2. A ORGANIZAÇÃO DOS ESPAÇOS DO ALIENISMO PARA A RECEPÇÃO DO
2.3 O “HOSPICIO PEDRO II”: A “PEDRA ANGULAR” PARA OS
Juliano Moreira (1873-1932), em 1905, descreve que o tratamento dos alienados em todo o período colonial brasileiro era definido conforme as “posses” dos doentes. Ele assim hierarquizou todo esse processo com contextualização externalista com crítica indireta ao tratamento jesuítico:
Os abastados, se relativamente tranquilos, eram tratados em domicílio e, às vezes, enviados para a Europa. [...] Se agitados, punham-nos em algum cômodo separado, soltos ou amarrados, conforme a intensidade da agitação. Os mentecaptos pobres tranquilos vagueavam pelas cidades, aldeias ou pelo campo entregues às chufas da garotada, mal nutridos pela caridade pública. Os agitados eram recolhidos às cadeias onde barbaramente amarrados e piormente alimentados muitos faleceram mais ou menos rapidamente. A terapêutica de então era de sangrias e sedenhos, quando não de exorcismos católicos ou fetichistas. Excusado é dizer que os curandeiros e ervanários tinham também suas beberagens mais ou menos desagradáveis com que prometiam sarar os enfermos (MOREIRA, 1905, p.730).
Leme Lopes (1965) atribui em relação ao desembarque no Brasil do “tratamento moral” um misto de influência da filosofia das luzes e da medicina do romantismo que chega com certo atraso. Entretanto Leme Lopes, em termos gerais, não diferencia de forma significativa a situação promíscua do “louco” tanto no Brasil quanto no restante do mundo ocidental, em países já em franco desenvolvimento capitalista no século XIX:
Os loucos, propriamente ditos, eram colocados nas cadeias, com vagabundos, criminosos ou indiciados. Essa promiscuidade de nenhum modo foi privativa da Colônia, do Vice-Reinado ou do Primeiro Império. Era universal. Contra ela é que se gravou o artigo 24 da Lei Francesa de 1838, que foi e continua a ser a matriz de toda a legislação sobre alienados. Na Regência a situação nesta cidade, quanto ao cuidado e assistência aos doentes mentais, não era das melhores (LOPES, 1965, p.1).
Leme Lopes não atribui a decisão da monarquia brasileira pela criação do Hospicio Pedro II como resposta a qualquer ato político ou social de cunho liberal. Mesmo se tratando de um período de regência sem a presença de um Imperador com
uma forte imagem. O imperador Dom Pedro II (1825-1891) era ainda um adolescente, quando da opção imperial pelo asilo:
No Brasil e no Rio de Janeiro foi esse movimento renovador e caritativo que levou o Conselho do Império a sugerir, entre outras medidas, que celebrizassem a maioridade do Imperador e a construção do Hospício Pedro II. Não se pode incluir nessa decisão, como querem alguns intérpretes da história da psiquiatria, como índice de uma intolerância da sociedade, em transformação pela revolução industrial, em face do alienado. [...] O Hospício nasceu do coração. [...] A iniciativa é governamental em sua origem, emana da Coroa e deverá permanecer. [...] sua anexação ao ‘Hospital da Santa Casa de Misericórdia desta Corte’ (ANEXO 4) (ibid, p.1-2).
Essa incômoda situação social era motivo de manifestações frequentes dos membros da SMRJ no decorrer da década de 1830. Oda & Dalgalarrondo (2005) transcrevem referência do médico francês Joseph-François-Xavier Sigaud, acerca dos problemas causados pelo livre transitar de vários “tipos humanos bizarros e amalucados” pelas ruas do Rio de Janeiro, em 1835:
E quantos idiotas, velhas enfermas e imbecis, não tereis visto de tempos a tempos nos lugares populosos, nos arrabaldes, nos estabelecimentos públicos e nas igrejas? Nós não tratamos aqui dos mendigos, dos leprosos, nem dos bêbados; só lembramos a classe desgraçada dos loucos (SIGAUD [1835] apud ODA & DALGALARRONDO, 2005, p.984).
Juliano Moreira, em 1905, sobre a criação do Hospicio Pedro II, realça a necessidade do tratamento humanizado como condição permanente em todo o processo, desde as discussões médicas até a intervenção essencial do Provedor da Santa Casa de Misericordia, o jurista José Clemente Pereira:
Seja dito para honra da classe médica que Jobim e De Simoni sempre protestaram contra tão tremendo estado de coisas. Provedor que os ouvisse só houve, porém, José Clemente que, em 1839, em seu relatório à mesa da Santa Casa, afirmou a urgência de serem atendidas as reclamações dos homens de ciência que eram as da humanidade. No relatório do ano seguinte, apresentado a 26 de julho, dizia José Clemente: ‘Não sei que espírito de providência me inspira: a chácara do vigário geral há de um dia converter-se em hospício de alienados’ (MOREIRA [1905], 2011, p. 731-732).
Juliano Moreira transcreve o ofício do Provedor da Santa Casa de Misericordia (ANEXO 4), dirigido ao então Ministro do Império, com vasta justificativa no sentido da adequação asilar aos enfermos psiquiátricos. Em relação à resposta, o contraofício de “S. M. o Imperador Pedro II”, três dias após o ofício do Provedor
(ANEXO 5), marca a adesão política do monarca brasileiro. Esse fato deu respaldo a todas as subscrições quer sejam dos ministérios imperiais ou da sociedade civil do Rio de Janeiro (ibid).
Dowbiggin (1991) descreve que a apropriação dos espaços asilares pelos médicos alienistas franceses ao longo do século XIX, sobretudo na sua primeira metade, nada teve de pacífica. O alienismo francês teve quase sempre a oposição do clero e das instâncias jurídicas que se colocavam como porta-vozes de uma opinião pública ainda severamente crítica e incrédula tanto com os diagnósticos mentais que tendiam, evolutivamente, para um sítio cerebral da loucura quanto com as terapêuticas médicas que objetivavam a substituição das abordagens religiosas, eminentemente católicas, na resolução dos transtornos mentais supostamente espirituais para essas forças sociais.
Nesse sentido, nem mesmo a lei de 1838 que matriciou todo o arcabouço de proteção e tratamento aos doentes mentais no ocidente foi suficiente para impedir a criação de ordens religiosas voltadas para a inserção nos asilos e, consequentemente, para o desenvolvimento assistencial nos cuidados de enfermagem pelas irmãs de caridade católicas (ibid).
Santo et al. (2011) relatam que desde a sua criação, o Hospício de Pedro II contou tanto na parte administrativa quanto no setor assistencial com o concurso das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo. Esse processo só viria a alterar-se no início do período republicano, com as influências positivistas anticlericais no sentido da separação entre Estado e Igreja e, de modo consequente, com a “laicização das instituições”.
Em contraposição à essa associação conflituosa observada na estruturação dos espaços do alienismo e, consequentemente, no desenvolvimento das terapias tanto na França quanto no Brasil, processo oposto ocorre na Inglaterra, Estados Unidos e Canadá, ao longo do século XIX.
Shortt (2010) relaciona a absorção e adequação do “tratamento moral” no Retiro de York no Reino Unido, de modo simpático pelos protestantes Quakers que admitiram a partir da sua crença uma aliança com médicos alienistas, o que resultou
em uma profícua composição entre administradores e médicos assistentes na amplitude do tratamento dos doentes mentais.
A tradução para a língua inglesa do Tratado de Pinel, feita pelo próprio autor, e a favorável recepção e aplicação da obra pela família Tuke no Retiro de York é prova da popularidade e prestígio do “tratamento moral” em território britânico (ibid). A partir de 1815, muito embora o trabalho da Comissão de Seleção de Manicômios tenha sustentado proposta organicista pela suposta inabilitação técnica dos leigos religiosos, tal como ocorreu no Asilo de Bethlem sob direção do Dr. William Lawrence, que se prolongaria como forte oposição à corrente mentalista até meados da década de 1840. Entretanto, a constatação de que somente cinco asilos haviam excluído a contenção física foi o suficiente para que a prática do “tratamento moral” ganhasse novo crédito e permanecesse como majoritária frente à “therapeutica” médica também adotada (ibid).
John Haslam (1764-1844) foi superintendente do Bethlem Mental Asylum de 1795 a 1816, período em que buscou transformar as sombrias estruturas arquitetônicas, além de tentar empreender na realização de pesquisas nos exames de autópsias cerebrais de insanos falecidos no hospital. Haslam, sendo um organicista, criticava o excesso mentalista de Pinel, ao tentar moldar de forma moralizante a personalidade dos pacientes, ao invés de permitir a manifestação do caráter. Ele, porém, associou-se à família Tuke no entendimento de que a doutrina pineliana criaria bases humanistas quanto aos aspectos relacionais entre médicos alienistas e pacientes (ALEXANDER & SELESNICK, 1980; SHORTER, 1997).
Scull (1991) edita e faz a introdução da publicação What Asylums Were, Are, and Ought to Be de 1837 do Dr. William Alexander Francis Browne (1805-1885).
Browne foi expoente da renovação voltada para o “tratamento moral” em território
britânico, expressada nessa publicação. Nessa obra, ele propõe ampliações ao tratamento pineliano desde uma revisão do papel do médico superintendente, benevolente, porém autocrático, até estudos sobre a recepção dos tratamentos asilares na comunidade escocesa em consonância com o trabalho renovador nos asilos ingleses capitaneado pelo médico alienista John Conolly (1794 –1866).
A mudança pendente para o alienismo organicista de Haslam é subsequente ao declínio do prestígio do “tratamento moral”, inserido pela família Tuke
no Retiro de York em anos anteriores. A posterior tentativa de renovação do “tratamento moral”, já sob forte influência de Esquirol, de Conolly e Browne se apresentaria com pilares organicistas bem definidos quanto à causa da alienação mental. Esse processo oscilatório nos tratamentos do alienismo inglês, na primeira metade do século XIX, revelava a baixa resposta terapêutica clinicamente observada pela exiguidade dos meios disponíveis (ibid).
O pensamento mentalista pineliano aproximou-se, portanto, mais da crença protestante do que do credo católico mais afeito às intervenções organicistas, sobretudo a partir de Morel, que não questionavam a doutrina espiritualista nas doenças mentais professada pelo clero apostólico romano.
Em fins de 1878, seria criado na cidade de Niterói, vizinha cidade do Rio de Janeiro, um pequeno Hospicio de Alienados, anexo ao Hospital de São João Baptista, que funcionava nos moldes da Santa Casa de Misericordia do Rio de Janeiro. No relatório anual, enviado ao diretor do Hospital de São João Baptista, Dr. Manoel Pereira da Silva Continentino (1841-1912), o Dr. Domingos Jacy Monteiro Junior (1853-?) faz um arrazoado histórico de motivos que caracterizariam o processo de organização dos espaços asilares no Brasil. Esse processo teria evoluído com muitas carências que distanciavam esses espaços do “tratamento moral”, preconizado por Pinel e Esquirol, além da insuficiência na aplicação da “therapeutica” médica então vigente. O rápido e crescente processo de superlotação dos espaços asilares no Brasil é pormenorizado nesse relatório:
Até fins de 1878 eram elles asylados no hospicio de Pedro II; os alienados indigentes sómente podiam contar em sua desditosa sorte com setenta logares mantidos no hospicio de Pedro II pela Provincia. [...] Estabelecendo- se um pequeno asylo com enfermarias annexas a um hospital, sem os caractéres peculiares a um hospicio de alienados, sem que se pudessem tornar effectivas a sequestração, a classificação delles, sem officinas nem instrumentos de trabalho, sem jardins, hortas e pateos, sem os meios especiaes de balneação (porque é escasso o elemento principal – a água fria ou quente) sem os meios de tratamento em summa, pois tudo isto impreterivelmente importa o tratamento, era claro que não se resolvia a questão – adiava-se a resolução (ibid, p.4-5).
A inadequação dos espaços asilares no Brasil foi uma característica que perduraria por todo o século XIX, adentraria o século XX e, historicamente, não encontraria solução, consensualmente razoável, no início do século XXI. A história da
arquitetura dos hospícios no Brasil encontra concepções teleológicas e sociopolíticas ambiciosas, porém, na prática, mostrando-se severamente limitada pelos modestos resultados terapêuticos associados também às ambientações inapropriadas.
Capítulo 3
3. O PROTAGONISMO DO “TRATAMENTO MORAL” DE PINEL E ESQUIROL NA