3 QUALIDADE DA EDUCAÇÃO BÁSICA
3.2 AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO BÁSICA
3.2.1 O IDEB e sua relação com o PDE e com o TPE
O IDEB surgiu a partir de estudos realizados pelo INEP, tendo como parâmetro as metas estabelecidas em âmbito internacional e definidas pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, sendo que, a “comparação internacional foi possível devido à compatibilização entre a distribuição das proficiências observadas no Pisa e no Saeb” (BRASIL, 2015e).
Conforme Saviani (2009a, p. 07):
Tomando como parâmetro o rendimento dos alunos (pontuação em exames padronizados obtida no final da 4ª e 8ª séries do ensino fundamental e 3º do ensino médio) nas disciplinas de língua portuguesa e matemática e os indicadores de fluxo (taxas de promoção, evasão e repetência escolar), constituiu-se uma escala de 0 a 10. Aplicado esse instrumento aos alunos em 2005, chegou-se ao índice médio de 3,8. À luz dessa constatação, foram estabelecidas metas progressivas de melhoria
25 Descritores servem de base para a construção dos itens das provas. Os descritores,
portanto, especificam o que cada habilidade implica e são utilizados como base para a construção dos itens dos testes das diferentes disciplinas. Cada descritor dá origem a diferentes itens e, a partir das respostas dadas a eles, verifica-se o que os alunos sabem e conseguem fazer com os conhecimentos adquiridos (BRASIL, 2011d).
desse índice, prevendo-se atingir, em 2022, a média 6,0, índice obtido pelos países da Organização e Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que ficaram entre os vinte com maior desenvolvimento educacional do mundo. O ano de 2022 foi definido não apenas em razão da progressividade das metas, mas à vista do caráter simbólico representado pela comemoração dos 200 anos de Independência política do Brasil.
O IDEB emergiu no contexto de elaboração do PDE e articulado ao Movimento Todos pela Educação. Martins (2016) explica que a maior novidade do PDE foi o IDEB. Esse índice atende, por um lado, aos interesses do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – CDES26, este “integrando o conjunto de políticas que envolveriam diferentes áreas prioritárias de desenvolvimento” (MARTINS, 2016). Por outro lado, apoiando-se nos estudos de Saviani (2007), a autora explica que o IDEB também atende aos anseios da sociedade, diante dos baixos índices nacionais e internacionais de rendimento dos alunos. Diante disso: “Essa ‘sintonia’ entre TPE e MEC demonstra também o imbricamento do governo e do movimento e de parte da sociedade civil organizada” (MARTINS, 2016, p. 98).
Nesse sentido, se percebe a forte influência do empresariado na educação brasileira e a falta de valorização dos educadores e dos representantes dessa categoria. “Em lugar de se apoiar nessa longa história de luta dos educadores, o PDE assume plenamente, inclusive na denominação, a agenda do ‘Compromisso Todos pela Educação’, movimento lançado em 6 de setembro de 2006 [...], em São Paulo” (SAVIANI, 2008b, p. 13).
Segundo Saviani (2015, p. 13):
Apresentando-se como uma iniciativa da sociedade civil e conclamando à participação de todos os setores sociais, esse movimento constitui-se, de fato, como um aglomerado de grupos empresariais com representantes e patrocínio de entidades como o Grupo Pão de Açúcar, Fundação Itaú- Social, Fundação Bradesco, Instituto Gerdau, Grupo Gerdau, Fundação Roberto Marinho, Fundação Educar-DPaschoal, Instituto Itaú Cultural, Faça Parte-Instituto Brasil Voluntário, Instituto Ayrton Senna, Cia. Suzano, Banco ABN-Real, Banco Santander, Instituto Ethos, entre outros.
Com base no exposto, fica explícita a busca do consenso entre o governo e a sociedade civil, cujos interesses coadunam e, numa simulação de participação da sociedade, por meio do TPE, se materializa na prática os interesses do Estado e do
26 O Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) é um colegiado composto
por representantes da sociedade civil. Seu trabalho consiste no assessoramento direto ao presidente da República em todas as áreas de atuação do Poder Executivo Federal. Característica esta que o distingue dos demais conselhos de governo (BRASIL: CDES, [2018?]).
empresariado. Essa articulação se viabiliza tendo em vista que parte da equipe do TPE integra ou integrou a equipe do governo, conforme assegura Martins (2016, p. 73):
A configuração da comissão técnica do TPE apresenta-se como uma chave para compreender sua articulação com os governos atuais. Para além do alinhamento e proximidade existente com o governo federal, as metas do TPE e sua expressão quantitativa foram engendradas por sujeitos que compõem a comissão técnica do movimento e, simultaneamente, fazem ou fizeram parte de instâncias do Executivo a partir do primeiro mandato de Lula da Silva.
Essa nova configuração da relação entre Estado e sociedade civil, se delineia ainda na década de 1990, se difunde durante o governo de Fernando Henrique Cardoso e se consolida nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff.
Frigotto e Ciavatta (2003, p. 105) destacam que a burguesia brasileira visualizou em Fernando Henrique Cardoso “a liderança capaz de construir seu projeto hegemônico de longo prazo, ao mesmo tempo associado e subordinado à nova (des)ordem da mundialização do capital”.
No âmbito educacional:
A dimensão talvez mais profunda e de consequências mais graves situa- se no fato de que o governo Fernando. H. Cardoso, por intermédio do Ministério da Educação, adotou o pensamento pedagógico empresarial e as diretrizes dos organismos e das agências internacionais e regionais, dominantemente a serviço desse pensamento como diretriz e concepção educacional do Estado (FRIGOTTO; CIAVATTA, 2003, p. 108).
Essa proposta mercadológica a serviço do capital não se rompe com a chegada do presidente Lula ao poder. Pelo contrário, esse governo também adere a essa proposta e por meio do PDE, do IDEB, em articulação com o TPE, materializa a ideologia das competências no campo educacional.
Para Martins (2016, p. 20): “O acesso de Lula da Silva à presidência do Brasil também se deveu às alterações na relação entre Estado e sociedade, desencadeadas pelas novas alianças promovidas com a grande burguesia interna brasileira, sobretudo com o empresariado”.
Sobre o projeto TPE e a busca do consenso, Martins (2015, p. 63) enfatiza:
alteração na relação entre sociedade e Estado no que se refere ao espaço de produção e implementação de políticas públicas. Isso porque na correlação de forças entre classes sociais e suas frações por um projeto para educação, esse movimento utiliza como estratégia de legitimação e de adesão de outros segmentos a construção de consensos, o fortalecimento de discursos e a difusão de ideias.
Nesse cenário, destaca-se a participação da mídia e das redes sociais, que contribuem efetivamente em defesa do ideário neoliberal presente no TPE. Esse movimento “tem como parceiro determinado setor da mídia, sobretudo os jornais de grande circulação, com demarcada posição política, como O Estado de São Paulo,
Folha de S. Paulo, O Globo, revista Veja, etc.”, por isso investe maciçamente nesse
setor, inclusive “forma jornalistas para atuar na educação, sugere pautas, fornece dados e informações” (MARTINS, 2016, p. 84, grifo do autor).
O grupo que integra o citado movimento tem discernimento do forte aliado que representa a mídia, disseminando de forma sutil, na sociedade, a ideologia desse grupo. Os argumentos utilizados pela imprensa são tão convincentes que levam pais, governantes e os próprios professores à adesão dessa proposta, quando os maiores interessados são os próprios empresários. A ideologia desse movimento leva ao convencimento de que é a única proposta viável em “tempos de crise”, de modo que cada um precisa assumir sua responsabilidade, ocultando uma política governamental de descentralização, de terceirização e de adesão à proposta mercadológica, de atendimento de metas e apresentação de números, que no caso da Educação Básica se materializa por meio do IDEB.
O objetivo do IDEB para o MEC, está explícito na Meta 7 do Novo Plano Nacional de Educação (Lei nº 13.005/2014): “fomentar a qualidade da educação básica em todas as etapas e modalidades, com melhoria do fluxo escolar e da aprendizagem, de modo a atingir as seguintes médias nacionais para o IDEB”: em 2021 nos Anos iniciais do ensino fundamental – média 6,0; nos Anos finais do ensino fundamental – média 5,5; no Ensino médio – média 5,2. Todavia, os índices do IDEB 2015 apontam que somente nos anos iniciais do Ensino Fundamental, o país ultrapassou a meta proposta que era 5,2, alcançando a nota 5,5. Já nos anos finais do Ensino Fundamental, cuja meta era 4,7, o país obteve a nota 4,5 e no Ensino Médio a nota obtida 3,7 é inferior à meta proposta de 4,3.
Para que as metas propostas sejam atendidas, muitas ações vêm sendo desencadeadas pelas escolas e também pelo próprio sistema, dentre elas, práticas
de “treinamento”, tendo como apoio as matrizes de referência das provas disponibilizadas pelo MEC para as escolas, estabelecimento de convênios com os chamados “sistemas de ensino” e o incentivo financeiro às escolas que atingem as metas.
Em relação aos convênios com os sistemas de ensino, Saviani (2014a, p. 105) afirma:
É assim que o movimento dos empresários vem ocupando espaço nas redes públicas via UNDIME e CONSED, nos Conselhos de educação e no próprio aparelho de Estado, como o ilustram as ações do Movimento ‘Todos pela Educação’. É assim também que grande parte das redes púbicas, em especial as municipais, vêm dispensando os livros didáticos distribuídos gratuitamente pelo MEC e adquirindo os ditos ‘sistemas de ensino’ com’ ‘Sistema COC’, ‘Sistema Objetivo’, ‘Sistema Positivo’, ‘Sistema Uno’, ‘Sistema Anglo’, etc. Com o argumento de que tais ‘sistemas’ lhes permitem aumentar um pontinho nas avaliações do IDEB, o que até se entende: esses ditos sistemas têm know-how em adestrar para a realização de provas. É assim, ainda, que os recursos públicos da educação vêm sendo utilizado para convênios com entidades privadas, em especial nos casos das creches.
O fato das redes de ensino adotarem material para a educação infantil (faixa etária 0 a 05 anos de idade), inclusive para a creche, etapa esta que atende crianças da faixa etária de até 03 anos de idade, é muito preocupante, uma vez que a Educação infantil não tem como objetivo preparar para o ensino fundamental, muito menos “treinar” os educandos para as avaliações de desempenho. O objetivo desta etapa do ensino é trabalhar o desenvolvimento humano, nas suas diversas dimensões, o que está estabelecido no art. 29 da LDB nº 9394/96: “A educação infantil, primeira etapa da educação básica tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança de até 5 (cinco) anos, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade” (BRASIL, 1996b).
Beauchamp, Pagel e Nascimento (2007), na parte introdutória do documento “Ensino Fundamental de Nove Anos: Orientações para a inclusão da criança de
seis anos de idade,” complementa o que está garantido na LDB em relação à
Educação Infantil e apresenta os objetivos do trabalho com os anos iniciais do Ensino Fundamental:
Faz-se necessário destacar, ainda, que a educação infantil não tem como propósito preparar crianças para o ensino fundamental, essa etapa da educação básica possui objetivos próprios, os quais devem ser
alcançados a partir do respeito, do cuidado e da educação de crianças que se encontram em um tempo singular da primeira infância. No que concerne ao ensino fundamental, as crianças de seis anos, assim como as de sete a dez anos de idade, precisam de uma proposta curricular que atenda a suas características, potencialidades e necessidades específicas (BEAUCHAMP, PAGEL; NASCIMENTO, 2007, p. 08).
A pressão para que as escolas atinjam as metas, se torna extremamente prejudicial ao desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem, uma vez que, conforme mencionado anteriormente, as matrizes de referência para as avaliações de desempenho dos alunos contemplam recortes do conhecimento das áreas de Língua Portuguesa, de Matemática e, a partir de 2013, ainda de maneira incipiente, os conteúdos de Ciências. Nesse sentido, conteúdos fundamentais para o desenvolvimento do educando nestas áreas não são cobrados. Um exemplo disso é a própria produção de texto, a qual não integra esse modelo de avaliação.
Além dessa descaracterização curricular dos objetivos do ensino na Educação Básica, que vem acontecendo nos últimos anos, objetivando atingir os índices e, consequentemente, a apresentação de números para os organismos internacionais, há outro fator que pode interferir diretamente no esvaziamento do currículo, que é o incentivo financeiro às escolas que atingiram as metas propostas para o IDEB em 2007. Uma bonificação de 50% a mais como acréscimo ao recurso do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE)27. A Resolução nº 9, de 24/04/2007, em seu § 9º, estabelece que as escolas que atingirem a meta em 2007, receberão esse incentivo nos dois exercícios seguintes (BRASIL, 2007b).
É importante enfatizar que esse incentivo financeiro, por um lado, agrega recursos a mais para serem investidos na escola e pode contribuir para a melhoria do processo ensino-aprendizagem, por outro lado, pode gerar competição entre as escolas, levando muitas vezes à aprovação automática de alunos que não teriam condições de serem aprovados, visando não baixar os índices, uma vez que o IDEB considera em seu cálculo a nota obtida nas avaliações de desempenho dos alunos e o índice de aprovação destes.
Os fatores mencionados: incentivo financeiro; treinamento de conteúdos que
27 Criado em 1995, “o PDDE consiste na transferência de recursos às escolas públicas da
educação básica das redes estaduais e municipais, bem como do Distrito Federal, com mais de 20 alunos e às escolas especiais mantidas por organizações não governamentais. […] O objetivo desse programa, além de melhorar a qualidade do ensino fundamental, é envolver a comunidade escolar a fim de otimizar a aplicação dos recursos” (LIBÂNEO; OLIVEIRA; TOSCHI, 2009, p. 184- 185).
serão cobrados nas provas, obtidos via matriz de referência, encaminhada anteriormente pelo MEC; compra de materiais dos “sistemas de ensino” e o fato das provas de desempenho não contemplarem conteúdos e áreas fundamentais para a formação do educando, podem levar ao esvaziamento do currículo. Isso é preocupante, uma vez que as metas, as quais são quantitativas podem até ser atingidas, mas isto não garante a qualidade do ensino.
A ideologia presente nos mecanismos de avaliação, denominada por Frigotto e Ciavatta (2003) de “Ideologia das competências e da empregabilidade” se expande nesse início de século XXI de forma “maquiada” para o processo de alfabetização. Por meio de um discurso de que as provas representam um diagnóstico do processo de alfabetização, se efetiva, na prática, a cultura do treinamento desde os primeiros anos do Ensino Fundamental. Saviani (2007, p. 1242) explica: “Embora o MEC tenha vinculado ao PDE, [...], 30 ações, sua identidade própria está dada pelo IDEB, tendo como atores coadjuvantes os programas “Provinha Brasil” e “Piso do Magistério”. O próximo tópico discorrerá sobre as avaliações do processo de alfabetização, incluindo a Provinha Brasil.
3.2.2 As avaliações do processo de alfabetização: entre o discurso de caráter