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O “index 36 ” chega a Biblioteca Infantil

3 CECÍLIA BENEVIDES CARVALHO MEIRELES – PALAVRAS E ATOS EM DEFESA DO ESCOLANOVISMO

3.8 O “index 36 ” chega a Biblioteca Infantil

O clima político tornou-se cada vez mais tenso no mundo e no Brasil. Enquanto que, em alguns países da Europa, queimavam-se livros37, aqui teve inicio o fechamento de bibliotecas. Essa ação aconteceu em vários lugares, como atesta o jornal Diário de Notícias de 29/10/1937. Em Belo Horizonte, por exemplo, uma

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Referência ao Index librorum prohibitorum (lista de livros proibidos) da Igreja Católica entre os anos de 1559 a 1966.

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comissão foi criada para examinar os livros da biblioteca pública e averiguar a existência de livros comunistas. O objetivo era “eliminar os que, por sua ideologia comunista, de qualquer forma contrária ao regime se tenha tornado prejudiciais a educação do povo”.

Em São Paulo, uma circular do diretor do ensino do estado, Almeida Junior, dirigida aos 421 delegados de ensino, ordenava que professores iniciassem as aulas com uma preleção “curta e incisiva, visando combater as idéias comunistas”. O Diário de Notícias também falava do recolhimento, por parte do executivo, de “qualquer obra de caráter didático, técnico, político social, ou simplesmente literário, existentes nos estabelecimento de ensino, e que tenha por finalidade, direta ou indiretamente preparar idéias comunistas de uma mentalidade nacional forte” (27/10/1937).

Após os episódios que ficaram conhecidos como Intentona Comunista38 em novembro de 1935, Anísio Teixeira pediu demissão do cargo de secretário de educação e cultura. Na carta enviada a Pedro Ernesto (1/12/1935), Teixeira expõe que “não é possível aceitar agora a minha exoneração sem a ressalva de que ela não envolve, de modo algum, a confissão, que se poderia supor implícita, de participação, por qualquer modo, nos últimos movimentos de insurreição ocorridos no país” (TEIXEIRA, 1997, p. 33-34).

Anísio Teixeira acrescentava que “não sendo político e sim educador, sou, por doutrina, adverso a movimentos de violência, cuja eficácia contesto e sempre contestei”. Ao destacar suas crenças democráticas, orientadoras do seu trabalho pelo

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“progresso educativo”, reivindicava o caráter “republicano e constitucional” da obra educacional do magistério do DF, marcada pela “imparcialidade democrática e doutrinária” (TEIXEIRA, 1997, p. 34).

No mesmo dia, solidários com Anísio Teixeira, houve a entrega de um “abaixo-firmados”, identificados como colaboradores nos serviços educacionais do DF, que solicitavam a dispensa dos cargos. Declaravam que

Espontaneamente demissionários, temos a hombridade de declarar nossa inabalável convicção, havido em testemunho quotidiano, que o Dr. Anísio Teixeira se manteve absolutamente alheio a qualquer ideologia política subversiva da ordem constitucional, exclusivamente votado à cultura nacional, pela educação e só com a educação39 (PEIXOTO, 1935).

Com a saída de Anísio Teixeira em 193540, a Biblioteca Infantil começou a passar por dificuldades. Em 19 de outubro de 1937, o centro foi invadido e fechado pelo interventor do DF, Henrique Dosdworth.

O fechamento da Biblioteca teve como motivação alegada o fato de possuir, em suas estantes, livros de “teor comunista”, segundo a avaliação das

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Assinavam: Afrânio Peixoto - Reitor da Universidade do Distrito Federal. Antonio Carneiro Leão - Diretor do Departamento de Educação do Distrito Federal. Roberto Marinho de Azevedo - Diretor da Escola de Ciências da Universidade do Distrito Federal. Gustavo de Sá Lessa - Diretor do Instituto de Pesquisas Educacionais. Paulo Ribeiro - Chefe de Divisão de Prédios e Aparelhamentos Escolares.

40 Importante destacar que, a partir daquele momento, o prefeito do DF, Pedro Ernesto, foi acusado de

colaborar com o levante comunista de 1935. Finalmente, a mando de Felinto Müller, ocorreu a prisão de Pedro Ernesto em 3/4/1936. Em seu lugar assumiu o presidente da Câmara Pe. Olimpio Melo que demitiu vários funcionários da prefeitura. Olimpio permaneceu na prefeitura de 3/4/1936 a 2/7/1937. Para evitar uma possível volta de Pedro Ernesto ao cargo de prefeito, Vargas decretou intervenção no DF em 15/3/1937. Com essa ação, o Pe. Olimpio Melo foi nomeado para ministro do Tribunal de Contas da prefeitura do DF e substituído pelo interventor Henrique Dowsworth indicado pelo presidente Vargas em 2/7/1937. Pedro Ernesto permaneceu preso até 13/9/1937 (cf. SILVA, 1970; CARONE, 1976).

autoridades. E, como exemplo de publicação subversiva, o livro “As Aventuras de Tom Sawyer”, de Mark Twain41.

De nada adiantou Cecília Meireles argumentar, em ofício de 25 de outubro de 1937, que o livro em questão havia sido enviado pela BCE. Inclusive garantia que o livro tratava-se de um clássico da literatura infantil mundial usado nos EUA, Inglaterra, França, até mesmo na Itália fascista de Mussolini. Meireles não obteve resposta e o silêncio manteve fechada sua biblioteca42 (PIMENTA, 2001).

Na cruzada contra o comunismo, o jornal O Povo publicou, em 26 de outubro de 1937, a matéria: “Escola Nova e Bolchevismo” em que noticiou o fechamento da Biblioteca Infantil do Pavilhão Mourisco. Iniciava o assunto com a descrição da visita do prefeito-interventor do DF, Henrique Dodsworth à Biblioteca Infantil do Pavilhão Mourisco. Nessa, “reparou, surpreso, na existência de grande quantidade de livros considerados prejudiciais á infância pelo sentido bolchevista dos mesmos”. Conforme o jornal,

Eram livros que o Sr. Anísio Teixeira dizia representar a “Escola Nova”. O objetivo desta biblioteca era justamente de propagar o bolchevismo de acordo com as tendências dos chamados “educadores modernistas”. Daí a nomeação da professora Cecília Meirelles para sua diretora. Ninguém mais indicado no caso dadas as suas simpatias esquerdistas. (ESCOLA NOVA E BOLCHEVISMO..., 26/10/1937).

41 Pseudônimo usado por Samuel Langhorne Clemens (1835-1910). Em 1940, o cronista Brito Broca

avaliava que Mark Twain em As Aventuras de Tom Sawyer, “não se conforma com o moralismo puritano e convencional das crianças que aparecem nos livros escolares (...) e recorrendo à própria adolescência (...) endiabrado e rebelde, porque vivo e sadio (...) insurge-se contra a hipocrisia e resolve mostrar, em cores de um truculento realismo, crianças verdadeiras, tão cheias de qualidade quanto de defeitos. Tom Sawyer foi condenado pela censura pedagógica, mas encontrou por toda parte milhares de leitores e serviu para revigorar o ânimo dos adultos” (BROCA, 1998, p. 57).

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Os livros foram enviados para a Escola Minas Gerais na Urca (RJ), amontoados e perdidos. O prédio imponente tornou-se um ponto de coleta de impostos.

O projeto da biblioteca infantil, precioso para Cecília Meireles, não resistiu às acusações de esquerdismo que atingiam a educadora e Anísio Teixeira. Faltavam poucos dias para o golpe do Estado Novo que dissolveu o poder legislativo federal, estadual e municipal.

Posteriormente, em 25 de julho de 1938, O Globo criticou o fechamento das bibliotecas infantis. A matéria dizia que um “informante” recomendava que “As aventuras de Tom Sawyer de Marck Twain não oferecem o menor perigo às inteligências ou aos corações das crianças”. De acordo com essa pessoa, o “index” atingiu também as bibliotecas docentes e prejudicava as professoras pela impossibilidade de ler livros como de M. Aguayo43 – obra de estudos de pedagogia – “indispensáveis à cultura de quem lida com problemas educacionais”. Até mesmo José Veríssimo saiu das estantes dos centros de leituras (DÊEM ESCOLAS..., 25/7/1938).

O misterioso informante sugeria ao governo que ainda estava em tempo de “penitenciar-se dos prejuízos causados às bibliotecas infantis”. Também dava relevo à pesquisa de Cecília Meireles sobre as preferências de leitura das crianças e destacava sua importância (DÊEM ESCOLAS..., 25/7/1938).