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2.Teorias sobre o Jogo

2.2. O jogo reflecte o desenvolvimento da criança

2.2.1. O jogo como reflexo da compreensão social

O jogo pode ser altamente social. Pode envolver o convite a outros para jogar, mantê-los informados sobre os seus papéis e transformações de objectos, coordenação de esquemas, observando-se o progresso gradual da dramatização para padrões de conversação mais elaborados. Mais do que

skills de conversação, estes padrões de jogo social avançam com a idade, a

experiência e situação.

Parten (1932), baseado nos aspectos sociais do jogo, tem em conta seis categorias de jogo.

A actividade lúdica no Contexto Família

Parten

Jogo individual

- Comportamento não ocupado - a criança não brinca mas pode olhar outros momentaneamente ou brincar com o seu próprio corpo. - Jogo solitário - a criança brinca com materiais diferentes das outras que estão próximas

- Comportamento espectador - observa os outros, mas não participa

Jogo de grupo

- jogo paralelo - a criança de forma independente, brinca em

paralelo com materiais iguais: não participa do jogo das outras

- Jogo associativo - a criança brinca com outras, sem organização nem distribuição de papéis, actuam nos seus próprios interesses. - jogo cooperativo - jogo num grupo organizado, para um objectivo comum.

Erikson (1959), citado por Lebovici e Diatkine (1988:30), no que refere ao jogo da criança, evidencia a existência de três fases na evolução do jogo.

Primeiro, a nível da Auto-esfera

a criança desenvolve jogos em que explora sensações exteroceptivas e interoceptivas "relacionadas com o seu corpo ou com as pessoas que se ocupam dos seus cuidados pessoais" (op. Cit.).

Depois, a nível da Micro-esfera

a criança passa para o desenvolvimento de pequenos jogos representativos Por último, a nível da Macrc-esfera

a criança realiza o desenvolvimento de jogos sociais. Efectivam-se relações com os adultos, nas quais se dá uma abertura ao meio envolvente. Vai no sentido da sua socialização, levando a uma autonomia progressiva.

O jogo da criança visto como reflexo da sua compreensão social, assim, na criança pequena, o jogo é tipicamente auto-direccionado, fingem pentear o próprio cabelo, adormecem mimando os seus próprios rituais de

sono. Com o desenvolvimento, é possível observar a abertura do jogo à total participação dos outros.

No desempenho de papéis, primeiro as crianças adoptam papéis recíprocos (alimentar e comer, pais e filhos), representam a qualidade "dar e receber" das interacções (professor, bombeiro, super-homem), que dependem da aprendizagem das regras sobre papeis.

As crianças adquirem a compreensão das regras sociais, quando realizam actividades de jogo. Com o desenvolvimento psicológico e da linguagem, a criança usa figuras que não só actuam como também têm percepção, emoções, planos e pensamentos.

Esta componente de socialização torna-se essencial no uso terapêutico do jogo. Quando as crianças constróem figuras num contexto humano, reflectem as interacções sociais e ao serem observadas, é possível perspectivar a visão da criança sobre o seu universo social.

O jogo, tem-se mostrado como uma técnica projectiva muito significativa. A maneira como a criança selecciona e combina temas, acontecimentos e materiais, revela muito do seu significado para essa criança.

As crianças da mesma idade, sexo, nível de desenvolvimento cognitivo e experiências podem diferir significativamente no que tem sido chamado "predisposição imaginária" (Singer, 1973). Algumas, comprometem- se mais frequentemente e de uma forma mais flexível ao "faz de conta". Estas diferenças, transparecem em testes projectivos, notações de educadores, observadores de jogo espontâneo, etc. O facto de uma criança demonstrar menor capacidade de fantasiar que outra, não pode ser tomado como indicador de que o jogo da 2a criança, a nível simbólico ou a nível

cognitivo, é menos avançado.

A actividade lúdica no Contexto Família

Os comportamentos do jogo, tornam-se num dos mais fortes e precoces testes reveladores de orientação básica.

São numerosos os autores, que ao longo dos tempos que têm manifestado um grande interesse sobre o jogo em geral e em aspectos do jogo em particular. Nos anos recentes, autores como Baily e Wollery (1989; 1992), McConkey, Leitão (1994), Jobling (1996) entre outros, debruçaram-se sobre o jogo e com especial relevância em populações com deficiência, verificando-se igualmente o seu valor a nível de socialização.

Através do jogo, a criança pode incorporar com mais facilidade os modelos da cultura em que se integra, ou seja pode socializar-se.

Poderemos falar de acordo com Erikson, a nível da Macro-esfera. através do jogo das crianças a este nível, ensaiam-se novos formas de lidar com as situações, há o desenvolvimento de jogos sociais. As relações com os adultos efectivam-se e, nas quais se dá uma abertura ao meio envolvente, levando a uma autonomia progressiva. Este desenvolvimento vai no sentido da socialização da criança.

A socialização, é um processo que poderá ser muito facilitado pela oportunidade dada à criança para experienciar situações de jogo e passando simultaneamente pela escolha do material adequado.

"A integração da criança no mundo social é conduzida por duas questões dominantes, para estabelecer relacionamentos pessoais recompensadores e para aprender capacidades diárias essenciais sobre variadas formas de jogo." (Sheridan, 1977:11 );

O jogo tem inúmeros atributos, com o jogo e através dele, está o potencial desenvolvimento da criança. Estão envolvidas características cognitivas, características sociais, características de motivação para a mestria, desenvolvimento da linguagem, características de conhecimento

levando a uma crescente compreensão do conhecimento de si própria e dos outros.

Das tipologias enunciadas, cognitivas e sociais, há por outro lado, Esposito & Foorlane (s / d), referindo definições operacionais de categorias de jogo, que adaptaram a partir de "Assessing The social participacion and cognitive play abilities of hearing- impared preschoolers" por D. j . Higginbotham, B. M. Baker, e R.D. Neill,(1980).

Assim, segundo estes autores, existem três grandes categorias operacionais de jogo - o jogo social o jogo cognitivo e o não jogo.

De acordo com estas categorias, elas são vistas ainda como sendo sub-caracterizadas e que se traduzem nas seguintes definições operacionais:

- Jogo social ( Solitário; Paralelo; Associativo; Cooperativo; )

Solitário- A criança brinca sozinha e independentemente com

materiais diferentes daqueles usados por crianças que brincam em proximidade. Neste tipo de jogo, não ocorre contacto social.

Paralelo - A criança joga independentemente com materiais similares

aqueles usados por crianças que brincam em proximidade. O jogo é ao lado de, em vez de com, outras crianças. O contacto social é mínimo.

Associativo- A criança brinca com outras crianças, sem subordinar o

seu interesse individual aos interesses do grupo. O contacto social predomina, mas sem cooperação, diferenciação de funções, ou alcançar objectivos.

Cooperativo- A criança brinca com outras crianças em actividades

organizadas para atingir um objectivo comum, consente o jogo dramático interactivo, ou permite brincadeiras com jogos formais (games). O contacto social predomina, com o funcionamento da criança como um membro do grupo.

A actividade lúdica no Contexto Família

Funcionai- O jogo da criança consiste em simples actividades nas

quais ela manipula objectos, repete as suas acções ou imita acções de outros. 0 jogo é sem finalidade, exploratório, e falta de conteúdo simbólico.

Constructivo- A criança propositadamente manipula materiais no

sentido de construir estruturas e produzir criações novas ou convencionais. O jogo é deste modo, temático e focado no objecto.

Dramático- A criança prepositadamente adapta materiais de maneira

que transcende as suas funções literais. O jogo é sobretudo simbólico e organizado. São criadas situações imaginárias.

-Não jogo- (Comportamento: Desocupado, e ou Observador, ou Envolvido)

A criança liga-se a:

1- Comportamento desocupado, no qual observa actividades à sua volta ou não faz nada.

2- Comportamento observador, no qual observa o jogo de outros, ou 3- Comportamento literal, no qual é envolvido em actividades

nonplaying que são literalmente o que elas aparentam ser

(aIimentação, toileting...).

Como diz Fonseca (1981:317), o jogo não deixa de ser um agente de crescimento orgânico e integrativo. "A maturação orgânica da criança surge- nos como uma recreação lúdica de todos os órgãos, que na sua totalidade estruturada, definem o ser humano. O cérebro humano não adquire à nascença a sua maturação definitiva, o corpo, o movimento, o jogo a linguagem encarregar-se-ão de o estruturar dialecticamente, inacabadamente. Os nervos mielenizam-se e as conexões e associações nervosas multiplicam-se, originando novas correlações psicomotoras. Dentro deste contexto, o jogo assume efectivamente uma importância capital no desenvolvimento integral da criança " Fonseca (op. Cit.)

Burns & Brainerd, 1979; Connolly & Doyle, 1984; Curry & Arnaud, 1984; Smilansky & Shefatya, 1990) mostraram a importância do jogo a nível do desenvolvimento sócio- emocional.

Weber, E. (1969, citado por Fonseca, 1981:315), refere que o jogo para além da secreção funcional que comporta, reflecte a indução recíproca

do indivíduo e do meio. Despertando as nossas impressões sensoriais,

visuais, tácteis e quinestésicas, o jogo promove (o sublinhado é nosso) a transformação da acção em representação. O horizonte imaginativo espalha- se na actividade lúdica, vai dotando os aspectos e as pessoas de sistemas de referência, qualificação, utilidade e significação que ulteriormente serão mobilizados pela complexidade crescente das condutas humanas. " Weber, E. (1969).

A actividade lúdica no Contexto Família

CAPÍTULO II -

A Criança com Síndrome de Down e a Família