado, situa-se o efeito, condicionado pela obra que transmite orientações prévias e, de certo modo, imutáveis, porque o texto conserva-se o mesmo, ao leitor; de outro, a recepção, condicionada pelo leitor, que contribui com suas vivências pessoais e códigos coletivos para dar vida à obra e dialogar com ela. Sobre esta base, de mão dupla, acontece a fusão de horizontes, equivalente à concretização de sentido (ZILBERMAN, 1989, p. 65).
A partir da fusão de horizontes se chega, então, à concretização da leitura ou da recepção propriamente dita. Desse modo, percebe-se que a recepção só chega à sua efetivação a partir do instante em que se fundem os horizontes da obra literária aos do leitor. O veredicto final, no que tange à fusão de horizontes, provém do próprio Jauss:
Para a análise da experiência do leitor ou da “sociedade de leitores” de um tempo histórico determinado, necessita-se diferençar, colocar e estabelecer a comunicação entre os dois lados da relação texto e leitor. Ou seja, entre o efeito, como o momento condicionado pelo texto, e a recepção, como o momento
citação Ricoeur sustenta que a fusão de horizontes não é capaz de elucidar as questões referentes ao texto e ao leitor, deixando a desejar no que tange à geração de sentido, na segunda ele sugere que a fusão de horizontes, por vezes, em vez de auxiliar no processo hermenêutico pode ocasionar confusão. Na concepção ricoeuriana, o mundo do texto e o mundo do leitor devem entrar em um embate, em um confronto, a fim de gerar sentido. É justamente por isso que a sua teoria a respeito do mundo do texto e do mundo do leitor está embasada em três aspectos dialéticos que tornam a leitura, segundo ele, uma experiência viva (uma vez que a interação entre obra e leitor sempre gera uma nova experiência). O primeiro aspecto dialético afirma que a leitura é um combate entre dois mundos, em que pesa sobre os ombros do leitor o trabalho tanto de configuração (quando o texto o exige) quanto de refiguração do texto literário. O segundo aspecto apregoa que, ao mesmo tempo em que o texto se mostra fragmentário, ele se apresenta como inesgotável. O que para Ricoeur faz com que o texto pareça “alternadamente em carência e em excesso relativamente à leitura” (RICOEUR, 1997, tomo 3, p. 290). O terceiro ponto dessa dialética da leitura diz respeito à imaginação presente na obra ficcional e ao fato de o leitor vir a crer naquilo que está lendo, mesmo sabendo se tratar de ilusão. Portanto, para o filósofo francês, “a distância ‘certa’ da obra é aquela em que a ilusão se torna alternadamente irresistível e insustentável” (RICOEUR, 1997, tomo 3, p. 290). Ao abordar o mundo do texto e o mundo do leitor em Ricoeur, João Leonel destaca a primazia da dialética no empreendimento da leitura, ao dizer que “o texto se coloca como uma relação dialética com o leitor concreto” (LEONEL, 2010, p. 29), bem como, afirma ser “*...+ necessário que o mundo do texto e o mundo do leitor se confrontem para que a refiguração seja efetivada *...+” (LEONEL, 2010, p. 28). Ao final de sua argumentação sobre Ricoeur, há ainda um parecer que ratifica e enfatiza o conflito proveniente da relação texto/leitor: “Podemos afirmar, desse modo, que o mundo do leitor se identifica inicialmente com a mimese I, a prefiguração, mas que, ao mesmo tempo, tal mundo existe dialeticamente na relação, por vezes conflituosa, com o mundo que o texto coloca diante dele” (LEONEL, 2010, p. 31). Destarte, para Ricoeur, “a passagem da configuração à refiguração exige o confronto entre dois mundos, o mundo fictício do texto e o mundo real do leitor” (RICOEUR, 1997, tomo 3, p. 276). O que se percebe, portanto, é que “a leitura acaba sendo um combate” (RICOEUR, 1997, tomo 3, p. 289) entre o mundo do texto e o mundo do leitor ou entre o horizonte do texto e o horizonte do leitor, e não fusão, como propôs o teórico expoente da Estética da Recepção.
condicionado pelo destinatário, para a concretização do sentido como duplo horizonte – o interno ao literário, implicado pela obra, e o mundivivencial (lebensweltlich), trazido pelo leitor de uma determinada sociedade (JAUSS, 2011, p. 73).
Para Jauss, o efeito corresponde ao impacto da obra literária sobre o público leitor e “equivale à resposta ou reação motivada pelo texto no leitor” (ZILBERMAN, 1989, p. 112). A recepção, por sua vez, refere-se à acolhida de uma determinada obra pelo destinatário. É, justamente, na junção do efeito e da recepção – a que Jauss denomina duplo horizonte – que ocorrerá a fusão dos horizontes e, consequentemente, se estabelecerá a comunicação literária, ocasionando a concretização do sentido.
Destarte, o que a Estética da Recepção propõe é uma espécie de relação dialógica entre o horizonte do leitor e o horizonte da obra literária. Há um diálogo entre texto e leitor, em que o leitor recebe da obra um determinado horizonte e, ao mesmo tempo, confere sentido ao texto literário ao permitir que o seu horizonte se entrelace ao da obra lida.
A seguir, faremos a análise da recepção dos romances bettianos. As resenhas analisadas foram, em sua maior parte, extraídas de jornais55 (com exceção de três delas). Tentaremos observar o diálogo ou a fusão de horizontes da obra e do leitor. Dessa fusão de horizontes tão díspares resulta a compreensão do texto, interiorizado pelo leitor por meio de sua visão de mundo.