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O início de uma igreja segundo o modelo imperial

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CAPÍTULO I – Cristianismo orgânico ou institucionalizado?

1.4 O início de uma igreja segundo o modelo imperial

Voltamos ao contexto do império romano, a esta altura já bastante extenso e com um sistema de governo baseado em quatro imperadores. Diocleciano, anos antes, havia estabelecido um tipo de poder quádruplo, a tetrarquia, com dois imperadores no Oriente e dois no Ocidente, devido as grandes extensões do império. Os deuses de proteção nos primeiros momentos deste novo sistema era Júpiter e Hércules; estas “filiações” colaboravam a divinizar o poder dos imperadores. (RAMALHO, pg. 159)

Em 303, Diocleciano decreta um mandato indicando que fossem destruídos os locais de cultos dos cristãos, suas literaturas e para que fossem enviados à tortura, prisão e morte aqueles que negassem as imposições Romanas. Aqueles que negassem a fé cristã, sairiam ilesos. Não é difícil notar que esta perseguição aos cristãos elaborada pelos Imperadores da Tetrarquia estava imbricada com o sistema sagrado oficial, baseado em nos deuses Júpiter e Hércules. Era indispensável a todos os imperados uma filiação divina. Por isso, desde Aureliano (imperador de 270 – 275) o culto a Apolo ou Sol Invictus se reproduzia entre o governo romano. A proteção de um deus era indispensável aos imperadores que consideravam legitimar seu poder e vitórias bélicas a partir de sua filiação ao sobrenatural.

Constantino (280-337) regeu o império desde 311 no ocidente e 324, no oriente quando derrotou Licínio. Construiu Constantinopla para onde transferiu a capital do império. Sua suporta conversão ao cristianismo foi progressiva. Consta da narrativa folclórica a ocasião da volta da batalha da ponte Mílvio em Outubro de 312, junto às tropas de Roma em direção a Maxêncio, seu opositor, aspirante ao trono que se aproveitando da morte de Constâncio, pai de Constantino. Diante do processo de ascensão de Constantino ao trono, Mílvio insurgiu-se como pretendente ao status de imperador. Quanto ao relato de sua conversão, consta a narrativa no caminho ao embate contra Mílvio, Constantino olhou para o céu e viu uma luz com os dizeres: “Com isto vencerás”, mais tarde Cristo apareceu à ele em um sonho portando o sinal de uma cruz

inclinada19. Prontamente o imperador aplicou este sinal aos escudos de seu exército,

seguindo as orientações no sonho e venceu a batalha. Após vencer a batalha contra

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Maxêncio, a partir dos sinais e dos sonhos premonitórios, havia um clima favorável para a unificação do império caso de sua adesão ao cristianismo.

Para Corbin (2009) Constantino parece, a princípio, ser mais um monoteísta, crendo em um Deus único, não necessariamente cristão, contudo em clara oposição ao politeísmo da teatrarquia. Sua nova mística é romana-cristã, emergindo um deus único o Sol invictus20, que aparece na cunhagem de suas moedas, depois de 308 E. C. Não se deve dizer que foi uma conversão súbita. Seu principal biógrafo, Eusébio de Cesaréia, revela que inspirado por essas vivências, verdadeiras ou mitológicas, e, pelo fato de que, segundo a estimativa de Frank Stark (2006), Cristo já era adorado por miríades de seguidores e não poderia ser facilmente destruído, Constantino recorreu à oficialização de um deus fora do panteão romano.

Sua conversão é um denominador comum que tanto garantirá a unidade do império, com o reconhecimento de um deus único, quanto legitimará seu poder. Sua abertura gradual é expressa pelo Édito de Milão, que dá liberdade de culto e uma inclinação monoteísta. A manobra consistia em abraçar a segurança de um deus único e supremo e não mais pelos deuses da tetrarquia. (CORBIN,2009, p. 50)

A Igreja, depois de séculos como movimento contra cultural, agora legitimada pelo poder do império, recebe favores de Constantino, doações em dinheiro, terrenos, palácios, isenção de impostos, financiamento de basílicas em Roma e em Jerusalém. Em troca, seu envolvimento com assuntos relacionados administração do império é cada vez mais intenso. Constantino era o mestre da política e do poder. Habilmente constrói uma segunda religião, mantendo seu título de pontífice maximus, mas indiscutivelmente cede ao cristianismo uma posição de privilégio. Em sua religião romana–cristã, juntou a águia de seu estandarte ao lábaro, símbolo cristão.

Constantino foi o pioneiro a dar total abertura a liberdade religiosa entre os cristãos perseguidos. A adesão definitiva da religião cristã como a oficial do império Romano é cercada de diversas reviravoltas políticas, mas sabemos que foi definitivamente realizada pelo imperador Teodósio em 27 de fevereiro de 380, com o edito de Tessalônica. A partir daí prática do paganismo e de outras religiões passa a ser

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motivo de punição. Em 392, os imperadores Teodósio, Arcádio e Honório proíbem todas as práticas pagãs. (KLEIN:2007, p. 79-81).

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Ora, quando da oficialização definitiva do cristianismo, já haviam se passado quatro séculos desde o nascimento de Jesus. O Movimento de Jesus, nômade e carismático, sofre incontáveis sobreposições. Por fim, percebemos como o binômio “fé” e “império” evidencia-se na clivagem do invictus imperador com a religião cristão. O incipiente movimento já se flexibilizou a ponto e a “ponto a ponto”, após três séculos de mesclagens, concílios e diversificação das comunidades em cada cidade, que nos é impossível capturar a rede de igrejas familiares ou distritais e a diversidades de estilos litúrgicos e teológicos que por elas circulam. O que sabemos é que com Constantino é que se inicia uma religião imperialista e que o seguinte capítulo desta história é a “Era das Basílicas”. Portanto, das casas às basílicas; dos líderes familiares dotados de “dons de liderança” a uma liderança forjada pelo estilo Romano de liderar, do Deus- manjedoura ao Deus-Sol imperial.

Através deste processo, a igreja cristã passou de um movimento marginal e censurado para se tornar, passo a passo, num processo de longa duração, a instituição mais poderosa do Ocidente Medieval.

No próximo capítulo veremos a constituição de um movimento que pretende ser uma restauração destes padrões no Novo Testamento ou conhecido como “Igreja primitiva” no mundo contemporâneo, as “Igrejas Orgânicas”.

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