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2. A ORGANIZAÇÃO DOS ESPAÇOS DO ALIENISMO PARA A RECEPÇÃO DO

2.2 OS PRIMÓRDIOS DO ALIENISMO NO BRASIL OITOCENTISTA: O

ANTONIO LUIZ DA SILVA PEIXOTO, COMO REPRODUÇÃO DO ALIENISMO FRANCÊS, NO MEIO ACADÊMICO BRASILEIRO.

Holanda et al. (1976) descrevem no cenário intelectual brasileiro do início do século XIX uma atmosfera que, embora em nação monárquica e escravocrata, de alguma forma recebe as ideias do iluminismo e da Revolução Francesa, onde se nota um ambiente já muito influenciado pelo pensamento francês talvez até mais do que português, cabendo à França uma missão: “acordar, instruir e guiar as nações” (ibid, p.179). A influência do pensamento francês era vigente também em Portugal, desde o reinado de D. João V. Grande parte dessa influência luso-francesa era trazida aos meios intelectuais por brasileiros que iam estudar em Coimbra, Portugal, e em Paris, França.

José Bonifácio de Andrada e Silva constituía-se no melhor exemplo de intelectual brasileiro sob as novas diretrizes da “Universidade Reformada” e da “Ilustração”, reforçadas após os “agravos” aos jesuítas pelo Marquês de Pombal no século XVIII, promovendo a ruptura do intelectualismo escolástico, aristotélico- tomista, para outro ilustrativo acadêmico (ibid).

No Brasil, assim como em outras colônias europeias na América, grassava o desejo de autonomia. A vinda da família real portuguesa, em 1808, para o Rio de Janeiro e a abertura dos portos para nações estrangeiras responderam a esse ímpeto

pelo progresso vigente no país, com a fundação de escolas: de medicina, de marinha, de guerra, do comércio, uma “Imprensa Régia”, uma livraria, um museu e um “Jardim Botânico” (ibid).

Gomes (2007) descreve como turbulenta a transferência da sede do império português para o Brasil com a consequente e difícil aculturação social e política no traslado do núcleo de um poder ainda excessivamente centralizado na figura do Rei, diferentemente de outros países da Europa, como a Holanda e a Inglaterra, já com Parlamentos atuantes.

Alexandre Jose de Mello Moraes, em sua obra Corographia historica, chronographica, genealogica, nobiliaria e politica do Imperio do Brasil (1860) relata que os primórdios do ensino médico no Brasil foram institucionalizados por decretos imperiais, criando em 1808 o Collegio Medico-Cirurgico da Bahia e, em 1810, o do Rio de Janeiro. Apesar da ressalva de Mello Moraes de que essas duas instituições funcionaram de modo precário nos seus primeiros anos de existência, o debate médico já era suficiente para suscitar demandas por melhorias e motivar jovens estudantes a buscarem o complemento da sua incipiente formação na Europa.

Nava (1948) relata que José Maria Bomtempo (1774 -1843) foi um professor egresso de Portugal que veio para o Brasil quando da fundação da Escola Médico-Cirúgica Fluminense. Ele foi lente de “química”, “matéria médica” e “farmácia”, sendo autor de Compêndios de Medicina Prática de 1815, onde define como referência teórica principal a sistemática clínica de Philippe Pinel, construindo, portanto, uma conexão de entrada para a medicina francesa no Brasil. Dessa forma, no primeiro quartel do século XIX no Brasil, a a incipiente ciência médica torna-se muito dependente das ações do estado português implantado em terras brasileiras, quando da criação dos Colégios de Cirurgiões.

Gomes (2010) referencia, porém, que o processo de Independência do Brasil do Reino de Portugal, em 1822, tornou-se atribulado pela retomada constitucionalista dos portugueses do seu próprio país, após os conflitos com França e Inglaterra. A pressão dos liberais portugueses pelo retorno da família real a Portugal faz inicialmente com que D. João VI eleve o Brasil à categoria de Reino Unido de Portugal e Algarve, em 1815, e, posteriormente, deixa o caminho aberto para que o

filho D. Pedro I proclamasse a independência do Brasil, resistindo às forças liberais lusitanas que tencionavam retornar o Brasil à condição de Colônia portuguesa.

Edler (2011), ao descrever a constituição acadêmica da medicina tropical brasileira oitocentista, detalha que a formação do médico no primeiro quarto do século XIX, em todo o ocidente e no Brasil, seguiu uma lógica externalista que vinculava os ramos da medicina à clínica médica e à higiene.

A afirmação da cultura médica passaria a depender dos consensos acadêmicos, somente a partir daí, possibilitando os diálogos médicos aceitos em conjunto. As “crenças”, “valores” e “técnicas” médicas formariam uma “constelação interiorizada” que necessitariam ser acordadas com preceitos gerais da “medicina anatomoclínica e higienista”. Por esse caminho, o “eixo médico-paciente” se desvia para o trilho associativo consensualizado (ibid).

Foucault (1980) determina o nascimento da medicina moderna nos últimos anos do século XVIII. Essa medicina é essencialmente voltada para o olhar e, consequentemente, tem um objetivo classificatório, agrupador de espécies de doenças provenientes das categorizações naturalistas botânicas. Nesse sentido, os aspectos relacionais entre médicos e pacientes ficam comprometidos diante da necessidade de enquadramentos nosográficos acadêmicos, para que o médico sinta- se autorizado a intervir. A Clínica nasce como anatomopatológica geral e como medicina das epidemias.

Mesmo que as descrições clínicas de Pinel, um mentalista, sejam consideradas superficiais em comparação, por exemplo, com as detalhistas descrições de Marie François Xavier Bichat (1771-1802), um organicista, havia convergência em um ponto: a tentativa de sequenciamento terapêutico após o ritual diagnóstico. Dessa forma, os laços relacionais entre médico e paciente estavam assegurados (ibid).

Bercherie (1980) enfatiza que, efetivamente, Pinel não foi um notável clínico no sentido das descrições de sinais e sintomas e nem tampouco protagonista quanto ao “tratamento moral”, antes uma criação de uma “época inteira” que instaurou esse novo modelo humanista de tratamento, caso de Tuke, Vincenzo Chiaruggi (1759–1820) e Daquin. O que diferenciou Pinel para se tornar o grande difusor do “tratamento moral” para o mundo ocidental foi a sua singularidade como sintetizador

e clareza como comunicador da nova prática terapêutica que incluía até mesmo “homens desprovidos do saber”, como Pussin, o “vigia de Bicêtre” (ibid, p.33).

Em janeiro de 1827, o médico francês, radicado no Brasil, já com o nome abrasileirado de José Francisco Xavier Sigaud, funda na cidade do Rio de Janeiro o jornal O Propagador das Siencias Medicas, ou Annaes de Medicina, Cirurgia, e Pharmacia; Para o Imperio do Brasil. (SIGAUD,1827, p.6).

Xavier Sigaud, “redactor principal” do Propagador das Siencias Medicas, no primeiro número da “Collecção Periodica”, escolhe como publicação principal a tradução de uma Memória de Antoine Laurent Jessé Bayle (1799-1858) que versa sobre a doença mental e intitula-se Sobre as Allucinações dos Sentidos. Nesse trabalho, Bayle descreve as diversas formas de illusões ou allucinações dos sentidos, definidas como falsas percepções que acometiam “alienados e pessoas que gozão de toda sua rasão” e estratificadas quanto aos sentidos em: a vista, o ouvir, o tocar, o olfato, o gosto e as sensações internas (ibid, p.9-10).

Na sequência da publicação da memoria de Bayle, Sigaud acrescenta como comentários a seção “Observações” e, com referência à “therapeutica” utilizada em diversas doenças, ele cita Pinel como importante referencial teórico no processo evolutivo dos tratamentos medicamentosos com a defesa da manutenção da utilização dos purgantes, relacionados na memoria de Bayle. Nessa análise crítica, Sigaud relata que, muito embora os purgantes, como evacuantes ou revulsivos estivesem em desuso para muitos autores que passaram a defender também a exclusão das sangrias, a medicina ainda se devia ater aos preceitos clínicos de Pinel: O nosso veneravel Pinel, ainda que solidista reforçado, fallava mui philosophicamente de impurezas gastricas, de saburras biliosas, que convinha expelir do tubo intestinal, e na minha noviça experiencia parecia-me que meus mestres não deixavão de approvar que se usasse, com discernimento em seus doentes destes agentes therapeuticos [...] huma medicação, que se bazifique sobre o emprego dos purgantes evacuantes, he logo taxada de reprovação por hum grande numero de Doutores mui estimáveis, do mesmo modo que a prodigalidade de emissões sanguinêas locaes (SIGAUD, 1827, p.51).

Ainda com referência à presença de Pinel como um norteador clínico dos médicos com atuação no Brasil nas primeiras décadas do século XIX, Dr. Sigaud descreve no mesmo jornal, também em 1827, um embate médico-ideológico com o

Dr. José Maria Bomtempo acerca do tratamento de um paciente com respaldo social. Dirige-se, então, o Dr. Sigaud ao Dr. Bomtempo:

Não he por arte magica, como o Sr. diz em forma de pergunta, que eu fiz a idéa dos seus princípios, mas sim pela leitura das suas obras de Medicina, que não tem nada de magicas. Se o Sr. Bomtempo tivesse limitado o seu trabalho à tradução da Nosographia de Pinel, ou ao seu tratado de materia medica, que medico instruido ousaria repreendel-o? pelo contrario relativamente a isto eu lhe testemunho huma resplandecente justiça; e ainda que o Sr. tenha mutilado Pinel e sua Nosographia, estou convencido com tudo que os fragmentos, que apresentou em sua tradução podem ser lidos com fructo (O Propagador das Sciencias Medicas, 1827, p.266-267).

A sessão da SMRJ, realizada em 21 de Outubro de 1830, contou com a presença dos Sócios Fundadores os Drs.: Luiz Vicente De-Simoni (1792-1881), italiano, o francês Joseph François Xavier Sigaud e o brasileiro, José Martins da Cruz Jobim (1802-1878), juntamente com outro médico brasileiro Joaquim Cândido Soares de Meireles (1797-1868), e com o médico francês Jean Maurice Faivre (1795-1858), todos com atuação na Corte Imperial do Brasil.

Nesse encontro foi lançada pelo Dr. Xavier Sigaud o plano de um novo jornal médico, Semanário de Saúde Pública (SSP), que viria a ser o divulgador das atividades da entidade, sempre aos sábados, com as seguintes sessões: Boletim da Sociedade, Boletim Universal das Ciências Médicas e Correspondências Particulares (FERREIRA, 2004).

O “tratamento moral” de Pinel e seu corolário de regras viriam a ser recepcionados na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro logo na sua primeira turma de formandos em 1837. Dr. Antonio Luiz da Silva Peixoto, na sua these Considerações Geraes Sobre a Alienação Mental, faz uma compilação de textos traduzidos do alinenismo francês de Foville e Esquirol de forma plagiada, além de periféricas observações clínicas da Enfermaria dos Alienados na Santa Casa de Misericordia, Hospital Escola, com críticas difusas acerca do distanciamento prático na aplicabilidade do tratamento pineliano.

A these de Peixoto situa inicialmente a terapêutica do alienismo em um contexto compatível com a atitude clínica de Pinel que procurava abranger diferentes correntes de causalidade e a amplitude no uso dos recursos do tratamento:

O tratamento da alienação mental, assim como o das outras moléstias, tem sofrido todas as vicissitudes das theorias medicas. Os antigos fazião-no

consistir no uso do elléboro. Aquelles que consideravão como causa da loucura o transporte de sangue ao cérebro, usavão prodigamente das sangrias. Os humoristas, julgando a bílis e atrabilis fonte dos desarranjos intellectuaes, lançarão mão exclusivamente dos evacuantes (PEIXOTO, 1837, p.27).

A relevância clínica terapêutica na these de Peixoto é direcionada para o “tratamento moral” de Pinel, que havia sido avalizado e endossado na sua efetividade pelo discípulo e seguidor pineliano, o alienista francês Jean-Étienne Dominique Esquirol. A doutrina ao “tratamento moral” é explicitada como sendo superior às outras formas de tratamento, quer sejam químicas, físicas ou biológicas.

Antonio Peixoto, que se define como um discípulo de Esquirol, reproduz no seu trabalho a clássica divisão entre mentalismo e organicismo, observada desde o princípio na clínica alienista francesa, para referenciar as duas correntes no tratamento das doenças mentais:

Para curar a alienação mental, o medico põe em pratica dous meios de tratamento: hum consiste em obrar directamente sobre o cérebro, isto he, modificar o órgão pelo exercício mesmo de suas funcções; he este tratamento chamado intellectual ou moral: o outro obra indirectamente, e he fornecido pela therapeutica, he este o tratamento physico ou medico propriamente dito (ibid, p. 28).

Essa dissertação expõe o “tratamento moral” na sua amplitude social e humanística, ao passo em que desfere críticas às condutas junto aos pacientes da Santa Casa de Misericordia em linguagem coloquial, evidenciando notório contraste com as descrições compiladas dos autores franceses:

O bárbaro costume de castigar os doudos e carregal-os de cadêas. [...] se acha proscripto nos paizes em que mais se tem adiantado o estudo da alienação mental; He depois que Mr. Pinel elevou a voz a favor desses infelizes, que tão inhumano modo de tratamento vai sendo abandonado; e hoje a experiência mostra que a doçura he mais poderosa que os ferros e azorrague. No hospital da Misericordia, desgraçadamente ainda segue-se este bárbaro modo de tratamento; talvez que não faltássemos a verdade se disséssemos ser este, quase exclusivamente, o que ali (‘casa dos doudos’) enfermeiros ignorantes empregão nos alienados, frustrando quiçá as determinações dos professores encarregados do seu tratamento (ibid, p. 28)

No Brasil, a these de Antonio Peixoto advoga o isolamento como um importante núcleo do tratamento pineliano-esquiroliano, sem mencionar alguma forma

de ordenação, mesmo caótica, desse recurso no âmbito da Santa Casa de Misericordia:

Muitas vezes a causa da molestia existe no seio da familia; ella tira a sua origem das dissensões e desgostos domesticos, e por isso, a presença dos parentes e amigos, estando em relação com as causas que a provocárão, irritão o mal e entretêem o delirio por mais tempo [...] Nos seus momentos em que elles se acharem menos agitados, podem reflectir nas extravagancias dos seus companheiros, e d’ahi tirar meios proveitosos para curar-se de seus erros. Sobre este ponto, alguns autores insistem ainda contra o isolamento [...] Mas outros muitos, e entre elles Mr. Esquirol, a quem não se póde negar muitos conhecimentos e pratica na cura destas molestias, diz que tem colhido vantagem com este systema. (ibid, p.30).

No sentido de tornar o isolamento efetivo terapeuticamente, a these defende imperiosamente que as instituições devem prover ao paciente “conforto, vigilância e aceio”. Para tanto, relata uma pálida e isolada experiência em instituição privada na cidade do Rio de Janeiro:

O meu digno pratico, o Sr. Dr. Cardozo, quando estabeleceu nesta côrte hum hospital particular, tambem recebia doentes affectados da loucura, e este pratico tinha um jardim bem plantado que servia de recreio aos Alienados, do que colhia vantagens. He para lastimar que o Sr. Dr. Cardozo se visse na impossibilidade de continuar a manter o seu estabelecimento, que alguns bens promettia, talvez por não encontrar outros companheiros que com elle quizessem encarregar-se de huma tão ardua tarefa, qual he a da drecção de hum hospital (ibid, p. 31)

A these de Peixoto reitera quanto ao “tratamento moral” como fatores causais para as doenças mentais as desordens do pensamento que, segundo o ordenamento terapêutico de Pinel, seriam passíveis de cura pela repetição moralizante:

No tratamento moral, reduzem-se a tres principios todas as modificações que convém fazer apparecer no exercicio da intelligencia dos insensatos: 1º, não excitar as idéas ou paixões dos doentes no sentido do seu delirio; 2º, não combater directamente suas idéas e opiniões erroneas, pelo racioccinio, contradicção, gracejo ou gritaria; 3º, procurar fixar sua attenção sobre objectos estranhos ao delirio, e communicar a seu espirito idéas e affectos novos por impressões diversas (ibid, p. 32)

Esse trabalho reproduz quanto ao “tratamento moral” o detalhamento das ações preventivas às recaídas das doenças mentais, justificando-as como importantes

nas fases posteriores às internações no sentido da recuperação moral dos indivíduos acometidos em seu ambiente sociofamiliar:

Huma parte importante do tratamento moral consiste em prevenir as recahidas, ou seja durante a convalescencia ou seja depois da cura, quando os doentes são novamente restituidos á sociedade. Elles, logo que se curão, recordão-se da posição em que se achárão, das causas que os privarão da rasão, das inquietações e desgostos que causárão ás suas familias, da perda da sua fortuna, etc (ibid, p. 33)

Na these apresentada por esse formando, são relacionados como tratamento preventivo os “meios hygienicos”, correlacionando-os em “regimen alimentar, vestuário, habitação, cuidados da limpeza, aos exercicios, distracção e clima” (ibid, p. 33). Há sempre nas descrições da these de Antonio Luiz da Silva Peixoto uma preocupação com as individualizações das ações do tratamento médico das alienações. Tem-se, portanto, para alienados agitados a recomendação de “alimentos de fácil digestão” ou “privação alimentar”, conforme a necessidade de manutenção de vias excretoras livres e monitoramento na intensidade da agitação. Quanto ao “vestuário”, o uso de roupas quentes para melancólicos, de modo a favorecer a transpiração e “habitação secca”, onde haja calor e circulação de ar. Os exercícios físicos são elencados como importantes: “elles não só servem a distrahir o delirio dos alienados, mas ainda a transpiração, que tantas vezes concorre para sua cura” (ibid, p.34).

Quanto aos “cuidados da limpeza”, referendam-se tanto os cuidados com a limpeza externa quanto os cuidados pessoais dos doentes. Quando se refere ao lazer como instrumento preventivo às recaídas nas alienações mentais, Peixoto faz a advertência, em conformidade com Esquirol que, embora não haja dúvida do benefício dos “meios de distracção” como eficientes, eles são contraindicados nos casos em que “exaltão a imaginação e as paixões” e conclui: “Mr. Esquirol diz não ter colhido vantagens com o emprego da música [...] os espectaculos, em geral, não podem convir aos alienados” (ibid, p. 34-35). Finalizando, a these de Antonio Peixoto ressalta as vantagens de “mudança de clima”, principalmente para “alienações intermittentes”, citando: “ellas não só offerecem objectos de distracção aos doentes, mas ainda,

deixando elles de estar em contacto com a causa que produzira a loucura, podem com mais facilidade recobrar a rasão” (ibid, p. 35).

A these retrata o escopo da clínica alienística de Esquirol, já mais intervencionista que a de Pinel, no sentido de que sempre haja intervenção médica no curso das alienações mentais, ressaltando a medicina expectante como favorável, sobretudo para casos refratários aos meios de tratamentos usuais, porém, mesmo para esses casos, referencia que se devem variar de métodos e nunca “abandonar o organismo ás suas proprias forças” (ibid, 35), sob pena de a “marcha natural da molestia, em resultado, ter huma terminação funesta” (ibid, 36). Desse modo, relata a advertência esquiroliana quanto à importância da intervenção médica:

Seguindo-se esta pratica, póde acontecer que hum acesso de mania, por exemplo, ou de melancolia aguda, que cederia promptamente a hum tratamento ativo, degenera em hum estado de demencia incuravel. Não dissimularemos, entretanto, que, no estado actual da sciencia, o medico encontra muitas vezes casos de alienação sem indicações therapeuticas bem precisas, que o levão, ou a nada fazer, ou a lançar mão ás apalpadellas de alguns meios reputados como especiaes d’esta molestia (ibid, p. 36).

Bercherie (1989) relata adjetivamente que as descrições clínicas de Esquirol são “muito mais” completas que as de Pinel, além de embasadas na “escola espiritualista eclética”. Para Foucault (1980), a evolução dos tratamentos médicos sustentava-se nos avanços da medicina geral que englobava e arrastava a medicina mental.

Em relação à “therapeutica” praticada no Brasil, em 1837, a these de Peixoto faz alusão a certa psicofarmacoterapia e aos tramentos físicos empregados no Hospital de Misericórdia, o qual funcionava como um Hospital Escola da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, sob a responsabilidade do “Sr. Dr. De Simoni”, médico da Enfermaria dos Alienados desse hospital da Corte Imperial.

Relativamente aos tratamentos do alienismo no âmbito da “therapeutica medica” em uso corrente na França, a these de Antonio Peixoto de 1837 faria em tentativa comparativa “hum resumo do que o Sr. Dr. de Simoni, médico da Enfermaria dos Alienados do hospital da Misericordia desta Côrte, tem posto em pratica com mais vantagem” (ibid, p. 36):

As sangrias têem sido reprovadas por alguns médicos, Mr. Pinel as julga prejuduciaes no maior numero de casos [...] Mr. Esquirol diz que vio a loucura

augmentar depois de regras abundantes, e de huma, duas ou mais sangrias. Entretanto, este autor não proscreve o emprego deste meio, julga-o mesmo indispensável nos alienados plethoricos, e ameaçados de congestões cerebrais. [...] nos casos de excitação e congestão cerebral, as emissões sanguineas devem se combinar com applicações refrigerantes sobre a cabeça e com a acção de agentes revulsivos, devem-se preferir as sangrias locaes ás geraes. [...] as sangrias locaes, feitas com prudência, offerecem a vantagem de poder ser repetidas por muitas vezes sem inconvenientes, mesmo nos indivíduos fracos (ibid, 36).

Com referência à água e aos banhos, a these de Antonio Peixoto repassa referências do seu emprego como uso externo e interno de relevante auxílio como terapias associadas aos fármacos e com indicações seletivas quanto aos estados clínicos dos alienados :