Portanto, as figuras que só podiam ser responsabilizadas eram os Conselheiros de Estado, Ministros e Secretários, sendo esta a diferença do Instituto Britânico que abrangia toda a sociedade, exemplificando tal afirmação como os súditos que podiam ser responsabilizados.
E a semelhança consiste que tanto o Brasil e a Inglaterra, eram monarquias e não havia a possibilidade de condenar o Rei.
Estava determinado nesta Constituição, quais eram os tipos de atos que podiam responsabilizar os ministros de Estado, secretários e Conselheiros, como expõe Carlos Alberto Provenciano Gallo (1992, p.30):
No artigo 133, da referida Carta, viam-se os seguintes casos de responsabilidade dos Ministros: traição, peita, suborno ou concussão, abuso de poder e falta de observância da lei, obrarem contra a liberdade, segurança ou propriedade dos cidadãos , por qualquer dissipação dos bens públicos.
Desta forma, foi previsto no artigo 133 da Constituição de 1824, de maneira taxativa quais eram os crimes se cometidos pelos Ministros de Estado, Secretário, seriam impedidos e retirados de seu cargo político.
Definiram as pessoas que podiam ser submetidas ao julgamento por crime de responsabilidade e quais eram os crimes que se cometidos por Ministros de Estado, Secretário e outros podia acarretar no impeachment, e posteriormente na Lei de 1827 foi definida a natureza destes delitos e o procedimento para o julgamento destes crimes.
Quanto às possíveis sanções que poderiam acarretar ao indivíduo de cargo público cometesse, relata o escritor Carlos Alberto Provenciano Gallo (1992, p.31), “ficava assentado naquela lei que os acusados poderiam incorrer em penas funcionais (perda do cargo ou incapacidade para o exercício de qualquer outro cargo público), além de penas corporais (prisão e até mesmo a morte)”.
Portanto, como descrito acima, teria penas administrativas para os possuidores de cargos públicos que viessem a realizar crimes de responsabilidade, na qual não poderiam mais exercer os cargos públicos, pois não estariam capazes para o exercício do mesmo. Tornam-se incapazes e ficam impedidos e afastados dos cargos públicos, pois há uma confiança da sociedade perante o funcionário do
Estado, acredita que o detentor de tal cargo está trabalhando em prol da sociedade, há o desvio de sua função.
E reafirma, em sua obra, Pinto Ferreira (1998, p.386): “as sanções eram político-administrativas (perda do cargo e inabilitação para o exercício de outro) e penais (prisão e morte).” Quanto às sanções, às penas podia ser tanto penal quanto político-administrativa, e podia ser ambas aplicadas ou alternativamente.
Acentua sobre a natureza jurídica, o escritor Paulo Brossard (1992, p.38):
Em verdade, eram de natureza criminal as sanções que o Senado tinha competência para aplicar, e elas variavam das penas pecuniárias ao desterro, à prisão, até à morte natural, sem falar na reparação do dano, que também lhe cabia prescrever; seu escopo não era apenas afastar do cargo a autoridade com ele incompatibilizada, como veio a ser no impeachment republicano; a um tempo atingia a autoridade e o homem, em suas liberdades e bens;
Ao analisar, percebe-se que havia duas naturezas jurídicas para o instituto na Constituição do Império de 1824, pois ao mesmo tempo em que havia o caráter penal, na qual a pessoa podia ser mantida em cárcere, ser submetida a prisão, podia haver sanções administrativas ser afastada do cargo, não obter mais aquela função pública ou política, ocorrer o banimento do indivíduo de sua função pública.
Portanto, o Senado, como órgão julgador tinha a competência de agir no âmbito penal, aplicar sanções penais atingindo prioritariamente a liberdade do indiciado, porém acabou abrangendo a esfera administrativa, e o impedia de continuar no cargo por ter cometido crimes de responsabilidade.
Além de haver penas administrativas e penais, havia também a reparação do dano que geralmente se indeniza com dinheiro, com o pagamento do dano que causara com o cometimento do crime, e finalizando com as multas ou penas pecuniárias.
Eram bem abrangentes os tipos penas e sanções impostas aos indiciados, aos Ministros, Secretários e Conselheiros do Estado, com sanções penais, administrativas, pecuniárias e reparações indenizatórias.
Porém como afirmado pelo autor supracitado, Paulo Brossard, a competência do Senado era aplicar sanções penais, pois a natureza era prioritariamente penal, mas mesmo assim aplicavam as sanções já descritas acima.
Havia a participação de órgãos para o procedimento de responsabilidade criminal dos Ministros, Conselheiros de Estado e Secretários, ou seja, para o procedimento do julgamento do impeachment, conforme descrito pelo autor Pinto Ferreira (1998, p. 386), “A Câmara dos Deputados decretava a acusação e a sustentava, o Senado vitalício a julgava”.
Conclui-se que existiam dois órgãos: o órgão acusador, Câmara dos Deputados e órgão julgador, Senado.
Reforça sobre este assunto Carlos Alberto (1992, p.30): “competia privativamente à Câmara dos Deputados decretar a acusação deles (art.38) e ao Senado do Império conhecer da responsabilidade dos Secretários e Conselheiros de Estado.”
Delimita-se apenas a Câmara dos Deputados e ao Senado a competência de analisar sobre o julgamento do impeachment das pessoas passíveis de serem responsabilizadas por tal instituto.
E complementa sobre o assunto Paulo Brossard (1992, p.38):
outrossim, e por consequência, a denúncia contra os Ministros (e Conselheiros de Estado), estivessem ou não no Poder, podia ser apresentada em três anos por qualquer cidadão, enquanto aos parlamentares e às comissões da Câmara se cometia a faculdade de denunciá-los dentro em oito anos, período de duas legislaturas. Ao Imperador, por fim, era permitido indultar ou comutar as penas criminais impostas pelo Senado.
O comentário que se pode fazer sobre esta citação, é que qualquer pessoa poderia realizar a denúncia perante a Câmara dos Deputados, no prazo de três anos, e os parlamentares e as comissões da câmara também possuíam este direito de propor denúncia, porém com o prazo maior de oito anos. Percebe-se aqui, uma maior participação da sociedade no procedimento de julgamento do impeachment, qualquer cidadão poderia apresentar a denúncia, havendo maiores
direitos para a sociedade, que neste caso será sempre a maior prejudicada caso algum membro de cargo público pratique crime de responsabilidade.
Houve neste caso maior democratização, mais participação da sociedade no procedimento do Instituto.
Por mais que houvesse fortes influências do instituto britânico sobre a formação do instituto na Constituição de 1824, percebe-se uma semelhança para com o impeachment americano. Porque o instituto republicano norte-americano havia dois órgãos para analisar e julgar a possível responsabilização de membros do Poder Executivo, juízes, com a Câmara dos Deputados e o Senado, e coincidentemente ou não, apresentou o impeachment na Constituição do Império de 1824, os mesmos órgãos com competência privativa para julgar a responsabilidade criminal dos Ministros de Estado, Conselheiros e Secretários.
Por fim, analisamos as pessoas que eram submetidas ao julgamento do impeachment, a natureza jurídica do instituto, quais crimes que havia a responsabilização das pessoas que ocupavam cargos públicos, quais eram as sanções previstas para tais crimes e finalizamos sobre o modo em que ocorre o julgamento do instituto.
E durante esta época do Brasil Império houve um fato histórico de um cidadão ser acusado. Conforme afirma Brossard (1992, p. 40): “Um só, porém, chegou a ser acusado. Foi José Clemente Pereira. Mas o Senado, reunido como Tribunal de Justiça, na sessão de 9 de junho de 1832, em decisão unânime, absolveu o ex- Ministro de Guerra”.
Mais uma vez, vê-se pessoas que possivelmente possam ter cometido o crime de responsabilidade, mas não foram condenadas, e abre-se novamente a discussão sobre a efetividade do instituto. Pois, novamente fora absolvido o cidadão, seria mais uma armada política? Uma estratégia das autoridades de não responsabilizar membros de cargos públicos? Ou o instituto caiu em desuso durante o Brasil Império?
É notável, que por mais que houvesse a previsão do impeachment no texto constitucional, prevê-se que não havia efetividade, não fazia diferença, havendo apenas este caso de José Clemente Pereira, e ainda foi absolvido.