Capítulo II O Registo Comercial
6. O impacto do Registo no processo formativo das sociedades comerciais
A constituição das sociedades comerciais, na sua forma tradicional, não se esgota num único ato420, mas sim num processo de formação composto por um conjunto sequencial de atos em redor do contrato, negócio jurídico unilateral ou diploma legal421.
Como explica o Prof. Doutor Manuel António Pita,
segundo o princípio da continuidade, as diversas fases sucedem-se num processo gradual em que a passagem para a fase seguinte representa uma consolidação da mesma entidade que existia na fase anterior, que vai assumindo uma forma cada vez mais próxima da perfeição, a qual seria atingida, no caso do regime estabelecido no CSC, com o registo definitivo422.
Exclui-se, assim, a existência de um ato singular que só por si logre a constituição de uma sociedade.
À exceção das situações de constituição online das sociedades e da criação da empresa na hora, o processo de formação constitutivo da sociedade abrange, na maioria dos casos, os seguintes trâmites:
- Pedido e obtenção de certificado de admissibilidade da firma ou denominação ao RNPC423, que também pode ser efetuado online424(www.empresaonline.pt);
- Realização de escritura pública de constituição de sociedade ou elaboração de contrato particular de constituição de sociedade - com reconhecimento de assinaturas dos sócios ou termo de autenticação – ou a existência de diploma legal que constitua a sociedade;
- Pedido de registo425 na Conservatória do Registo Comercial, nos serviços que tenham competência para o efeito ou ainda de forma através do sítio da internet supra mencionado;
419
Regime Jurídico dos Procedimentos Administrativos de Dissolução e de Liquidação de Entidades Comerciais, aprovado pelo DL n.º 76-A/2006, de 29 de março.
420
Vide Luís Brito Correia, Direito Comercial – sociedades comerciais, Vol. II, 4ª tiragem 2000, AAFDL, 1989, p.
182.
421
Cf. Jorge Henrique Pinto Furtado, Curso de Direito das Sociedades, 5ª Ed. revista e atualizada com a colaboração de Nelson Rocha, S.L., Almedina, 2004, p. 204.
422
Cf. Manuel António Pita, O Regime da Sociedade Irregular e a Integridade do Capital Social, S.L., Almedina, 2004, p. 330.
423
Cf. n.º 1 do art. 17º, al. b) do n.º 1 do art. 19º e arts. 22º a 27º do DL n.º 42/89, de 3 de fevereiro.
424
- Publicação obrigatória e oficiosa a cargo da Conservatória do Registo Comercial, no sítio da internet acima mencionado, de onde devem constar as menções obrigatórias do registo426.
Como é designado na doutrina, este processo pode ser dividido em três fases distintas: a primeira, corresponde ao lapso temporal antecedente à celebração do contrato de constituição da sociedade, denominada por fase preparatória; a segunda fase decorre entre o contrato de constituição da sociedade e o registo definitivo da mesma, sendo designada por sociedade em formação; a terceira e última intitula-se sociedade definitivamente constituída e corresponde à fase posterior ao registo427.
Se, nalguma destas três fases for celebrado algum negócio, e do mesmo resultarem direitos e obrigações, serão estes abrangidos pelo regime aplicável à fase em que foram gerados428.
Assim, os negócios concretizados antes da celebração do contrato de sociedade regem-se pelas normas aplicáveis às sociedades civis429. Já nos realizados entre a celebração do contrato de sociedade e o registo definitivo, decorre uma bifurcação: nas relações internas aplicam-se as disposições do pacto social e do CSC430, por sua vez, nas relações externas todos os sócios que agiram em representação da sociedade em determinado negócio, e os que o autorizaram, respondem ilimitada e solidariamente pelas dívidas, após se esgotar o património social431.
Torna-se evidente que o legislador não pretendeu que os sócios de uma sociedade irregular432 conseguissem obter os mesmos proveitos como se de uma sociedade regular se tratasse. Contudo, tendo em conta o efetivo desenvolvimentos da atividade comercial perante terceiros, este tentou uniformizar essa mesma atividade com o menor impacto negativo possível para os terceiros433. Todavia, esta situação não permite que a sociedade possa continuar a laborar sem a necessária forma legal, como se convertida em sociedade civil. Uma sociedade que se encontre nesta situação é
425
Cf. art. 5º e n.º 5 do art. 18º do CSC e al. a) do n.º 1 do art. 3º do CRCom.
426
Cf. arts. 70º a 72º do CRCom e art. 167º do CSC.
427
Cf. Manuel António Pita, O Regime da Sociedade Irregular e a Integridade do Capital Social, S.L., Almedina, 2004, p. 329.
428
Para maiores desenvolvimentos, vide Manuel António Pita, O Regime da Sociedade Irregular e a Integridade
do Capital Social, S.L., Almedina, 2004.
429 Cf. arts. 980º do CC e n.º 2 do art. 36º do CSC. 430 Cf. n.º 1 do art. 37º do CSC. 431 Cf. n.º 1 do art. 40º do CSC. 432
Com processo constitutivo incompleto ou viciado, também designada na doutrina por sociedade imperfeita, neste sentido vide Jorge Henrique Pinto Furtado, Curso de Direito das Sociedades, 5ª Ed. revista e atualizada com a colaboração de Nelson Rocha, s.l., Almedina, 2004, p. 208.
433
Cf. Luís Brito Correia, Direito Comercial – sociedades comerciais, Vol. II, 4ª tiragem 2000, AAFDL, 1989, p. 183 e 194; e Ventura, Raúl, Dissolução e Liquidação de Sociedades – Comentário ao Código das Sociedades
nula434, nulidade essa, invocável a todo o tempo e por qualquer interessado, podendo ainda ser requerida pelo MP435.
Atentamos ainda à situação de pré-constituição de sociedade436, que se extrai do art. 18º do CSC, nos termos do qual é possível a requisição de um registo prévio de um projeto de contrato de sociedade437. Esta situação apenas se afigura legalmente possível quando não tenham sido convencionadas entradas em espécie ou aquisição de bens pela sociedade.
Neste registo prévio de constituição de sociedade, não é exigível a apresentação de certificado de admissibilidade de firma ou denominação, no entanto, é de frisar que o contrato não pode ser alterado, devendo ser celebrado nos exatos termos em que o projeto foi registado.
Nos termos do art. 41º do CSC, até ao registo definitivo do contrato de sociedade, a invalidade do contrato ou das declarações negociais rege-se pelas disposições aplicáveis aos negócios jurídicos nulos ou anuláveis. Acresce ainda que, no caso de invalidade resultante de vício da vontade ou de usura, esta apenas é oponível aos sócios, por outro lado, a incapacidade não só é oponível a estes como também a terceiros.
Não obstante, não é legalmente imposta a liquidação das sociedades cujo contrato tenha sido celebrado, mas não registado. Até porque é reconhecida personalidade judiciária à sociedade que não se encontre registada, tal como acontece para os patrimónios autónimos, o que, apenas demonstra que o legislador as reconhece como um património com alguma autonomia438.
A invalidade do contrato de sociedade somente produz efeitos ex nunc, ou seja, para o futuro. Excetuam-se, assim, os negócios jurídicos que foram concluídos em data anterior à declaração de nulidade ou anulação do contrato de sociedade, salvo as situações de simulação, ilicitude do objeto, violação da ordem pública ou ofensa aos bons costumes, casos em que a subsistência dos negócios jurídicos só aproveita a terceiros de boa fé439.
Atualmente, estas sociedades irregulares são cada vez mais em menor número, atenta a existência de novas formas de constituição de sociedades com procedimentos simplificados e pedido de registo imediato, como acontece na constituição de empresa online, ou ainda realizado no próprio momento da celebração do contrato, como é o caso da constituição na “empresa na hora”. A estas situações acresce ainda o facto de, hoje em dia, os notários se encontrarem legitimados a requerer o
434
Cf. art. 286º do CC.
435
Cf. Manuel António Pita, “Sociedade Nula e Sociedade Irregular (Código das Sociedades Comerciais – Jurisprudência e doutrina de Ferrer Correia)”, in Nos 20 anos do Código das Sociedades Comerciais, Vol. III, Coimbra editora, 2007, pp. 249 e segs. Em sentido oposto, vide Ac. STJ de 8/11/2005 (Azevedo Ramos), Processo SJ200511080027406, disponível em www.dgsi.pt.
436
Excluindo-se as sociedades anónimas de capital aberto ao investimento público.
437
Cf. Jorge Henrique Pinto Furtado, Curso de Direito das Sociedades, 5ª Ed. revista e atualizada com a colaboração de Nelson Rocha, S.L., Almedina, 2004, pp. 207 e 208.
438
Cf. Luís Brito Correia, Direito Comercial – sociedades comerciais, Vol. II, 4ª tiragem 2000, AAFDL, 1989, p. 194.
439
competente registo logo após a outorga da escritura, ficando assim salvaguardada a regular constituição da sociedade.