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UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE DIREITO

“Estado Islâmico”

Cátia Cardoso

MESTRADO PROFISSIONALIZANTE

DIREITO INTERNACIONAL E RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Dissertação Orientada pelo Professor Doutor Miguel Lopes Romão 2017

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2 RESUMO

No âmbito do presente tema, importa conhecer as origens deste grupo e a evolução histórica da sua origem até ao culminar no “Estado Islâmico” e na afirmação de reconstrução de uma instituição tão antiga e motivadora para os muçulmanos como é o Califado. É por isso imperativo verificar a estrutura organizacional do Califado reactivada por este grupo e a ideologia aplicada. No que concerne á ideologia, sobressai a ligação com o Wahhabismo seguido na Arábia Saudita. Por último, analisa-se a sua legitimidade como Estado soberano e a sua ligação á religião do Islão. A par do apurado ressalta a legalidade ou não das intervenções efectuadas pelas forças da coligação e pela Rússia nos territórios sob o seu domínio, na Síria e no Iraque.

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3 SUMMARY

In the context of the present theme, it is important to know the origins of this group and the historical evolution of its origin until the culmination in the "Islamic State" and the affirmation of the reconstruction of an institution as old and motivating for Muslims as the Caliphate. It is therefore imperative to verify the organizational structure of the Caliphate reactivated by this group and the applied ideology. As far as ideology is concerned, the connection with Wahhabism followed in Saudi Arabia stands out.

Lastly, it analyzes its legitimacy as a sovereign state and its connection to the religion of Islam. In addition, the legitimacy of interventions by coalition forces and Russia in the territories under its control in Syria and In Iraq.

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4 ÍNDICE

PARTE I - Origens e Evolução do “Estado Islâmico”

Questão Prévia: o “Estado Islâmico” em geral 6

Capitulo I

Da al-Qaeda no Iraque ao “Estado Islâmico”

1. Abu Musab al-Zarqawi: o fundador 7

1.1. Aliança com a al-Qaeda 9

2. Fase da debilidade: da morte de Zarqawi ao assassinato de Abu Omar al-Baghdadi 11 3. De Abu Bakr al-Baghdadi ao “Califado” 13

Capitulo II

A Reconstrução do Califado pelo “Estado Islâmico”

1. Califado: “reconstruido” pelo autoproclamado Estado Islâmico 21 2. O Califado do “Estado Islâmico” 23

2.1. A Estrutura do Califado do “Estado Islâmico” 26 3. Movimento Salafista-Jihadista aplicado no “Califado” do Estado Islâmico 30

3.1. Em que consiste o movimento Salafista e a sua facção jihadista? 31 4. O Califado do Estado Islâmico vs o Reino da Arábia Saudita 35

4.1. Wahhabismo: Breve Definição 39 4.2. Análise dos abusos dos Direitos Humanos no Reino Saudita e no “Califado” 45

(5)

5 PARTE II

Factores contributivos para a criação e desenvolvimento do actualmente autodenominado Estado Islâmico

Capitulo I

A Primavera Árabe e os Estados Falhados

1. Principais impulsionadores da criação do “Estado Islâmico” 49

1.1. Estados Falhados 52

2. O “Estado Islâmico” no Estado Falhado do Iraque 54

3. O “Estado Islâmico” no Estado Falhado da Síria 56

PARTE III “Estado Islâmico” Capitulo I Análise do Estatuto de Estado 1. Breve definição de Estado 58

2. O “Estado” do autoproclamado Estado Islâmico 60

2.1. Aspectos legais do uso da força contra o autoproclamado Estado Islâmico na Síria e no Iraque 65

Capitulo II O “Estado Islâmico” e a religião do Islão 1. O Islão: Resumo Histórico 75

1.1. Xiitas vs Sunitas 77

2. O Islão e o Terrorismo: o caso do “Estado Islâmico” 79

Conclusões 87

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6 PARTE I

Origens e Evolução do “Estado Islâmico”

Questão Prévia: do “Estado Islâmico” em geral

Os atentados ocorridos no 11 de Setembro de 2001 alteraram o quotidiano das pessoas que passaram a encarar o terrorismo e mais concretamente o de matriz islâmica com grande preocupação. O “Estado Islâmico” ainda veio a aumentar o nível de alarme sentido.

Em 2004, sob a alçada da al-Qaeda enquanto sua afiliada no Iraque começava a sua campanha de terror com a decapitação do empresário Nicholas Berg. No entanto, ainda que alguns observadores tenham seguido de forma particular o crescimento do grupo desde finais de 2013, contrastou com a atenção pouco cuidada por parte da administração norte-americana, que se viu surpreendida quando em Junho de 2014 viu o grupo assumir o controlo de uma parte considerável do Iraque, através de uma eficaz campanha militar, cujo marco foi a retirada dos soldados iraquianos que aparentavam um estado de terror, não obstante terem sido treinados por especialistas americanos. Por isso esta situação lançou o pânico no seio dos serviços de segurança da região e no mundo ocidental mas ainda assim e face à exaustação sentida pelos mais de dez anos da Guerra ao Terror, o problema foi desvalorizado e de certa medida ignorado.

No entanto, o “Estado Islâmico” não se deixou anular e de forma a aumentar a sua visibilidade não se poupou na exibição de todo o tipo de atrocidades a reféns ocidentais que divulgou na internet, com o intuito de aumentar o receio nos norte-americanos e nos seus aliados, bem como, nos países vizinhos como é o caso da Turquia e da Arábia Saudita. Desde então, foi o despoletar de uma ameaça global para a civilização.

Desta forma, a escolha deste tema recaiu pela dimensão em escala que têm sobre a Humanidade e que se revela diariamente com a total destruição de partes do território sírio e iraquiano e com um alto flagelo populacional irreparáveis em tempo indefinido.

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7 Capitulo I

Da al-Qaeda no Iraque ao “Estado Islâmico” 1. Abu Musab al-Zarqawi: o fundador

O que actualmente se conhece como “Estado Islâmico” teve como fundador e posteriormente inspiração, o terrorista jordano Abu Musab al-Zarqawi.

Nos finais do seculo XX – em 1999 - Abu Musab al-Zarqawi, veterano de guerra no Afeganistão, obteve libertação da prisão al-Sawwaqa, situada na Jordânia. Quando viajou em 1989 para o Afeganistão foi repórter numa pequena revista jihadista,

conhecida como Al-Bosnian al Marsous1. Na sua estadia no Afeganistão conheceu o

também jordano Abu Muhammad al-Maqdisi, que possuía uma grande reputação

como clérigo salafista e que viria a ser o seu futuro mentor ideológico.2

Em 1992, ambos voltaram à Jordânia e criaram um grupo designado Bayat al-Iman, - Fidelidade ao Imã- , que tinha como principal objectivo o derrube do regime e a instauração de um governo islâmico. Em 1993, foram ambos detidos, tendo Al-Zarqawi sido condenado a 15 anos de cadeia pelos crimes de posse de arma e de

pertença a organização clandestina. No tempo que ficou na prisão, al-Zarqawi

rapidamente foi considerado um líder, sem contestação. Inclusivamente, na data da

sua libertaçãoem Maio de 1999, os restantes reclusos tratavam-no como o emir. Na

prisão, o seu dia-a-dia era passado a cuidar do corpo, ler o Alcorão e a recrutar. 3

Quando liberto, na Primavera de 1999, al-Zarqawi viajou para o Paquistão e de seguida para o Afeganistão, local onde conheceu Osama Bin Laden. O contacto

entre ambos não foi especialmente amistoso4, contudo, al-Zarqawi conseguiu obter

um empréstimo por parte da Al-Qaeda e permissão para a criação de um campo de treino situado em Herat, próximo á fronteira com o Irão para o Bay’at al Imam. Rapidamente, o pequeno grupo revelou uma elevada capacidade operacional, que

em muito contribuíram, os recrutas oriundos da Jordânia5, Síria, Palestina e

1 Weaver, Mary Anne. The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi. The Atlantic, 2006. Acedido

em 24 de Nov. de 2016, em :http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2006/07/the-short-violent-life-of-abu-musab-al-zarqawi/304983/

2 Pinto, Nuno Tiago. Os Combatentes Portugueses do «Estado Islâmico»: Quem são o que querem e no

que acreditam. Esfera dos livros, 2015, pag.26.

3 Idem, pag.26.

4 Weaver, Mary Anne. The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi.

5 Whitlock, Craig. Al-Zarqawi’s Biography. Washington Post, 2006, pag.2. Acedido em 23 de Nov. de

(8)

8 Europa. Passados dois anos, o grupo já contava com mais de três milhares de recrutas.

Inicialmente, al-Zarqawi designou o grupo de Jund al Shaam- o exercito do

levante-6, alguns meses depois alterou para Jama’at al-Tawid wa al-Jihad- Organização para

o Monoteísmo e Jihad- , ou somente Tawid wa al-Jihad.

Nestes anos - 2000 e 2001- Osama Bin Laden chamou al-Zarqawi por cinco vezes para que este lhe prestasse bayat, - juramento de fidelidade-, mas foi sempre

recusado7.

No dia 7 de Outubro de 2001, os Estados Unidos iniciaram os bombardeamentos no Afeganistão, com o intuito de retaliar os atentados ocorridos em 11 de Setembro desse ano. Dados os acontecimentos, Al-Zarqawi,- pela primeira vez-, lutou em parceria com a Al-Qaeda e com os Talibã, acabando ferido num ataque aéreo.

Al-Zarqawi, no final de 2001, juntamente com 300 guerrilheiros atravessou a fronteira com o Irão. Nos 14 meses que se seguiram, já tinha viajado pelo Irão,

Iraque, Síria e pelos campos de refugiados presentes no sul do Líbano8. Viagens

que contribuíram, para o aumento da sua rede, para a criação de bases, campos de treino e para a angariação de novos recrutas.

A 5 de Fevereiro de 2003, Colin Powell9 perante o Conselho de Segurança da

Organização das Nações Unidas, de forma a justificar a essencialidade da Invasão do Iraque, fez algumas afirmações. Nestas, destacamos a denúncia da existência de armas de destruição maciça no Iraque, e a indicação de al-Zarqawi como o elo de

ligação entre a Al-Qaeda e o regime de Saddam Hussein10. Alegando que o Iraque

tinha abrigado os terroristas dentro das suas fronteiras, o que fez com que estes gerassem o caos e saíssem impunes. Nenhuma destas afirmações, ficou provada como verdadeira.

Aproximando-se a invasão norte-americana, al-Zarqawi criou uma pequena base na província curda de Sulaymaniya, em Biyara. Local, que foi dos primeiros a ser

6 Pinto, Nuno Tiago. Os Combatentes Portugueses do «Estado Islâmico»: Quem são o que querem e no

que acreditam, pag.26.

7 Weaver, Mary Anne. The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi. 8 Whitlock, Craig. Al-Zarqawi’s Biography, pag.2.

9 Na altura secretário de Estado Norte-americano.

10 U.S. Secretary of State Colin Powell Addresses the U.N. Security Council. The White House, 2003.

Acedido em 23 de Nov. de 2016,

(9)

9 atacado, em Março de 2003. Dada a projecção internacional, que obteve com as declarações de Colin Powell, tornou-se num alvo a abater. Até então, nada tinha efectuado para adquirir tal projecção.

Com os três ataques efectuados pelo grupo jihadista Tawid wa al-Jihad, em Agosto

de 200311, al-Zarqawi tornou-se um dos terroristas com maior procura a nível

mundial. Nos ataques, foram atingidos os seus principais alvos: os jordanos, a comunidade internacional e os xiitas, e tiveram como intuito causar o enfraquecimento das forças internacionais e impulsionar um conflito sectário, para assim, adquirir o estatuto de defensor da comunidade sunita e acelerar a criação de um Estado Islâmico.

No entanto, Al-Zarqawi concluiu que sozinho não conseguia alcançar os seus objectivos, necessitava de encontrar aliados. Como tal, dirigiu-se aos líderes da

Al-Qaeda com recurso a uma carta, nas suas 17 páginas retractava a situação no

terreno, identificava os seus principais inimigos, - americanos, forças de segurança, curdos e xiitas-, pedia auxílio e traçava como plano de actuação ataques sucessivos

à população xiita. 12

1.1. Aliança com a al-Qaeda

Após cinco anos, sem jurar fidelidade a Osama Bin Laden, al-Zarqawi parecia estar disponível para o fazer. No dia 17 de Outubro de 2004, depois de oito meses em negociação, era anunciado num fórum islamita o juramento de lealdade de

al-Zarqawi. Para a aliança efectuada, contribuiu o facto de, al-Zarqawi acreditar que a

al-Qaeda atrairia muitos recrutas e fundos, bem como, a necessidade de Bin-Laden

em ter uma presença no Iraque. 13

Al-Zarqawi designou-se «Emir das Operações da Al-Qaeda na Terra da Mesopotâmia», alterando o nome da organização para Al-Qaeda no Iraque (AQI). Ficando conhecido, pelos inúmeros atentados, raptos e decapitações de reféns ocidentais, que posteriormente eram partilhados na Internet, tinha um estilo muito particular, vestia as vítimas com fatos cor de laranja, aludindo aos detidos na prisão de Guantánamo, obrigava-os a ajoelharem-se perante um grupo de homens

11 O primeiro ataque realizou-se a 7 de Agosto, o segundo ataque a 19 de Agosto e o último ataque a

29 de Agosto.

12 Pinto, Nuno Tiago. Os Combatentes Portugueses do «Estado Islâmico»: Quem são o que querem e no

que acreditam, pag.29.

(10)

10 com trajes em cor negra e virados para uma câmara. Os reféns faziam uma curta declaração, seguindo-se a execução. Entre os executados, estão personalidades como o empresário norte-americano Nicholas Berg, Eugene Armstrong e Jack Hensley. Todos decapitados pessoalmente por Al-Zarqawi. Ainda assim, a brutalidade dos métodos de al-Zarqawi não se limitou aos prisioneiros ocidentais,

atingindo também a população xiita, que foi alvo de inúmeros ataques. 14

No Verão de 2005, o braço direito e sucessor de Osama Bin Laden,- o egípcio

Ayman al-Zawahiri,- enviou uma carta15 a al-Zarqawi, onde se queixava dos

métodos implacáveis por si utilizados e realçando o seu impacto mundial desfavorável ao ramo iraquiano da Al-Qaeda. Segundo al-Zawahiri, a Al-Qaeda não deveria cometer o erro de alienar a população, pois ao faze-lo ficaria sem base de

apoio para o estabelecimento futuro de um Califado16. Na carta em questão, o

actual líder da al-Qaeda traça nitidamente os objectivos da al-Qaeda do Iraque, designadamente, com a expulsão dos norte-americanos existe a necessidade de “Establish an Islamic authority or amirate, then develop it and support it until it achieves the level of a caliphate- over as much territory as you can to spread its

power in Iraq17”. Algo que viria a acontecer, isto porque, passados quatro meses da

morte de al-Zarqawi a AQI tentou proceder á construção de um Estado e adoptou o nome de “Estado Islâmico do Iraque” tendo como objectivo o preenchimento do vazio de poder resultante da eventual retirada dos norte-americanos do território. Ainda assim, cabe referir que as visões referentes ao futuro Califado Islâmico eram distintas entre os grupos em análise, para o jordano a sociedade estava corrompida, sendo necessária uma limpeza com recurso á violência. Defendia inicialmente a purificação dos regimes muçulmanos corruptos e resultados rápidos. Pelo contrário, a al-Qaeda defendia que a guerra se devia direccionar ao Ocidente e que se deveria, quando possível, evitar atitudes que pudessem por em

14 Idem, pag.31.

15 Zawahiri Letter to Zarqawi (English Translation), Combating Terrorism Center at West Point.

Acedido em 26 de Jan. de 2017 em: https://www.ctc.usma.edu/posts/zawahiris-letter-to-zarqawi-english-translation-2

16 Ambos os grupos, a al-Qaeda e o seu ramo iraquiano, tinham como objectivo a instauração de um

Califado Islâmico, contudo tinham opiniões distintas sobre como o fazer.

(11)

11 causa a imagem, ou seja, devia-se adoptar uma postura paciente, de longo prazo,

apostando no desgaste do inimigo18.

Ainda que com posições divergentes, a al-Qaeda no Iraque tinha alcançando uma projecção relevante ao ponto de atrair outros grupos iraquianos que também se manifestavam contra a ocupação dos Estados Unidos. Por conseguinte, em Janeiro de 2006, foi anunciada a fusão da al-Qaeda no Iraque com cinco entidades, - Jaysh Ta’ifa Mansura, Saraya’ Ansar Tawhid, Saraya Jihad Islami, Saraya

al-Ghuraba e Kataib al-Ahwal-, que formaram o Majlis Shura al Mujahidin. 19

2. Fase da debilidade: da morte de Zarqawi ao assassinato de Abu Omar al-Baghdadi

A 7 de Junho de 2006, Al-Zarqawi foi morto, por dois aviões da Força Aérea

Norte-Americana, a norte de Bagdade20. No entanto, antes do ocorrido, já tinha sido

excluído do grupo de líderes21. Com o seu falecimento, tudo levava a crer que a

Al-Qaeda do Iraque enfraquecesse, contudo sucedeu o oposto.

De imediato, Abu Ayyub Masri (1968-2010) foi designado, para substituir al-Zarqawi. Estávamos perante uma organização que já tinha a sua autonomia

financeira22 mas que após o falecimento de al-Zarqawi conseguiu ainda reforçar-se.

Passados quatro meses, a al-Qaeda no Iraque procurou a constituição de um Estado, como tal, em Outubro de 2006 foi fundado o primeiro Dawlat ‘Iraq al-Islamiyya, conhecido como « Estado Islâmico do Iraque». Este “ Estado” era

chefiado por Abu Omar al-Baghdadi23, com Abu Ayyub al-Masri a ocupar o lugar de

ministro da Guerra24. Estávamos perante uma liderança dual que atraia para a

organização, jihadistas iraquianos e estrangeiros.

18 Lister, Charles. Profiling the Islamic State. Brookings Doha Center Analysis Paper 13, 2014, pag.8.

Acedido em 25 de Jan. de 2017 em:

https://www.brookings.edu/wp-content/uploads/2014/12/en_web_lister.pdf

19 Pinto, Nuno Tiago. Os Combatentes Portugueses do «Estado Islâmico»: Quem são o que querem e no

que acreditam, pag.32.

20 Finer, Jonathan e Knickmeyer, Ellen. Insurgent Leader al-Zarqawi Killed in Iraq. Washington Post,

2006. Acedido em 25 de Nov. de 2016, em: http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/06/08/AR2006060800114.html

21 Pinto, Nuno Tiago. Os Combatentes Portugueses do «Estado Islâmico»: Quem são o que querem e no

que acreditam, pag.32.

22 Bahney, Benjamin; Shatz, Howard J.; Ganier, Carroll; McPherson, Renny e Sude, Barbara. An

Economic Analysis of the Financial Records of al-Qa’ida in Iraq. RAND Corporation, National Defense

Research Institute, pag. 14.

23 Pinto, Nuno Tiago. Os Combatentes Portugueses do «Estado Islâmico»: Quem são o que querem e no

que acreditam, pag.33.

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12 No entanto, a fundação do “ Estado” criou uma grande ruptura no seio da pouca unida subversão armada jihadista existente no Iraque, originando conflitos de interesses no seio das diversas forças. Relativamente, á sua liderança esta não tinha a capacidade para levar os seus objectivos adiante, até porque, ainda que tenham reduzido consideravelmente a violência entre muçulmanos, Abu Omar Baghdadi e Abu Ayyub Masri não possuíam o mesmo reconhecimento que al-Zarqawi no seio da comunidade que lutava em nome da jihad.

Além da condicionante interna, juntou-se uma condicionante externa, nomeadamente, o anuncio realizado em Janeiro de 2007, pelo então presidente norte-americano G.W Bush, em que referia o destacamento de um número

superior a vinte mil soldados para o Iraque25, era o Iraq Surge, cujo comando e

coordenação pertenciam ao General David Peatreus. Esta situação manteve-se até Junho do ano referido. Não obstante o mencionado, cabe fazer referência ao movimento «Despertar de Anbar» que, depois de 2006, juntou 30 tribos sunitas da província de Anbar com o intuito de combater os militantes da jihad. Deste movimento partiu outro, designado « Filhos do Iraque», que chegou a reunir um contingente perto dos 100 mil voluntários sunitas armados, algo fundamental na praticamente dissolução das organizações jihadistas no Iraque.

Por conseguinte, nos inícios do ano 2008, já tinham sido assassinados 2400 membros da al-Qaeda no Iraque e 8800 tinham sido capturados. O que tendo em conta que se previa que o grupo tivesse cerca de quinze mil membros, estávamos perante uma grande ruptura. O número de combatentes estrangeiros que entrava

mensalmente no Iraque tinha diminuído de 120 para 45 nesse ano.26

Tudo levava a crer que os Estados Unidos da América tinham deferido o golpe fatal no grupo, quando a 18 de Abril de 2010 realizaram um ataque aéreo, que resultou

no falecimento de Abu Ayyub al-Masri e de Abu Omar al-Baghdadi27.

Em Julho de 2010, numa conferência de imprensa realizada em Washington, o principal comandante norte-americano no Iraque Ray Odierno, anunciava

25 President Bush Addresses Nation on Iraq War. Washington Post, 2007. Acedido em 26 de Jan. de

2017 em:

http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2007/01/10/AR2007011002208.html

26 Kirdar, M.J. Al Qaeda in Iraq. Center for Strategic and International Studies, Case Study No. 1,

2011, pag.5. Acedido em 25 de Jan. de 2017 em: https://csis-prod.s3.amazonaws.com/s3fs-public/legacy_files/files/publication/110614_Kirdar_AlQaedaIraq_Web.pdf

27 Pinto, Nuno Tiago. Os Combatentes Portugueses do «Estado Islâmico»: Quem são o que querem e no

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13

gloriosamenteque, 34 dos 42 líderes do grupo tinham sido mortos ou capturados,

que a organização tinha deixado de ter contacto com a liderança central da Al-Qaeda no Paquistão, e que se encontrava com dificuldades em criar novas bases. Afirmando que a organização se encontrava em dificuldades, e como tal teria dificuldades em recrutar. Referiu ainda que a possibilidade da existência de novos

líderes, não era verídica, ainda que já existissem nomes. 28

3. De Abu Bakr al-Baghdadi ao “Califado”

Apesar da afirmação de Ray Odierno, rapidamente Masri e Abu Omar al-Baghdadi foram substituídos. No caso do primeiro, foi substituído por Al Nasir Li Din Allah Abu Sulayman e o segundo por Abu Bakr al-Baghdadi. O último assumiu o lugar de emir do então designado Estado Islâmico do Iraque.

De al-Baghdadi, pouco era conhecido. No entanto, do que tinha sido divulgado, - ainda que sem certezas quanto á sua veracidade-, nasceu em 1971, numa família árabe sunita na cidade Iraquiana de Samarra. Alegadamente a sua família era

descendente directa do Profeta Mohammad.29

Numa Biografia publicada,- ainda que contestada -, por um cidadão do Bahrein, que se veio a juntar ao Estado Islâmico e que se identificava com o pseudónimo Turki al-Binali, o líder do grupo nasceu numa família salafista praticante, sendo os seus

irmãos e tios sacerdotes e professores30.

Abu Ali,- vizinho da família-, referiu que al-Baghdadi viveu em Samarra até aos seus dezoito anos, mudando-se então para Tobchi, bairro localizado nas redondezas de Bagdade conhecido pelas poucas condições financeiras dos seus habitantes. O seu apartamento encontrava-se em estado de degradação e localizava-se adjunto da mesquita existente na localidade. Teria sido aluno da Universidade Islâmica de Bagdade, onde concluiu um doutoramento em Cultura Islâmica e Lei da Sharia. Segundo o vizinho era ainda uma pessoa calma e com muita educação, contudo um praticante conservador do Islão. Dizendo-se inclusive

que terá conduzido orações na mesquita supra referida.31

28 Idem, pag.35.

29 Stern, Jessica e Berger, J.M. Estado Islâmico Estado de Terror, pág. 55.

30 Cf. a biografia em:

https://archive.org/stream/TheBiographyOfSheikhAbuBakrAlBaghdadi/The%20biography%20of %20Sheikh%20Abu%20Bakr%20Al-Baghdadi_djvu.txt

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14 Enquanto aluno na Universidade Islâmica de Bagdade, teve como colega de turma Ahmed al-Dabash,- que posteriormente ocupou o cargo de líder do Exercito Islâmico do Iraque, um grupo insurgente árabe sunita-, e que o descreveu como um jovem com pouco potencial, como sendo uma pessoa calma e reservada, que passava a maioria do seu tempo sozinho. Concluía referindo que se tratara de

alguém insignificante32.

Revelou-se ainda que al-Baghdadi tinha uma vida calma. No entanto, com a invasão do Iraque, por parte dos Estados Unidos e dos seus aliados, a vida pacata de al-Baghdadi sofreu uma reviravolta, isto porque, acredita-se que em 2003 iniciou o

seu caminho na jihad33.

Al-Baghdadi terá sido co-fundador e líder da comissão de Sharia do Jamaat Jaysh Ahl al-Sunnah wa-l-Jamaah, grupo rebelde que actuava em Samarra, Diyala e

Bagdade34.

Numa invasão efectuada pelos Estados Unidos da América, - final de 2004, início de 2005-, a uma habitação perto de Fallujah, foram capturados diversos rebeldes importantes e um homem descrito como um “parasita”. O último mencionado, foi registrado no centro de detenção de Camp Bucca com seu verdadeiro nome

Ibrahim Awwad Ibrahim Ali al- Badri al-Samarrai35. Dada esta situação, os

norte-americanos desconheciam a sua identidade, até porque quando foi nomeado líder do ISI, fez uso do seu nome de guerra e não do verdadeiro.

No que à estadia na prisão diz respeito, os relatos contradizem-se. Daquilo que é público, tratava-se de um preso reservado, ainda que carismático não sobressaia perante os restantes detidos. Conta-se que ao início se colocou á parte dos demais, que inclusivamente o viam como alguém indiferente. Na opinião dos guardas era uma influência calma e conciliadora, pedindo-lhe inclusive ajuda na resolução de

conflitos entre os detidos e na manutenção do complexo em paz36. Contrariamente,

um dos representantes do Pentágono, descrevia-o como sendo vândalo, quando o

32 Idem, pag.56.

33 Stern, Jessica e Berger, J.M. Estado Islâmico Estado de Terror, pág. 56. 34 Idem, pag.56.

35 Idem, pag.56.

36 Chulov, Martin. ISIS: The Inside Story. Guardian, 2014. Acedido em 25 de Nov. de 2016 disponivel

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15 capturaram em 2004,- o que também não corresponde com o que se conhecia do

seu passado.37

Há que realçar o artigo elaborado por Andrew Thompson e Jeremy Sury38, sobre o

papel impulsionador deste centro de detenção gerido pelos Estados Unidos da

América no acréscimo da radicalização39.

No ano 2007, o major-general Douglas Stone ficou encarregue da posição de adjunto no comando das Forças Multinacionais no Iraque, onde se responsabilizou pelos interrogatórios e pelas detenções efectuadas no interior do país. Como tal, tinha a seu cargo os detidos de Camp Ashraf, Camp Copper e de Camp Bucca. Durante o ano 2008, o major-general Douglas reformou as condições da prisão, e encarregou-se da promoção de técnicas inovadoras respeitantes á desradicalização, á reabilitação e a reintegração, o que permitiu o aceleramento da libertação dos prisioneiros que tinham baixo risco e que aparentemente estavam a

reduzir o seu grau de reincidência. 40 Concluindo-se que a grande maioria dos

detidos não necessitavam de estar encarcerados por longos períodos de tempos. Inúmeros detidos não eram jihadistas, mas sim cidadãos que se encontravam desempregados e como tal se viam obrigados a fazer parte da resistência.

No caso especifico de Abu Bakr Al-Baghdadi, quando saiu de Camp Bucca, - segundo a sua biografia oficial, entre o final de 2004 e final de 2005-, caracterizava-se por ser um jihadista sem papas na língua, que de imediato se

juntou ao ISI, na altura liderado por Abu Omar al-Baghdadi. 41

37 Stern, Jessica e Berger, J.M. Estado Islâmico Estado de Terror, pág. 56.

38 Andrew Thompson trabalhou num dos centros de detenção cuja gerência estava a cabo dos

Estados Unidos da América e Jeremy Suri é professor da Universidade do Texas, mais especificamente em Austin.

39 Cf. Thompson, Andrew e Suri, Jeremi . How America Helped Isis. New York Times, 2014. Acedido

em 23 de Nov. de 2016, disponível em: http://www.nytimes.com/2014/10/02/opinion/how-america-helped-isis.html. Do qual destacamos o seguinte excerto:

“Before their detention, Mr. al-Baghdadi and others were violent radicals, intent on attacking America. Their time in prison deepened their extremism and gave them opportunities to broaden their following. At Camp Bucca, for example, the most radical figures were held alongside less threatening individuals, some of whom were not guilty of any violent crime. Coalition prisons became recruitment centers and training grounds for the terrorists the United States is now fighting (…)Small-time criminals, violent terrorists and unknown personalities were separated only along sectarian lines. This provided a space for extremists to spread their message. The detainees who rejected the radicals in their cells faced retribution from other prisoners through “Shariah courts” that infested the facilities”

40 Stern, Jessica e Berger, J.M. Estado Islâmico Estado de Terror, pág. 57. 41 Idem, pag.59.

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16 Com o decorrer do tempo Abu Bakr al-Baghdadi tornou-se o homem de confiança

do então líder do grupo, Abu Omar al-Baghdadi42, ficando responsável pela escrita

e transporte das mensagens da liderança do ISI á liderança da Al-Qaeda no Paquistão. Em 2008, foi também encarregue de supervisionar as operações do grupo, foi membro dos comités judiciais de Anbar, Fallujah, Diyala e ainda emir

judicial de Samarra43.

Num ataque aéreo efectuado pelas forças dos Estados Unidos e do Iraque- Abril de 2010- foram mortos os sucessores de al-Zarqawi e os líderes mais importantes. Com uma liderança desordenada e com a sua relevância em decréscimo, o grupo procurou um líder que tivesse autoridade religiosa e que possui-se um histórico de sucessos estratégicos. Abu Bakr Al-Baghdadi, reunia os requisitos. Era formado em lei islâmica, formação muito superior comparada com a dos líderes da Al-Qaeda. Osama bin Laden estudou economia, - pelo que se conhece-, licenciou-se em

administração pública44 e Ayman al-Zawahiri, era cirurgião45. Além do referido,

al-Baghdadi era um excelente estratega.

Em Maio de 2010 Abu Bakr al-Baghdadi tornou-se líder do Estado Islâmico no Iraque.

Ainda que a AQI se tivesse deparado com mudanças na sua liderança e com uma estrutura debilitada, manteve-se operacionalmente activa, tendo lançado ataques

no Iraque, mais especificamente na sua capital Bagdad46.

Dada a retirada das tropas norte-americanas do Iraque, a AQI encarou como objectivo a recuperação da capacidade operacional e da sua notoriedade, para tal

executou ataques a xiitas e efectuou alguma acção propagandística. 47

Nesta fase, existiram duas condições que muito favoreceram o recrudescimento do Jihadismo no Iraque, nomeadamente, a retirada das tropas norte-americanas do

Iraque e a conhecida «Primavera Árabe». 48

42 Chulov, Martin. ISIS: The Inside Story. Guardian.

43 Profile: The Rise of the Islamic State (IS), TahrirSy, 2014. Acedido em 20 de Nov. de 2016,

disponível em: http://tahrirsouri.com/2014/07/12/profile-the-rise-of-the-islamic-state-is/

44 Sobre este assunto alude-se: A Biography of Osama Bin Laden, Frontline, PBS. Acedido em 20 de

Nov. de 2016, em : http://www.pbs.org/wgbh/pages/frontline/shows/binladen/who/bio.html

45 Walsh, Declan. Ayman al-Zawahiri: From Doctor to Osama bin Laden’s Successor. The Guardian,

2011. Acedido em 20 de Nov. de 2016 em :

http://www.theguardian.com/world/2011/jun/16/ayman-al-zawahiri-osama-bin-laden

46 Duarte, Felipe Pathé. Jihadismo Global das Palavras aos actos: Al-Qaeda, Estado Islâmico e o

Império do Terror, 211.

(17)

17 Com a repentina retirada das forças militares norte-americanas, criou-se um vazio securitário, bem como, uma permeabilidade à restruturação do Jihadismo. Ao facto mencionado, acrescenta-se que os « Filhos do Iraque», cuja liderança estava a cabo de sheikhs sunitas locais, não queriam erradicar no seu todo o « Estado Islâmico do Iraque», algo que se deve á aproximação do governo de Nouri al-Maliki no Irão, o que fazia com que, os jihadistas fossem encarados pelos sheikhs como arma de recurso para a posteriori, caso existisse um excesso de ingerência xiita e iraniana naqueles que eram os destinos do Iraque. O que veio a acontecer, inicialmente

contra o governo alauita de Bashar al-Assad e posteriormente contra Bagdad. 49

Com consequência da «Primavera Árabe», eclodiu uma violenta guerra civil na Síria, ou seja, no país vizinho do Iraque. Com a estrutura e as redes montadas há já algum tempo, foi consideravelmente fácil a jihadização deste conflito. Consequentemente, a Síria tornou-se um palco jihadista. Entre diversos grupos, destacou-se a «Frente al-Nusra», filial da al-Qaeda na Síria, cujo líder era Abu

Mohammad al-Julani. 50

Na perspectiva al-Qaeda, este conflito era uma mais-valia. Isto porque, era mais um palco e mais uma fonte de recrutamento para o Jihadismo a nível global. Permitindo-lhe ter duas afiliadas a actuar na Síria no Iraque, a Jabhat al-Nusra e o “Estado Islâmico do Iraque”, concretizando desta forma, o sonho geopolítico de um

Estado Islâmico que englobasse as duas regiões.51

Abu Bakr al-Baghdadi, líder da filial iraquiana, em Abril de 2013 fez uma declaração áudio onde afirmou que o Estado Islâmico do Iraque ia subsumir a Jabhat al-Nusra. Com a fusão referida, nasceria o Estado Islâmico do Iraque e do

Levante. 52 Al-Baghdadi estabelecia-se assim, de forma unilateral, como líder de

ambos os grupos, que agora se fundiam. O anúncio em questão espantou al-Zawahiri e al-Jawlani, isto porque, nenhum tinha opinado sobre a fusão e nenhum se mostrava satisfeito com a mesma. De imediato, o al-Nusra anunciou a sua fidelidade a al-Zawahiri e à al-Qaeda Central, colocando-se em confronto directo com o então formado “Estado Islâmico do Iraque e da Síria”. Consequentemente, o 48 Idem.

49 Idem. 50 Idem.

51 Idem, pag.212.

52 Pinto, Nuno Tiago. Os Combatentes Portugueses do «Estado Islâmico»: Quem são o que querem e

(18)

18 na altura “Estado Islâmico do Iraque”, começou a agir como grupo independente, actuando de forma hostil face a outros movimentos com um destaque notório para a ruptura com a al-Qaeda.

Em Junho de 2009, Ayman al-Zawahiri, líder da Al-Qaeda, enviou uma carta, - que

mais tarde veio a ser revelada pela imprensa53-, onde solicitava a cessação da

discórdia entre al-Baghdadi e al-Julani, bem como, onde delimitava geograficamente a actuação dos grupos em questão, referindo que al-Baghdadi continuava a guiar as operações no Iraque e al-Julani na Síria, devendo assim existir cooperação e não competição.

Abu Bakr al-Baghdadi não tardou a responder. Numa declaração áudio,- pública e bastante desafiadora-, reafirmou a continuidade das suas intenções, referindo mesmo que entre seguir a escolha do comando de Alá e a transgressão, a sua

escolha recairia na primeira54. Segundo al-Baghdadi, ia continuar a lutar por um

Estado Islâmico unido e para além da fronteira da Síria e do Iraque. Consequentemente, estavam colocadas em causa tanto a legitimidade como a autoridade de al-Zawahiri.

Posteriormente, em Janeiro de 2014, o Estado Islâmico do Iraque e da Síria separava-se formalmente da al-Qaeda. Ainda que se tenha isolado, ganhou relevo no que concerne à sua capacidade bélica e ao recrutamento.

O ISIS ia-se destacando pelos rápidos ganhos territoriais, onde se incluía a captura

de Mossul, nos inícios do mês de Junho de 2014. Conquista que aparentemente

apanhou desprevenido os governos ocidentais, até pelo facto de os Estados Unidos terem investido 25 mil milhões de dólares em treinos e no equipamento do

exército iraquiano, durante oito anos55. Investimento que não fazia crer a fuga dos

soldados iraquianos ao avistarem o ISIS.

Conforme o jornal Los Angels Times, que realizou entrevistas a alguns dos soldados que se encontravam colocados em Mossul, os altos comandantes terão fugido quando avistaram as bandeiras do ISIS com direcção à cidade. Entre os factores

53 Idem.

54 Iraqi al-Qaeda Chief Rejects Zawahiri Orders, Al Jazeera, 2013. Acedido em 26 de Jan. de 2017 em:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2013/06/2013615172217827810.html

55 Zucchino, David. Why Iraqi army can’t fight, despite $25billion in U.S. aid, training. Los Angeles

Times, 2014. Acedido em 20 de Nov. de 2016 em: http://www.latimes.com/world/middleeast/la-fg-iraq-army-20141103-story.html

(19)

19 que levaram á conquista de Mossul por parte do ISIS com a facilidade apresentada,

encontram-se:56

a) Corrupção e tensões sectárias no exército.

O regime exclui-a sistematicamente os sunitas das posições militares mais elevadas, - na sua maioria-, a favor dos oficiais xiitas que tinham menor experiência, mas amizades importantes.

b) A recusa de ofertas de ajuda oriundas de poderosas forças de combate

curdas.

De seguida, circularam relatos que o ISIS tinha saqueado os bancos em Mossul, algo

que posteriormente foi negado pelo governo iraquiano. No entanto, a sua

veracidade ou não, pouco importava até porque era notório que Estado Islâmico tinha-se tornado a organização terrorista com maior riqueza a nível mundial, riqueza que diariamente a aumentava. Em Novembro de 2014, estimava-se que o aumento da sua riqueza rondava um valor entre 1 e 3 milhões por dia, apesar da existência de muitas incógnitas sobre estes valores. Contrariamente á realidade da al-Qaeda e de uma série de grupos terroristas que dependem de fontes externas para se financiarem, no caso do Estado Islâmico a maioria dos seus rendimentos geram-se internamente, com recurso aos impostos cobrados às populações locais, a saques, á venda de antiguidades e ao tráfico de petróleo. O ISIS teve acesso a mercados negros e a rotas de contrabando com antiguidade e profundo enraizamento, o que tornou os instrumentos típicos de combate ao financiamento

do terrorismo com menor utilidade. Angariou milhões através dos pagamentos de

resgates de reféns ocidentais. Não obstante, tanto os Estados Unidos como o Reino

Unido terem políticas de governo onde são proibidos tais pagamentos, diversos outros países- onde se inclui europeus-, têm efectuado pagamentos de resgates dos

seus cidadãos. 57

Á queda de Mossul pouco tempo depois seguiu-se Tikrit58. Nas diversas paragens

realizadas no caminho que percorreu, o ISIS apoderou-se do equipamento militar

56 Cf. Stern, Jessica e Berger, J.M. Estado Islâmico Estado de Terror. págs. 68-69. 57 Stern, Jessica e Berger, J.M. Estado Islâmico Estado de Terror. pág. 69. 58 Tikrit é a terra natal de Saddam Hussein.

(20)

20 norte-americano que tinha sido dado aos soldados iraquianos, que se puseram em fuga. 59

A 29 de junho de 2014 , numa gravação áudio realizada pelo principal porta-voz do ISIS, de seu nome Abu Muhammad al-Adnani, o grupo declarava que se encontrava

a reconstruir o califado60, alterando o nome do grupo para “Estado Islâmico”,

assumindo, desta forma, as pretensões expansionistas que tinham sido apontadas em 2005, por al-Zarqawi.

Abu Bakr al-Baghdadi61 ocupou o lugar de Califa, o emir do Estado Islâmico,

designado de califa Ibrahim. 62

A declaração foi concebida com o intuito de chamar os Muçulmanos, mais especificamente os que compartilhavam o Salafismo e o takfir, o que permitiria, a retirada, de apoio a grupos que na Síria, detinham a mesma opinião, como é o caso do Jabhat al-Nusra, que poderia despoletar uma competição por recrutas e por recursos.

Com a declaração em questão, estava ainda implícito o desafio á autoridade do

líder da al-Qaeda Ayman al-Zawahiri, bem como, ao líder Talibã Mullah Omar63.

Isto porque, o último estava desaparecido desde a queda do regime, que deu abrigo á organização que executou os atentados ocorridos em 11 de Setembro de 2001, Omar declarou-se Amir al Mu’ minin, isto é, o Emir dos Crentes ou também conhecido como o Comandante dos Fiéis. Ainda que fosse o líder supremo da jihad

na luta contra o Ocidente, nem Omar ousou declarar-se califa64. 65

Face á rápida conquista de Mossul e á declaração de reconstrução do califado, o número de recrutas aumentou, segundo o observatório Sírio de Direitos Humanos,

o aumento foi de 6,300 Homens no mês de Julho66 mas ainda assim, não alcançou o

59 Idem.

60 Berger, J.M. Gambling on the Caliphate. IntelWire, 2014. Acedido em 18 de Nov. de 2016 em:

http://news.intelwire.com/2014/06/gambling-on-caliphate.html

61 Abu Bakr al-Baghdadi apareceu e mostrou a sua cara em público, pela primeira vez, num sermão

realizado na mesquita de Mossul.

62 Stern, Jessica e Berger, J.M. Estado Islâmico Estado de Terror. pag.70.

63 Al-Zawahiri e Osama Bin Laden tinham declarado fidelidade a Mullah Omar. 64 Califa significa sucessor do profeta Maomé.

65 Pinto, Nuno Tiago. Os Combatentes Portugueses do «Estado Islâmico». pag.67.

66 Perry, Tom. Islamic State recruits at record pace in Syria: monitor. Reuters, 2014. Acedido em 20

de Nov. de 2016 em: http://www.reuters.com/article/us-syria-crisis-islamicstate-idUSKBN0GJ0W420140819

(21)

21

impacto esperado67. As evidências apontam para que a recção dos extremistas ao

califado, inicialmente não tenham sido muito entusiastas68. Ainda assim, com o

início dos ataques aéreos da coligação, em Agosto de 2014, o apoio foi adquirido. Apesar da crescente aliança para derrubar o “Estado Islâmico”, e das eventuais perdas de território, o grupo têm atraído interesse e admiração no seio dos extremistas em todo o mundo.

Capitulo II

A Reconstrução do Califado pelo “Estado Islâmico” 1. Califado: “reconstruido” pelo autoproclamado Estado Islâmico

A Instituição do Califado é bastante antiga, quase tanto como o Islão. As suas raízes, encontram-se nos dias posteriores à morte de Muhammad em 632, com a reunião dos muçulmanos e a escolha do “califa”. Escolha que originou, conforme já referido,

discordâncias e divisões no Islão, nomeadamente, entre xiismo e sunismo69.

O Califado, governou o mundo muçulmano, com relativa hegemonia, até ser

abolido em 1924, por Mustafa Kemal Atatürk70, fundador da Republica da Turquia.

Os comentaristas sunitas, ainda que tenham tido opiniões distintas quanto á essência do califado em diferentes períodos, geralmente concordaram quanto às finalidades do califado: gerenciar assuntos muçulmanos tendo em conta as leis de Deus e organizar a vida do seu povo consoante os princípios da lei religiosa

islâmica. 71

67 Berger, J.M. The Islamic State vs. al Qaeda. Foreign Policy, 2014. Acedido em 20 de Nov. de 2016

em: http://foreignpolicy.com/2014/09/02/the-islamic-state-vs-al-qaeda/

68 Berger, J.M. Is Backlash Spills Over On Jabhat al Nusra. IntelWire, 2014 Acedido em 17 de Nov. de

2016 em: http://news.intelwire.com/2014/07/is-backlash-spills-over-on-jabhat-al.html

69 Os xiitas defendem que o único herdeiro legítimo do profeta é Ali, contrariamente os sunitas

reconhecem os quatro primeiros califas como legítimos herdeiros, aos quais acrescentam os principais califados que se sucederam: Omíada, Abássidas e otomanos.

70 Sobre Kemal alude-se: Kemal Atatürk (1881-1938). BBC, Disponível em:

http://www.bbc.co.uk/history/historic_figures/ataturk_kemal.shtml

71 Winter, Ofir. The Islamic Caliphate: A Controversial Consensus. In Y. Schweitzer and O. Einav, eds,

The Islamic State: How Viable Is It?, Tel Aviv: Institute for National Security Studies, 2016, pag. 27.

Acedido em 05 de Jan. de 2017 em:

(22)

22 Estávamos perante um califado, que tinha vivenciado uma história de altos e baixos, em que, em dados períodos deteve autoridade em assuntos políticos, administrativos, militares, financeiros e legais e noutros reduziu-se ao reino simbólico e espiritual, realizando orações em massa. Com o anuncio da

reconstrução do Califado em 2014por parte do autoproclamado Estado Islâmico,

demonstrava-se que a instituição não se limitava ao passado, era um ideal de vida, que entusiasmava e entusiasma os actuais muçulmanos.

O apelo ao califado tem duas vertentes: a promessa de correcção da ordem política moderna, encarada por diversas pessoas como sendo opressiva e corrupta, e o retorno à ordem original e correcta do Islão. Algo que, se alcança, mediante a unificação dos muçulmanos, num quadro que irá fazer ressurgir a sua honra e que

lhes trará prosperidade nacional e económica. 72

Não obstante, estarmos perante um conceito que se encontra cravado na cultura e na história do Islão, gozando de um largo consenso no seio dos estudiosos das diversas seitas sunitas, revela-se a existência de diversas disputas entre os clérigos religiosos islâmicos. Estes clérigos, debatem a sua substância, qual o momento certo para a sua renovação, a forma como se deve nomear o seu líder e as relações

mútuas com os estados-nação árabes modernos. 73

O anúncio do Califado do EI, para muitos simbolizou o ressurgimento da vitalidade

do Islão. Passados noventa anos, após a abolição do Califado por parte de Atatürk,

com o argumento de se tratar de um sistema antiquado e desastroso tanto para os muçulmanos na sua generalidade como para os turcos em particular, o “Estado Islâmico” dava uma esperança de consolidação e expansão do recém-criado califado. Alterando o paradigma, do que até então, era símbolo do atraso e da impotência do Islão relativamente ao Ocidente, símbolo da queda do mais recente califado, o império Otomano, para uma visão de união de fiéis perante um único líder, que impõe sobre todos a lei islâmica, reflectindo as crenças e os valores do

Islão. 74 Internamente, o califado terá a capacidade de reconstrução da ordem

orgânica legal e politica, dos tempos antigos. Internacionalmente, o califado irá

72 Winter, Ofir. The Islamic Caliphate 27-28. 73 Idem, pag.28.

(23)

23 combater as injustiças com que se deparam os regimes árabes-muçulmanos por se

afastarem do caminho dos infiéis ocidentais. 75

2. O Califado do “Estado Islâmico”

Abu Bakr al-Baghdadi com o anúncio do califado, tornou-se parte integrante do que actualmente se conhece como “Estado Islâmico”, tendo para tal, em conta o seu

parentesco com a tribo de Muhammad76 e a educação religiosa que possuí77. Ainda

que, existam duvidas, sobre a capacidade do grupo em se manter coeso e sobre a escolha do herdeiro de al-Baghdadi, em caso de este falecer, este califado despertou o sonho de diversos crentes muçulmanos e a esperança de um califado rejuvenescido que incentiva os jihadistas.

As organizações de jihad salafista, que reconheceram o califado do autoproclamado Estado Islâmico, juraram fidelidade pessoal ao califa al-Baghdadi, ficando desta forma, revelado o grande poder do mesmo e da empresa que construiu.

No anúncio, prometia-se que o califa iria estabelecer instituições, terminar com a opressão, impor justiça e alterar o estado de destruição, corrupção e de medo. Declarava-se, que tinha chegado a hora da nação de Mohammad, repugnar a sua desgraça e voltar á sua glória. Face ao exposto e tendo em conta a actualidade, alguns sinais de vitória já são notórios: a bandeira do autoproclamado Estado Islâmico voa alto, contrastando com as dos estados-nação heréticos, que têm as suas fronteiras violadas e que se deparam com os seus soldados mortos,

prisioneiros e derrotados. 78

Não obstante, o supra referido, o anúncio provou um fervoroso debate interno entre o autoproclamado Estado Islâmico e os seus inimigos muçulmanos.

Al-Adnani, falecido porta-voz do grupo, referiu expressamente que todos os muçulmanos tinham o dever de jurar lealdade ao califa al-Baghdadi, bem como, que o restabelecimento do califado negava a legitimidade das demais organizações

75 Idem, pags.28-29.

76 Mccants, William. ISIS leader Abu Bakr al-Baghdadi’s family tree. Brookings

Institution,2015. Acedido em 07 de Jan. de 2017 em: https://www.brookings.edu/blog/markaz/2015/09/10/isis-leader-abu-bakr-al-baghdadis-family-tree/

77 Mccants, William. The Believer. Brookings Institution,2015, Acedido em 08 de Jan. de 2017 em:

http://csweb.brookings.edu/content/research/essays/2015/thebeliever.html

(24)

24

islâmicas79. Ao realizar este pronunciamento divisivo, al-Adnani visava

especialmente o Jabhat al-Nusra, antigo ramo da al-Qaeda na Síria. Apesar disso, esta declaração, representava ainda um desafio às autoridades religiosas, que segundo o EI são heréticas, como é o caso da Irmandade Muçulmana e dos

estabelecimentos religiosos associados aos regimes árabes. 80

Para os regimes Árabes, a progressão do califado é encarado como uma ameaça existencial directa, como tal, esclareceram que tendo em conta, a perspectiva da lei religiosa, as nações árabes modernas em nada são inferiores face à instituição

islâmica enraizada que é o califado. 81

No anúncio do califado, o autoproclamado Estado Islâmico antecipou-se às criticas

religiosas que poderiam surgir relativamente à sua acção, referindo:82

a) Quanto ao argumento, relativo ao estabelecimento do califado sem a reunião de um consenso muçulmano, o autoproclamado Estado Islâmico ridicularizou a existência de um acordo geral de facções, brigadas, divisões, coalizões, exércitos, frentes, movimentos e organizações da nação islâmica. b) Quanto ao argumento respeitante ao estabelecimento do califado sem a

existência de consulta com os estabelecimentos religiosos nos países árabes, o grupo considerou sem cabimento a exigência de se consultar com inimigos, que não o reconhecem.

c) Quanto ao argumento que as circunstâncias ainda não eram as ideais para um movimento deste género, o grupo referiu que a existência de um atraso na formação do califado, com os seus elementos essenciais em devido lugar, isto é, com a posse de uma elevada extensão de terra na Síria e no Iraque, está previsto na lei religiosa como pecado.

A al-Qaeda, também reagiu à reconstrução do califado. Ao analisarmos os antecedentes de Osama Bin Laden e Ayman al-Zawahiri, fundadores da al-Qaeda, verifica-se a referência à possibilidade de um califado, citando-o inclusive como

um objectivo83, contudo pouco fizeram para a sua concretização. Segundo a

al-Qaeda, um califa que tivesse a capacidade de união dos muçulmanos sob a bandeira do Islão, bem como, a capacidade de estabelecer uma sociedade moral e

79 Stern, Jessica e Berger, J.M. Estado Islâmico Estado de Terror. pag.145. 80 Winter, Ofir. The Islamic Caliphate, pag.29.

81 Idem, pag.30. 82 Idem, pag.30.

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25 piedosa era considerado um ideal desejável. Contudo, a al-Qaeda não se concentraria na dissolução dos Estados-nação árabes e na eliminação das suas fronteiras, mas sim na expulsão da elite governante herética. Na Síria, encontrava-se preencontrava-sente um exemplo da visão da al-Qaeda, através do encontrava-seu antigo ramo Jabhat al-Nusra, que empenhava, - e ainda o faz, mas separada da al-Qaeda,- esforços para derrubar o regime do Presidente da Síria Bashar al-Assad, bem como, para

estabelecer um emirato na Síria84, defendendo contudo que o califado só tem

viabilidade de ser criado numa fase posterior, mais concretamente após ser

alcançada a vitória na Síria. 85

A resposta da então Jabhat al-Nusra ao anúncio realizado por Al-Adnani teve em apreço os pontos positivos do califado, mas salientou que rejeita tal declaração referindo as suas razões. Apesar disso, reconhece, a esperança que o califado oferece as gerações mais jovens de muçulmanos, que se deparam com a desanimadora realidade e com a angustiante hegemonia ocidental no território do Islã e as boas acções de al-Baghdadi no Iraque e na Síria, como é o caso da libertação dos prisioneiros da prisão e o recrutamento de fiéis para ingressar na jihad.

As razões referidas pelo então Jabhat al-Nusra foram as seguintes: 86

a) Al-Baghadi não consultou os entendidos da lei religiosa islâmica, nem foi por eles escolhido, assim sendo, o processo é inaceitável.

b) A educação religiosa de al-Baghdadi não é a adequada, colocando em causa, como pode gerir os assuntos dos muçulmanos, sem ter realizado qualquer texto religioso com qualquer significado.

c) O autoproclamado Estado Islâmico danifica o projecto salafista-jihadista. Alegando as execuções brutais realizadas pelo grupo, que conduziram a uma coligação internacional contra o mesmo, bem como, que culminaram numa má reputação do Islão, que passou a ser encarada como uma religião barbara e impiedosa, acabando por afastar crentes do caminho da jihad.

84 Hassan, Hassan. Al Nusra declares an ‘Islamic emirate’, but is it significant?, The National, 2014.

Acedido em 09 de Jan. de 2017 em: http://www.thenational.ae/opinion/comment/al-nusra-declares-an-islamic-emirate-but-is-it-significant#page2

85 Winter, Ofir. The Islamic Caliphate. pags. 30-31. 86 Idem, pag.31.

(26)

26 A reacção da Irmandade Muçulmana, à declaração do EI, foi também ela negativa. Contribuindo, o facto de encararem o califado islâmico, como um objectivo indefinido e de longo prazo, cujo alcance deveria ser conseguido de forma gradual, ainda sem previsão, além de não concordarem com a rejeição do nacionalismo defendido pelo EI, pois defendem a possibilidade de enquadrar sentimentos

nacionalistas em dados territórios, desde que sejam secundários. 87

Segundo Yusuf al-Qaradwi, líder espiritual não oficial da Irmandade Muçulmana, o califado do autoproclamado Estado Islâmico é invalido perante a lei islâmica, não

cumprido diversos dos seus critérios88. Nomeadamente:89

a) Foi emitido de forma unilateral, não obtendo consenso islâmico geral, além de consulta conforme é requisito presente no Alcorão ( Sura 3: Versos 159). b) Causa má reputação ao califado, encorajando os inimigos do Islão a unirem-se contra os rebeldes que recorrem á luta para a obtenção de direitos legítimos tanto na Síria como no Iraque.

c) Cria uma abertura para a anarquia nas decisões islâmicas, provocando uma situação que qualquer organização pode assumir autoridade para governar uma questão-chave, como é o caso do califado.

As opiniões mencionadas, entre muitas outras existentes, permitem verificar que o debate em torno do Califado, não é somente um dilema jurídico religioso, como uma luta política, relativamente a quem é o legitimo interprete dos textos sagrados e o que estes significam.

2.1. A Estrutura do Califado do “Estado Islâmico”

Inicialmente, cabe alertar que as informações relativas á estrutura e á liderança do autoproclamado Estado Islâmico apresentam dificuldade de verificação, como tal, não se vão referir nomes, além do conhecido e ainda vivo Califa Abu Bakr al-Baghdadi.

Na pirâmide organizacional, que caracteriza a estrutura do grupo, Abu Bakr

al-Baghdadi têm o lugar de topo. As tomadas de decisões estratégicas estão a seu

87 Idem, pags.31-32.

88 Writer, Staff. Qaradawi says 'jihadist caliphate' violates sharia. Al Arabiya News, 2014. Acedido

em 09 de Jan. de 2017 em: http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2014/07/05/Qaradawi-says-jihadist-caliphate-violates-sharia-.html

(27)

27 cargo e dos seus dois vices. As ordens são transmitidas, verticalmente, aos demais elementos que possuem autonomia para a sua concretização.

Para gerir o funcionamento do Califado, existem diversos órgãos, criados com o intuito de aconselhar o líder, bem como, de supervisionar os planeamentos

estratégicos, as operações militares e ainda tratar da administração civil. 90

A

seguinte imagem, permite-nos, com melhor clareza, verificar a estrutura do

autoproclamado Estado Islâmico.91

Analisando as diversas artérias, verificamos que, as suas funções consistem, essencialmente, em:

a) Califa :

Possuí o direito de obediência total por parte dos seus seguidores e dos que se encontram sob o controlo do seu “Estado”, supervisiona directamente os

Conselhos92, têm amplos poderes na nomeação e na remoção dos chefes dos

Conselhos, ainda que seja após se consultar com o Conselho Shura, a decisão final e indiscutível pertence-lhe.

90 Pinto, Nuno Tiago. Os Combatentes Portugueses do «Estado Islâmico». pág. 81.

91 Imagem retirada de: Muir, Jim. Islamic State group: The full story. BBC News, 2016. Acedido em

08 de Jan. de 2017 em: http://www.bbc.com/news/world-middle-east-35695648

(28)

28

b) Dois Deputados:

Não obstante, o autoproclamado Estado Islâmico se tratar de uma organização bastante centralizada e disciplinada, dado o tamanho e extensão do território que controla, torna-se necessário recorrer á delegação. Para tal, Abu Bakr al-Baghdadi conta com dois deputados, um encarre do supervisionamento da Síria, outro do

Iraque. 93

Os deputados, entregam as ordens aos governadores, que possuem responsabilidade, sobre os diversos subestados da Síria e do Iraque, controlados pelo grupo, que desta forma instroem os conselhos locais, sobre como devem implementar os decretos do poder executivo em questões, que vão desde as relações com os meios de comunicação social, ao recrutamento, ao policiamento e

ainda aos assuntos financeiros. 94

c) Conselho Shura:

Trata-se do órgão consultivo mais elevado. Este órgão tem a seu cargo a aprovação das nomeações do califa, a transmissão das directivas da liderança na cadeia de comando e a verificação que que as mesmas são implementadas, garante ainda a adesão do grupo á sharia, podendo inclusivamente, em teoria, retirar o califa caso ele não cumpra esse dever, e consequentemente decidir sobre quem o deve suceder. Não obstante, a variação de tamanho e de circunstâncias, o Conselho em análise é composto por 9 a 11 membros, na sua maioria iraquianos, e é uma espécie de comité de coordenação, em que os diversos chefes dos departamentos, prestam conselhos ao líder. O Conselho Shura têm ainda como funções a monotorização de outros departamentos, o auxilio no encaminhamento das

directivas centrais aos demais e a aprovação da escolha do próximo líder.95

d) O Conselho Sharia :

93 Pinto, Nuno Tiago. Os Combatentes Portugueses do «Estado Islâmico». pág. 80.

94 Thompson, Nick e Shubert, Atika. The anatomy of ISIS: How the 'Islamic State' is run, from oil to

beheadings. CNN, 2015 . Acedido em 08 de Jan. de 2017 em:

http://edition.cnn.com/2014/09/18/world/meast/isis-syria-iraq-hierarchy/

95 Orton, Kyle. Profiles of Islamic State Leaders, The Henry Jackson Society, 2016, pags.11-12.

Acedido em 08 de Jan. de 2017 em:

(29)

29 É dirigido directamente pelo Califa Abu Bakr al-Baghdadi e é o órgão de maior poder do grupo. No seio das principais tarefas que recaem sobre os seus seis membros, encontra-se a escolha do novo califa, em caso de morte do actual, e a garantia que os restantes ramos da administração agem de acordo com a lei

islâmica. Cabendo-lhes ainda a supervisionar os tribunais e a polícia da sharia. 96

e) Conselho de Inteligência e Segurança:

Dada a intolerância que reina em relação a dissidências e a divergências de opinião, foi estabelecido pelo autoproclamado Estado Islâmico, o Conselho de Inteligência e Segurança. Como sua principal tarefa encontra-se a eliminação de possíveis rivais ou de tentativas que tenham como intuito desafiar a autoridade do

Califa97. Desta forma, funciona para proporcionar segurança pessoal ao Califa, bem

como, para garantir que a sua vontade é cumprida pelos seus subordinados,

seguindo os seus comandos e a sua visão estratégica98 .

f) O Conselho Militar

Este Conselho têm como funções a criação e implementação da estratégia militar do autoproclamado Estado Islâmico, impulsionando a campanha de conquista de território e defesa do que já está conquistado. Conta com o auxílio do Conselho Provincial, que supervisiona a administração civil do Estado, através das 18

Wilayats em que se divide. 99

g) Conselho de Comunicação Social:

O Conselho de Comunicação social é uma função bastante significativa do grupo, como tal o grupo reconheceu o valor que os meios de comunicação social acrescentam na divulgação da sua ideologia. Este Conselho é responsável pela

promoção e pela propaganda do grupo100.

h) Conselho Financeiro

96 Pinto, Nuno Tiago. Os Combatentes Portugueses do «Estado Islâmico». pags. 81-82. . 97 Idem, pág. 82. .

98 Orton, Kyle. Profiles of Islamic State Leaders. pag.12. 99 Barrett, Richard. The Islamic State. pag.31.

(30)

30 Considerado como o grupo jihadista mais rico da história, superando a própria al-Qaeda Central, o Conselho Financeiro está encarregue de gerir as finanças do grupo 101.

i) Conselho Provincial:

Ao Conselho Provincial cabe o supervisionamento da administração dos territórios ocupados pelo “Estado Islâmico”. Este “Estado” encontra-se divido em 18 Wilayats ( províncias), sendo cada uma liderada por um Wali (Governador) . Cada província tem uma estrutura, que espelha a organização central, sendo liderada por três

comandantes: da sharia, militar e de segurança. 102

3. O Movimento Salafista-Jihadista aplicado no “Califado” do Estado Islâmico O autoproclamado Estado Islâmico, identifica-se e aplica no seu “Califado”, o pensamento politico islâmico, denominado de Salafismo-Jihadista (ou al-Salafyyia al-jihadiyya), também conhecido como Jihadismo, uma das facções do Salafismo.

Jihadismo que deriva do termo árabe e islâmico jihad103. O termo jihad significa

luta, guerra santa e esforço. Inclusivamente, no Alcorão e nos hadith104, a jihad é

mencionada como luta armada pelo Islão105. Ainda assim, alerta-se para o facto do

vocábulo jihad também se encontrar associado ao esforço no caminho de Deus, com o recurso a uma luta espiritual individual, para se ser um melhor homem.

O termo Jihadismo106,começou a ser utilizado a partir do final dos anos 1990. No

entanto, foi com o 11 de Setembro de 2001 que passou a ser rotineiramente utilizado, com o intuito de distinguir actores violentos de não violentos. Como tal, é

101 Childress, Sara, Amico, Chris e Wexler, Evan. Who Runs the Islamic State?. PBS Frontline, Acedido

em 08 de Jan. de 2017 em: http://www.pbs.org/wgbh/frontline/article/who-runs-the-islamic-state/

102 Pinto, Nuno Tiago. Os Combatentes Portugueses do «Estado Islâmico». págs. .82-83.

103 Jihad é um termo que na língua árabe é do género masculino. No entanto, no discurso ocidental

assume o papel de substantivo do género feminino, dado associar-se à «guerra santa». Assim sendo, a autora optará pela opção de referir o conceito de jihad como pertencendo ao género feminino. O hadith é o termo aplicado para designar o conjunto das práticas, das acções e das palavras do Profeta Maomé e dos seus companheiros. Cf. “Hadith”. Encyclopedia Britannica. Disponivel em: https://www.britannica.com/topic/Hadith

105 Cfr. Alcorão 2:215 ou 9:41 e colecção canónica dos hadith designada de Sahih al-Bukhari.

106 Os académicos ocidentais e os escritores muçulmanos liberais, fazem uso do termo Jihadismo

como sendo sinonimo de “ islamismo violento”. Contrariamente, os muçulmanos conservadores, não utilizam o termo em questão, dado não concordarem com a associação que este traduz do Islão ao terrorismo, fazendo uso de termos como “terroristas” ou “pervertidos”.

(31)

31 comum a utilização deste termo, nos casos em que se esteja perante uma luta que

possua retórica islâmica na sua motivação107.

No autoproclamado Estado Islâmico e no seu Califado, prioriza-se a promoção de uma versão severa do Salafismo-Jihadista. A adopção desta versão por parte do grupo, teve o seu desenvolvimento no contexto da insurgência iraquiana em inícios dos anos 2000, em que o Iraque recebeu gerações mais jovens. Entre eles, destacou-se o jordano Abu Mus’ab al-Zarqawi, fonte de inspiração e de desenvolvimento da trajectória ideológica que o autoproclamado Estado Islâmico viria a dar seguimento. O jordano deu um contributo directo, nos dois principais princípios ideológicos do EI: um anti-xiismo levado ao extremo e a restauração do

califado encarada como principal foco. 108

Nos discursos e nos textos do autoproclamado Estado Islâmico são enfatizados

diversos conceitos doutrinários, nos mais salientes é estipulado que:109

a) os muçulmanos devem-se associar unicamente aos “verdadeiros” muçulmanos, dissuadindo-se dos demais que não se enquadram nesta definição.

b) Não governar de acordo com a lei de Deus é descrença. c) Quem combater o “Estado Islâmico” é apostata.

d) Qualquer muçulmano que seja xiita é apóstata, merecendo a morte. e) A Irmandade muçulmana e o Hamas são traidores face ao Islão.

Realçando que o Médio Oriente está a ser atacado por governantes profanos, bem como, por “cruzados” ocidentais, o “Estado Islâmico” defende a jihad defensiva e destaca a jihad ofensiva

3.1. Em que consiste o movimento Salafista e a sua facção jihadista?

O movimento Salafista, e por conseguinte os salafitas, compartilham de uma abordagem puritana da religião, com o intuito de evitar a inovação religiosa, para tal replicam literalmente o modelo do profeta Muhammad e as regras e orientações

presentes no Alcorão e na Sunna110. O próprio termo salafismo deriva “salaf

107 Como exemplos podemos mencionar, a luta contra a ocupação soviética no Afeganistão e as

frentes abertas tanto pela Al-Qaeda como pelo autodenominado Estado Islâmico

108 Bunzel, Cole. From Paper State to Caliphate: The Ideology of the Islamic State. Pag.13. 109 Idem, pag.10.

110 Wiktorowicz, Quintan. Anatomy of the Salafi Movement. Studies in Conflict & Terrorism 29, no. 3 ,

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