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TEMÁTICAS ACIONADAS NAS ANÁLISES COM ATORES

3 A PERCEPÇÃO DOS RISCOS E AS MUDANÇAS DO CLIMA

3.4 O JORNALISMO E A AMPLIFICAÇÃO SOCIAL DO RISCO

No âmbito desta pesquisa, que se centra no circuito da notícia, a escolha pela ênfase nos estudos de amplificação social do risco54 parece uma escolha natural. Essa óptica aborda o risco como a forma com que as pessoas o pensam tendo em vista suas relações e suas concepções de mundo, não havendo, assim, "risco real" (verdadeiro ou absoluto) ou "risco distorcido". Há muitos autores, como já foi apresentado, que destacam o papel fundamental dos meios de comunicação como importantes atores na construção das percepções dos públicos, e os objetivos desta pesquisa se coadunam com esse ponto de vista.

Priest (2015) lembra que esta abordagem não apresenta uma explicação totalmente desenvolvida sobre como alguns riscos são amplificados enquanto outros são atenuados, sendo vista não como uma teoria, mas como um quadro conceitual. Acrescenta-se ainda que tal quadro parte de uma metáfora (do processo de amplificação) utilizada em um modelo comunicacional já superado, vinculado à Teoria Matemática da Comunicação desenvolvida por Shannon e Weaver após a II Guerra Mundial, que estava interessada na precisão e eficácia do fluxo de informação. Desde então, os estudos comunicacionais avançaram e compreenderam que não há um modelo linear de produção e recepção da informação, sendo preciso considerar aspectos culturais, sociais e políticos de interpretação a partir das especificidades de cada processo.

Todavia, cabe dizer, a forma com que Kasperson et al. (1988) utilizaram esta metáfora já extrapolava a ideia inicial de Shannon e Weaver, ao relacionar diferentes aspectos (individuais e sociais) à circulação de informações. Apesar de alguns pesquisadores criticarem o uso da metáfora de engenharia eletrônica de sinais e respostas para tratar das interações complexas entre sujeitos e mídia nos eventos de risco, esta é a abordagem mais frequentemente utilizada para tratar do papel da mídia no contexto dos riscos. De acordo com os próprios autores, o quadro é bastante amplo – não permitindo prever quando os mecanismos irão atenuar ou amplificar o risco –, porém auxilia na interpretação de casos em que há tratamento dos riscos na mídia e de diversos momentos e fontes de influência relacionadas à construção social do risco (LIMA, 2005a).

Historicamente, esta foi a primeira tentativa articulada de congregar os fatores sociais e a percepção de risco, reunindo psicólogos e pesquisadores de outras áreas (geógrafos, engenheiros e gestores ambientais). Esse grupo lançou um quadro conceitual que integrava a visão técnica

54 A expressão foi apresentada pela primeira vez por Kasperson et al. (1988), a partir da metáfora utilizada nos estudos de comunicação. Mesmo reconhecendo as limitações dessa metáfora, os autores apontam que este modelo é ainda muito utilizado na literatura da comunicação de massa.

e a percepção dos leigos, levando em conta a dinâmica social. O modelo foi bastante importante no âmbito dos estudos de risco, pois permitiu fazer a ponte entre o contexto social e a percepção de riscos (LIMA, 2005a). Entre seus objetivos estavam entender como certos acontecimentos atuavam nos processos sociais, psicológicos e culturais de maneira a atenuar ou acentuar a percepção de risco, e descrever as consequências que podem ser a eles associados em diferentes níveis (individual, social, político, econômico, ambiental, etc.). A figura abaixo representa o modelo:

FIGURA 4 - REPRESENTAÇÃO SIMPLIFICADA DO CONCEITO DE AMPLIFICAÇÃO SOCIAL DO RISCO

FONTE: KASPERSON et al. (1988), adaptado e traduzido livremente pela autora.

O risco, nessa proposta, é visto tanto como uma ameaça objetiva quanto como uma construção subjetiva. Renn et al. (1992) explicam que essa opção evita o determinismo tecnológico por um lado e o relativismo por outro.

Esse modelo é baseado na tese de que eventos perigosos interagem com processos sociais, institucionais, culturais e psicológicos de modo a aumentar ou diminuir as percepções individuais ou coletivas de risco e moldar seus comportamentos. A expressão evento perigoso (hazard event, no original) refere-se a acidentes ou eventos extremos, sendo manifestação do risco.

Essas percepções e comportamentos geram consequências sociais e/ou econômicas que vão além de dano direto para os sujeitos ou ambiente, incluindo impactos indiretos, que se propagam como ondas, tais como custos de seguro, formulação de novas leis e perda de confiança nas instituições (KASPERSON et al., 1988; RENN et al., 1992). Os chamados efeitos secundários

provocam demandas por soluções do poder público ou das instituições responsáveis (no caso de amplificação) e podem minimizar determinados aspectos de proteção (no caso de atenuação).

Tanto a atenuação quanto a amplificação social dos riscos geram disjunções graves entre peritos e leigos, acarretando respostas divergentes e dificultando a análise convencional do risco (KASPERSON et. al, 1988). A intensidade com que isso ocorre depende do contexto sociocultural, e a mensagem vai levando consigo, além do conteúdo, valores, símbolos e inferências. Efeitos posteriores podem ser acarretados em razão desse movimento de ondas em espaços geográficos mais distantes e também em instâncias políticas e administrativas superiores.

Geralmente as informações que as pessoas recebem já transitaram por algumas "estações de amplificação", sejam eles os porta-vozes das empresas e governos, especialistas e/ou jornalistas (podem ser indivíduos, grupos ou instituições). A decodificação/interpretação por parte dos sujeitos será amplificada ou atenuada de acordo com a consistência da mensagem e a relação que ela tem com suas crenças e valores. Porém, este processo extrapola o sujeito, podendo interferir em unidades sociais maiores, influenciando grupos e/ou organizações.

De acordo com seu papel nos coletivos, e das próprias normas e interesses inerentes a eles, outras formas e alcances de propagação poderão ocorrer (por exemplo, se cientistas, que detêm reconhecimento social, participam deste processo, terão mais chance de influenciar outros grupos que, por exemplo, um grupo de empresários não conhecidos).

Este é um modelo que explicita como diversos aspectos podem influenciar aquilo que as pessoas percebem. Um aspecto importante é que os impactos diretos não precisam ser grandes para alastrar impactos indiretos. Para Kasperson et al. (1988), há dois principais mecanismos nesse processo: os de transferência da informação sobre risco e os de resposta da sociedade.

Os mecanismos de informação da amplificação social envolvem experiências diretas e indiretas. Aqueles que tiveram experiências pessoais podem tanto amplificar quanto atenuar os riscos, de acordo com suas condições socioeconômicas e culturais. Não obstante, muitos riscos não são experienciados diretamente, sendo conhecidos por outras pessoas ou pela mídia.

Neste último caso, há atributos da informação que contribuem para essa amplificação, como o volume, o grau com que a informação é contestada (se os grupos ou indivíduos acreditam naqueles que questionam as informações), a dramatização e as conotações simbólicas acionadas.

(KASPERSON et al., 1988). Por exemplo, falar recorrentemente de um dado risco aumenta a percepção de sua gravidade; já a dramatização pode acentuar o potencial catastrófico do desastre, e o conflito entre cientistas pode diminuir a confiança na ciência e, consequentemente, em instituições que se respaldam nela.

Já os mecanismos de resposta da amplificação social envolvem os contextos sociais, institucionais e culturais da recepção. Eles podem ser desencadeados por quatro vias: por meio de processos de simplificação do risco (tendo em vista que ele é complexo, é preciso reduzi-lo para tomar decisões a seu respeito), por meio dos relacionamentos com grupos sociais (a influência das respostas do grupo pode afetar a resposta do sujeito), por meio do valor do sinal (se os sinais do risco forem considerados graves, a percepção do risco será maior) e por meio da estigmatização (o imaginário negativo atrelado a um grupo ou local pode expandir o grau de percepção do risco). Além desses, o retorno positivo para o próprio risco físico pode ter esse efeito, quando, por exemplo, ocorre um acidente e surgem protestos ou bloqueios de rotas que podem aumentar as consequências negativas da ameaça (KASPERSON et al., 1988).

Ainda que a amplificação social do risco tenha forte ligação com os meios de comunicação, podendo interferir por meio da recorrência de assuntos, da dramatização, do silenciamento ou da exposição enfática de controvérsias, cada indivíduo, enquanto receptor, também amplifica determinadas informações a partir de suas vivências. Lima (2005a, p.231) esclarece:

Cada receptor individual tem também a sua própria estação de amplificação.

Que inclui atenção selectiva, descodificação do sinal e processamento da informação de risco de acordo com as heurísticas disponíveis, avaliação da informação e nomeadamente da sua importância, validação e interpretação da situação com outros (individuais ou coletivos).

É essa interpretação do acontecimento, que muitas vezes já vem "moldado" pelo enquadramento jornalístico, que irá gerar as respostas nos indivíduos (de ignorar, tolerar, aceitar ou agir contra o risco). Kasperson, Jhaveri e Kasperson (2001) consideram o quadro da amplificação social do risco como uma forma de compreender o estigma55 tecnológico e suas implicações sociais, e afirmam que a mídia, ao interpretar os acontecimentos, utiliza imagens, metáforas e recortes que certamente afetam a visão sobre riscos que as pessoas constroem, embora não se saiba exatamente de que maneira. Esta perspectiva tornou-se uma linha de pesquisa da amplificação social do risco, associando os locais onde são construídas instalações perigosas (como centrais nucleares, aterros de resíduos ou incineradores) às consequências negativas do estigma. Ainda que haja diferenças entre as formas com que alguns autores observam esta estigmatização, a resposta comum dos afetados leva sempre a referência do outro. "Isso não me afeta tanto" – afeta mais o outro; "a culpa ou responsabilidade é do outro" – e não minha.

Alguns autores, como Beck (2010), já percebem que os locais escolhidos para tais empreendimentos já estão estigmatizados devido à pobreza e baixa qualidade ambiental; enquanto outros acreditam que o processo se dá após a implementação dos equipamentos que acarretam ameaças.

Hulme (2009) pontua quatro tipos diferentes de amplificadores do risco que não atuam de forma isolada, mas podem esclarecer aspectos desse processo. O primeiro exemplo é o amplificador por meio de linguagem e metáfora de um sujeito com reputação ou renome.

Quando uma personalidade de importância pública trata do assunto com uma linguagem atrelada ao desastre ou terror, a percepção de risco tende a ser maior. A associação com imagens, símbolos ou repertório linguístico atrelado a alguém já conhecido (e confiável), tende a dar mais atenção aos riscos climáticos.

O segundo exemplifica a situação em um quadro institucional. Se uma conferência científica internacional tiver como tema central o assunto, as discussões que se desenvolverão terão repercussão, em ondas, para diversas instâncias vinculadas aos universos dos participantes.

O tema será amplificado para além das esferas diretamente envolvidas com esse evento.

O terceiro é a mídia, que tem um papel poderoso na amplificação e atenuação dos riscos, seja por meio da recorrência das notícias, seja pelos enquadramentos que explora. É este amplificador de risco o centro das atenções desta pesquisa, ainda que não se desconsidere a influência dos demais.

O quarto exemplo, menos específico, mostra como processos culturais mais amplos podem formatar percepções de risco, tratando do caso de um sociólogo que escreve constantemente sobre como nosso mundo está mais perigoso que no passado e como as pessoas tendem a fazer relações com problemas mais específicos, como as MCs, por exemplo.

Por meio desses exemplos, Hulme (2009) oferece alguns elementos que interagem por escalas, atores e instituições, amplificando a ideia de riscos climáticos. Destaca-se que alguns desses processos de atenuação ou amplificação são mais transparentes e evidentes. As experiências e valores de cada um farão com que se percebam de forma mais ou menos enfática dados riscos e não outros.

Di Giulio (2010) declara que este quadro conceitual tem como principais focos a percepção e a comunicação de risco, assumindo-se que a percepção de risco é, sobretudo, construída pela forma como o risco é comunicado através da mídia e de outras fontes. Para a pesquisadora, essa abordagem "vai além das categorias relativamente estáticas ou das teorias

55 Segundo a obra Risk, media and stigma, o conceito de estigma se refere a algo que deve ser evitado não só porque é considerado perigoso, mas porque tem o potencial de subverter ou destruir uma condição positiva.

psicométrica e cultural, e enfatiza a dinâmica essencial e o caráter simbólico das compreensões sobre risco" (DI GIULIO, 2010, p.36).

De outro modo, as mudanças causadas pelas novas tecnologias da comunicação e informação tornaram o ritmo da difusão dos fatos ainda mais acentuado e a presença dos meios de comunicação mais frequente no cotidiano das pessoas. A partir disso, fenômenos podem ser divulgados em tempo real, sendo capazes de ampliar a percepção de que o planeta sofre, cada vez mais, mudanças maiores e/ou em intervalos de tempo menores. Mendonça, Deschamps e Lima (2013, p.156) consideram que:

Esta aparente intensificação de eventos extremos, em geral associados pelos meios de comunicação de massa às mudanças climáticas globais, estabelece um imaginário comum na sociedade, que se percebe cada vez mais frágil e vulnerável a todos os tipos de riscos socioambientais.

A sensação ou interpretação também é construída simbolicamente a partir de um discurso global (mediado em grande parte pelo jornalismo), possível em função do grande alcance dos meios de comunicação. Entretanto, essa grande quantidade de informação que circula na sociedade contemporânea, com acesso cada vez mais rápido e barato, também revela ser paradoxal, pois as pessoas parecem estar mais desinformadas (SORHUET, 2013). Com a enxurrada de notícias disponíveis, especialmente na internet, lê-se um pouco de cada (às vezes, somente a manchete) e nem sempre se distingue uma informação de qualidade e com fundamentos de outra que não tem. Em razão desse "oceano" de informações, Sorhuet (2013) sublinha que a função do jornalista torna-se ainda mais importante, já que a população tende a confiar na sua capacidade profissional de filtrar, hierarquizar e comunicar de forma acessível os principais fatos de um dado período.

Contudo, Wahlberg e Sjoberg (2000) salientam que a mídia é apenas um fator, dentre vários, que está intrincado nesse processo. Embora seu papel na sociedade contemporânea permita que se constitua uma percepção de risco geral e esta seja espalhada em diferentes âmbitos, os autores assinalam que as informações midiáticas atingem pouco a percepção do risco em nível pessoal, que é considerado um aspecto muito mais forte para o reconhecimento do risco.

McCombs (2009) ratifica que a experiência pessoal dos assuntos públicos, como a inflação, muitas vezes dispensa a informação da mídia, pois o alerta para o problema ocorre na prática.

Para o autor, a necessidade de orientação do sujeito interfere na atenção que ele dará para a agenda da mídia. Em outras palavras, se a experiência pessoal não trouxer elementos que possam ajudá-lo a formar uma opinião, ele será mais dependente das informações da mídia.

Priest (2015) reforça a relação consistente entre esta abordagem e a teoria (ou hipótese) da agenda setting. Mesmo que o quadro conceitual tenda a ver o processo midiático como algo mais linear e estático do que realmente já se sabe, este modelo proporciona que se olhe para diferentes atores e para o funcionamento da imprensa em relação a outros sujeitos e instituições.

Sob outra óptica, Olausson (2011) demarca que, apesar de a mídia em geral e o jornalismo em particular serem frequentemente citados como uma forma de enfrentar as MCs, contribuindo para a compreensão dos cidadãos sobre os desafios do clima, há poucos estudos na área de recepção, sendo a grande maioria dos estudos sobre jornalismo e mudanças climáticas de caráter midiocêntrico, centrado nos aspectos produtivos do circuito da notícia. Diante disso, é preciso que não apenas se relativize o peso das instituições midiáticas de acordo com seu papel no contexto social e individual de cada cidadão, mas que também se façam estudos empíricos buscando rastrear o que os sujeitos estão filtrando e interpretando a partir da mediação feita pelos meios de comunicação.

O que os públicos realmente absorvem deste processo é algo de difícil mensuração, pois eles não estão em uma redoma, encapsulados ou com acesso somente a um determinado veículo de comunicação. Os diversos fluxos, próprios das práticas sociais, interferem não somente naquilo que os sujeitos lerão, mas com quais propósitos o farão e como, de fato, interpretarão.

Para compreender melhor o papel da recepção da informação, o tópico a seguir abordará aspectos do mundo do leitor.