Esta temática é alvo de muita discórdia, existindo quem defenda que a violência é algo inerente à religião do Islão e que defendem que a religião em nada tem a ver com as atitudes dos seus praticantes. Esta ultima é a visão defendia por Reza Aslan, segundo o qual, não são as religiões que são violentas mas sim as pessoas, até
296 O grupo que viria a ser designado de «Penitentes» transformou o xiismo numa religião baseada
no arrependimento, tendo em conta o remorso colectivo e a ansiedade de reparar a traição de Hussein.
80 porque se está perante uma religião, algo que por si só é vasto e complicado, logo
não pode ser definida tão definitivamente.297
Na análise desta temática, verifica-se essencialmente a existência de dois polos:
Diversos grupos muçulmanos nos Estados Unidos da América e na Europa
denunciaram o autoproclamado Estado Islâmico como sendo não islâmico.
Dados muçulmanos, solicitaram que se evitasse a utilização do termo “Estado Islâmico” como forma de descrever o grupo, isto porque, ao utiliza- lo dar-lhe-ia legitimidade. Para estes muçulmanos, o grupo em análise é uma aberração, que além de não ser islâmica deturpa os princípios fundamentais da religião.
Neste polo, encontram-se os que encaram o EI , bem como, outras formas de
islamismo militante, como expressões fundamentalistas mas ainda assim
autênticas do Islão. Esta é a visão seguida no artigo de Graeme Wood298.
Para a construção de uma imagem negativa do Islão, em muito têm contribuído, os episódios de violência ocorridos na Síria e Iraque, preconizados pelo “Estado Islâmico”, até porque, o grupo se autodenomina de um Estado Islâmico, reivindica textos islâmicos como base para punições medievais, como é o caso do recurso a apedrejamentos para o adultério e a amputação das mãos no caso de ladrões, além disso, o seu líder Abu Bakr al-Baghdadi é doutor em Estudos Islâmicos e declara ser o califa de todos os muçulmanos. Dadas as circunstancias, a opinião que o “Califado” do EI, representa a sociedade islâmica, detêm cada vez mais adeptos, dos mais diversos ramos de especialidades.
Graeme Wood299 realizou um artigo denominado “What ISIS Really Wants”. Neste
artigo, extenso e pormenorizado, ou seja, que se caracteriza por ser essencialmente um exame exaustivo á ideologia que está por detrás da visão, das tácticas e das mensagens do autoproclamado Estado Islâmico, Wood expressa a sua posição face
á questão em analise. Fundamentalmente, realça:300
297 Does Islam Promote Violence? Reza Aslan Confront Religious Essentialism on CNN, LAVIN, 2014.
Acedido em 26 de Dez. de 2016 em: http://www.thelavinagency.com/news/does-islam-promote- violence-reza-aslan-confront-religious-essentialism-on-cnn
298 Wood, Graeme. What ISIS Really Wants, The Atlantic, 2015. Acedido em 28 de Jan. de 2017 em:
http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2015/03/what-isis-really-wants/384980/
299 Este artigo foi mencionado por Peter Bergen da CNN como uma fonte “excelente”. Cf. Bergen,
Peter. Why does ISIS keep making enemies? CNN.com, 2015. Disponível em: http://edition.cnn.com/2015/02/16/opinion/bergen-isis-enemies/
81 a) O EI é muito Islâmico. Ainda que, seja uma atracção para psicopatas e aventureiros, é certo que a religião que é pregada pelos seus seguidores mais fervorosos têm como base interpretações realistas e inclusivamente aprendidas do Islão.
b) A maioria das decisões e leis promulgadas pelo grupo aderem ao que designa de “metodologia profética”, isto é, seguir a profecia e o exemplo dado pelo profeta Muhammad. Não obstante, o reconhecimento por parte de Wood, que a maioria dos muçulmanos não apoia o autoproclamado Estado Islâmico, tendo inclusivamente em conta, o grande numero de grupos muçulmanos que a declaram como não islâmica, Wood insinua repetidamente que os argumentos dados para defender essa ideia, são inúteis. Isto porque, as justificações que o grupo apresenta para a violência encontram-se presentes em textos sagrados para os muçulmanos.
Inicialmente este artigo foi recebido de forma bastante positiva, no entanto, ao longo dos tempos foi sendo alvo de críticas, nomeadamente, de académicos
muçulmanos, de líderes muçulmanos e de estudiosos da lei islâmica301.
No seu artigo, Wood limitou-se a entrevistar um estudioso do Islão, Bernard Haykel, professor da Universidade de Princeton. Alegando, que todos os académicos com quem falou sobre a ideologia do EI, lhe remeteram para Bernard Haykel.
Segundo Haykel, os muçulmanos que consideram o EI como sendo não islâmico, ou inclusivamente anti-islâmico fazem-no como uma visão politicamente correcta, referindo que o Islão consiste naquilo que os muçulmanos fazem e da maneira como interpretam os textos sagrados. Em outras palavras, Haykel expressa a não existência de um único Islão, baseando-se inclusivamente no facto dos muçulmanos não reconhecerem nenhuma autoridade religiosa central, como acontece com os católicos, mas sim uma tradição textual islâmica que é compartilhada e interpretada de diversas maneiras.
Os críticos do artigo de Wood, focaram-se especialmente nas citações de Bernard Haykel, até porque Wood por diversas vezes o citou como forma de justificar as suas opiniões.
301 Jenkins, Jack. What The Atlantic Left Out about ISIS According to Their Own Expert
ThinkProgress.org, 2015. Acedido em 13 de Dez. de 2016 em: https://thinkprogress.org/what-the-
82 Dada a controvérsia em torno das declarações efectuadas por Haykel, a
ThinkProgress entrevistou-o302.
Na entrevista, Haykel acrescentou, entre outras coisas, que não existe nada no Islão que levasse ao autoproclamado Estado Islâmico, além de que, a justificação dos actos do grupo omite os últimos seculos da história islâmica, pois regressam ao seculo VII, negando assim a complexidade da tradição jurídica islâmica em mil anos. Com o intuito de ilustrar o seu ponto de vista, Haykel recorreu a Mohammad Fadel, um professor catedrático de Pesquisa do Direito Islâmico na Universidade de Toronto, que explanou as suas críticas á obra de Wood, numa entrevista dada ao
ThinkProgress303. Nesta entrevista, Mohammad Fadel refere que “Just because a
group can appropriate Islamic sources and Islamic symbols, and then go around doing all sorts of awful things, doesn’t mean that they get to be the ones who define
for the world what Islam means”304
Haykel, realça que, o islão não possuí o monopólio da violência, simplesmente existem pessoas que cometem dados actos em nome de uma religião, acreditando estar a cumprir a vontade de Deus. No caso do EI, quando matam xiitas e sunitas que na sua óptica são apostatas, fazem-no com a convicção, que estão a cumprir a vontade de Deus, isto porque, são crentes.
Haykel, admite a existência de diversas escrituras islâmicas que defendem uma religião mais tolerante, com a aceitação dos não-muçulmanos, no entanto, é certo que os textos que o grupo retira ainda se encontram na tradição islâmica, logo são islâmicos. O autor, defende que o autodenominado Estado Islâmico inspira-se tanto nas tradições como nos textos islâmicos, devendo ser descrito e rotulado como um
movimento islâmico extremista ou como um movimento politico islâmico305. Para
Haykel, a razão do surgimento do grupo prende-se com o caos no Iraque e na Síria, dois grandes países Árabes, que vivem uma situação complicada e ambos com uma extensa população sunita que se vê privada dos seus direitos, fornecendo ao EI o
302 Idem.
303 Jenkins, Jack. What The Atlantic Gets Dangerously Wrong About ISIS And Islam.
ThinkProgress.org, 2015. Acedido em 25 de Jan. de 2017 em: https://thinkprogress.org/what-the-
atlantic-gets-dangerously-wrong-about-isis-and-islam-820a18946e97#.byekuye55
304 Idem.
83 papel de motivador da revolta, dada a raiva sentida pela população perante o caos que vivenciam.
Mubin Shaikh, ex-jihadista e actualmente especialista de renome internacional em terrorismo e radicalização, defende que o autoproclamado Estado Islâmico, não deve ser encarado como sendo um fenómeno islâmico. Enumerando três
explicações para o referido: 306
a) Utilizam de forma superficial as fontes islâmicas. Algo que segundo as
fontes islâmicas, ao faze-lo são não-islâmicos. Salientando que o facto de Abu Bakr al-Baghdadi ter supostamente credenciais académicas, nada significa, até porque , “Even the devil can quote scripture.”
b) Shaikh alerta para o perigo existente ao conceder ao grupo legitimidade
teológica, quando o intuito é formular uma estratégia que seja coerente para o contra-ataque ao extremismo violento. Considerando que “It is quite possibly a fatal blow in that regard because, essentially, it is telling Muslims to condemn that which is Islamic.”
c) O conselheiro dá como exemplo o ex-secretário de Defesa dos Estados
Unidos da América, Donald Rumsfeld e a frequência com que incluía versículos da Bíblia no topo das instruções de inteligência que apresentava ao então presidente George W.Bush, questionando se o que aconteceu no Iraque foi uma guerra motivada pelo Cristianismo, dada a utilização dos versos da Bíblia.
No caso, do autor Tom Holland, este admite que as acções do EI, não se baseiam somente nos ensinamentos religiosos do Islão, porém relaciona algumas delas com a religião: “When Islamic State fighters smash the statues of pagan gods, they are following the example of the Prophet; when they proclaim themselves the shock troops of a would-be global empire, they are following the example of the warriors of the original caliphate; when they execute enemy combatants, and impose
306 Hasan, Mehdi. How Islamic is Islamic State?, Newstatesman, 2015. Acedido em 28 de Dez. de
2016 em: http://www.newstatesman.com/world-affairs/2015/03/mehdi-hasan-how-islamic- islamic-state
84 discriminatory taxes on Christians, and take the women of defeated opponents as
slaves, they are doing nothing that the first Muslims did not glory in”307.
Relativamente, á posição dos grupos muçulmanos, alguns expressaram-se relativamente a esta temática, condenando e denunciando o grupo não só como não islâmico, como também anti-islâmico. Iyad Ameen Madani, Secretário-geral da Organização de Cooperação Islâmica, grupo representante de 57 países e de biliões de muçulmanos, distanciou o Islão das acções cometidas pelo EI, afirmando que em nada têm a ver com o Islão, nem com os seus princípios de “ justice, kindness,
fairness, freedom of faith and coexistence”308. Imam Mohamed Magid, Presidente
da Sociedade Islâmica da América do Norte (ISNA), no mesmo sentido, refere que
as acções do grupo não representam os ensinamentos do Islão309.
Marc Sageman, ex-oficial de operações da CIA com base no Paquistão, analisou aprofundadamente as biografias de diversos terroristas, e afirma que o papel da religião resume-se á justificação, não sendo a causa que leva os diversos jovens jihadistas a ingressar nas fileiras do autoproclamado Estado Islâmico. Para Sageman, os membros do grupo usam a religião como forma de promoção da sua visão politica, para tal, de forma a legitimar as suas acções, utilizam o Islão como justificação, não estando em causa a religião mas sim a identidade, isto é, identificam-se com a ideia de matar quem causa mal á comunidade muçulmana, logo é um sentimento de indignação moral e emocional e não fé religiosa. Desta forma, a religião é um veiculo de indignação, bem como, uma forma de identidade. Sageman invocou a concepção do cientista politico Benedict Anderson, que consiste no Estado-Nação enquanto “comunidade politica imaginada”, aplicando especificamente essa comunidade imaginada aos muçulmanos e ao fascínio e impulsionamento que os terroristas detêm em ser membros e defensores desse
grupo. 310
Didier François, um dos muitos rostos da violência exacerbada praticada pelos jihadistas do autoproclamado Estado Islâmico, que foi feito prisioneiro do grupo na
307 Holland, Tom. We must not deny the religious roots of Islamic State. New Statesman, 2015.
Acedido em 29 de Dez. de 2016 em: http://www.newstatesman.com/politics/2015/03/tom- holland-we-must-not-deny-relgious-roots-islamic-state
308 Muslim Leaders Worldwide Condemn ISIS. GlobalResearch,2014. Acedido em 28 de Dez. De 2016
em: http://www.globalresearch.ca/muslim-leaders-worldwide-condemn-isis/5397364
309 Idem.
85 Síria durante mais de dez meses e que acabou por ser liberto em Abril de 2014, revelou que, durante o período em este detido no EI, nunca presenciou uma
discussão sobre os textos religiosos, as discussões tinham caracter politico311.
Sobre este aspecto, em 2008 numa nota informativa classificada sobre a radicalização e realizada pela unidade de ciência comportamental do MI5 e que foi publicada no The Guardian, revelou que a maioria das pessoas que estão
envolvidas no terrorismo não são fanáticos religiosos312, inclusivamente não
praticam regularmente a fé, alguns revelam até alfabetização religiosa. O MI5 conclui que há evidências que apontam para que quando existe uma identidade
religiosa bem definida, esta serve de protecção face á radicalização violenta. 313
Richard Barrett, é outro exemplo de alguém que dedicou a sua vida profissional a entender o terrorismo, o extremismo e a radicalização. Tendo sido director de operações de combate ao terrorismo global para o M16, antes e após os atentados de 11 de Setembro de 2001, bem como, tendo liderado entre os anos 2004 e 2013, a equipa de monitoramento da al-Qaeda e dos Talibã nas Nações Unidas. Barrett identifica-se, em parte, com a tese de Graeme Wood e de Bernard Haykel, ou seja, que o EI é efectivamente Islâmico. Segundo Barrett dados seguidores do grupo autodenominado Estado Islâmico têm a ideia que estão a seguir a vontade de Deus, como tal não se deve subestimar a extensão da sua crença. Contudo, ressalva que as crenças e opiniões que detêm não são o único motivo para ingressarem no “Estado Islâmico”. Para Barrett o que leva os jovens a aderir e a lutar por grupos terroristas como é o caso do autodenominado Estado Islâmico, é fundamentalmente a busca de identidade, que se junta á procura de pertencer a
um colectivo e de um propósito, algo que o “Estado Islâmico” oferece.314
Mubin Shaik, quando questionado sobre o que torna vulnerável os jovens muçulmanos ao ponto de ingressarem no autoproclamado Estado Islâmico, o
311 Krever, Mick. ISIS Captors Cared Little About Religion, Says Former Hostage. CNN, 2015. Acedido
em 10 de Dez. de 2016 em: http://edition.cnn.com/2015/02/03/intl_world/amanpour-didier- francois/
312 Um exemplo dado sobre este ponto é o de Mohammed Ahmed e Yusuf Sarwar, dois jovens
muçulmanos britânicos que foram condenados em 2014 por terrorismo. Estes jovens adquiriram na Amazon, cópias do Islão e do Alcorão para Dummies, após terem viajado para a Síria.
313 Travis, Alan. MI5 Report Challenges Views on Terrorism in Britain. The Guardian, 2008. Acedido
em 26 de Dez. de 2016 em:
https://www.theguardian.com/uk/2008/aug/20/uksecurity.terrorism1
86 mesmo aponta o facto de se estar perante um movimento social, caracterizado por o recurso a narrativas de queixa. Essas narrativas têm apoio, porque são baseadas em algo, neste caso, a queixa recai sobre a política externa ocidental, mais precisamente o bombardeamento de países muçulmanos, algo que efectivamente
acontece e que é divulgado exponencialmente pelas televisões e computadores. 315
315 Mate, Aaron. We Spoke to a Former Jihadist About How Young People Become Radicalized. Vice,
2015. Acedido em 29 de Dez. de 2016 em: https://www.vice.com/en_us/article/we-spoke-to-a- former-toronto-jihadist-about-how-young-people-are-radicalized
87 PRINCIPAIS CONCLUSÕES
Após a conclusão do presente trabalho relativo ao grupo radical de maior impacto na actualidade e com a pesquisa que me permitiu conhecer mais de perto uma realidade, que na generalidade não é conhecida pelas sociedades cheguei á conclusão o autodenominado Estado Islâmico assenta sobretudo numa ideologia politica e radical, apesar de invocarem a religião do Islão que ignoram.
Verifiquei ainda, que muito embora a comunidade internacional só tenha dado o devido valor a ameaça do “Estado Islâmico” no verão de 2014, a verdade é que a sua génese já tinha bases formadas desde que se afiliou á al-Qaeda no Iraque em finais de 2004, sob comando de al-Zarqawi fundador deste grupo e que para tal muito contribuiu a invasão norte-americana ao Iraque em 2003 e as revoltas que se fizeram sentir no mundo Árabe, a conhecida Primavera Árabe.
Constatei igualmente que estamos perante um grupo bastante consolidado, conforme se comprova com as estruturas que detêm no seu “Califado”, onde se assegurar dos mais diversos ramos da administração de um Estado e ainda que inicialmente com a morte de al-Zarqawi num bombardeamento americano em Bagdade, tudo fizesse crer que a organização então designada de al-Qaeda no Iraque e afiliada da al-Qaeda não iria sobreviver á morte deste líder, comprovou-se que tal não corresponde á realidade, tendo inclusive ficado mais fortalecida após a morte de al-Zarqawi e da desvinculação com a al-Qaeda.
Não obstante a forte retaliação que tem sido alvo nos territórios que ocupa na Síria e no Iraque, mantêm o seu domínio territorial, por vezes intermitente, mas que mesmo assim não deixa de criar impacto e de assombrar a comunidade internacional com ataques dispersos em vários pontos do Mundo.
Cumpre ainda ressalvar que feita a análise ao comportamento e às praticas violentas de violações aos Direitos Humanos no “Estado Islâmico” e comparando com o quotidiano da Arábia Saudita, um dos países que combate o autodenominado Estado Islâmico, verificamos semelhanças que são ignoradas pela comunidade internacional e que deveriam ser tomadas em conta.
Por fim, no que concerne, á autodenominação de “Estado Islâmico” esta não têm qualquer alicerce, dado que além de não ser reconhecido internacionalmente como Estado não reúne consenso quanto á sua ligação com a religião do Islão
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