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4 A TRIBUTAÇÃO AMBIENTAL APLICADA PARA UMA CIDADE

4.3 O IPTU ECOLÓGICO PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Na seção anterior, analisou-se que, no desenvolvimento do Estado de direito bem-ordenado, justifica-se a possibilidade de implementar uma política de tributação extrafiscal ambiental no ordenamento jurídico brasileiro, amparados no clássico imposto do IPTU com o fito de alcançar o desenvolvimento sustentável.

Segundo Difini (2006, p. 161), sobre o IPTU: “[...] a Constituição prevê sua utilização com finalidade extrafiscal: [...] A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor.” Assim, o objetivo da presente seção tem por foco analisar o IPTU ecológico, para poder vir a se tornar uma verdadeira política pública ecológica.

No caso em exame, destaca-se o papel do IPTU previsto no art. 156, I (BRASIL, 1988) e regulamentado de forma geral pelos arts. 32 a 34 do CTN (BRASIL, 1966), outrora de função predominantemente fiscal. Nesse sentido, para Caliendo e Filter (2020, p. 29): “A base de cálculo do IPTU é o valor venal do imóvel, para efeito de sua utilização, exploração, aformoseamento ou comodidade”. Bem como nos termos da Súmula nº 399 do STJ: “Cabe à legislação municipal estabelecer o sujeito passivo do IPTU” (BRASIL, 2009).

Nesse contexto, Defino Sá et al. (2013, p. 110) expressam que: “A Constituição Federal (1988) em seus arts. 156 e 182 definiu as principais diretrizes do IPTU e recomenda a conciliação de sua arrecadação com os princípios da justiça tributária e social”. Corralo e Mattjie (2020) afirmam que nas diretrizes apontadas para os instrumentos de política urbana se sobressaem o parcelamento, a edificação e a utilização compulsória do IPTU. Consequentemente, a CF/88 (BRASIL, 1988) clama por uma readequação valorativa de seus institutos e a possibilidade de ressaltar as funções sociais da propriedade privada e do IPTU, pois apresentam fortes impactos sobre os fatores socioeconômicos e o equilíbrio ecológico do meio ambiente.

De tal forma, não existem óbices para recaírem sobre o proprietário, titular do domínio útil ou possuidor de qualquer título de imóvel urbano, ou sobre o poder municipal os encargos pelas suas gestões transitórias do patrimônio ambiental presente na propriedade. Ou seja, na política municipal é relevante considerar a função ambiental da tributação do IPTU para suplantar:

A própria miséria produzida nas periferias de nossas cidades [que] tem raízes econômicas, mas também tem como causa a falta de normas urbanísticas epistêmicas, com visão de cientistas dos vários conhecimentos, que indiquem instrumentos de desenvolvimento com sustentabilidade urbana (RECH, 2014, p. 6).

Não obstante, consoante à observação de Rech (2014, p. 6), idealizações de verdadeiro cunho ecológico não germinam no: “[...] amadorismo e no mercantilismo, na produção dos projetos de cidades, [decorrentes] da pressa em realizar políticas públicas, sem muita preocupação científica”. Logo, examinar a exação do IPTU ecológico como ferramenta para o desenvolvimento da cidade sustentável ou inteligente ultrapassa os estreitos debates sobre renúncia fiscal, benefício fiscal ou disposições do art. 182 da CF/88 (BRASIL, 1988), que autorizam o poder público a desapropriar ou parcelar a propriedade urbana quando ela não cumpre sua função social.

Por outras palavras, investiga-se uma possibilidade de política pública ambiental tributária para uma cidade que pode combinar os interesses sociais e ambientais, na aplicação do viés qualitativo e da eficiência do IPTU. Além disso, como observa Rech (2012, p. 41): “Não há como assegurar a tutela do meio ambiente, sem uma legislação efetiva e eficaz que envolva todos os entes federativos”. E o imposto municipal (IPTU) está diretamente vinculado ao direito de propriedade/posse e participação (cooperação) social pública, na mediação (autorização) política, para o desenvolvimento da fruição da propriedade imóvel urbana voltada ao desenvolvimento das cidades.

A priori, não pode o imposto IPTU ser ferramenta do despotismo e da arbitrariedade pública, ou a propriedade ser utilizada de forma irresponsável para com os interesses da sociedade. De acordo com Rawls (2005, p. 391): “[...] as pessoas proprietárias podem fazer o que quiserem com sua propriedade, contanto que, evidentemente, esse uso seja compatível com o respeito pelos direitos dos outros como pessoa”. Portanto, examinar a possibilidade da efetivação da execução dessa missão humanitária, em prol dos interesses do povo, ou dever (obrigação) estatal de garantir-se justiça ambiental à sociedade, em sentido amplo; ou às cidades brasileiras, no sentido restrito, por meio da instituição e desenvolvimento do IPTU ecológico, é fundamental para o desenvolvimento sustentável.

De acordo com Carvalho Junior (2018), sob o ângulo quantitativo, o IPTU representa em torno de 1% (um por cento) da receita corrente dos municípios

brasileiros. Na mesma linha, consoante Teodorovicz, Borges e Stemberg (2021, p.

636): “[...] no Brasil esta tributação [IPTU] representa cerca de 0,5% do PIB, e em outros países em desenvolvimento o percentual máximo é de 1,2 % do PIB [...]”.

Assim, respeitadas as peculiaridades, a baixa representatividade arrecadatória tributária causa estranheza, pois no país onde os centros urbanos estão cada vez mais povoados e existe uma valorização – no mínimo acentuada – dos imóveis os valores arrecadados do tributo diretamente vinculado ao valor venal do imóvel e área de abrangência da propriedade urbana poderiam representar um percentual maior em relação ao PIB nacional.

Destarte, o que pode estar demonstrando-se é uma má gestão governamental sobre a gerência do IPTU, que é um imposto que o contribuinte está próximo para acompanhar a eficácia e eficiência da arrecadação tributária. Para Afonso e Castro (2014, p. 9), em conformidade com o exposto sobre o IPTU: “[...] é razoável supor que quanto menor o tamanho do município, maior pode ser a indisposição dos prefeitos em aumentar o imposto, haja vista a maior proximidade com seus eleitores”. Por conseguinte, o IPTU é um tributo que pode ser muito importante em uma política pública ecológica, porque possui uma capacidade de fiscalização e incentivo de novas condutas nas cidades.

Nesse contexto, a política do IPTU ecológico não possui a característica fiscal como preponderante em seu seio, para vir a aumentar a participação da arrecadação do imposto nas receitas do ente público. Isto é, seu objetivo principal não é o de aumentar a arrecadação financeira municipal de forma direta, mas pode contribuir para baixa dos custos dos serviços prestados pelo município aos cidadãos, por exemplo.

Para Carvalho e Amaral (2020, p. 529), o IPTU ecológico permite a redução da despesa para se garantir a sustentabilidade urbana ao: “[...] incentivar os contribuintes a realizarem ações que visam concretizar políticas públicas consideradas deficitárias pelo Estado através da concessão de benefícios e incentivos fiscais direcionadores das suas ações”. E ainda, consoante Carvalho e Amaral (2020, p. 530): “No caso do IPTU [...] os cidadãos tornam-se atores mediatos (realizadores) e imediatos (beneficiários) dentro do campo das políticas públicas de sustentabilidade urbana e preservação ambiental”.

Conforme Caliendo e Filter (2020), o IPTU ecológico busca estabelecer um pacto de cooperação entre o Estado e o contribuinte. Um acordo que pode ser

considerado um trade-off, em razão da escolha do município em dar maior responsabilidade ao contribuinte pela gestão dos bens ambientais, ou redução das externalidades ambientais negativas no imóvel urbano.

Na mesma linha, a ONU (ONU, 2015) coloca 17 metas entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), para serem alcançadas até 2030. De acordo com Caliendo e Filter (2017, p. 20): “[...] a Agenda 2030 traça diretrizes sob o tripé do social, da economia e do ambiental, conciliando a dicotomia do crescimento econômico com a proteção dos ecossistemas para a garantia do bem-estar social”.

No meio deles, destaca-se o objetivo nº 11 de: “[...] tornar as cidades e os assentamentos humanos mais inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis”. Assim, o desafio lançado às cidades e aos poderes políticos, pelo desenvolvimento sustentável, é fruto de preocupações válidas diretamente vinculadas à gestão da propriedade urbana.

Principalmente quando a ONU, em seu estudo de revisão das perspectivas da urbanização mundial, em 2019 (World Population Prospect, 2019), calculou que vivem em áreas urbanas aproximadamente 6.679.756 (bilhões) de habitantes na Terra.

Assim como, no documento, existe uma projeção de que em torno de 70% (por cento) da população estimada do planeta - cerca de 9,7 bilhões – viverá em centros urbanos até 2050.

O estudo mencionado é como se fosse a prova do pensamento político-epistemológico de Aristóteles (2018, p. 62, tradução nossa): “Portanto, é claro que a cidade é uma das coisas naturais e que o homem é, por natureza, um animal cívico.

E o inimigo da sociedade cívica é, por natureza, e não por acaso, inferior ou superior ao homem [Deus].” Pela mesma lógica, a civilização deve ter ouvido o conselho de Platão (428/427 a. C. - 348/347 a.C.), presente na obra A República (2020), quando disse que o homem, para realizar seus valores morais ou conhecer o seu lugar no universo, deverá se aglomerar em sociedade e construir uma Cidade-Estado. É o que observam Rech e Rech (2010, p. 18): “Todos querem estar dentro da cidade, sentir-se dignos e poder participar, [...]”.

Nos tempos atuais, de acordo com Caliendo e Filter (2020), constata-se uma perspectiva menos otimista sobre a qualidade do bem-estar ao agregar-se para viver nas cidades brasileiras, pois falta aos centros urbanos capacidade para proporcionar as melhores condições de vida e assegurar o equilíbrio ecológico para todos. Segundo os autores, o Relatório Luz de 2020 (2020), que monitora o cumprimento das metas

estabelecidas na Agenda 2030 (ONU, 2015) para o desenvolvimento sustentável, comprova o baixíssimo êxito nas tarefas pelo Brasil. Para Caliendo e Filter (2020, p.

20): “Isto ocorre, pois a proteção ambiental pressupõe esforços ainda desconhecidos – seja nos impactos socioeconômicos ou na falta de certeza científica –, suscetíveis às más intenções, políticas ou econômicas”.

É de referir que, para piorar o triste cenário, em diversas áreas mapeadas, os indicadores mostram um retrocesso no panorama da defesa ambiental no território brasileiro. Ou seja, o estudo colabora com as conclusões de Vanin (2011) e Rech (2009) de que a crise ecológica no território brasileiro tem se agravado vertiginosamente, especialmente nos centros urbanos. De acordo com Merida e Monteiro (2017, p. 243): “As cidades brasileiras apresentam enormes desafios ao poder público, resultados dos erros advindos da falta de planejamento e gestão permanentes, que as tornaram cidades desprovidas de infraestrutura, mobilidade, serviços, áreas verdes [...]”. Por isso, dia a dia, observa-se uma grave insegurança e incerteza sobre o equilíbrio ecológico do meio ambiente, que se aprofunda na urbanidade brasileira. De acordo com Carvalho e Amaral (2020):

O declínio da sustentabilidade ambiental urbana é uma herança desencadeada pelos processos de desenvolvimento da humanidade e da Revolução Industrial, a qual desencadeou o êxodo rural e a superpopulação das áreas urbanas industrializadas, inexistindo preocupação com a elaboração de políticas públicas focadas no crescimento ordenado e acolhimento dos novos habitantes. Com a concentração cada vez maior da população nas cidades, há um aumento das necessidades por serviços básicos para que exista uma vida digna dos seus habitantes (CARVALHO;

AMARAL, 2020, p. 515).

Não obstante, ressalta-se que não é por culpa exclusiva do comportamento dos habitantes das cidades que se tem o desequilíbrio ecológico urbano. Por outras palavras, a agricultura (na área rural) é uma das grandes atividades responsáveis pela degradação ambiental. Conforme aponta Ost (1997, p. 290): “[...] ela implicou uma multiplicação por vinte da utilização dos pesticidas e por dez do emprego de adubos químicos; ela é a causa de uma intensa poluição das toalhas freáticas e das águas de superfície”.

Nesse contexto, segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA, 2010, p. 29), o Brasil possui soberania sobre um dos maiores volumes de água doce do mundo (patrimônio natural), mas a população brasileira se depara, além dos problemas oriundos da escassez e do desperdício do recurso hídrico, com um

problema que aflige diretamente o cidadão mais pobre e vulnerável (sede de beber água). Consoante Rech (2009, p. 107): “Historicamente, o homem tem ocupado a beira de rios para morar, construir cidades e cultivar a agricultura. Hoje, a escassez de água já afeta 1,2 bilhão de pessoas em todo o mundo”. Diante da fome e da sede da população, o Estado do Rio Grande do Sul (2017) resolve:

Art. 1º Nas zonas servidas por rede de abastecimento pública e potável, a captação de águas subterrâneas por poços tubulares e poços de pequeno diâmetro será permitida para todas as finalidades, exceto para abastecimento das populações para consumo humano, seja individual ou comunitário, entendido como água destinada à ingestão, preparação e produção de alimentos e à higiene pessoal (RIO GRANDE DO SUL, 2017)35.

O objetivo da seção não é esgotar uma lista de problemas socioambientais com que os habitantes das cidades convivem e que tende a aumentar caso a situação não se altere; e não visa delimitar o alcance de normas ou políticas públicas, como do IPTU ecológico, que possibilitam as iniciativas ambientais sustentáveis utilizando-se da tributação que recai sobre o patrimônio imóvel. Nessa linha, para Carvalho e Amaral (2020, p. 516): “Trata-se da utilização do tributo como forma de incentivar a realização de ações pelos cidadãos para auxiliarem o Estado na execução de políticas públicas”.

De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA, 2021), constata-se uma densidade demográfica insalubre urbana, pois faltam espaços verdes em meio a ambientes artificiais (cidades), qualidade do ar (as cidades são responsáveis por cerca de 75% das emissões globais de dióxido de carbono), locais de risco se proliferam, terremotos, ameaça de inundação, ondas de calor (200 milhões de pessoas convivem em aproximadamente 350 cidades com temperaturas médias superiores a 35°C), poluição sonora, escassez de mobilidade urbana, entre outros36 fatores de risco.

Não obstante, uma conclusão a que se pode chegar: a situação encontrada nas cidades, que já comportam aproximadamente 55% (PNUMA, 2020) dos

35 Enquanto no Rio Grande do Sul se estabelece política que oportuniza fechar ponto de distribuição de água gratuita à população, que padece de sede, nos países desenvolvidos - como é o caso da Suíça e Itália - espalham-se fontes de água potável, que atendem à população e aos turistas. Obras espalhadas por toda parte que o autor teve oportunidade de conhecer in loco: Lugano, Zurich, Lucerna, Berna, Gênova, Roma etc.

36 E como é importante ver cidades cosmopolitas como Turim e Milão construindo alternativas que visam a sustentabilidade e resiliência territorial. Seja com o incentivo do uso de trens, bondes, bicicletas, patinetes ou carros elétricos como alternativas de transporte sustentável da população.

habitantes da Terra, em um espaço proporcionalmente diminuto ao total, deriva de um contexto histórico milenar que não vê na propriedade (pública ou privada) qualquer função ecológica. Além de que, segundo Bobbio (2016, p. 205), existem controvérsias acerca da convenção sobre o melhor gestor do patrimônio: “[...] pelo que diz respeito à propriedade, não creio que tenha sido decidida de modo convincente a secular controvérsia se é mais natural o regime de comunhão de bens ou aquele que reconhece a propriedade individual”. De acordo com Rech (2009), essa situação de incerteza, que recai sobre a extensão da responsabilidade sobre o patrimônio ambiental, na propriedade privada ou pública, resulta no exaurimento do patrimônio e na fadiga do equilíbrio ecológico na atualidade.

Em síntese, não diferente do que ocorre em outras partes do mundo, o crescimento da densidade demográfica, nos centros urbanos, aumenta a ameaça da insustentabilidade ambiental e da resiliência nas cidades. A situação que se apresenta, em tela de juízo, demonstra a falta de qualidade das políticas ecológicas e tributárias urbanas nacionais. Nessa perspectiva desafiadora, as políticas:

[...] não estão sendo eficazes na conservação de um meio ambiente equilibrado e estão contribuindo para colocar em risco à saúde e o bem-estar dos munícipes. Mesmo sob uma visão ideológica, verificam-se poucos instrumentos jurídicos que assegurem, em nossas cidades, espaços para os pobres, para o lazer, para a convivência. O conceito de desenvolvimento das cidades prioriza o econômico como plataforma de planejamento, em detrimento da natureza e da garantia de direitos humanos de primeira dimensão, como a vida e a dignidade humana (RECH, 2015, p. 180).

E, pior, no caso da política de gestão do imposto patrimonial (IPTU), não representa significativa arrecadação financeira para ser considerada sequer uma boa externalidade positiva oriunda da tributação. Ou seja, a contribuição do IPTU na política urbana, financeiramente considerada, grosso modo, é praticamente nula.

Segundo Afonso e Castro (2014, p. 7): “Pode-se notar que a maior parte dos municípios brasileiros arrecada mais IPVA e ISS do que IPTU”. Na mesma linha,

Além de relativamente baixa, [...] a arrecadação dos impostos municipais é extremamente desigual no Brasil, com os municípios maiores respondendo por parcela desproporcionalmente alta da arrecadação total. Ambos os fatos têm implicações importantes para o financiamento das políticas públicas no país (FARIA; MOTTA; SANTOS, 2020, p. 1).

Em última análise, de forma geral, a arrecadação tributária do IPTU, nas cidades brasileiras, para que se alcancem os objetivos do desenvolvimento sustentável propostos na Agenda 2030 (2015), não está sendo eficaz e eficiente do

ponto de vista qualitativo ou quantitativo. Segundo Ortiz et al. (2022, p. 2): “[...] vale ressaltar que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável [...] são um chamado para se buscar o fim da pobreza, a proteção ambiental e garantir paz e prosperidade até 2030)”. Segundo Derani (2008, p. 155): “Este direito do desenvolvimento sustentável que é a preocupação primeira de garantir-se a manutenção das bases vitais da produção e reprodução do homem e de suas atividades”.

Além disso, essa agenda propositiva (compromisso global) possui, dentre outros fins: “Fortalecer esforços para proteger e salvaguardar o patrimônio cultural e natural do mundo” (ONU, 2015, 11.4); “Apoiar relações econômicas, sociais e ambientais positivas entre áreas urbanas, periurbanas e rurais, reforçando o planejamento nacional e regional de desenvolvimento” (ONU, 2015, 11.a); “[...]

aumentar substancialmente o número de cidades e assentamentos humanos adotando e implementando políticas e planos integrados para a inclusão, a eficiência dos recursos, mitigação e adaptação às mudanças climáticas” (ONU, 2015, 11.b).

Desse modo, revela-se cada vez mais a importância do desafio/dever dos 5.570 (cinco mil quinhentos e setenta) municípios da federação brasileira (IBGE, 2022), para que tomem suas responsabilidades utilizando-se das ferramentas que são de sua competência, para a reversão do quadro de incerteza e insegurança ambiental que se revela sombrio.

Como observam Nader (2017) e Rech (2015), é imprescindível reavaliar a visão equivocada de colocar o homem (espécie) no centro das atenções, de forma literalmente insustentável, e ignorar a integridade do patrimônio ambiental e ecossistemas comuns da humanidade nos sistemas normativos. Por isso, a municipalidade deve cada vez mais utilizar a política tributária ecológica (oportunizada pelo art. 156, § 1º, II da CF/88, por exemplo), a fim de colher o desenvolvimento sustentável das cidades.

A abordagem visa demonstrar que um pensamento racional e inteligente, que englobe uma multiplicidade de pensamentos socioeconômicos (tributários) e jurídicos, sob o signo do tradicional imposto real (IPTU), presentes, nos arts. 32 e 34 do CTN (BRASIL, 1966), precisa superar qualquer visão mecanicista da propriedade objeto ou coisificada à livre disposição do Homo sapiens. Mas que utilize as ferramentas autorizadas pelo Constituição cidadã da progressividade pelo valor do imóvel (art. 156, I, art. 156, § 1º, inciso I e 145, § 1º), progressividade ou deferimento por conta do uso da propriedade (art. 156, § 1º, II) ou progressividade pelo descumprimento da função

socioambiental (182, § 4º, II), em favor da valorização da função socioambiental do tributo, da preservação ambiental e melhora da qualidade de vida dos brasileiros.

Em particular, no que é o escopo da dissertação, o poder público coativo municipal precisa agir dentro das especificidades das funções intrínsecas da propriedade privada urbana, e não a ter somente pelo caráter meramente fiscal e arrecadatório. Não tornando uma desvantagem a arrecadação tributária do IPTU, quando inviabiliza ou torna insustentável o desenvolvimento socioeconômico ambiental da propriedade, cidade ou sociedade em geral.

Ao contrário, o Estado deve utilizar a função socioecológica do IPTU para que o cidadão desenvolva um agir-tributário justo, válido e eficaz perante a administração fazendária (legislativa, executiva ou judiciária) (BIASOLI, 2020). Na mesma linha, para Costa (2013, p. 2): “Em síntese, ao direito estatal de tributar corresponde um dever do administrado de arcar com o ônus de ser tributado, o que viabiliza, em contrapartida, o exercício de outros direitos”; e garantias fundamentais de fazer valer o poder e dever que lhe confere o art. 182 da CF/88:

[...] A política de desenvolvimento urbano, executada pelo Poder Público municipal, conforme diretrizes gerais fixadas em lei, tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes [...] § 2º A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor [...] (BRASIL, 1988).

Uma política pública ou norma ambiental-tributária justa, válida e eficaz de IPTU ecológico deve normatizar e prescrever ao contribuinte a salvaguarda do patrimônio ambiental no imóvel urbano. Patrimônio que, segundo Cucinelli (2018), no sentido estrito de tê-lo sob posse (bem + uso) ou ser proprietário (bem + uso + possibilidade de troca etc.), são aspectos contingentes no espaço/tempo na Terra.

Nesse sentido, uma política pública urbana que visa promover, na propriedade (de caráter dinâmico e complexo) privada, as suas funções ecológicas, deve considerar o poder extrafiscal dos interesses da sociedade organizada, o que refletir-se-á na instituição do IPTU ecológico.

Desse modo, a tradicional exação fiscal patrimonial do IPTU que, segundo Paulsen (2012) e Shoueri (2015), nada mais é do que oriunda de um contexto de confronto entre tributação versus direito do proprietário, pode ser readaptada aos novos tempos. Para Caliendo (2020), na exação do IPTU ecológico está presente o

pensar e os interesses de uma civilização nas relações evoluídas (homem moderno37), que age pelo desenvolvimento sustentável, sem a necessidade de uma coação estatal38 objetiva. Na verdade, o IPTU ecológico não origina um agir do cidadão proprietário pela simples obrigação fiscal ou medo “hobbesiano” (HOBBES, 1988), mas apresenta-se na dialética uma troca inteligente entre o sujeito ativo e passivo da obrigação tributária para salvaguardar o equilíbrio ecológico, antes que advenha uma externalidade ambiental negativa decorrente da gestão do patrimônio imóvel.

Nos termos da norma constitucional e infraconstitucional, especialmente nos arts. 32 a 34 do CTN (BRASIL, 1966), têm-se os elementos que dão sustentação para os municípios formularem projetos sustentáveis a partir da instituição do IPTU ecológico no Brasil. Existe fundamento na regra-matriz e hipótese de incidência do imposto tradicional, acompanhando os designíos do povo brasileiro:

Neste sentido coloca-se também a ideia de estímulo a esta cultura de preservação, tendo como objeto a redução do valor do imposto, chamado aqui por “IPTU verde”, meio pelo qual se pode dar e alcançar a toda a população brasileira, um serviço e uma cultura de conservação, defesa, melhoria e recuperação deste, através do uso sustentável dos recursos naturais (JAHNKE; WILLANI; ARAÚJO, 2013, p. 1).

A ideia indispensável para se adaptar o IPTU a um imposto ambiental é que, tanto o poder público quanto a pessoa contribuinte, façam uma releitura do significado das funções que a propriedade privada e o imposto cumprem no município que visa desenvolver-se de forma sustentável e resiliente. As dicotomias entre os elementos públicos ou privados, representadas pelos signos da propriedade e da obrigação de pagar tributo, devem ser superadas de forma fulminante. A propósito (gens de loi):

O prisma da relação que se estabelece entre Estado e propriedade privada adequada se apresenta como manifestação dos direitos fundamentais civis necessários para o desenvolvimento social e econômico do indivíduo e do país, no âmbito do Estado Democrático de Direito, numa escala local, regional, nacional e global. A ampliação dos direitos subjetivos ocasiona a necessidade de se analisar a propriedade na perspectiva da adequação, pois a propriedade é em si relação jurídica complexa. O conteúdo jurídico da propriedade privada mostra-se como a adequação aos fins sociais e

37 No sentido de ser humano, em geral, não se fazendo qualquer discriminação de gênero entre os envolvidos na civilização, mas marcando-se o tempo histórico contemporâneo.

38 É o chamado poder que o Estado nacional tem de recorrer à força para fazer valer seus comandos.

“A máxima consciência teórica desse processo é a filosofia de Hegel, em que o Estado é considerado o Deus terreno, ou seja, o último da história, que não reconhece nem acima e nem abaixo de si nenhum outro sujeito, e o qual os indivíduos e os grupos devem incondicionada obediência” (BOBBIO, 2010, p.

23).

econômicos, o que possibilita o alcance da matriz humana [e tributária]

(FIGUEIREDO NETO, 2020, p. 77).

A posteriori é o IPTU ecológico, da premissa do direito “dever ser”, afirmar-se no caráter da complexidade do signo da propriedade, que lhe confere, dentre suas funções: conservar e preservar o patrimônio ambiental no imóvel particular contribuindo para o socioeconômico. É a tão proclamada boa utilização do tributo IPTU e utilização do patrimônio privado urbano para cumprir suas missões socioeconômicas e ambientais.

A conservação, recuperação e preservação do patrimônio ambiental são vitais à saúde, ao bem-estar, à condição de vida, ao equilíbrio dos ecossistemas, à responsabilidade/dever da sociedade em sua mantença, entre outros; além de ser impossível de ser substituído de forma artificial sem descaracterizar a essência do humano. Para Bobbio (1958), essa relação jurídica é uma relação de direito-dever do proprietário e do Estado para com a pessoa. Por isso, uma vez consolidada essa ideia de ordenamento jurídico, será possível examinar diversas experiências jurídicas municipais que resgatam, no sentido da propriedade privada, o seu valor socioambiental. Isto é, quando instituíram o IPTU ecológico.

O IPTU ecológico tem sua regra-matriz de incidência tributária igual àquela do IPTU ortodoxo, pois o fato de ser adjetivado como sendo ecológico não cria uma espécie tributária nova no ordenamento, embora confere ao imposto uma nova qualidade de ser sustentável ecologicamente, diretamente vinculada a eficácia de seus resultados e não a sua designação. Segundo Dantas:

O IPTU “verde” passou a ser, em 2010, uma política pública do Município de Guarulhos (SP), [...] os proprietários de imóveis que adotarem medidas sustentáveis, como casas que disponham de acessibilidade nas calçadas, que possuam árvores plantadas, que possuam áreas com gramados ou jardins, que façam uso de energia solar e de sistema de reuso de água da chuva, separação do lixo e destinação do mesmo para aproveitamento e reciclagem, por exemplo, terão descontos de 3% a 20% no valor do imposto (DANTAS, 2014, p. 89).

Outro exemplo de IPTU ecológico é aquele adotado no município de Salvador, por meio do Decreto Municipal nº 29.100, de 2017 ([2017]), que regulamentou o art.

5º da Lei nº 8.474, de 2013 ([2013]), que instituiu o Programa de Certificação Sustentável “IPTU verde”, em conjunto com o art. 5º da Lei nº 8.723, de 2014 ([2014]), sendo destaque internacional. Dantas e Silva apontam que:

O Programa de Certificação Sustentável IPTU Verde, adotado pelo município de Salvador - BA, segue uma tendência mundial de incorporação dos conceitos de “Construção Sustentável” e “Edificação Verde” do mercado da construção civil, uma das atividades que causam maior impacto ao meio ambiente (DANTAS; SILVA, 2021, I).

No plano internacional, a presente pesquisa, in loco, deparou-se com a experiência italiana de um imposto municipal ecológico (LIVORNO FERRARIS, [2020]). Política que possui bastante afinidade com as experiências brasileiras sobre a temática do IPTU ecológico para uma cidade mais resiliente e sustentável. A comune de Livorno Ferraris/ITA se utiliza da práxis (pedagógica e promissora: um poder local regular o descarte de lixo orgânico), por meio da utilização de biocompostagem ou compostagem nas propriedades (LIVORNO FERRARIS, [2012]).

No ano de 2012, foi aprovada a lei municipal (comune), modificada, posteriormente, em 2015, que dispõe desta forma: “A compostagem que está ligada à correta realização da coleta seletiva dos resíduos urbanos. Em geral, visa salvaguardar o ambiente, reduzir o desperdício e valorizar os recursos ambientais do território” (LIVORNO FERRARIS, [2012]). É o município incentivando a adoção de um imposto ecológico que recai diretamente sobre a propriedade privada imóvel (direito real), criando uma cidade mais sustentável e resiliente nos termos pretendidos pela Agenda 2030 (2015), por meio da extrafiscalidade tributária. Para Ortiz et al. (2022, p.

2): “A extrafiscalidade tributária ambiental é um instrumento de política pública que possui fundamento na Agenda 21 Nacional e no Estatuto da Cidade e que tem como fim a garantia do meio ambiente saudável e o desenvolvimento sustentável.”Assim, é o poder público e contribuintes trabalhando pela autossuficiência da propriedade privada.

O resultado da política municipal italiana tem saldo positivo no novo paradigma cidadão, desenvolvimento sustentável e cidades: a- custo financeiro menor para o contribuinte munícipe pelo benefício fiscal; b- deriva uma economia para os cofres públicos, que mitigam as despesas com a criação ou manutenção de aterros sanitários, diminuindo o volume do material a ser objeto de coleta de lixo, etc; c- a norma jurídica dissemina um novo modus vivendi (ethos) sustentável, dentro da comunidade, e contribui para alcançar as metas para o desenvolvimento sustentável da Agenda 2030.

A norma analisada é o resultado de um pensar e de um agir pelo desenvolvimento de uma cidade sustentável. É o direito propagando ações

ecologicamente sustentáveis na comune (município) italiana. Assim, incentiva o descarte adequado do lixo e potencializa uma destinação ou função socioambiental da propriedade. No caso, os cidadãos/contribuintes podem ser beneficiados fiscalmente com a redução de entre 10% (por cento) e 25% (por cento) do imposto a pagar, que é composto por três pilares para cálculo do Imposto Único Comunale (IUC) (LIVORNO FERRARIS, [2020]). A adoção da biocompostagem, na propriedade privada, até pode, como estratégica primária, gerar uma redução direta na receita do tributo municipal; mas não se duvide da geração de um efeito cascata sobre o novo pensar e agir sustentável proposto aos cidadãos no século XXI, por meio de uma política local ambiental-tributária ecológica.

Logo, o imposto ecológico que concede benefício fiscal àquela propriedade privada italiana, que possui o sistema de compostagem, só para ilustrar, contribui para a diminuição da emissão de carbono (CO2), metano e outros de efeito estufa, que contribuem para o aumento das temperaturas globais, para a redução dos níveis de contaminação das águas, para a menor utilização de pesticidas na agricultura, para o arrefecimento dos gastos do poder público na coleta e destinação do lixo, para a contribuição de menor saturação dos lixões etc.

De maneira geral, Ortiz et al. (2022, p. 3) veem no IPTU ecológico um grande potencial em favor do desenvolvimento sustentável, pois estimula a adoção de: “[...]

ações ambientalmente sustentáveis [...], tais como a instalação de sistemas de captação de água de chuva, a captação de energia solar para a geração de energia elétrica e aquecimento de água, a manutenção de cobertura vegetal [...]”. Bem como, diante do cenário de perigo de extinção dos seres humanos (KOLBERT, 2015;

CALIENDO; FILTER, 2020), a nova ordem, ou pacto global pela conservação e pela preservação do patrimônio ambiental, deve considerar suas políticas tributárias sustentáveis. Assim, é uma racional e razoável razão para a perpetuidade do meio ambiente sadio, e para ainda ver a humanidade na Terra, que os municípios façam sua parte para a criação de uma política pública do IPTU ecológico.

Segundo Merida e Monteiro (2017, p. 249): “[...] o Estado tem a seu dispor o poder constitucional de instituir tributos, porém, a tributação não deve ser considerada como um fim em si, mas um instrumento para o atingimento de certos objetivos.” De tal maneira, para se alcançar um meio ambiente ecologicamente equilibrado e o desenvolvimento sustentável, nas cidades, onde vivem e convivem pessoas e natureza, as políticas públicas sustentáveis – como do IPTU ecológico – devem

romper com a ideia de que a propriedade urbana e a tributação servem para arrecadar recursos financeiros para somente com essa receita financeira a posteriori o Estado ser responsável para oportunizar o equilíbrio ecológico e o desenvolvimento sustentável.

O uso do ordenamento da tributação do IPTU, previsto nos artigos 156, I, e 182 da Constituição Federal de 1988, articulados com os artigos 32 a 34 do CTN, e art. 7º da Lei nº 10.25/01 (Estatutos das Cidades) (BRASIL, 2001), não está trazendo plena eficiência financeiramente aos cofres públicos, como se demonstrou anteriormente; igualmente, o viés qualitativo do IPTU pode reverter em melhores resultados socioeconômicos e ambientais para população.

Nesse contexto, como resultado da dissertação, demonstrou-se que é imperioso que o cidadão-contribuinte e os governos municipais tenham consciência de que a receita econômica oriunda da tributação ambiental, no caso específico do IPTU ecológico, cumpre um papel relevante na defesa do ecológico (capital natural ou serviços ecossistêmicos etc.), na cidade sustentável e resiliente; pois faz valer o valor socioeconômico e ambiental do tributo na propriedade imóvel fonte de inúmeras e evitáveis externalidades negativas ecológicas.

Por fim, a investigação demonstra que os poderes públicos precisam desenvolver e estar atentos a novos projetos político-jurídicos, para conseguir um meio ambiente ecologicamente equilibrado e uma cidade sustentável que passa pela adaptação do seu sistema tributário municipal. Para que os gestores bons de votos e discursos cumpram com o prometido, em seus programas, no sentido de oferecerem alternativas práticas voltadas ao desenvolvimento sustentável.

Nesse sentido, o benefício inserido no IPTU ecológico (ou apelo à sustentabilidade) é um custo de oportunidade (trade off) para a manutenção ou recuperação do bem-estar humano, da saúde ambiental e da defesa do equilíbrio ecológico; e não só local, pois reduz os impactos das externalidades negativas perpetuadas contra o meio ambiente. Contribui para o êxito das tarefas propostas pela Agenda 2030 (ONU, 2015) que não serão alcançadas, exclusivamente, pelo viés arrecadatório (quantitativo/fiscal) de recursos tributários disponibilizados ao erário público. Mas pode ter forte colaboração do IPTU pelo viés qualitativo da indução e corresponsabilidades perante o equilíbrio ecológico.