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2. DO CÓDIGO DO CONSUMIDOR E SEUS PILARES

2.5. O INTERNAUTA COMO CRIADOR DE CONTEÚDO COMERCIALIZÁVEL

No espaço virtual, diferente do espaço físico, qualquer um pode redefinir códigos e interagir neste espaço, convertendo-o num objeto refratário às regras legais, cujas necessitam de conceitos e elementos numerosos para decidir sobre seus aspectos jurídicos. Nesse sentido, categorias analíticas surgem na era virtual como original-cópia, leitor-autor, produtor-consumidor, pois ao mudar o espaço

mudam as qualificações e o consumidor pode ser o produtor. (LORENZETTI, 2008, p. 354-355)

O aspecto das categorias analíticas, torna-se ainda mais evidente dentro das redes sociais onde há o estabelecimento de relações entre pessoas e grupos. Definem-se as redes em coletividades, mantidas por diversos nós, conjugando-se em estruturas diferenciadas. Nestas estruturas, verifica-se que o poder e a identidade de um grupo na internet dependem mais da qualidade e da intensidade de sua conexão consigo mesmo do que da sua resistência em comunicar-se com o seu meio. (BARRETO, 2011, p.151).

Desta maneira, a função das novas mídias no âmbito da internet, como por exemplo as redes sociais, se configura em pós-massiva onde não cabe somente a circulação de informação, mas também a interação resultante de uma conversação coletiva. Incluídos nesse processo, os internautas acabam por inserir dados pessoais que ao serem disponibilizados no meio digital, devido o uso das novas tecnologias, acabam sendo utilizados pelas empresas da internet, para além do consentimento ou até mesmo na sua ausência, configurando uma afronta ao direito à privacidade. (ARAUJO; CAVALHEIRO, 2014, p. 213).

Especificamente dentro do contexto das redes sociais, os internautas que aderem ao site de relacionamento são elemento primordial, pois são atores que representam e incentivam a criação dos nós da rede. O funcionamento das plataformas das redes sociais se dá após o acesso em um sitio eletrônico (como o Facebook, por exemplo) onde o usuário é solicitado a identificar outras pessoas no sistema como qual ele mantém alguma espécie de relacionamento ou afinidade. A partir daí, os atos desse usuário passam a operar, literalmente, em rede, no sentido que há uma constante monitoração de cada ator por seus contatos, condicionando-o a sopesar seus atos nesse espaço virtual, sobretudo por serem “públicos”. (BARRETO, 2011, p. 152)

No entanto, como acima não foi mencionado, é importante ressaltar que, em regra, os usuários de redes e sites de relacionamento, não pagam por tais serviços em si, isto é, para que possam manter seus dados registrados no ambiente virtual e também interagir com outros usuários do mesmo serviço, não há qualquer cobrança direta. Trata-se de uma ferramenta virtual fornecida de forma gratuita ao internauta (GARCIA; SANTOS, 2012, p. 10-11).

Entretanto, há um ganho indireto do sites fornecedores das plataformas, em princípio, através da publicidade e propaganda veiculada na rede social, a qual é dirigida especificamente para cada perfil inserido na rede, de acordo com seus parâmetros de consumo. De acordo com o entendimento do Superior Tribunal de Justiça, este sistema de operação é entendido como remuneração indireta, sendo enquadrado na definição de fornecedor do Código de Defesa do Consumidor. Logo, pode-se inferir desta situação, que o internauta se torna produto para as redes sociais, devendo ser protegido para fins do direito consumerista.

Ademais, ao passo que o internauta se torna produtor de dados e informações dentro da rede social, isto facilita a descoberta e o controle de aspectos relevantes da personalidade do indivíduo, haja vista que a coleta de informações na internet acontece na maioria das vezes de maneira indiscriminada, sendo possível saber, por exemplo, através do monitoramento da navegação no site de uma livraria, as preferências ideológicas, crenças religiosas, opções sexuais do consumidor, ampliando-se e agravando-se as formas de interferência na vida privada do internauta. (SILVEIRA NETO, 2009, p.3)

Paralelamente, também há o monitoramento reflexivo e cotidiano da atividade dos internautas, envolvendo não apenas a conduta de um indivíduo, mas também a dos outros. Isto é, não apenas os internautas passam a controlar e regular ininterruptamente o fluxo de suas próprias atividades, mas também passam a esperar que os outros façam o mesmo. A força de redes sociais possibilitadas pelo uso da internet reside assim, entre outros fatores, no monitoramento rotineiro de aspectos dos contextos nos quais os perfis se movimentam. É a internet que permite a criação de contextos virtuais nos quais os internautas, como atores, se inserem e interagem. (BARRETO, 2011, p. 152)

Assim, através do monitoramento destas interações no âmbito virtual, é possível relacionar-se a privacidade aos dados pessoais, onde a informação passa a ser produto de venda, adquirindo significativa importância nas relações negociais. Neste contexto da economia digital, acredita Araujo e Cavalheiro (2014, p.215) que prepondera a autorregulação para assegurar a liberdade de tratamento de dados pessoais inseridos na internet, restando a proteção do usuário à margem do lucrativo mercado da informação.

Ressalta-se que as informações coletadas dentro do ciberespaço se diferenciam das informações coletadas na fora deste contexto. Isto se dá pois a

interação social ganha um caráter não só peculiar, mas bastante complexo, onde os internautas orientam-se e movimentam-se em um cenário distinto do ambiente físico, necessitando de um compartilhamento de sentido maior do que na comunicação em suas “vidas físicas”. (BARRETO, 2011, p. 152)

Por isso, a peça chave de todo o sistema das redes sociais é o usuário que se regista no site e dele se utiliza para se comunicar e interagir com outras pessoas, também sendo criador de conteúdo, justificando a base para o negócio das redes sociais em si. Logo, nenhum desses sites têm fins filantrópicos, todos visam o lucro, ainda que não haja pagamento direto por parte do internauta (GARCIA; SANTOS, 2012, p.10-11).

Nesse sentido, as informações do internauta, na presente realidade da sociedade informacional, adquirem valor econômico no mercado virtual, pois enquanto ausente à regulação legal, são tratadas como insumo do lucrativo mercado na internet, que enaltece o potencial econômico da perda de privacidade. Daí porque configuram-se atrativas as redes sociais, como o Facebook, com suas manobras publicitárias, para deixar o usuário à vontade, inserindo suas informações (ARAUJO; CAVALHEIRO, 2014, p. 217).

No caso, fala-se em remuneração indireta, pois embora o registro e uso do ambiente virtual seja gratuito, nele encontram-se embutidos diversos elementos comerciais, tais como propagandas, fornecimentos de serviços, entre outros. Desta maneira, os sites de relacionamento enxergam os usuários como verdadeiros consumidores, ainda que potenciais. As empresas que pagam para ter as suas marcas e nomes estampados no ambiente virtual dos sites de relacionamento esperam que essa forma de abordagem traga lucros por meio dos potenciais consumidores que têm, a todo momento, contato com a marca ou produto que está sendo anunciado (GARCIA; SANTOS, 2012, p.10-11);

Devido a isto, admite-se ser necessária a melhoria das informações disponibilizadas para o usuário, inseridas em termos de uso e políticas de privacidade de websites, compostas de documentos longos, incompreensíveis e, portanto, muitas vezes ignorados. Esse cenário é propício para a economia digital inidônea, onde, através do tratamento de dados pessoais, é amplamente possível se apropriar de informações pessoais e negociá-las com empresas de publicidade dirigida, por exemplo (ARAUJO; CAVALHEIRO, 2014, p. 217).

Barreto (2011, p. 150) assegura ainda, dentro desse contexto virtual, que por mais que se possa apontar quem é o ciber consumidor, trata-se, agora, de um consumidor operando em rede, presente em comunidades e redes sociais na internet, paradoxalmente mais forte e mais vulnerável.

Desse modo, não se pode descartar que o usuário do serviço das redes sociais e sites de relacionamento é, ainda que de forma potencial, consumidor. A partir do momento que a empresa proprietária do site cobra de outras empresas para permitir que essas realizem propagandas em seu ambiente virtual, assume também perante o usuário responsabilidade por aquela propaganda, de modo que não se vincula apenas a empresa proprietária da marca ou produto, mas também a proprietária do site, que está tendo lucro com aquela relação. (GARCIA; SANTOS, 2012, p.10-11);

Assim, as informações, mesmo que pessoais do consumidor, passam a ter valor econômico, e, consequentemente, o desejo de lucro das empresas entra em choque com o direito à intimidade do consumidor. Por isso, as informações sobre o consumidor, tanto as fornecidas quanto as criadas por ele, possui um valor imenso e todo um setor da economia brasileira desenvolveu-se a partir da “vigilância” da conduta dos indivíduos. (RAMOS, 2005, p. 970)

Desta maneira, em atenção à esta vigilância e aos princípios constitucionais a principal consequência material da aplicação do Código de Defesa do Consumidor à relação estabelecida entre a mantenedora da rede social e os internautas é a extensão da responsabilidade por eventuais atos ilícitos cometidos contra o internauta. Reservada as particularidades da rede sociais, se a mantenedora da plataforma virtual atender a determinados requisitos e respeitar os princípios constitucionais, não poderá ser responsabilizada por atos ilícitos (GARCIA; SANTOS, 2012, p. 14).

Portanto, percebe-se que as ações dos internautas inseridos nas redes sociais são objeto de percepção econômica por parte das empreas, movimentando o comércio de dados e informações. A partir do momento em que o internauta aceita os termos de uso da rede social- o qual pode ser modificada a qualquer tempo- e passa a produzir conteúdo através de suas publicações e interações virtuais, ou mesmo disponibiliza dados que possibilitam a construção de seu perfil de consumo, hábitos, estilo de vida, crenças, etc. se sujeita a ser produto dos mantedores desses perfis. Por isso, urge apronfundar o presente estudo sobre as situações em que os internautas estão expostos, ressalvando-se sua vulnerabilidade diante das redes

sociais, em analogia, funcionam como um grande banco de dados privado, assunto que será desbravado no tópico posterior.

3. DA VULNERABILIDADE DO CONSUMIDOR DIANTE DOS CONTRATOS