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O interesse público e a regra do menor direito no direito estrangeiro

3. CONTRABALANÇO NA UTILIZAÇÃO DAS MEDIDAS

3.6 O interesse público e a regra do menor direito no direito estrangeiro

Será analisada a aplicação da regra do interesse público pelo Canadá e União Europeia uma vez que o Canadá possui um detalhado procedimento de análise e na União Europeia a consideração do interesse público é obrigatória em todas as investigações.

Destaca-se na posição contrária, os Estados Unidos, grande usuário do antidumping e que não possui qualquer análise de interesse público em sua legislação, o que reafirma o uso do antidumping como viés claramente protecionista por tal Estado.

No Canadá a análise do interesse público é feita pelo Tribunal de Comércio Internacional e pode ser iniciada tanto por iniciativa própria do Tribunal quanto por pedido de uma parte interessada.

Compõe-se de duas fases: uma fase inicial em que se decide ou não pela investigação e uma fase durante a investigação em que é analisado durante ou após a verificação do dano.

O resultado desta análise é um relatório para o Ministro da Fazenda recomendando que as medidas antidumping a serem aplicadas sejam reduzidas e o valor da redução.

Na aplicação da cláusula do interesse público, o Tribunal considera quaisquer

238 Como no caso da Resolução CAMEX, n° 33, de 09 de junho de 2009, publicado no DOU em 18 de junho

fatores relevantes, incluindo os seguintes, estabelecidos no Anexo 2 das diretrizes:239

1. Se há produtos com a mesma descrição provenientes de origens ou exportadores para os quais a medida ou investigação não se aplica estão imediatamente disponíveis;

2. Se a imposição da margem total teve ou provavelmente terá os seguintes efeitos:

a) substancialmente reduzem a competição no mercado no mercado doméstico dos produtos investigados;

b) se causa danos significativos para os produtores no Canadá que usam os produtos investigados como insumos para outros produtos e na prestação de serviços;

c) prejuízo significativo à concorrência por meio da limitação de acesso a:

i) produtos que são usados como insumos na produção de outros produtos e na prestação de serviços; ou

ii) tecnologia;

d) restrição significativa da escolha ou disponibilidade de produtos a preços competitivos para consumidores, ou se lhes causa danos significativos;

3. se a redução ou eliminação da medida antidumping ou compensatória provavelmente causará dano significativo para os produtores domésticos de insumos, incluindo mercadorias primárias, usadas na produção doméstica ou na produção de produtos similares; e

4. quaisquer outros fatores que são relevantes dadas as circunstâncias.

Entretanto, poucos foram os casos de recomendação de uso da cláusula. De um total de 15 análises de interesse público realizadas entre 1989 e 2010 houve sugestão de alteração do direito ou não imposição em apenas cinco casos: milho em grão, cerveja, tipos de contraste iodado, comida industrializada para criança e arame nos anos de 1989, 1991, 2000 e 2004 respectivamente. Entre 2010 e 2012 nenhuma nova análise de interesse público foi iniciada.240

No caso da União Europeia, sua legislação antidumping estabelece no artigo 21 a consideração do “interesse comunitário” na aplicação de medidas antidumping:

1. A fim de se determinar se o interesse da Comunidade requer ou não uma intervenção, deve ter-se em conta uma apreciação dos diversos interesses considerados no seu conjunto, incluindo os interesses da indústria comunitária, dos utilizadores e dos consumidores, só podendo ser efectuada uma determinação ao abrigo do presente artigo se todas as partes tiverem tido oportunidade de apresentar os seus pontos de vista nos termos do n.o 2. Nesse exame, deve ser concedida especial atenção à

239

CANADA. Guideline - Public Interest Inquires. Canadian International Trade Tribunal. April 15, 2000. Disponível em http://www.citt-tcce.gc.ca/doc/english/publicat/pubint_e.pdf. Último acesso em 18 abr. 2013.

necessidade de eliminar os efeitos de distorção do comércio provocados por dumping que cause prejuízo bem como à necessidade de restabelecer uma concorrência efectiva. Não podem ser aplicadas medidas, tal como determinadas com base no dumping e no prejuízo verificados, se as autoridades, com base nas informações facultadas, concluírem claramente que não é do interesse da Comunidade a aplicação de tais medidas. 2. A fim de que as autoridades disponham de uma base sólida que lhes permita tomar em consideração todos os pontos de vista e informações, para decidir se o interesse da Comunidade requer ou não a criação de medidas, os autores da denúncia, os importadores e as suas associações representativas, os utilizadores representativos e as organizações de consumidores representativas podem, no prazo previsto no anúncio de início do inquérito anti-dumping, dar-se a conhecer e fornecer informações à Comissão. Tais informações, ou um resumo adequado das mesmas, devem ser postas à disposição das outras partes mencionadas no presente artigo, que têm a possibilidade de apresentar as suas observações.241

Como se vê, no artigo 21.1 são destacados dois fatores que devem ter especial consideração: a necessidade de se eliminar a distorção decorrente do dano causado pelas importações com dumping e de se restaurar a competição.

Na análise do interesse comunitário os interesses das seguintes partes são analisados de forma sucessiva: a indústria comunitária, usuários, importadores e consumidores, sendo que aos interesses deste último grupo é dado pouco peso, sendo a ausência de comentários de consumidores ou de suas associações é considerada pela Comissão Europeia como indicação de que não há preocupação concreta sobre o impacto da imposição de medidas antidumping.242

Apesar de previsto em lei, a análise do interesse comunitário e aplicação de tal cláusula não tem tido um papel de muito destaque. Há poucos casos em que se concluiu que não era do interesse da Comunidade impor qualquer medida: bolsas de plástico e tecido; sistemas de leitura ótica a laser, lâmpadas, ferro-silício, fibras sintéticas de poliéster, discos versáteis digitais regraváveis e sapatos de couro, nos anos de 1999, 2001, 2003, 2005 e os dois últimos em 2006 respectivamente.243

É evidente a importância dada ao tema por ambas as jurisdições e a grande dificuldade de análise das informações e a existência de critérios definidos na aplicação de

241

UNIÃO EUROPEIA. Regulamento (CE) nº 1225/2009 do Conselho, de 30 de novembro de 2009. Jornal Oficial da União Europeia, 22 de dezembro de 2009. Disponível em http://eur-lex.europa.eu/legal- content/PT/TXT/PDF/?uri=CELEX:32009R1225&from=EN. Último acesso em 19 abr. 2013.

242

BAEL, Ivo Van; BELLIS, Jean-François. Antidumping and Other Trade Protection Laws of the EC. Klumer Law International, 2004, p. 295-297.

tal cláusula.

No que se refere à regra do menor direito nestas jurisdições, nos Estados Unidos, assim como no Canadá, o direito antidumping imposto equivale à margem de dumping, ou seja, não há aplicação da regra do menor direito. Já na União Europeia essa regra é mandatória, embora não muito efetiva principalmente por conta do cálculo da extensão do dano que possui diversas ambiguidades e acaba favorecendo a indústria doméstica.244

3.7 Estágio atual das negociações na OMC sobre interesse público e regra do